Espanha derrotada nas instituições municipais bascas

Depois da avalanche independentista que arrasou o mapa eleitoral das autarquias bascas, chegou a tomada de posse. Nesta manhã, a esquerda independentista basca, coligada com o Eusko Alkartasuna e a Alternatiba, regressou, até ao momento, ao poder em dezenas de localidades, donde havia sido apartada pela arquitectura judicial fascista do Estado espanhol. Foi essa mesma estrutura, herdeira do franquismo e submetida aos interesses do PP e do PSOE, que foi obrigada pelas circunstâncias a não alargar a proibição a um espectro político com um apoio cada vez maior.

Nesta manhã, o Bildu também arrebatou várias localidades que antes pertenciam ao PP, ao PSOE e ao PNV. Num número reduzido, estes três últimos partidos pactuaram para impedir a tomada de posse dos independentistas bascos. Foi o caso de Elorrio, onde a população apupou os três partidos ao grito de “espanhóis” e “fascistas”. Mas, neste jogo perigoso, o PNV foi obrigado a alguma perícia. Não pode mostrar-se aliado de Espanha mas também não consegue admitir ter passado de primeira força para segunda em número de eleitos. É a derrota estampada no rosto daqueles que condenaram o povo basco ao ostracismo durante décadas.

Não admira, pois, que em muitas localidades, como Errenteria, onde governava o PSOE, o povo tenha acorrido às portas da autarquia para aplaudir o novo executivo do Bildu e para vaiar os representantes do espanholismo. Só acalmaram quando desceu o executivo da esquerda independentista ao grito de “independência” e de “presos bascos para o País Basco”. Esta manhã, o povo enche os plenários de eleição e constituição do novo poder autárquico. Onde antes eram vítimas de cargas policiais e detenções, agora são recebidos como sendo os parteiros do futuro.

Em Donostia, o novo presidente é Juan Karlos Izagirre, um médico do Bildu. Apareceu no plenário com um crachá de apoio aos presos políticos bascos e já se sabe que vai mandar retirar a velha faixa do edifício da autarquia que diz “ETA não”. Em Ondarroa, os jovens que vão assumir o executivo estão ligados ao movimento okupa. Em Lizartza, onde há quatro anos o PP tinha vencido com 27 votos devido à ilegalização dos 205 votos da esquerda independentista, ninguém esqueceu os que foram agredidos e detidos em manifestações contra a bandeira espanhola, coisa nunca antes vista por aquelas bandas. Há minutos, caía a bandeira espanhola e subia-se a ikurriña, a bandeira nacional basca, sob uma chuva de aplausos.

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10 Responses to Espanha derrotada nas instituições municipais bascas

  1. José says:

    Construções políticas da realidade.
    Diz que houve uma avalanche da esquerda independentista e uma derrota do PNV.
    Consultados os resultados, verifica-se que o Bildu, com 25,45% dos votos e um total de 276.134 votos, tem 953 eleitos.
    O “derrotado” PNV, tem 30,05% dos votos, num total de 325.968 e 872 eleitos.
    Com menos 4,60% dos votos e menos cerca de 50.000 votos, o Bildiu fez a proeza de ter mais 81 eleitos. É a democracia.
    Que não lhe permite as tiradas grandiloquentes como ” Esta manhã, o povo enche os plenários de eleição e constituição do novo poder autárquico.”.
    Os espanholistas – PSOE e PP – tiveram mais votos que o Bildu. O PP, inclusive, ganhou numa das três circunscrições bascas: Álava.
    1 em cada quatro dos eleitores bascos votou Bildu ou, como agora se tem lido por aqui noutras eleições, três em cada quatro eleitores bascos rejeitaram o Bildu.
    Chamar a isso o “povo” parece-me manifestamente exagerado.

  2. Rocha says:

    Em Bizkaia, de 112 câmaras, Bildu governa 35. Em Gipuskoa de 88 autarquias, Bildu governa 59. Em Araba de 52 municípios, Bildu governa 12. Em Nafarroa de 271 municípios, Bildu governa 17.

    O PNV consegue governar em 63 câmaras de Bizkaia. Assim se definem os bastiões de Bildu em Gipuskoa e do PNV em Bizkaia. Em Gipuskoa e Bizkaia os espanholistas PP e PSOE foram varridos. Em Araba o PNV ficou com 26 e Bildu com 12, derrotando o espanholismo apesar de não haver um claro vencedor dentro das forças bascas.

    Araba no sul da Comunidade Autónoma Vasca (CAV) é onde as forças burguesas espanholistas mais força têm na CAV, especialmente a extrema-direita do PP. Curiosamente em Nafarroa acontece a mesma concentração abertzale e nacionalista vasca no norte de Nafarroa e o domínio espanholista reaccionário acontece no sul.

