Pela primeira vez

Sócrates foi de férias gozar as mais-valias que angariou à custa da nossa bancarrota e Passos Coelho prepara os bolsos e os boys para o render da guarda. Os milhões com que a troika quer agravar a dependência e impor a austeridade serão divididos pela coutada que em tempos saciou Barroso, Santana e o reincidente Portas. O novo governo vai ser liderado por um partido que conseguiu pouco mais que dois milhões de votos e terá como segunda força política um partido que obteve apenas 11,7% dos 58,9% de eleitores que ainda não desistiram de ir às urnas. Esta minoria absoluta que nos irá governar deve continuar a contar com toda a resistência, mas não deve voltar a acreditar que PS algum pode fazer parte da solução que a esquerda necessita para voltar a sair da marginalidade.

Estou longe de achar que a CDU represente a saída necessária para a recomposição da esquerda. De resto é a CDU que não se cansa de lembrar essa impossibilidade. Sei também que a sua trajectória internacional é responsável pelo atraso no projecto de construção socialista, nomeadamente na troca do sonho do Estado do Povo pelo pragmatismo irresponsável do capitalismo de Estado. Não ignoro naturalmente o pesadelo estalinista, responsável entre outras coisas pelo assassinato de centenas de militantes revolucionários. Ainda assim e claramente por defeito, a CDU constituiu o voto mais útil contra a troika e o campo que mais condições tem para evitar que o novo governo PSD-PP nos atormente durante quatro anos. Não tenho ilusões e serei tão exigente com os deputados da CDU como sempre fui face aos deputados que ajudei a eleger no BE. Serei o primeiro a não ceder ao sectarismo na hora de lutar contra o Seguro, o Coelho ou o Portas, mas não deixarei de denunciar os 16 deputados que elegi caso o caminho seja o da conciliação, o da gestão da miséria e o da perpétuação do status quo que nem sempre desagrada aos companheiros da Soeiro Pereira Gomes.

Pela primeira vez não votei no Bloco de Esquerda numas eleições legislativas. Aliás, é a primeira vez que votei num partido diferente do Bloco de Esquerda, uma vez que nasci para a política na data de nascimento deste partido e até ontem ele sempre me pareceu o melhor quadrado para depositar alguma esperança. A mudança do meu sentido de voto não se deveu somente aos erros tácticos do BE, das Moções de Censura que não queriam na verdade censurar à degradação da sua vivacidade e democracia interna. A grande opção estratégica do BE fere os princípios que lhe havia dado razão de ser. O apoio ao contributo nacional para o resgate financeiro da Grécia, a sua posição face ao conflito na Líbia que o levou a não participar, também aqui pela primeira vez, nas mobilizações contra a guerra, e por fim o famigerado apoio ao candidato do Sócrates para a presidência da República, são mais do que simples erros de cálculo político e confirmaram a estratégia de aproximação ao PS iniciada desde a candidatura de José Sá Fernandes para a Câmara Municipal de Lisboa. Se para outra coisa não servir, o lamentável resultado do BE é a prova cabal que o caminho da esquerda não pode ser feita rumo aos maiores coveiros do seu programa político: o Partido Socialista. A direcção do BE foi pulverizada e os deputados eleitos permeiam paradoxalmente os dirigentes que arquitectaram as razões profundas do castigo que os eleitores de esquerda deram à perversão dos motivos que fizeram o BE crescer. Ao perder metade dos seus deputados, ao ver Francisco Louçã dar os parabéns a Passos Coelho e ao constatar que metade do seu grupo parlamentar é afecto à sua ala social-democrata, não se vislumbra que algo vá mudar neste campo político. A conclusão necessária, de que é em direcção à esquerda e aos abstencionistas que se deve caminhar e que o PS deve ser tomado como um dos partidos de direita que governa este país há 35 anos, continuará na gaveta pelo que o Bloco, ou pelo menos a parte que se limita a cumprir a agenda da sua direcção, continuará a fazer falta à trincheira da resistência anti-capitalista.

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58 respostas a Pela primeira vez

  1. Miguel Franco diz:

    a votar no nacionalismo renato!!!! shame!!!lol… eu ca votei numa candidata do BE q nunca tinha ouvido falar na vida, e imagino q o circulo europeu n faça grandes comicios.
    E luta continua e encontramo-nos tod@s nessas ruas fora

    • Renato Teixeira diz:

      Não consegui votar no internacionalismo monetário. 😉 É desta que abandonam de vez a esperança no PS?

      • Miguel Franco diz:

        é um bocado forçado dizer que o BE estava com o IMF. por dizer que deveria renegociar?(e sabes que eu defendo uma auditoria e que toda a divida n justa n deve ser paga)
        A cdu nunca assumiu o nao á divida! quanto à esperança PS espero q o alegre presidencial tenha tratado disso! eu nao consigo votar em partidos que defendem a china e o regime cubano entre outros, lol! seja como for, foi mais um voto contra a troika que um voto convicto!

        • Renato Teixeira diz:

          O PCP defende, mal e como o BE, a renegociação da dívida, deixando cair outra saída mais interessante que seria a da suspensão do pagamento de uma dívida odiosa. Quando falo do apoio ao resgate falo do caso grego onde o BE, aqui ao contrário do PCP, votou favoravelmente a que os nossos impostos acabassem no pacote que reforçou o colonialismo financeiro naquele país.

