Um comentário breve, breve, muitíssimo breve (ou mais do que isso) ao post em baixo de António Paço

Há um facto que não cabe no post de António Paço sobre os “amanhãs que cantam” – post que se limita ao “vivo bem”, “não vivo bem”, prefiro A a B, B a A, C a B etc., ele prefere C a D, etc., segundo padrões do ocidente capitalista, segundo critérios que não têm interesse numa situação vivida (na intemporalidade sem medida do presente, como diz Sto. Agostinho, que é quando temos de decidir, e não 50 anos depois), tudo no post sobre o “fracasso” dos “amanhãs que cantam” vem revestido num “impressionismo” de pouca utilidade. Precisamente porque não são os amanhãs que cantam, é, desde logo, o presente vivido no contexto do pensamento-acção sentido na hipótese (real) desses “amanhãs”.
Mas a arte ajuda e muito (quem não a conhece A FUNDO, paciência).
Nos anos 10, passando por Meyerhold, Gabo, Pevsner, Lissitsky, Popova, Rodchenko ou Vertov (não, não basta ter ouvido os nomes, conhecer uma obra aqui outra acolá, não basta), basta olhar para algumas das suas imagens (o crítico americano Alfred Barr sabe do que eu estou a falar), para a forma como elas eram participadas e vividas (a Susan Sontag tem um texto excelente onde mostra a diferença entre Vertov e Riefensthal, e essa diferença alinha por aquilo que estou ou vou dizer) para se perceber o que não cabe no post de António Paço: é o fulgor de que colectivamente se está a construir um mundo. E mais nada.

Esse fulgor não tem nem preço nem explicação nem duração. Não tem post possível.
Chega, por agora.

Um Post Scriptum: esse fulgor de um colectivo com o futuro nas mãos, no momento em que é captado e vivido, não tem descrição (sendo aí a arte insuficiente). É que eu, agora, bem sentado no meu sofá, também posso dizer que, por exemplo, as lições de Corbusier no Niemeyer de Brasília falharam, ou outras coisas retrospectivas do género. Pois posso, e depois? Durmo a sesta?
Depois, ora, depois é fácil escrever posts destes. É um texto, digamos, fora da vida. A vida, a construção da vida, é outra coisa.

Abdico de imagens e sons. Trata-se de um post – este meu – sem ilustração (naturalmente). Sem imagens nem estatísticas (sei lá quem está “satisfeito” ou não, quem esteve ou não: 20% ?, 60 %, todos?, nenhuns?, ora bolas). Não é preciso dizer muito mais, porque o que morreu foi o “futuro”, e isso não se celebra. Reinventa-se (quem o souber fazer).

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47 respostas a Um comentário breve, breve, muitíssimo breve (ou mais do que isso) ao post em baixo de António Paço

  1. Karl diz:

    Portanto, os excelentes artistas das vanguardas soviéticas viveram tempos exaltantes e em que sentiam ter o futuro nas mãos. Que se lixem os outros milhões, portanto, desde que grande arte se faça.

    • Carlos Vidal diz:

      A arte é uma forma de entretecimento com o tempo, o seu e o futuro. O que significa que todos tinham o futuro nas mãos. E agora aos bilionários pertence. (Gostava de ter aqui um post sobre isto, pá.)

  2. am diz:

    breve comentário:
    estou farto de ler que Brasília “falhou”
    continuar a repetir que Brasília “falhou” é continuar a alimentar um discurso seródio de quem pensa que o “sucesso” (ou o “fracasso”) de uma cidade se confirma (ou não) ao fim de 50 anos…
    continuar a repetir que Brasília “falhou” é continuar a alimentar um discurso revanchista, anti-moderno, banal, na sua crítica requentada ao Le Corbusier “urbanista” e em particular à sua (de Le Corbusier) influência no “mundo novo” brasileiro
    proponho (passando à acção): que nunca mais se volte a repetir que Brasília “falhou” sem explicar, muito bem explicadinho, onde e como é que Brasília falhou…

    • Carlos Vidal diz:

      Tal como V. não gosta de ler, sem ser muito bem explicadinho, que Brasília falhou, igualmente eu não gosto de ler, escrito de qualquer maneira (mais ou menos à empregado do talho), que a URSS foi um flop total.
      Não percebeu o que leu?
      É isso mesmo: Brasília não falhou. O problema é outro.

