E se fizessem uma discussão séria

O Daniel anda imparável. Parece que o Bloco perdeu metade do seu eleitorado por imitar o PCP. Há três meses o partido de Louçã apoiava Manuel Alegre, o candidato de Sócrates e também de Daniel Oliveira, mas parece que isso não contribuiu em nada para a confusão. A razão do desastre é clara para uma data de comentadores: foi o facto dos bloquistas terem feito uma moção de censura e recusado ir ao beija mão da troika. Esses dois actos levaram metade do eleitorado a não votar nesse partido.
É interessante que essa análise não consiga explicar que os candidatos do BE perdem votos tanto nos sítios em que os candidatos são façanhudos UDPs, como em zonas em que são fofinhos e dialogantes, como o José Manuel Pureza em Coimbra, que foi apoiado por uma vasta coligação local (Boaventura, Daniel, Elísio Estanque, Rui Bebiano, etc..).
Para as conclusões serem importantes, convinha que a discussão fosse séria, e não pretendesse apenas servir propósitos tácticos e justificar as alianças pretendidas com o PS.
Talvez a coisa seja mais estrutural do que faltar a uma reunião e ter feito uma moção de censura pouco clara.
O Bloco de Esquerda cresceu muito com o voto de protesto. Esse crescimento não foi solidificado. O eleitorado não é estruturado com sindicatos, movimentos sociais e autarquias. É natural que numa conjuntura de crise, perante o voto útil no PS contra a direita, e o voto útil para correr Sócrates em outros partidos, parte dessa votação se perdesse. Aparentemente, já tinha voado, alguma dela, nas presidenciais.
Naturalmente, a falta de capacidade de crescer do Bloco, e a quase estagnação do PCP, tem que ver com outras causas. A esquerda que não aceita o programa da troika não consegue apresentar alternativas políticas e de poder que os eleitores acreditem. Essa impotência impede uma perspectiva de transformar as coisas. No meio de uma crise gravíssima, tentar resistir não chega. É preciso ter a ambição de ganhar. Mas isso não se resolve com ser muleta da política neoliberal das sucessivas direcções do PS.
A experiência mostra que a colaboração com os partidos socialistas levou à destruição dos partidos de esquerda. Basta ver os exemplos francês e italiano.
A vontade de dar pancada à actual direcção do BE é má conselheira para uma discussão séria que leve à criação de uma alternativa aos partidos da troika.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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50 respostas a E se fizessem uma discussão séria

  1. Renato Teixeira diz:

    De se lhe tirar o chapéu. A análise, claro. Foi também por isto que o BE perdeu, por desperdiçar algum dos melhores quadros a troco de uma mão cheia de seguidistas e de lambe cús.

  2. Pedro Penilo diz:

    É apenas um detalhe, mas é um detalhe revelador: impressiona-me que, na noite eleitoral, Francisco Louçã use do recurso “…sou eu o responsável.”, qual líder burguês de “bons costumes” democráticos.

    E que, de modo inverso, Rui Tavares escreva uma crónica a perguntar “no que é que nós falhámos”, referindo-se obviamente aos “outros”.

    • Vasco diz:

      Nisso e no típico (e irritante) «saúdo o vencedor»… Muito a la PS…

    • Fernando Ferreira diz:

      Desculpem-me a intromissão pois é a primeira vez que estou neste blog e pelo que li é muitíssimo interessante tudo o que nele se escreve.
      Se me permitem, faço a minha análise do resultado eleitoral do BE, partido o qual com muito gosto votei, assim:
      Em primeiro lugar e estas eleições principalmente a campanha foram isso mesmo uma guerra de imagens e pouca informação , a imagem gasta do seu lider que muito admiro Francisco Louçã, depois o BE nao consegiu mobilizar os descontentes, e sobretudo uma facha da sociedade muito importante que sao por exemplo os professores, onde terão votado os 200 Mil que desceram a Avenida? finalmente e é a minha ideia é o que me da a parecer, pode não estar certo, exatamente a Imagem do BE ligada à burguesia de esquerda encarnada em varios personagens , em que o povo operário o povo que trabalha nao gostou muito de ver, claro que a moção de censura o nao à troika acabaram com resto, gosto do Louçã axo que nao se devia demitir, mas também acho que gente como Ana Drago Miguel Portas Luis fazenda etc. podiam ter feito muito mais nesta campanha

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  5. serraleixo diz:

    “A esquerda (…) não consegue apresentar alternativas políticas e de poder que os eleitores acreditem.” Porque diz isto, Nuno? Poderia desenvolver, por favor?

