Um País à Esquerda

 

Vi com alguma surpresa os dirigentes do BE, no seu anunciado amplo debate, afirmarem em uníssono que o país virou à direita e por isso o BE foi penalizado. Ainda não vi o balanço do PCP que, como todos sabem, estagnou a votação, apesar do PS ter levado a cabo a destruição do Estado Social e dos salários como nunca antes o tinha feito.

Ellen Wood, uma insuspeita democrata radical (portanto uma mulher que não sendo marxista é intelectualmente muitíssimo séria e politicamente muito consequente na defesa da democracia) tem escrito muito sobre o hiato entre a rua e o Parlamento. Lembrei-me disto a propósito desta «viragem à direita do país», que o BE vê.

Houve uma greve geral com 3 milhões de pessoas, uma manifestação fora da organização sindical com 300 mil, mais de uma manifestação sindical com algumas dezenas de milhar e um governo que caiu. Os planos de redução da massa salarial tiveram que ser impostos por uma aliança de forças entre a burguesia portuguesa (PS, PPD, CDS) e a burguesia europeia a norte-americana (FMI, BCE, EU).

Tudo isto parece ser secundário na análise dos bloquistas, na medida em que para eles a rua e o Parlamento são dois espaços que não vivem momento distintos e cada vez mais separados, como lembra Wood, mas um, a rua, está ao serviço do outro, o Parlamento, e quando a rua não se materializa em votos, então o «país está à direita». O espaço da política para o BE é o espaço político-institucional e nele não há lugar para a subjectividade política das massas, que obviamente mostra uma outra realidade, um país muito à esquerda.

Lenine dizia a certa altura, cito de cor, que o governo está à direita do nosso partido e a direcção do Partido está à direita da base, e a base está à direita das massas, que é o mesmo que dizer à esquerda de tudo o resto.

Como eu não sou infantil acho que esta esquerdização das massas pode-se perder, eventualmente até se pode perder em soluções autoritárias. A rua pode ser de manifestações contra o FMI ou de manifestações pela Pátria Amada; pode ter gente de esquerda com bandeiras vermelhas ou escuteiros com balões brancos, pode ter massas de trabalhadores organizados ou milícias de direita organizadas.

Por isso o grande desafio não é a rua, o movimento, mas o objectivo final desta rua, deste movimento. Urge, como nunca, uma organização de esquerda que dê corpo democrático, eficaz, politicamente sem compromissos, e centralizado a esta força.

Que a direita se una é de esperar, que o BE e o PCP não proponham uma solução unificada e unitária para o país, um plano de lutas sem quartel, sem descanso aos nossos inimigos, é uma cilada.

Via Rubra

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32 respostas a Um País à Esquerda

  1. FNV diz:

    E é sintomática esta mania da contagem de cabeças. Como ainda se julgam no tempo do leite e do mel, calcula, poder desdenhar de mil pessoas. Não chegam, dizem. Paradoxos sóricos: e duas mil? E dez mil ?
    Em alturas de decomposição política , as primeiras acções, radicais ou isoladas, fazem parte do enredo. É delas que se extrai os certificados de agonia dos actores ultrapassados. A contagem de cabeças ( gozavam com Weimar, ainda não perceberam) é uma reacção maníaca que lhes promete uma ilusão de controlo.

  2. FNV diz:

    errata:” calculam poder”

  3. Omega-3 diz:

    Sim,o PCP estagnou e o BE,DIMINUIU!E isso de não ser marxista,é uma virtude,madama?
    Ciência sim,Escolástica não!