      • Carlos Vidal diz:

        Já percebeu, não percebeu, am??

      • am diz:

        eu percebi a posta
        o CV é que não percebeu o comentário
        o “problema”, seja Brasília seja a URSS, é o mesmo
        o “problema” é que estes atestados de óbito (artisticos, políticos) deixam sempre alguma coisa (chamei-lhe “explicações” mas pode ser outra coisa qualquer) a desejar
        “they’re queuing up to dance on socialism’s grave
        this funeral is for the wrong corpse”
        percebeu agora?

  3. Graca Sampaio diz:

    … o que morreu foi o “futuro”, e isso não se celebra! Gosto!
    Infelizmente é isso mesmo! Que chatice! E estão todos tão contentes… Até agonia!

    • Carlos Vidal diz:

      Acho que o centenário de Outubro vai surpreender muita gente.
      E chatear muita gente.
      (A propósito, para quem sabe e se interessa pela coisa, vai ser ano da quinquenal – boa palavra!! – “Documenta” de Kassel: já estou à espera para ver; é um lugar excelente para pensar a história; o que é a “Documenta”? O que não é a “Documenta”? Talvez o Google ajude, não me refiro a si Graça Sampaio. Refiro-me a quem não conhece a “Documenta”.)

  4. Pedro diz:

    Carlos Vidal, receio que essa sua linguagem críptica e turtuosa, fruto dos seus desvios esquerdistas pequeno-burgueses decadentes, dê mau resultado. Ainda vai parar a uma fábrica de tractores em Volvogrado. Saudações.

    • Carlos Vidal diz:

      Linguagem críptica?

    • Pedro Pousada diz:

      É Volgogrado nas margens do Volga a não ser que a Volvo também já tenha cidades com o seu nome…quem sabe um dia Sonaegrado ou EDPgrado, ou Milleniumgrado ou Besgrado (esta não soa mal)…

      • Pedro diz:

        Está bem, mas eu referia-me a Volvogrado. E volvos é na Suécia. Lá em Volvogrado fazem tractores.

        • José diz:

          O que o Pedro Pousada estava a querer explicar-lhe é que não se conhece qualquer cidade chamada VolVOgrad.
          Conhece-se, sim, uma cidade chamada Stalingrad até 1961 e então apelidada de VolGOgrad, ou cidade do Volga.
          Aí, entre outras coisas, fabrica-se, efectivamente tractores.
          Melhores leituras.

          • Pedro diz:

            “não se conhece” não é bem assim… Volvogrado é uma cidade siberiana, só conhecida de alguns no ocidente, onde se produzem tractores de ponta.

          • José diz:

            Hmmm… estou a ver.
            E será que nos pode elucidar um pouco mais sobre essa Volvograd siberiana, pouco conhecida no ocidente e local de fabrico de tractores, que não aparece no mapa ou no Google, mas que o Pedro tão bem conhece?

          • Carlos Vidal diz:

            Eis um tema interessantíssimo para dilucidar a qualquer hora da madrugada.

          • Pedro diz:

            Não posso revelar o local exacto, tenham paciência. Mas posso meter-vos uma cunha para um tractor.

          • José diz:

            Hmmm… e como se chamam esses tractores ou a sua fábrica, que ficam em Volvograd que ninguém sabe onde fica?

            E porque não diz logo que se enganou, e que era de Volgograd que queria falar, como o Pedro Pousada lhe indicou?

            Porque não fala do que sabe e reconhece quando se engana?

          • Pedro diz:

            José, isto é muito engraçado. Obviamente, troquei o g pelo v. coisa que não vale um caracol. Mas à conta disti, só com um bocadinho do meu esforço, já se formou um comité de busca no google sobre a localização de volvogrado e já se fizeram concerteza telefonemas para a academia de geografia de Moscovo e incursões aos ficheiros secretos do kgb, e isto está a tornar-se num sktech dos monthy python. E ainda se perguntam porque falhou a urss.

        • Pedro Pousada diz:

          Agora até tem um metro moderno iniciado nos tempos da terrível URSS.

        • José diz:

          O que não vale um caracol, de facto, é qualquer discussão com alguém que não é intelectualmente honesto.
          O que não vale um caracol é alguém que, em desespero de causa, apanhado num erro, avança para a mentira.
          O que não vale um caracol é qualquer discussão consigo.