    • Justiniano diz:

      Desculpem-me a intromissão mas esta é verdadeiramente a questão, não de hoje, mas de há mais de 20 anos!! O BE nunca cresceu pela esquerda das alternativas políticas ao poder!! Cresceu por razões de simpatia, pela síntese liberal dos costumes e por outra meia duzia de excentricidades! Nada de extraordinariamente denso em tempos de animada embriaguez!
      O medo forçou aquele povo a repensar em coisas sérias e muitos voltaram a casa, à segurança da casa!! As contradições são muitas e os medos são ali alimentados (medo da pouca paciencia da europa, da saída do euro, em suma da perda de todo esse conforto)!! Quanto ao PCP! O PCP mantém-se há mais de 20 anos como o mais indefectível custódio da social democracia mas sem conseguir baptizar um único social democrata (a espécie mais abundante em portugal e arredores) (isto, no campo intra-sistemático ou constitucional )! Há ali uma distorção, quando se é e não se quer ser!! No campo extra-sistemático continuarão à espera!!
      Mas uma coisa é verdade e creio que o caro NRA se apercebeu!! A troika causou mais danos à esquerda da esquerda que a esquerda da esquerda causou à troika. A troika expôs a esquerda da esquerda à sua infantil nudez, à sua incapacidade de justificar (aquela do resgate de títulos, não vencidos, sobre bancos de reserva estrangeiros, foi de antologia)
      !! Não se compreendeu de quem ainda recentemente fazia juras de amor aos grandes investimentos em obras publicas, pregando o mesmo sem cuidar da conta e do débito, como se amanhã não houvesse, viesse depois desdenhar do credor e assegurar como virtude a mora no cumprimento!! E venha ainda exigir crédito, sem amanhã nem depois!! Só não vê quem sabe ver!! As pessoas não são tolas e surpreendem de tão avisadas que são. Acho que é isso que o NRA quer dizer com tudo isto!!

      • Vasco diz:

        «A esquerda da esquerda»? Só se for no hemiciclo. Na vida e na luta o BE está muito à direita do PCP.

      • Vasco diz:

        Aqui é que vai uma revolução… O PCP, que todos os dias combate em todo o lado o ataque brutal aos direitos dos trabalhadores e do povo é “social-democrata” . Felizmente que a classe operária tem estes senhores bloggers para lhe indicar o caminho…

        • Justiniano diz:

          Vasco, caro Vasco, leia, com calma!! Depois vai perceber o que ali escrevi!!

          • Vasco diz:

            Referia-me ao facto de o PCP ser, nas suas palavras, o «mais indefectível custódio da social democracia». O BE sim, é um partido social-democrata, que fala em termos tão marxistas como «economia decente»… Já o PCP tem um projecto de construção do socialismo em Portugal, solidamente assente na análise da situação nacional e internacional, que determina a análise das etapas e das palavras de ordem em cada momento. Vide, a este propósito, http://www.pcp.pt/joomla/index.php?option=com_content&task=view&id=32864&Itemid=763, no capítulo 1. Obrigado.

        • Justiniano diz:

          Caro Vasco, e que leitura marxista admite o direito do trabalho!? O direito do trabalho como instrumento de defesa e manutenção jurídica e económica de subordinação comutativa!!

          • Vasco diz:

            Não sei se sabe, mas o «direito ao trabalho» de que fala (não no estado em que está mas na sua génese) é uma assinalável conquista histórica de gerações de trabalhadores – antes do 25 de Abril era a arbitrariedade total. É na luta por objectivos concretos que se conquista a consciência de classe e se ganha mais gente para as fileiras do Partidos Comunistas e do movimento sindical de classe. A história mostra-o, por exemplo, na conquista das oito horas pelo proletariado agrícola do sul do País em 1962, entre outros. Ah, e marxismo não é só literatura. É também, e muito, prática política concreta e luta de classes concreta.

          • Justiniano diz:

            Vasco, continua a ler-me mal!! Apenas lhe fiz uma pergunta, no sentido de esclarecer a sua surpresa ao meu comentário!! Não falei em “direito ao trabalho” cuja construção política, jurídica e filosófica se afastaria um pouco desta discussão!!