  4. João Valente Aguiar diz:

    Raquel,

    Não concordo que haja uma viragem à esquerda, sem com isso concordar com a direcção do BE. Há um movimento interessante a eventualmente despontar (acampadas, 12 de Março, etc.) e o movimento sindical de classe fez uma grande manif a 19 de Março com 200 mil pessoas (mais duas posteriores manifs de Porto e Lisboa com 15 mil e 50 mil, respectivamente). Portanto, há luta na rua (e ainda bem e que, sobretudo, cresça). Contudo, isso não significa que seja a rua que falas a determinar o andar dos acontecimentos. Quem está a ditar os acontecimentos ainda é a grande burguesia e os seus partidos (PS, PSD e CDS). Quem ainda consegue implementar medidas de um modo relativamente pacífico é a grande burguesia. Quem ainda dita a hegemonia, o pensamento dominante e a apatia da esmagadora maioria dos trabalhadores portugueses ainda é a grande burguesia e seus serviçais.
    Que venham uns tipos de fora isso não é sintoma de viragem à esquerda. Essa burguesia internacional não vem cá. Ela já estava cá. Basta ver a anterior presença do grande capital europeu (e não só) em grandes empresas portuguesas (PT, Galp, Caixa, etc. onde fundos de investimento internacionais controlam inclusive participações de grandes capitalistas portugueses) e em grandes bancos nacionais. Eles agora vieram cá, mas para buscar “o deles” (o deles que é nosso, mas isso é outra história). Portanto, não se trata de uma coligação como a dos Brancos com os 14 exércitos imperialistas em 1918 para esmagar uma ofensiva da classe trabalhadora. A burguesia portuguesa é uma burguesia dependente e periférica, vive submissa mas umbilicalmente com a grande burguesia internacional. Terem vindo cá técnicos do FMI não mudou em nada esse cenário. Em suma, a burguesia não está a responder a um avanço da luta. É a burguesia quem lixa o pessoal e consegue colocar, por via da ideologia dominante, 2 ou 3 milhões de trabalhadores portugueses a votar nos seus partidos.
    A situação pode mudar? Sim, mas isso dependerá de uma unidade na luta muito forte. E que a luta cresça. E que, acima de tudo, seja a classe trabalhadora a colocar a burguesia na defensiva, que seja a classe trabalhadora começar a fazer recuar propostas e medidas do outro lado. E ainda não atingimos esse estado. Lutemos por ele 🙂

    Abraço

    • Diogo diz:

      Raquel,

      Há um inimigo ainda mais forte e mais persuasivo que os partidos políticos: são os Media. São estes comentadores e opinadores a soldo que devem ser identificados um a um, e confrontados directamente com a população.

      Que estes «jornalistas» venais não falem, protegidos, a solo, do alto dos seus programas televisisvos e das suas colunas de opinião. Que respondam directamente às pessoas, na rua, nos cafés ou em suas casas…

  5. Andreia diz:

    Se ainda não tiveste a oportunidade de ler o balanço que o PCP faz das eleições, deixo-te o link: http://www.pcp.pt/comunicado-do-comit%C3%A9-central-do-pcp-de-7-de-junho-2011

    Agora para “a troca” podes indicar-me o link da análise que o colectivo “Rubra” faz, não digo da estagnação, mas da debácle da Acamapada de Lisboa?

    Muito obrigado!

  6. Bruno Carvalho diz:

    Raquel, sem querer entrar em grandes discussões sobre a questão, acho piada que todos peçam uma aliança entre o PCP e o BE. Há uns tempos, antes das eleições, eu comentei algures que a haver uma aliança pré-eleitoral entre estes dois partidos, ela prejudicaria um e beneficiaria outro. Ou seja, beneficiaria aquele que queria esconder todas as asneiras, alianças e políticas erráticas que levou a cabo durante a última legislatura e prejudicaria aquele que se manteve coerente, consequente e ao lado dos trabalhadores.

    Vejo, demasiadas vezes, o colectivo da Rubra arvorar-se como uma espécie de justiceiro político, que tenta passar incólume aos defeitos políticos que diz haver nestes dois partidos. Pois, deixo o reparo de que a maioria, senão todos, dos que fazem actividade política nessa revista foram membros do Bloco de Esquerda. Quando os militantes do PCP apontavam algumas das críticas que apontam agora ao BE, vocês estavam nesse “espaço político-institucional”.