          • Pedro diz:

            José, “desespero”?! “mentira”?! Isto de facto é sufocante. Ou talvez eu não esteja mesmo preparado para discutir a tão alto nível e de forma tão séria questões tão prementes.

  5. Helena Borges diz:

    E esse fulgor – nada críptico – também não tem comentário possível.

    (Chi.)

  6. é que a vida para ter algum fulgor tem que ser vivida com criatividade, a inquietude infinita,… mas eles estão tão contentinhos!…

    • Carlos Vidal diz:

      Há os contentinhos e os limpinhos, sem mácula, idealizando, idealizando.

      Amigo Adão, é como um Jackson Pollock a lavar as mãos com diluente celuloso de 10 em 10 minutos. Isso é que era vida (e obra).

  7. Pedro Lérias diz:

    Esse ‘Fulgor’ não existe, é um conceito intelectual de quem não suja as mãos. É algo que se pode depreender quando se lê o impacto dos Ballets Russes em Paris ou algo do género. Mas para quem está lá, isso não existe.
    Infelizmente, já muita gente morreu para que algum louco tentasse ‘viver’ esse fulgor.
    A vida é bem mais chata e aborrecida. As verdadeiras revoluções, como a do milho, são bem mais corriqueiras, sem fulgor absolutamente nenhum.
    Acho eu, claro.

    • Carlos Vidal diz:

      Não está mal visto, mas errado: quem não sujou as mãos?
      Eu?, Trostky?, Estaline?
      Que sei eu, que fazer?

      Entretanto, respondendo, eu não estava tanto a falar dos Ballets Russes em Paris, falava mais de Vertov (relido por Sontag é delicioso!) em Moscovo.

      • Alice Castro diz:

        É um texto luminoso, escrito com palavras, sobre um estar/ um fazer que é de facto o da alegria da construção de um futuro, que não acaba àmanhã. Obrigada.

      • Pedro Lérias diz:

        Pois, só que eu não faço a mínima ideia quem é o Vertov portanto uso um exemplo que consegue excitar-me a mim talvez tanto como esse Vertov o excita a si. E mesmo assim sei que não é real aquilo que sinto, ou melhor que não reflecte a realidade. Eu sou novo neste blog e o que me fascina é o quão os textos que leio se assemelham a religião. Há os crentes e os mais ou menos, os heréticos, os fervorosos, os profetas, o Sanhedrin com o seus Nasi (aqui claramente mais que um) e Av Beit Din, e depois há imensa reconciliação da Biblia em que se reconciliam passagens contraditórias da Bíblia com uma terceira passagem que tudo explica.
        O processo de fulgor que descreve, como se denota no comentário abaixo, faz lembrar a Teresa de Ávila a elevar-se do solo em meditação, a alcançar o extâse meditativo. Ou uma descrição de como alguém que acredita nisso poderá imaginar que será a sensação de alcançar aquele estado.
        Enfim, ando fascinado com isto. E assustado também porque nada produz violência como o fervor religioso, seja ele católico seja comunista.
        E por aqui gente bem violenta.
        Do Carlos Vidal ainda não li quase nada. Este seu texto é bonito, mas pelo puro prazer da palavra. Só não acho que tenha significado real. Mas é óbvio que você é bem mais erudito do que eu.
        “É um texto luminoso (…)”. Dá-me cá um arrepio…

  8. Justiniano diz:

    Caríssimo Vidal, mais um brilhantíssimo texto!! De uma clareza inequívoca e de uma significação pesada e ostensivamente real (fulguroso, expressivo e de grande alento)!!
    Sem dúvida uma belíssima resenha justificadora daquela hipótese emancipadora frustrada!! Um grande alento (contra os textos fora da vida e o pequeno motejar, pequeno no sentido de irreflectido—texto fora da vida, gostei especialmente desta expressão)!! Mas muito para além do sonho soviético, é como o leio!! Os fracassos e as quedas, sim, sempre!!Inevitavelmente, sempre!! A estultícia dos justos e as suas revelações!! E como aqui nos tráz o grande Doutor, leio um paralelo, na virtude da queda, na cidade de Deus!!!
    Mas a sedução das grandes construções do ocidente mercantil é impressivamente inelutável e inoponível!! Nada, na industria humana, mercantilizável, se lhe iguala!! Talvez um sublime e diabólico misticismo lhe possa oferecer resistencia, mas o martírio é longo e penoso, como bem sabe o meu caro Vidal!!!

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