  6. Rocha diz:

    A direita do Bloco prepara o assalto, é preciso mais uma guinada para a direita, vem aí o “sócratismo sem Sócrates”, já esfregam as mãos. O que resta de marxista no Bloco? O que resta de esquerda? Como é possível haver 80% a apoiar a actual direcção PolíticaXXI-UDP-PSR?

    • João Labrincha diz:

      Rocha, depreendo do teu raciocínio que só existe esquerda se esta for marxista…

      • Rocha diz:

        Não, mas só existe esquerda que não branqueia o PS, que não procura pactos com o PS, que não procura “Sócratismo sem Sócrates”.

        E no Bloco, pelo que sei, tem sido a esquerda marxista a única que tem criticado e alertado para este ruinoso caminho do Alegrismo/Sócratismo-sem-Sócrates.

        Não, não existe só esquerda marxista, mas não existe esquerda que não seja anti-capitalista.

  7. António Figueira diz:

    Esqueceste-te de incluir, na coligação coimbrã, a JAD: ela disse que ia lá fazer campanha pelo JMPureza, numa entrevista que deu ao i, a um tal de NRA… 🙂

  8. Vasco diz:

    Ó Nuno, a meter o PCP ao barulho? Quem perdeu cerca de metade dos seus votos e dos seus deputados foi o BE. A CDU consolidou o seu resultado, aumentou a sua representação parlamentar resistindo, no essencial, à tremenda campanha ideológica e mediática que marcou estas eleições. Haja seriedade! Não foi A esquerda que caiu – foi, sim, o Bloco de Esquerda. O PCP está neste preciso momento a fazer a sua análise aos resultados e a definir as tarefas futuras. O BE que faça o mesmo, «cada um na sua bicicleta», como diria o Jerónimo…

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Vasco, o PCP perdeu 5 mil votos nestas eleições, subiu de percentagem e elegeu mais um deputado. Mas as coisas devem ser vistas com alguma amplitude. O PCP em 1979 tinha mais de 19% dos votos. Nas autárquicas desse ano, chegou aos 21%. Neste momento, tem menos de 8%. Apesar do reforço do PCP, é uma votação baixa que não impede as políticas da troika. Os partidos que se opuseram à troika baixaram de quase 20% nas anteriores eleições, para 13%. No entanto, segundo as sondagens há 32% dos portugueses que não acreditam neste memorando. Quer dizer que do ponto de vista eleitoral há uma grande diferença entre os eleitores potenciais e reais. Como se vê, ninguém vai a lado nenhum na sua bicicleta. Eu acredito que uma alternativa de esquerda, a ser possível, faz-se com PCP e BE. Não estou muito contente com estes resultados.

      • Filipe Diniz diz:

        Nuno, um pouco de objectividade fica bem. O Vasco lembra (justamente) as diferenças, tu insistes que os “partidos que se opuseram à troika” baixaram disto para aquilo. O BE baixou, ponto final.
        E será sério estar a comparar resultados de 1979 com os de 2011, a 30 anos (e que 30 anos…) de distância? E achas que, no quadro actual, alguma votação impediria “as políticas da troika”? Ou que as políticas da troika seriam impedidas em eleições como estas, conduzidas fundamentalmente para ocultar essas políticas?
        Não estás muito contente com os resultados. Eu também não estou, embora haja coisas boas pelo meio. E a maior parte delas dizem respeito à forma como a CDU resistiu e, em zonas importantes (regional e socialmente), progrediu.
        Já trocámos aqui comentários suficientes para estar claro que pensamos de forma diferente acerca do que tu chamas a alternativa PCP/BE. Não tenho qualquer satisfação particular com o trambolhão do BE, que é a outra face do trambolhão do PS. Resta saber se, nessa área, há capacidade para entender o fundamental: é que, no Portugal de hoje como no de ontem, a linha social-democrata está inevitavelmente destinada à capitulação (como o PS) ou ao descrédito (como o BE).

        • Nuno Ramos de Almeida diz:

          Filipe,
          Eu começo por dizer que o PCP subiu de percentagem e de votos. Mas que eleitoralmente, o PCP é mt fraco. E o PCP e BE fracos são. Os partidos que foram contra a troika têm menos votos que tinham nas eleições passadas. Eu acho que há um problema eleitoral e político, tu estás contentíssimo com 7, 9% dos votos. Vão ser fundamentais, infelizmente, vamos gramar com a direita a destruir toda as conquistas sociais, apesar da bancada da CDU ter mais um deputado pelo Algarve. Já percebi que tu não compartilhas da opinião da direcção do PCP sobre futuros entendimentos com o BE. É pena. Fico curioso sobre a caminho que tu propões em alternativa, o reforço do PEV até à maioria absoluta? Para mim é um mistério.

