Adeus Negri

O Neves percebeu mal o meu comentário à sua posta à Eduardo Sá de esquerda, o que teve a virtude de lhe tirar o nó na garganta que evidentemente o impedia de libertar alguns engulhos. Há males que vêm por bem. Ao contrário da polémica com o Oliveira desta vez o companheiro não tem razão nenhuma. Ao alertar para a omissão da questão do trabalho estava evidentemente a sublinhar o facto de nem um nem o outro referirem que esse é um dos problemas centrais do BE. Neves, ao enumerar o que o BE tem que reflectir “movimentos sociais, espaços culturais contra-hegemónicos, informação alternativa, redes de associativismo, produção ideológica”, deixa cair o principal calcanhar de Aquiles do partido: o alheamento do mundo sindical e a sua incapacidade de influenciar e reforçar o movimento operário. Oliveira, por seu lado, está-se pura e simplesmente borrifando para o assunto uma vez que os seus olhos estão húmidos e prostrados a olhar para o vazio imposto pelo abismo de mais de 200 mil votos, resultado directo da estratégia de aproximação ao PS que sempre defendeu.

Neves não entende assim a crítica ao seu relativismo pós-moderno que encontra sempre razões para o conforto da distância crítica, e compreende isto como uma tentativa minha para pedir o seu registo de horas de militância e a partir daí fazer uma medição do pirilau. Não podia estar mais enganado. Neves, sabemos todos, é um activista e um académico empenhado, pelo que o entendimento do conforto terá que ser levado além dos horizontes rasgados pelo direito à preguiça. Não se trata de que o companheiro procure a posição política que lhe permita dar voz aos outros em manifestações ou em assembleias, até porque houve espaço para que todos falassem e que meia-dúzia de “freaks lumpen e anarcas e empatas” repetissem à exaustão propostas sempre rejeitadas pela esmagadora maioria das pessoas. Na verdade, o conforto da distância crítica, com que o Neves aplaude o líder ou apela ao voto no BE, colocam-o numa posição fácil do ponto de vista político. Se correr mal sempre pode dizer que avisou, se correr bem há-de ter sido em boa parte pelos seus esforçados conselhos.

Esclarecido que o Neves para além de pirilau não se furta ao esforço militante, fico à espera de perceber se ele tem alguma coisa a acrescentar à questão do trabalho ou se limita a sua análise ao BE em substituir o conceito de direita por moderado, esquerda por radical e trabalho por folha de serviço. Sobre as assembleias está visto que o Neves disse adeus ao leninismo para dizer olá e cantar loas ao partido dos come flores. Negri, estou certo, ficará cheio de orgulho.

 

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14 respostas a Adeus Negri

  1. António Figueira diz:

    Sinto-me excluído deste debate: Quem é o Eduardo Sá? É preciso lê-lo primeiro para perceber o Zé Neves a seguir?

    • Renato Teixeira diz:

      O original, de direita, diria que quando um trabalhador olha no seu horário de trabalho pela janela é a razão profunda do atraso do país. O outro classificará o olhar como o acto de resistência que o levará à emancipação sem qualquer necessidade das mafiosas organizações sindicais ou qualquer outro tipo de lideranças sem brilho.

  2. Bruno Peixe diz:

    António, é sempre preciso ler o Eduardo Sá. Não sabes que é? Imagina um cruzamento do Pedro Strecht com a Laurinda Alves a quem fossem transplantadas as cordas vocais de um cordeirinho meigo. Aí o tens.

    • António Figueira diz:

      Vocês são tipos difíceis, também não sei quem o Pedro Strecht (embora saiba quem é a Laurinda Alves).
      Está a falhar-me qualquer coisa, eu devia conhecer as grandes referências culturais de massas do meu tempo.

      • Raquel Varela diz:

        O Eduardo Sá é um tipo que parece inofensivo e cada vez que fala provoca um desastre. É o grande mentor do não se pode mandar trabalhos para casa; os pais são incompetentes e outras pérolas. Como disse o Bruno tudo com a voz de mel, mel que o lobo comeu quando foi falar com os 7 cordeirinhos para lhe abrirem a porta. O Pedro Strech não sei, deve ser da mesma linha. Fujam crianças!

        • Camarro diz:

          Sim, sim, sei quem é. Tem um programa na antena 1 com a nossa bem conhecida e estimada Isabel Stilwell. Passa entre as 20h00 e as 20h30…Gosto muito quando ele diz: oh Isabelllllllllll… é um momento zen…

          • Renato Teixeira diz:

            É o momento alto do programa. Numa expressão tão paternalista como sexista, tão reaccionária como condescendeste, consegue no entanto desculpar-se aos leitores face aos disparates de ainda maior envergadura da Isabel. É no entanto uma relação estranha. Eduardo Sá só parece esperto ao pé da Isabel e Isabel só parece gente ao pé do Eduardo. E ainda dizem que não há duplas perfeitas.

  3. Ricardo Noronha diz:

    Assim de repente, Renato, parece-me que és tu quem se furta a um outro debate, não menos importante, e que diz respeito às lógicas de reprodução de poder dentro do movimento social. Ou seja, sugere o Zé que tu estás simplesmente preocupado em substituir uma direcção do movimento operário por outra, presumivelmente mais radical, sem enfrentares o problema mais substancial de saber-se porque carga de água seria necessária (e incontornável) uma direcção para o movimento operário. Ou basta ter o programa revolucionário na mão e gritar “abre-te Sésamo”?

    • Renato Teixeira diz:

      Não. Tudo se abre face à presença espontânea das massas, pelo que nem sequer gritar vai ser preciso. A cozinha cai do céu, as finanças organizam-se por natureza, a logística funciona por osmose e os grupos de debate respiram fundo e tocam as estrelas antes de consensualizar o que pensar, dizer e fazer. Os indivíduos diluem-se nos colectivos que depois não podem falar por ele nem pelos outros, não vá daí brotar um leninista de surpresa. Sem programa e sem direcções nunca vi ser feita nenhuma feijoada.

      • Scalzone diz:

        Não só viste como comeste também. A cozinha não só caiu do céu mas também caiu de um espaço sem direcção. E de qualquer maneira não respondes ao Ricardo Noronha, seria facilissimo responder-te a ti nos mesmos termos com uma caricaturização débil dos tiques e detalhes do teu grupo, tão codificado e cheio de maneirismo que se prestaria a isso mais até mais facilmente da descrição que tu fizeste. E já agora quem são os génios que deveriam ser da direcção?

        • Renato Teixeira diz:

          Como tem funcionado tem funcionado bem. Cada um e cada grupo tem a liberdade de fazer a propostas que entenda, com os tiques que goste, e uma vez do agrado da Assembleia ou do grupo de trabalho define uma direcção que a executa. Funcionou mal ou vou ter que lhe pedir o favor de fazer a tal caricatura.

        • Renato Teixeira diz:

          Essa do espaço sem direcção deve ser brincadeira. Pode ser transparente, competente e democrática, mas não creio que até o Noronha concorde com isso.

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