    O PCP não vê que o País tenha virado à direita nem que a Europa, como dizem dirigentes do BE, tenha virado à direita. Tão simplesmente porque a esquerda, excepto no caso do Chipre, não governa na União Europeia. O BE às vezes tenta disfarçar mas é nestas pequenas coisas que percebemos que eles alinham na tese de que os partidos socialistas estão à esquerda, ou no centro-esquerda ou outra coisa qualquer. Assim como no movimento sindical alinham, às vezes, com o PS para retirar a CGTP às garras do autoritário PCP que tudo tenta controlar (menos as acampadas, nessas está lá o BE e todas as suas dissidências para mostrar que se for o BE é intervir, se for o PCP é controlar, dominar, impor).

    O BE não perdeu força porque o País virou à direita. O BE perdeu força porque o País mudou de direita e porque o BE preferiu, em momentos específicos, aliar-se à direita que antes governava, e depois tentou lavar a cara com jogadas sem sentido que já não encaixavam na forma como o BE antes se tinha apresentado (não ir à reunião com a Troika, a apresentação da moção de censura, etc). Normalmente, em Portugal, o oportunismo até consegue passar incólume. O problema é que nestas eleições a burguesia que manda na comunicação social decidiu tirar o tapete ao BE.

    Isto é uma opinião pessoal.

    Abraço

    • JMJ diz:

      Concordo totalmente.

      idem, idem, aspas, aspas.

    • A unidade de esquerda que o PCP apregoa desde 1976 seria com o PS, sempre. Agora o PS é outra direita! E o seu velho líder o maior inimigo da democracia de abril: http://www.avante.pt/pt/1959/opiniao/114998/

      • João Valente Aguiar diz:

        Comentário idiota. Quer comparar 76 com 2011? E claro que o Soares é o indivíduo mais odioso para a esquerda em Portugal. Ou melhor, enquanto quem se diz de esquerda achar um mínimo de interesse ou defender aquele indivíduo, na prática, não é de esquerda.

    • Miguel Lopes diz:

      Estou de acordo em relação aos erros cometidos – embora não infira daí uma relação causal entre eles e o resultado eleitoral -, mas repara na forma como tu colocas o problema da coligação pré-eleitoral:

      “Há uns tempos, antes das eleições, eu comentei algures que a haver uma aliança pré-eleitoral entre estes dois partidos, ela prejudicaria um e beneficiaria outro.”

      Percebes o tipo de raciocínio que está aqui?
      A questão que se deve colocar é se essa coligação é ou não vantajosa para o avanço das forças de esquerda, para a defesa dos trabalhadores. Não é se é boa ou não para o Partido. Caso contrário, este deixa de ser um meio e passa a ser um fim em si mesmo.

    • João Valente Aguiar diz:

      Eu concordo com o teu texto. Não se trata de virar à direita pq a direita já lá estava. Tal como a burguesia europeia tb já cá estava (PT, Galp, controlo de participações de n empresas e bancos em fundos de investimento internacionais, etc.). Mas é a direita, é a burguesia que continua a ditar o ritmo das coisas. Certamente que a prazo, com a luta, as coisas podem mudar. E é para isso que cá estamos. Mas, para já, ainda não é a classe trabalhadora que está a ditar as cartas. Mas a luta de classes é isso mesmo: o tabuleiro nunca está sempre inclinado só para um dos lados. Abraço

      • Raquel Varela diz:

        Concordo João,
        A burguesia tem a iniciativa, mas não porque o «país está mais à direita» mas porque a esquerda organizada em partidos não oferece uma alternativa. Se assim é, então o problema é subjectivo – um partido que eleve a consciência das massas ao enfrentamento com a burguesia (isso faz-se propondo a renegociação da dívida?» – e não objectivo (indisponibilidade das massas para lutarem).
        Abraços!