          Abraço

          • Filipe Diniz diz:

            Nuno
            Se não te conhecesse alguma coisa, não teria pachorra. Onde diabo me viste dizer que “estou contentíssimo” com o quê? A questão era, e é, que tu queres amalgamar o mau resultado do BE com o mais do que satisfatório resultado da CDU, porque tens a mania que as duas entidades são uma espécie de manos desavindos da mesma família e embicaste que têm que ser a alternativa, dê lá por onde der. Eu não acho, e a direcção do PCP também não (ouve com atenção tudo, não só a parte que te convém).
            Abraço

          • Nuno Ramos de Almeida diz:

            Filipe, tens a pachorra que te apetecer. O que me irrita é que eu começo por sublinhar o aumento do PCP. E depois a queda do BE. E concluo que no meio de uma crise social gravíssima os partidos contra a troika têm uma má votação. Eu pensava que os militantes e votantes do PCP estavam imersos nesta grave situação social e que a perda de votos do BE, a larga vitória da direita era má. Repara o governo de direita do Sócrates foi derrotado, mas isso correspondeu à redução para metade do BE e a perda de 5000 votos da CDU. Particularmente, apesar da conquista de um deputado no Algarve e de ter votado PCP, estou pouco contente. Já sei, que para determinada malta a derrota do BE seria a derrota de uma “ilusão” perigosa que abriria caminha que o grande partido do proletariado incorporasse esse eleitorado. Sinceramente, essa análise parece-me pífia. Há camadas sociais que o PC não vai incorporar e precisa de aliados progressistas que possam organizar essas camadas na luta contra a troika. Penso que o encontro entre PC e BE respondia a essa ideia. Pelo menos, o Jerónimo sublinhou durante toda a campanha que PCP e BE não eram adversários. Provavelmente, a parte da mensagem que tu não ouves. Mas é capaz de ter razão, eu como votante gosto de ouvir o que me agrada.

          • Filipe Diniz diz:

            Lá estás tu. Agora inventas uma “análise” sobre o BE (que se calhar me atribuis, nunca se sabe) para informar que é pífia, o que de facto é. Só que eu não penso assim, e já vem do tempo em que tu e eu partilhávamos algumas reuniões a minha opinião de que não se trata de um fenómeno conjuntural. O PCP não toma o BE como adversário. Já da parte do BE a vida tem mostrado que não é bem assim, nomeadamente no plano sindical. E aí está uma questão essencial. Para ti, a força eleitoral parece ser determinante. Para mim, é a força social que o é. E mais um deputado tem um significado social muito superior à aritmética parlamentar. Podes dizer: a força social também não está à altura das necessidades, e aí estamos de acordo. Mas o próximo governo, com toda a força eleitoral em que assenta, terá certamente ainda menor apoio social do que teve Sócrates. E a força social que se lhe vai opor virá de todo o lado. Uma pequena parte virá do lado do BE.

          • Rocha diz:

            Por estranho que pareça gostei dos argumentos de ambos, NRA e Filipe Diniz.

            A convergência do BE e do PCP como partidos anti-FMI é positiva e podia ir mais longe sem interferir na identidade ideológica de cada um. Mas por outro lado o importante não é o que está a acontecer no plano eleitoral mas sim no plano social – e esse é que é decisivo – com esta advertência, o que certos elementos do BE andam a fazer no plano sindical não é nada convergente como o PCP, mas sim com o PS (e é bom relembrar não se pode estar com Deus e com o Diabo…).

      • Mike diz:

        No seculo XXI, já que devo estar a escrever para pessoas muito à frente do seu tempo e muito modernas, o PCP, através da plataforma eleitoral em que participa que é a CDU, passou de 12 para 14 deputados, depois de 14 para 15, e agora de 15 para 16.

