O MOVIMENTO PELO MOVIMENTO NÃO NOS RETIRA DO MUNDO ANIMAL – Depois de revisar a Rosa e de chamar amo ao Lenine, vejamos o que o Neves faz ao Trotsky.

A Dona Rosa sabe da relevância do movimento, como Lenine e Trotsky, mas também sabe a importância do programa e da direcção revolucionária. O debate foi claro nisso e só é pena que quem dirige o movimento para o movimento, sem táctica e sem projecto estratégico,  ou seja, sem um olho no inimigo e outro no sonho de uma sociedade justa, não reconheça que o seu papel não é diferente de quem pensa o que fazer a cada momento com os olhos postos no futuro, subjugando os meios apenas à moral dos fins e não aos valores que se dissimulam no entretanto burguês. Trotsky explica o resto em cinco passagens do seu livro Moral e Revolução. Primeiro recorrendo a poesia reformista (1), depois resgatando o exemplo da Comuna de Paris (2), segue-se o debate da guerra civil espanhola sobre a moral dos meios (3) e nele o exemplo concreto dos anarquistas (4) e para finalizar a interdependência dialéctica entre fins e meios (5) que o Neves afinal parece subscrever na sua última frase, apesar do idealismo com que considera possível que o caminho dos fins possa ser feito sem qualquer contradição. A história, uma vez mais, desmente-o.
Ora vejamos:

(1)

“Ferdinand Lassalle em seu drama Franz von Sickingen faz um de seus personagens dizer:

Não indiques apenas o fim,
mas mostra também o caminho
porque o fim e o caminho
tão unidos estão
que um muda com o outro
e com ele se move
– e cada novo caminho
revela um novo fim.”

Os versos de Lassalle são bastante imperfeitos e, o que é pior, o próprio Lassalle, em sua conduta política prática, abandonou a norma que exprimia nestes termos: sabe-se que chegou inclusive a manter negociações secretas com Bismarck. Mas a interdependência entre fins e meios está expressa nestes versos. E preciso semear um grão de trigo se se quiser obter uma espiga de trigo.”

(2)

“Quando a Comuna de Paris foi afogada no sangue e a canalha reaccionária de todos o mundo arrastou pelo pó sua bandeira, apareceram muitos filisteus democratas prontos a condenar, junto com a reacção, os communards que tinham fuzilado sessenta e quatro reféns, entre os quais o arcebispo de Paris. Marx não hesitou um só instante em assumir a defesa dessa sanguinolenta acção da Comuna.”

(3)

“Mas essa resposta absolutamente certa significa apenas que o fim (a democracia ou o socialismo) justifica, em certas circunstâncias, meios como a violência e o homicídio. E nem vale a pena falar da mentira! A guerra é tão inconcebível sem a mentira como uma máquina sem graxa. Com o único fim de proteger a assembleia das Cortes das bombas fascistas, o governo de Barcelona enganou, várias vezes e deliberadamente, os jornalistas e a população. Poderia ter feito de outra maneira? Quem quer o fim – a vitória sobre Franco – têm que acentuar os meios: a guerra civil e seu acompanhamento de horrores e crimes.

Mas a mentira e a violência por acaso não são coisas condenáveis “em si mesmas“? Por certo, como é condenável a sociedade dividida em classes que as engendra. A sociedade sem antagonismos sociais será, evidentemente, sem mentira e sem violência. Mas não é possível lançar uma ponte para ela senão com métodos violentos. A própria revolução é o produto da sociedade dividida em classes, da qual ela leva necessariamente a marca. Do ponto de vista das “verdades eternas“ a revolução é, naturalmente, “imoral”. Mas isso significa apenas que a moral idealista é contra-revolucionária, isto é, encontra-se a serviço dos exploradores. Mas a guerra civil – dirá talvez o filósofo tomado de surpresa – é uma penosa excepção. Em tempos de paz um sadio movimento socialista deveria evitar a mentira e a violência“. Esta não é mais que uma piedosa escapatória. Não existe uma nítida linha divisória entre luta de classes “pacífica” e revolução. Cada greve contém em germe todos os elementos da guerra civil.”