        • João Valente Aguiar diz:

          Não. É um problema tanto subjectivo como objectivo. Quer indisponibilidade das massas (de parte relevante delas) para lutarem, quer o poder que a burguesia detém tanto na produção ideológica como na materialidade do poder político (o Estado, parlamento, polícia, etc.) e do poder económico (dentro das empresas nomeadamente). Eu acho que à esquerda há uma alternativa mais do que fiável para os trabalhadores, no caso português, o PCP. Essa alternativa não é maioritária junto deles, não por um motivo de suposta falta de “revolucionarismo”, mas porque, voltando aos factores objectivos e subjectivos, quem continua a dar cartas nas estruturas da vida social (Estado, empresas, escolas, etc.) é a burguesia e porque grande parte das massas, por via da influência da ideologia dominante, não vêem ainda no PCP e seus aliados o seu Partido. Independentemente da posição que se tenha do PCP, não nos devemos esquecer que o Partido Bolchevique só passa para a vanguarda do movimento operário russo em ebulição a partir de Julho-Agosto de 1917 (quando derrota o Kornilov, quando vence as eleições para os Sovietes de Petrogrado e Moscovo, quando com o falhanço das manifs de 3-4 de Julho as massas percebem que sem um Partido de vanguarda se irião espetar contra o poder de Estado – é aqui tb que o espontaneísmo até então vigente passa a dar a dianteira do processo à organização de vanguarda), mas como estava a dizer de Fevereiro a Julho-Agosto, o Partido Bolchevique ainda não era a organização que ditava a marcha dos acontecimentos. Portanto, durante dois terços do processo revolucionário de 1917, a maioria da classe operária russa não considerou o Partido Bolchevique como o seu partido. E isso fez dele menos revolucionário nos seus propósitos e nas suas acções? Claro que não. Só quando se aprofundaram factores subjectivos (política do governo transitório de Kerenski and friends de continuarem com o esforço de guerra, repressão dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários sobre as massas) e objectivos (ainda maior desestruturação do Estado tsarista, fuzilamento em massa de oficiais na frente de guerra por parte dos soldados, etc.) é que as massas viram no Partido Bolchevique o seu partido. Isso não significa que os partidos não ofereçam alternativas mas que as massas até um determinado momento não os vêem ainda como a sua alternativa. São coisas distintas, creio.
          Abraço

    • Orlando diz:

      Concordo e assino por baixo. Uma análise muito bem estruturada e justificada.

    • Raquel Varela diz:

      Bruno,
      O problema parece ser que a democracia burguesa – o cálculo eleitoral – se sobrepõe à luta. E o teu texto deixa isso transparecer.
      Lenine chamou à crítica ao Governo Provisório nas teses de Abril quando este tinha o apoio esmagador das massas, chamou o poder ao sovietes quando este tinha esmagadora maioria de SR e Mencheviques.
      Abraços

  7. Manuel Baptista diz:

    Vive-se em Portugal a situação em que parte da sociedade reclama uma mudança de rumo, mas é desnorteada pela esquerda institucional, irresponsável, sectária, ressequida no passado, incapaz de autocrítica: são falsos amigos do povo porque se proclamam «revolucionários» (no verbo), mas inviabilizam qualquer saída favorável aos trabalhadores, aos oprimidos, pelas suas políticas sectárias.

  8. nptraveller diz:

    «a rua e o Parlamento são dois espaços que não vivem momento distintos e cada vez mais separados»
    Vai sendo o grande problema da esquerda hoje em dia: tem um pé dentro do sistema e outro fora, quando deveria estar fora de corpo e alma, embora permanecendo (por) dentro. Basta repararmos como a esquerda dos partidos representa, de que forma representa, até que ponto representa os desempregados, os precários, todos os que gravitam nas margens de uma forma ou de outra. Fala neles, geralmente como números, exactamente nos termos em que o faz a direita, mas não tem um programa de luta (imediata e de longo prazo) centrado nas suas aspirações. O mesmo acontece com os sindicatos. Daí os movimentos de rua e as acampadas (nem à esquerda, nem à direita, embora reivindicados essencialmente pelas esquerdas, partidos excluídos). São cada vez mais os que não se sentem representados por qualquer dos partidos instituídos (esta palavra antigamente não rimava bem com esquerda), nem deixam que estes os representem. Em Portugal isto nota-se pouco, mas é só olharmos para a Espanha e para a Grécia…