        Se isto não é subir, o que é que é??? Será que é descer???
        Poderá ser, se tu fores economista e achares que por exemplo portugal vai ter um crescimento negativo do seu PIB…

        Falem verdade…

        • Nuno Ramos de Almeida diz:

          Ainda bem que sobe no número de deputados. infelizmente, para mim, está muito longe da força que já teve, e ainda mais longe da força que devia ter. Quando lês os comentários, deves tentar ler o que as pessoas escrevem, e não disparatar sobre o que não querem. No meu tempo, havia uma análise das condições objectivas e subjectivas. E costumava-se pesar as duas. Só mesmo cegos podem ficar esfuziantes com o crescimento de um deputado, quando todas as condições objectivas pioraram. Nessas está a invasão do FMI, a destruição dos direitos sociais, o desemprego, a perda de soberania e também a diminuição para metade do outro partido que se opunha à troika. O quanto pior melhor, o poucos mas bons, o que é bom é termos o monopólio da luta contra a troika, não me convencem.

          • JMJ diz:

            Pois como disse o Jerónimo, eu também gostava que a CDU subisse para 3ª, 2ª ou 1ª força nas ultimas eleições.

            Subiu para 4ª força, por força da queda do BE, o que não me alegra (não, não é trocadilho).

            Mas há que ter consciência do caminho feito até aqui, da preparação mediática do processo eleitoral e da própria história da CDU nos ultimos processos eleitorais. Atingiu os objectivos minimos. Sai reforçada a convicção no seu caminho. Sai mais forte, porque mais confiante, para as lutas – essas sim, verdadeiramente importantes – que se avizinham.

            Exigir, 20 % ou 25 deputados é utópico. Faz tanto sentido como exigir a revolução amanhã, dia 8 de Junho de 2011.

      • Pedro Pousada diz:

        Caro Nuno o que propões de concreto? Sim em 1979 o PCP tinha 19% do eleitorado mas as condições históricas eram outras como é possível ignorares isso? O vinte cinco de Abril estava a cinco anos de distância e as nacionalizações e a reforma agrária ainda eram uma realidade económica concreta, a URSS mesmo com as suas deformações e incompletudes constituía a consciência de uma alternativa e um travão às incursões do Capital sobre as conquistas sociais obtidas pela luta dos trabalhadores ao longo do século XX (imagina o que seria uma crise como esta em 1979 e as oportunidades que se abririam à real transformação da nossa sociedade) , a população urbana estava muito mais politizada e consciente dos seus direitos e da necessidade de os defender – as comissões de moradores, a força e inserção cultural das colectividades no desporto, na divulgação, na discussão política, as cooperativas de habitação, os jardins de infância e os apoios educativos criados nos locais de trabalho eram disso um sinal, a desindustrialização da cintura urbana das grandes cidades portuguesas ainda não se tinha iniciado, as empresas com mais de mil trabalhadores e com actividade sindical intensa constituíam o núcleo duro da influência do Partido, as células nos locais de trabalho eram poderosos mecanismos de contacto e de influência junto das massas trabalhadoras (ainda o são mas a escala alterou-se e o trabalho político faz-se em muitos casos na clandestinidade), os grupos económicos estavam ainda a iniciar a contra-ofensiva agora estão numa permanente estratégia de choque e terror, mata e esfola, sobre as populações -exigindo o pior, o século XIX em matéria de direitos laborais e sociais e obtendo o muito mau, explorando o filão do assistencialismo e das IPSS para destruir ideologica e materialmente o Estado enquanto organização e defesa da emancipação económica, social e cultural das populações; todas essas famílias de interesses, que se tornaram donos do aparelho de Estado penetrando com os seus tentáculos em áreas fundamentais para um desenvolvimento humano democrático e progressista ; toda essa nefasta oligarquia deu um novo perfil de classe à saúde, à educação, à justiça, à cultura, ao papel das finanças e da construção civil na estrutura e desenvolvimento do nosso país; a demagogia – apesar do mito Sá Carneiro e do Soarismo é fixe- não era uma figura mediática omnipresente e celebrada de forma impune, a manipulação ideológica que representa as eleições como uma espécie de campeonato futebolístico a dois, a cultura do “passa por cima dos outros antes que eles te lixem” aperfeiçoada nos anos do cavaquismo, o discurso de que “eles são todos iguais” tão propício ao conformismo e aos êxitos da direita e da sua cultura cesarista, enfim, todos esses factos muito palpáveis no raciocínio e discurso monolíticos de tantos politólogos e analistas que desfilam no prime time dos canais privados e públicos, não eram em 1979 senão sonhos púberes da direita. Porque insistes na culpabilização do PCP e na imagem da “quase estagnação” do seu eleitorado? Achas que as regras são as mesmas quando se trata do PCP, não viste o que se passou em Coimbra com as escadas monumentais, não viste os debates a dois entre os candidatos do PS e do PSD pelo círculo eleitoral de Lisboa, não observas a ausência de comunistas nos debates sobre a crise económica, não te interrogas sobre a atenção periférica ou mesmo nula que se dá às propostas do PCP? Nessas condições adversas a capacidade do PCP em consolidar e reforçar a sua presença no parlamento só pode servir de lição a outros que foram levados ao colo como idiotas úteis da direita nas suas operações de extinção mediática do PCP. É que a direita vende-pátrias, entreguista, oligárquica, a das off-shores e do tráfego de influências, sabe muito bem quem é o inimigo, e donde vêm a mais forte resistência aos seus projectos fascizantes e neo coloniais porque isso que aí vêm é um novo tipo de fascismo e de colonialismo ou a repressão dos direitos de associação e de reunião dos trabalhadores, o direito à greve e à manifestação pública da dissidência, os despedimentos sem justa causa, a polivalência e o assédio moral nas empresas, os estágios não remunerados, o empobrecimento das populações, a transformação do Estado em mero serventuário do Capital não é uma forma de fascismo? E a visita desses sinistros funcionários da troika recebidos servilmente pelos cipaios da EU, a imposição exterior por instituições presididas por gente não-eleita (FMI/BCE) de uma nova organização administrativa do território nacional não são uma forma de colonialismo ?

