Bloco de Esquerda, resultado previsível, meter a cabeça na areia como a avestruz não resultou…

Os resultados do BE não foram se não previsíveis. E sobre as superficialidades ditas por Daniel Oliveira já o Nuno falou, não passam de argumentos fáceis que mimetizam os cronistas do regime para orientar o Bloco para onde ele o sempre quis, uma espécie de consciência moral do PS, patético. Mas tem razão numa coisa é de facto necessário discutirmos bem o rumo que o Bloco tem tomado.

Em 2009 após as eleições autárquicas escrevi este balanço sobre o percurso do Bloco até à data. Não será perfeito, mas até tem alguns detalhes e creio ser um bom contributo para uma discussão séria. Aliás de 2009 para cá os sintomas de esquizofrenia e a desorientação estratégica só se agudizaram, num dia apoia-se Alegre e fazem-se acordos com Sá Fernandes, no outro apresentam-se moções de censura (mas ok é só pa alguns votarem…)… não dá… é necessário o mínimo de consistência. É muito difícil comer o bolo e ficar com ele.

Este é o momento em que a discussão que deveria ter sido feita em 2006!!!!!!! Em 2006!!!! terá de ser feita. Logo após as autárquicas já seria tarde de mais, mas enfim… antes das presidenciais ainda houve uma oportunidade. Não aconteceu assim. Este é o momento e neste momento é preciso definição: É preciso saber se o Bloco é pa ser um apêndice do PS que eventualmente nele se irá dissolver, como defende o Daniel Oliveira, ou se será uma força radical na procura de soluções para a crise, polarizadora do movimento popular e portadora de um projecto de mudança de regime. É preciso saber se o Bloco vai ser uma força que se dedica à promoção de cromos da academia, ou se será o porta voz das mais combativas organizações sociais. É preciso saber se o Bloco é uma organização que pretende ser um catalisador da luta social, ou se pretende organizar colóquios acerca dela. É preciso saber se será uma organização que se pretende de massas e enraizada na sociedade, ou uma espécie de fórum de personalidades com alguns funcionários pa tarefas administrativas. É preciso saber se no centro das suas preocupações estará a dinamização da luta popular com o objectivo de preparar uma sublevação popular que derrube o regime (em última análise é a única saída possível pá crise e não tou a dizer que vai acontecer amanhã, mas que é o horizonte onde temos de chegar), ou se pretendemos ir de jogada táctica em jogada táctica até a um beco sem saída. É preciso saber se o Bloco segue uma política de auto determinação para o povo português, ou se prossegue a sua política de adoração da vaca sagrada do Euro, o que dirá quando a Grécia for escorraçada do Euro? É preciso saber qual o balanço do apoio ao candidato do governo Sócrates nas Presidenciais. É preciso uma convenção extraordinária! E sobretudo porque é preciso uma reflexão profunda acerca dos tempos que vivemos, bem distantes do final dos anos 90, porque foi no outono dessa golden age portuguesa que se fundou o BE, e agora na aurora da segunda década do século XXI a realidade circundante é muito diferente.

Neste momento o silêncio é ele próprio uma resposta. Este é o momento de discutirmos estas e outras questões.  A continuação da esquizofrenia atingiu os seus limites e acho que muita gente que estava ou paralisada ou “enfeitiçada” com este abanão à de ter acordado.

Deixo-vos com a conclusão final do meu texto de 2009…

Sem isso o Bloco caminhará para derrotas bem piores que as autárquicas, que originarão um período de guerra civil interna, provavelmente seguido da desintegração a prazo do Bloco, a não se desintegrar será o “Direitismo” que prevalecerá no confronto e a dominar o BE… o que a prazo conduzirá à sua dissolução no PS.

Qualquer destes futuros terá trágicas consequências nos destinos do país…

Pá não resisti à canção, apropriada sobretudo pelo título, é que quem tivesse ido à última convenção (a três semanas destas eleições!!) julgaria que o Bloco era um partido em franca expansão, o Fazenda, o mesmo da prodigiosa fantasia, até disse que o Bloco teria um “resultado histórico”, mas toda a direcção e apaniguados juntou-se ao coro do “somos grandes/ estamos  crescer/ somos muito bons” pa ultrapassar qualquer discordância ou discussão mais profunda. Tou pa ver se vêm com essa conversa pás próximas assembleias.

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16 Respostas a Bloco de Esquerda, resultado previsível, meter a cabeça na areia como a avestruz não resultou…

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  2. Rocha diz:

    Meu caro amigo Francisco, sinceramente o que eu vejo no Bloco é uma ala direita a fortalecer-se e a preparar-se para arranjar bodes expiatórios à esquerda – talvez o Gil Garcia – para os resultados ruinosos da política de aproximação ao PS. Ao que parece o Daniel Oliveira está mais perto de conseguir o que quer do que o Gil Garcia. Se a malta não abrir os olhos que a corrente manifesto quer o mesmo que o Daniel Oliveira…

    Chamo a atenção para este manifesto publicado no 5 dias (em que tenho sido alvo de ofensas por dizer a verdade):
    http://5dias.net/2011/06/02/65131/

    Este Manifesto é uma ardilosa tentativa da ala direita do Bloco no movimento sindical (Chora e companhia) de com palavras bonitas juntar-se à corrente socialista da CGTP (Carlos Trindade e companhia) e aos “renovadores” (euro)comunistas (estes dois últimos, xuxas e renovas, ambos correias de transmissão do PS).