  9. Augusto diz:

    Quando Jerónimo de Sousa, em entrevista á Maria Flôr Pedroso, aventava a hipotese de votar uma MOÇÂO DE CENSURA apresentada pelo PSD, contra o governo de Socrates, certamente que essa posição era de esquerda….baixa…..

    Quando o Bloco de Esquerda ( erradamente segundo a minha opinião, até pelo momento) propôs uma reunião formal á direcção do PCP, arriscou e muito, porque uma boa parte do eleitorado do BE , é avesso ás posições sectárias do PCP, e sempre olhou para o BE como um projecto PLURAL e de debate livre, que sendo socialista e de esquerda, não tivesse como farol regimes DITATORIAIS como o China ou Cuba.`

    É inegável que o eleitorado virou claramente á direita.

    Agora será que a maioria do povo, virou á direita, isso vai-se ver a partir de agora com a reacção ás medidas da Troika.

    Se haverá luta combate, resistência, com expressão de massas, ou a maioria vai aceitar bovinamente, as medidas do governo PSD-CDS com o apoio certamente do Seguro ou do Assis?

    Quanto a alianças com a direita , eu ainda gostava de perceber, como se pode coerentemente dizer que se combate a direita, e aliar-se com ela, em tudo o que é Camaras e juntas de Freguesia?

    Aliás parece que este teoria fez escola, aqui ao lado em Eapanha a Isquierda Unida, de que faz parte o PCE, aliou-se com o Partido Popular ( ainda mais reacionário que o nosso) , para co-dirigir uma serie de Camaras Municipais.
    È o chamado compromisso histórico á italiana, esperemos que por cá o PCP nunca vá tão longe…….

    • Manuel Monteiro diz:

      Augusto, esse “horror” aos regimes ditatoriais ainda te vão levar para os brços de um Assis ou Seguro qualquer…
      Manuel Monteiro

  10. Filipe Diniz diz:

    Raquel:
    Três pequenos comentários:
    1- A “citação” de Lénine que faz “de cor” é uma invenção sua. Compreendo que lhe fizesse jeito invocar o grande revolucionário. Mas basta ler o “Que fazer?” para perceber a estima que Lénine alimentava acerca das fantasias sobre a “consciência espontânea” das massas. E quando Lénine valoriza a disposição combativa das massas não a coloca “à esquerda” de nada. Lénine compreende a luta de classes como luta entre dominantes e dominados, os “de cima” e os “de baixo”, não a descreve como um hemiciclo parlamentar.
    2- Lénine também não cometeria o disparate que está contido na sua afirmação de que “apesar do PS ter levado a cabo a destruição do Estado Social e dos salários como nunca antes o tinha feito”, o PCP estagnou a votação. De onde lhe veio a ideia de que, se existe agravamento da exploração e degradação das condições de vida isso se deveria traduzir num aumento da votação do PCP? As crises geram condições objectivas para a agudização e a radicalização da luta social, mas só em situações muito excepcionais geram mudanças radicais no plano subjectivo (e quando as geram, sucede frequentemente que se desenvolvam no sentido errado). É assim que, depois de uma Greve Geral em que intervieram mais de 3 milhões de trabalhadores, Cavaco Silva foi eleito à primeira volta.
    3- Há entre alguns colaboradores do 5Dias uma linha (uma espécie de “linha Carmelinda Pereira”) que se bate em prol do entendimento PCP/BE, como é o seu caso. Admitindo que conheça melhor o BE do que conhece o PCP, em que medida é que acha que essa plataforma “unitária e unificada” acrescentaria mais luta à luta que os trabalhadores portugueses vêm desenvolvendo e irão prosseguir? Que força social atribui ao BE? Se ela existe, decerto que não precisa de tal plataforma para se exprimir. Se, como infelizmente se verifica, a influência BE se traduz, por exemplo, em meter os trabalhadores da Autoeuropa em sucessivas “concertações” com o patronato que têm a característica comum de lhes ir ainda mais ao bolso – como sucede agora com o “fundo de pensões”- então a “força social” do BE não faz parte da solução, faz parte do problema.