      • filipe diz:

        bem dito. ou escrito.

  9. Vasco diz:

    Nuno, não sei se ainda se considera a si próprio marxista, mas se o é verá que é muito pouco sério, objectivo e marxista comparar os resultados de 2011 com os de 1979. O mundo mudou e a correlação de forças também – hoje claramente desequilibrada a favor do capital. Daí a análise do peso «forte» ou «fraco» de um partido comunista ter de ser visto com olhos diferentes, marxistas. Por isso digo – face à situação, a violência da ofensiva, a CDU consolidou o seu resultado, reforçou a sua presença parlamentar, estendendo-a a mais um distrito e está em melhores condições para dar combate à política de direita ao serviço do grande capital.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Está enganado. eu comparo os resultados da CDU com a situação actual. Acho-os fracos para a necessidade. Marx e Lénine não elaboraram discursos religiosos. Parece-me que a pergunta que me endereçou devia ser colocada a sí. Eu digo que estas eleições foram más, apesar da CDU ter ganho um deputado em Faro. Não está em causa que podiam ser pior, mas isso não esconde que um marxista as consideraria más. Só isso.

      • Vasco diz:

        Necessidade? Evidentemente que sim. Mas o conceito de «mau» ou de «bom» tem que ter sempre a ver com uma análise objectiva da realidade e das forças em presença. Estamos num período de ascenso das forças do trabalho, das forças progressistas? Não, estamos sim num momento de dramática ofensiva do capital. Eu percebo a necessidade de alguns sectores de empurrar o PCP e a CDU para o mau resultado do Bloco, mas não é marxista, isso não é!

        • Nuno Ramos de Almeida diz:

          Eu já me contentava de empurrar alguns sectores para a leitura. Se “alguns sectores” sou eu, a acusação é imbecil.
          1. Não votei bloco.
          2. Aquilo que me chateia é os 85-86 % de votos nos partidos apoiantes da troika.
          3. O esfuziante contentamento com a eleição de um deputado no Algarve é legítima, mas sabe-me a pouco.

          • Vasco diz:

            Não é «esfuziante contentamento», é a satisfação de ter feito uma campanha ímpar, assente no contacto directo e no esclarecimento, e de, contra ventos e marés, ter consolidado o resultado eleitoral, para não falar das portas que abriu para o futuro reforço da organização partidária e da luta de massas.

  10. Pedro Pousada diz:

    Um marxista consideraria que a luta tem que ser feita mesmo sem a garantia de sucesso, e, agora é a minha percepção política, mesmo as derrotas são vitórias a longo prazo (vê o que aprenderam os Bolcheviques com a derrota da Comuna de Paris).