(4)

“Mas o papel mais triste cabe provavelmente aos anarquistas. Se o estalinismo e o trotskismo são idênticos, como eles afirmam a toda hora, por que então os anarquistas espanhóis ajudaram a massacrar não só os trotskistas como também os seus próprios camaradas anarquistas que tinham permanecido revolucionários? Os teóricos libertários mais sinceros respondem que esse é o preço do fornecimento das armas soviéticas. Noutras palavras, o fim justifica os meios. Mas qual é o fim dessa gente? O anarquismo? O socialismo? Não. A salvação da democracia burguesa que abriu as portas ao fascismo.” A um fim sujo correspondem meios sujos. Esta é a real disposição dos peões no tabuleiro da política mundial.”

(5)

“Interdependência Dialéctica Entre Fins e Meios

O meio não pode ser justificado senão pelo fim. Mas também o fim precisa de justificação. Do ponto de vista do marxismo, que exprime os interesses históricos do proletariado, o fim está justificado se levar ao reforço do poder do homem sobre a natureza e à supressão do poder do homem sobre o homem.

Isto significa então que, para atingir este fim, tudo é permitido? – perguntará sarcasticamente o filisteu, demonstrando que não entendeu nada. E permitido, responderemos, tudo aquilo que leve realmente à libertação dos homens. Já que este fim não pode ser atingido senão por via revolucionária, a moral emancipadora do proletariado tem necessariamente um carácter revolucionário. Como aos dogmas da religião, esta moral se opõe a todos os fetiches do idealismo, gendarmes filosóficos da classe dominante. Ela deduz as normas de conduta das leis do desenvolvimento social, isto é, antes de tudo, da luta de classes, que é a lei das leis.

O moralista ainda insiste: Isto significa então, que na luta de classes contra o capitalismo, são permissíveis todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassínio, etc?

Respondemos: são admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível para com toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticas, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos.

Quando dizemos que o fim justifica os meios, disto deriva para nós que o grande fim revolucionário repudia, entre estes meios, os procedimentos e os meios indignos que lançam uma parte da classe operária contra outra; ou que tentam fazer “a felicidade das massas“ sem a sua organização, substituindo-as pela adoração dos “chefes”. Acima de qualquer outra coisa, a moral revolucionária condena irredutivelmente o servilismo para com a burguesia e o desprezo para com os trabalhadores, que ó uma das características mais arreigadas na mentalidade dos pedantes e dos moralistas pequeno-burgueses.

Estes critérios, é óbvio, não definem o que é consentido ou não em cada situação determinada. Não existem respostas automáticas deste tipo. As questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e táctica revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a esses problemas.

O materialismo dialéctico não separa os fins dos meios. O fim é deduzido de maneira natural do dever histórico. Os meios estão organicamente subordinados ao fim. O fim imediato transforma-se no meio do fim ulterior.”

Noronha, a feijoada tem programa e direcção, e se estava boa e chegou para toda a gente os seus obreiros estão de parabéns. O preço, quem o definiu? As compras, quem fez? A arte, quem a dedicou? O método, quem o decidiu? Se me responderes a tudo isto depois passo ao texto que sugeres do João Bernardo, que a feijoada mesmo que tenha sido feita por alguém sozinho, portanto sem partido, teve seguramente tudo o resto que dizes dispensar.

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2 respostas a O MOVIMENTO PELO MOVIMENTO NÃO NOS RETIRA DO MUNDO ANIMAL – Depois de revisar a Rosa e de chamar amo ao Lenine, vejamos o que o Neves faz ao Trotsky.

  1. O preço cobre os custos e foi definido numa assembleia participada por todos os que se encarregam – colectiva e horizontalmente – de assegurar o funcionamento do espaço.
    As compras foram feitas por quem se disponibilizou para o efeito. Hoje foram uns como amanhã serão outros. Não há um “responsável/especialista” em assegurar as compras.
    A arte resultou do prazer de partilhar com os outros os respectivos conhecimentos e paladares.
    Se, em tudo isto, descortinares uma direcção e um programa, a cerveja e os caracóis ficam por minha conta.
    Tem piada que vás buscar os escritos sobre Espanha para ilustrar a profundidade do mestre T.
    Eu retenho sobretudo aquela em que ele deixa em aberto o exame das formas históricas que a luta assume: “Não existem respostas automáticas deste tipo. As questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e táctica revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a esses problemas”.
    A experiência viva do movimento. Repito: a experiência viva do movimento.

    • Renato Teixeira diz:

      Parece-me uma boa e democrática direcção mas um programa algo duvidoso. A cerveja e os caracóis estão entre os parâmetros necessários para a transição, o resto parece mais esponteneísta do que autónomo. Quando provares uma feijoada trotska mudarás de ideias. Repito, boa e democrática direcção mas um programa algo duvidoso.

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