    • António Paço diz:

      Filipe Diniz: não partilho da opinião da Raquel de que o País está mais à esquerda, nem sei de onde é a citação do Lenine, mas não creio que seja inventada. Aliás o que ele escreveu não são as sagradas escrituras. E muitas vezes recorreu a exageros nas polémicas. Ele e outros (de certeza não estavam à espera de que outros mais tarde fossem analisar o que disseram ou escreveram como teólogos escolásticos). E outra coisa: o ‘Que fazer?’ foi escrito entre 1901 e 1902 — antes da revolução de 1905 e antes de os revolucionários russos poderem sequer sonhar com uma revolução como a de 1917. Os revolucionários, como o Lenine, aprendem com as revoluções. E geralmente o que escrevem depois de passarem por essas experiências é bem mais interessante do que o que escreveram antes.

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Filipe,
    O 5 Dias não é um partido não pede unanimidade. Não somos obrigados a seguir ordens de nenhum ponto político. Em relação ao teu comentário, tomara eu estar como os tipos da autoeuropa a quem vão ao bolso. Que eu saiba eles foram aumentados 3,9% em 2010 e vão ser aumentados este ano. Grande parte dos trabalhadores foram nos últimos anos colocados no quadro. Como vês um cenário bastante diferente daquilo que escreves. Para além de que os acordos de empresa são normalmente referendados pelos trabalhadores, coisa que infelizmente não acontece em lado nenhum. Nem negociação, nem aumentos, nem vontade dos trabalhadores.

    • Filipe Diniz diz:

      Nuno
      Não estou para te dar a resposta que merecias em relação a unanimidades e pontos políticos.
      Quanto ao teu hino à concertação na Autoeuropa, e se invejas os seus trabalhadores, inveja os salários congelados entre 2000 e 2004 com uma perda de poder de compra de 8%, inveja a redução de custos com pessoal em mais de 4% enquanto os resultados crescem mais de 200%, inveja as sucessivas tentativas (concretizadas total ou parcialmente) de acabar com o pagamento a 100% aos sábados, inveja os “temporários” que passam a conta-gotas ao quadro, inveja a chantagem do lay-off. E se não é pior é porque, como em 2009, os trabalhadores vão obrigando o sr.Chora a não desempenhar todas as vezes o papel que gostaria de desempenhar sempre.

      • António Paço diz:

        Filipe Diniz: Sem querer estar a fazer de advogado do Chora e da Comissão de Trabalhadores da AutoEuropa, não me parece que os seus palpites apontem para nenhuma orientação melhor. Que exemplo de melhor sindicalismo quer apontar? Talvez o da Opel da Azambuja? Mas essa fechou, não foi?

        • Rocha diz:

          Um ensinamento do camarada Mao Tse-Tung (mas válido para qualquer marxista), que nem os ultra-revolucionários do MRPP, nem da UDP, alguma vez aprenderam:
          “O insulto do inimigo para mim é elogio”.

          Chora está nas boas graças do patronato, outros como os sindicalistas dos ferroviários, dos autocarros, dos lixeiros, são perseguidos com processos disciplinares e demissões por defender os direitos dos trabalhadores. Porque nem todas as empresas são como a Autoeuropa “engordadas” por subsídios estatais para manter a paz social(democrata).