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Pedro,
      A luta é feita para vencer. É esse o objectivo de um marxista. Lembra-te da hipercitada 11ª Teses sobre Feurbach: Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.
      Essa fantástica ideia que há sempre uma conjuntura que impede completamente uma acção, ou uma fase de refluxo, que faz que devamos estar paradinhos à espera da onda, é pouco marxista. Aprender com os erros da Comuna foi um bom princípio, o diabo é quando alguns não põem nunca a hipótese de terem cometido erros, pelo menos mais recentes que a Comuna de Paris.

      • Vasco diz:

        Não é à espera da onda, Nuno, é resistir, lutar, acumular forças para depois avançar. No PCP, pelo menos, não esperamos por nenhuma onda. Procuramos criá-la. Agora que existem momentos de refluxo ninguém poderá negar…

  11. Pedro diz:

    Também não me agrada nada particularmente a queda do BE. Se não pela indefinição dos seus dirigentes, previsível, sobretudo pela sua base eleitoral que antes de amadurecer o verdadeiro conceito da luta se vê agora em plena desilusão. Augurando, algo que para mim é o mais infeliz desta estória, um não regresso à cultura dos valores de esquerda da parte destes eleitores. Perder-se-ão temporáriamente pelo PS? Irremediávelmente pelo PSD? Definitivamente pelo CDS? Duvidosamente pela CDU (o menos provável)?

    Parece-me ao mesmo tempo que a desilusão resultante destas eleições (vísivel nalguns comentários) assenta num grande irrealismo. Em termos práticos, parlamentares, melhor do que qualquer estabilização dos eleitorados da CDU e BE ou até mesmo um reforço significativo dos mesmos, ainda que algo significante, de nada serve no contexto em que o que se avizinha são alterações Constitucionais. Imaginar uma eventual obtenção de 1/3 dos deputados (entre CDU e BE) como resultado destas eleições para constituir travão à ofensiva de direita, seria totalmente absurdo.

    Resta-nos óbviamente, como também foi dito, a luta social, lá onde ela tem que ser feita, lá onde os eleitores se tranformam em sujeitos não meros observadores.

    Sem dúvida que tempos difíceis se vão agravar. Mas isto já era completamente verdade antes das eleições. A realidade contudo aproxima-se, os mitos vão caindo, as consciencias levantam-se e cada vez mais na rua!

  12. Pedro Pousada diz:

    Nuno o refluxo já dura há vinte anos e as derrotas (para a humanidade em geral) tem sido tantas; não é de considerar e de saudar o facto do PCP e dos seus aliados se manterem intactos como expressiva força eleitoral, como organização política de massas fundamental, insubstituível para a luta dos trabalhadores?

  13. Joao diz:

    Como querem que se vote BE numa altura em que é preciso soluções?

    A conversa de renegociação da dívida é do mais correcto que há, e devia tudo estar de acordo, mas é metade da conversa.

    Uma renegociação implicava a impossibilidade de lançar nova dívida. E isso implicava um orçamento de défice zero já este ano. Qual a solução para conseguir isso? Não posso dizer que vou gastar metade (ou menos ~8% no caso do estado) sem perceber onde…

    Não sou o único a fazer estas perguntas, e creio que muitos eleitores que antes votaram no BE tb acharam que falta a resposta à segunda parte do que seria a solução (que em média serão mais do que eleitores de impulso, e mais informados que a média nacional)

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  16. ss diz:

    “a satisfação de ter feito uma campanha ímpar, assente no contacto directo e no esclarecimento” – o camarada deve ser de Bragança porque no Algarve pouco se viu disso. Continuar a fingir que tudo está bem não dará bom resultado. Ainda por cima a CDU só elegeu no Algarve aumentou 1 deputado no circulo eleitoral (em troca por Coimbra) e porque o PS caiu a pique para 23% em lugar dos 28% nacionais. Numa situação normal e com o mesmo número de deputados a eleger nem CDU nem BE elegiam pelo Algarve

    • Vasco diz:

      Não é verdade, ss. A CDU elegeria pelo Algarve mesmo que o círculo não tivesse ganho um deputado. Ao contrário do BE que perderia (mais) um deputado.

  17. nel diz:

    porque é a malta que critica o daniel oliveira por escrever para o balsemão, não faz o mesmo em relação ao ruben? gostava de saber, nuno, carlos vidal e renato.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      nel, não posso comentar uma coisa que nunca critiquei. Até pq fui durante sete anos jornalista da SIC.

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