    Em Nafarroa a ultra-reaccionária e espanholista União do Povo Navarro conseguiu 43 municípios e continua dominante apesar de perder terreno.

    • António Figueira says:

      Eu acho que escrever Bizkaia em vez de vez de Viscaia é mais ou menos como escrever Kuando-Kubango em vez de Cuando-Cubango: um pequeno passo para o homem, uma grande parvoíce para a humanidade.

      • Rocha says:

        No País Basco, cujo nome na sua língua nacional é Euskal Herria, fala-se em euskera (a sua língua nacional) especialmente em toda aquela zona norte de Euskadi que vai de Bizkaia a Zuberoa. Passando também por Gipuzkoa e Nafarroa, toda a região do norte Basco fala em euskera em ampla maioria, esta é a língua e esta é a cultura daquele povo.
        http://eu.wikipedia.org/wiki/Fitxategi:Euskaldunkopurua_koloreak.png

        Bizkaia fica na ponta oeste de Euskal Herria (dentro do Estado Espanhol) e Zuberoa na ponta este (dentro do Estado Francês). Os habitantes destes territórios usam habitualmente os nomes em euskera, Bizkaia e Zuberoa, não usam os respectivos nomes empregados pelas potências ocupantes, Vizcaya e Soule (castelhano e francês).

        O que é realmente parvo é não dar conta da existência de uma língua, uma cultura e um povo que sobreviveu à latinização/romanização de todo centro-sul e centro-sudoeste da Europa Ocidental. Não é anglo-saxónica, não é germânica, nem eslávica, o que faz do basco uma cultura singular.

        • António Figueira says:

          Rocha,
          O facto de Köln ser uma cidade de língua alemã não me obriga a designá-la assim, não só porque a letra k não se usa em português, como ainda porque existe, validada por séculos de uso, a palavra Colónia (o mesmo poderei dizer, por ex., para Nafarroa, que desde há mil anos os portugueses conhecem como Navarra: por alguma razão o camarada Modesto Navarro não se chama Modesto Nafarroês… ). Lendo o seu comentário, percebe-se que estas infantilidades toponímicas derivam de outras, mais a montante: uma linguagem tesa, dura, militante, mas infelizmente ignorante de algumas realidades históricas, que o levam a referir o euzkera como a “língua nacional” do Euzkal Herria (a definição prévia desse conceito talvez ajudasse a clarificar o seu pensamento) ou a designar a Espanha e França como “potências ocupantes” do País Basco (como se Bilbau ou Baiona fossem Jerusalém Oriental ou Luanda antes de 11.11.75… ). Esteja descansado, não vou prolongar esta discussão, que o seu fervor eusko-qualquer-coisa me faz antever como inútil, mas apenas sugerir-lhe um bocadinho mais de juízo crítico antes de escrever sobre “povos e culturas”, que são realidades também um bocadinho mais complexas do que aquilo que V. parece julgar que elas são.

          • Rocha says:

            É verdade, faço um uso militante destas palavras. O ostracismo, a censura e perseguição que euskera e o povo basco, o povo euskaldun, tem sido alvos merecem que eu aproveite todos os momentos de debate ou visibilidade dos bascos para defender a sua língua.

            As coisas “um bocadinho mais complexas do que aquilo que V. parece julgar”, que você refere são a brutalidade de tortura, assassinato, desaparecimento, censura, ilegalização, perseguição policial e judicial (tribunais de excepção fascistas), condições carcerárias desumanas, violação de liberdades (inclusive a de expressão) que são a prática corrente e impune do Estado Espanhol – ininterruptamente desde o regime franquista – contra os que ousam defender a independência de Euskal Herria. Violência que só possível ao tornar invisível as causas do conflicto e a própria existência de um povo basco.

            Parece-me que se fosse para alertá-lo para a esquecida tragédia do povo basco – a outra parte da tragédia é nos lembrada quase diariamente pelos media espanholistas – escrever isto seria uma perda de tempo. No entanto espero que haja outros leitores a quem a justa luta dos bascos possa sensibilizar.

  3. Von says:

    Ena, fui valentemente censurado acerca deste assunto. E sem insultos ou palavrões. Ena…

  4. Von says:

    Ok, fiquem-se então em loop, que debater assim deve saber muito melhor…

  5. José says:

    “No País Basco, cujo nome na sua língua nacional é Euskal Herria, fala-se em euskera (a sua língua nacional) especialmente em toda aquela zona norte de Euskadi que vai de Bizkaia a Zuberoa”

    Não é o que o próprio governo basco diz, mas, enfim, o Rocha parece que sabe mais.
    http://www.euskara.euskadi.net/r59-738/es/contenidos/informacion/argitalpenak/es_6092/adjuntos/MAPAcast.pdf

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