          E como já foi aqui referido há muitas portas travessas para enganar papalvos com migalhas: lay-off, redução do pagamento de horas extra, etc. O António salienta esse “maravilhoso” aumento salarial mas não os lucros da empresa.

        • Filipe Diniz diz:

          António Paço
          Os textos de Lénine não são sagradas escrituras. Mas isso não deixa espaço a que se inventem textos de Lénine, pois não?
          No que diz respeito à Autoeuropa, os dados que menciono não são palpites, são factos.
          Quanto ao sindicalismo conciliador, você faz mais do que ser advogado do Chora: partilha a tese dos que acham que a resistência dos trabalhadores é que é responsável pelo encerramento e a deslocalização de empresas.
          Está muito bem acompanhado nesse ponto de vista.

          • António Paço diz:

            Não, não sou advogado do Chora. E torço o nariz a algumas coisas de que me lembro, como aquela de ir a um jantar com o ministro Manuel Pinho. Se trabalhasse na AutoEuropa, é possível – talvez até provável – que tivesse outras opiniões, que defendesse orientações diferentes. Mas assim de longe, parece-me que ele tem uma preocupação correcta, que é a de defender o emprego dos seus camaradas de trabalho. E sobretudo aborrece-me que quem pratica noutras empresas o mesmo tipo de sindicalismo faça uma campanha permanente contra a CT da AutoEuropa apenas porque fulano é do BE, “não é dos nossos”.

    • Carlos Vidal diz:

      Ó Nuno, está para breve uma beatificação de algo (ou alguém)?
      Vai emergir da Autoeuropa um capitalismo “humanista”? Uma, como dizer, redenção?

      (Além do mais, o Filipe Diniz não pede unanimidade aqui na casa, apenas critica com fundamento um texto de Raquel Varela – que, se quiser, se defenderá, não?)

  12. João diz:

    Por muito que a alguns custe o que a CT da AutoEuropa faz é defender os postos de trabalho e as regalias dos trabalhadores, sem se preocupar com a agenda político-partidária. É chato para alguns mas aparentemente os trabalhadores estão de acordo. E basta lembrar a adesão à greve geral para se perceber que existe ali consciência de classe e solidariedade com outros que não metade das suas condições de trabalho. O sindicalismo revolucionário é muito bom nas empresas dos outros, não é? Nas nossas queremos é manter o emprego e se possível ganhar um pouco mais.

    • Leo diz:

      “E basta lembrar a adesão à greve geral para se perceber que existe ali consciência de classe e solidariedade”. Claro que existe.

      Aliás já num artigo de 2005 o Américo Nunes o constatava:

      (…)”É verdade que os trabalhadores da Autoeuropa nunca fizeram uma greve por reivindicações ou razões internas. Mas, na Greve Geral de 10 de Dezembro de 2002, contra o Pacote Laboral, aderiram e pararam a produção.

      São também reveladoras da sua capacidade de se unir, as interessantes lutas do «bitoque» e dos «trocos»: espontaneamente, à margem das ORTs, para expressarem o seu descontentamento face a algo que não ia bem na empresa e no refeitório, um dia, os trabalhadores da Autoeuropa resolveram todos pedir «bitoque», esgotando a capacidade de resposta da cozinha, o que fez parar a produção da fábrica, dado o maior tempo de espera pela refeição que provocaram e o pouco tempo que cada operário tem para a usufruir.

      No dia seguinte, já com «stock» suficiente de «bitoques», os trabalhadores trocaram as voltas à intendência e resolveram, em vez de escolher todos o mesmo prato, pagar a refeição só com moedas, voltando a causar engarrafamento e a parar a produção, devido à morosidade do processo de pagamento.

      Conclusão, os trabalhadores marcaram posição e grande parte dos problemas que deram origem ao protesto foi resolvido.” (…)

      Vale a pena ler todo o artigo, aqui:

      http://www.pcp.pt/publica/militant/278/p09.html

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