    Mas antes de mais é uma tentativa de recuperar protagonismo daqueles que apoiaram o agora defunto governo Sócrates – relembro que Chora elogiou destravadamente o Manuel Pinho (um dos ministros mais reaccionários), o Carlos Trindade é aquele que se espumou nos comícios a apoiar o Zé Sócras (lembram-se de Ricardo Araújo Pereira a imitá-lo? “eu quero enxotar… todos os camaradas a votar Zé Sócras”).

  3. B Aranda diz:

    Eu gosto bastante do teu post e das questões que levantas. Mas parece-me – por falar em superficialidades (1º parágrafo) – que te enganas ao dizeres que o Daniel Oliveira deseja um Bloco diluído no PS.

    Parece-me mais é que na nossa área, especialmente nos últimos anos, infelizmente, talvez já no tal espírito da “guerra civil interna” de que falas, se confunde a defesa – que a mim me parece justíssima – de dinâmicas de diálogo e de convergência de forças à esquerda (partidárias e não partidárias, já agora), com espírito unitário e sem obsessões de colonização ou apropriação política, com “traição”, com a “diluição do partido no PS”, “querer ir para o governo a qualquer preço” e outras coisas que tais… E essa também é uma forma de meter a cabeça na areia.

    • Rocha diz:

      Ou seja gostou de tudo no post menos o essencial. Se o Daniel Oliveira tem uma qualidade face a outros direitistas do Bloco, é que pelo menos é mais sincero: quer atrelar o BE ao PS sim senhor.

      • B Aranda diz:

        Ai aquilo era o essencial?

        O Francisco Furtado escreve um extenso post, com vários links, e o que achas verdadeiramente essencial é o ataque a um militante do partido com base num juízo de intenção. Tá bonita a guerra civil, tá…

        (Já agora, adorei este grande “clássico” : No mesmo comentário em que Rocha calunia Daniel Oliveira, António Chora, toda a corrente Manifesto do Bloco de Esquerda e todos os Renovadores Comunistas, afirma-se ofendido noutro post “só por dizer a verdade”. Fui ver e trata-se de um post em que Rocha chama de “amarelos” todos os signatários do “manifesto por uma nova agenda sindical”)

  4. Fernando Pereira diz:

    Francisco, estou enganado ou tu eras um dos que defendia acerrimamente a tentativa de sedução da Helena Roseta aquando do acordo com o Sá Fernandes?

    É que isto das estratégias não ganha sempre, mas daí a dizer-se, no fim do jogo, que não resultou bem e era previsível… faz lembrar um pouco aqueles treinadores de bancada que falam no fim do jogo não é?

    E já agora, qual é mesmo a tua visão sobre a política do BE? Para onde achas que deve ir?

  5. Oscar diz:

    Já Ana Gomes está a querer que se tire a cabeça da areia. Seguindo o pensamento desta esquerdista proponho uma COMISSÃO PARLAMENTAR VERDADE E RECONCILIAÇÃO

    http://supraciliar.blogspot.com/2011/06/ana-gomes-parecer-querer-reabrir-o.html

  6. Augusto diz:

    Erro, foi terem feito uma reunião com o PCP a poucos dias das eleições, sem que o eleitorado tivesse percebido a sua utilidade.

    O PCP não queria nenhuma aliança com o BE, o Jerónimo já tinha sido claro.

    Então porquê insistir em algo que como se viu não tinha nenhuma saida, e só lançou falsas esperanças no eleitorado de esquerda.

  7. Chalana diz:

    Oh Augusto:

    Erro foi terem andado 2/3 anos em reuniões com o PS: CML, Presidenciais e eleições sindicais. Fizeram a tal reunião apenas para calar vozes críticas como as do Francisco. Veja quem queira…

  8. Toni diz:

    Xico, pá! Deixa-te dessas coisas. Este ano estamos a contar contigo pra Trás-os-Montes!

    • Rocha diz:

      Chalana e Toni, são tão cromos que não repararam o que eu escrevi acima. Não repararam que eu vos dei lenha? É sobre uns tais de Chora, C. Trindade e “renovas”…

  9. Vasco diz:

    Andam de mãos dadas com o partido do Governo e depois, de quem é a culpa? Da reunião com os comunas, esses tipos tão detestáveis que reforçaram a sua representação parlamentar e são eleitos pelos trabalhadores para seus representantes em grande parte dos sindicatos e empresas…

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