  2. Antonino da Silva diz:

    Acha que alguém tinha dúvidas de que não ia votar no Bloco depois de andar em campanha contra tudo o que o Bloco fazia? Sinceramente. Pelo menos foi na CDU, que é um partido (ou dois) que é importante que cresça. Aliás eu até achava que ias meter um quadradinho no boletim de voto e que ias votar na Revista Rubra. Até estou mais descansado em que não desperdiçaste o voto. Saúde ao que resta da esquerda neste quadro dos próximos 4 anos.

    • Renato Teixeira diz:

      Não abri a boca sobre o BE durante toda a campanha eleitoral. Entendi, de resto como a Rubra, que devíamos apoiar qualquer voto que fosse contra a troika do PS, PSD e do CDS. Não deixo contudo de ver o enorme apreço que tem pela Rubra mas a queda do BE é capaz de não ser da sua responsabilidade. A esquerda que sobra tem que pensar como se quer reconstruir.

  3. Antonino da Silva diz:

    A boa esquerda patriótica é melhor do que a direita patriótica. É difícil de ler igual, mas é melhor.

  4. Gentleman diz:

    Factos:
    – 78.5% dos eleitores votaram a favor das medidas da troika.
    – A Esquerda radical (CDU e BE) ofereceu de bandeja à Direita uma maioria parlamentar.
    – As crises económicas são períodos propícios para a Esquerda radical tirar máximo partido do sentimento anti-capitalista latente. Então, como se explica que, ao invés, de crescer, a representação parlamentar da Esquerda radical diminua? Se nem em períodos como este, de crise aguda, a Esquerda radical consegue passar a sua mensagem, que ilusões pode alimentar face ao seu futuro?

    O ano de 2011, que começou por ser marcado pela vitória do candidato presidencial da Direita na primeira volta das eleições e agora pela maioria absoluta da Direita na assembleia representa, não só um acontecimento histórico inédito na 3ª República, como marca o início da década da Direita em Portugal. Só falta agora os dois terços na Assembleia para começar a mexidas na Constituição.

    • Renato Teixeira diz:

      É fácil. A esquerda radical não foi capaz de ir à raiz dos problemas e confiou boa parte da sua estratégia na tentativa de influenciar Sócrates mais do que o derrubar.
      Vejo que já se namora o PS para os dois terços que permitem a revisão da Constituição se formarem, mas não se esqueça que mais do que esses dois terços terão que evitar o levantamento social que também se adivinha. A década ainda não foi entregue à direita meu caro, que lamentavelmente continua no governo.

      • Carlos Carapeto diz:

        Eles já estão a mostrar as garras. Esperem.
        Essa esquerda que nem é radical, que se digna defender os direitos dos trabalhadores, se não consegue convencer o eleitorado, porque é afastada dos órgãos de informação burguesa.

        Um “cavalheiro” de nome James Shea porta voz da NATO costumava dizer que “A opinião publica? Isso trabalha-se, manobra-se”.

      • Gentleman diz:

        Compreendo que vocês tenham sonhos molhados com “levantamentos sociais”. Mas 78.5% dos eleitores aprovaram o plano da Troika. E quantos aos restantes 21.5%, o novo governo de Direita não parece ser do tipo de se assustar facilmente com “levantamentos sociais”.

        • Gualter diz:

          Desculpe Gentleman, mas os seus cálculos estão errados. A não ser que se refira a 78,5% das pessoas que se deslocaram às urnas por acharem que o seu voto iria mudar o rumo das coisas, ou acelerar o rumo que foi propagandeado em toda a comunicação social como o único.

          Os únicos governos que conheço que não se assustam facilmente com “levantamentos sociais” ou têm o epíteto de fascistas ou de ditaduras. Ah, pois, esqueci-me que já vivemos numa, na ditadura instaurada pela monocultura do pensamento, da TINA, da finança, do marketing eleitoral.

    • Mike diz:

      Levas-te uma abada que nem a manela levou… e vens dar conselhos a quem combate diariamente e nos mais variados sitios a politica do capital…

      Ó pá!!! cala-te, pelo menos durante uma semana…

      Faz como o querido lider e vai tomar conta da familia…

      E por falar dos dois terços… vê lá se és tu que os vais perfazer… Até aposto… Mas não, não porque tu e o querido lider é que são de esquerda… Contra os trabalhadores, nunca…

      Cala-te pá!!! Já chega de seis anos de mentiras e roubos… Devias era ser julgado por cumplicidade…

  5. Renato Teixeira diz:

    Daniel Oliveira continua a não querer ver e acha que o problema da derrota do BE foi o ter feito caminho à esquerda?!?!? Pergunto-me claro, se essa caminho feito para a esquerda teve como cereja no topo do bolo o apoio a Alegre ou as tintas trocadas em matéria de política internacional…: http://arrastao.org/2275489.html

    • Helena Borges diz:

      Para o Daniel Oliveira, o aval à dívida grega, a posição duvidosa quanto à intervenção da NATO na Líbia e o apoio ao outro que diz que “não há soluções de esquerda sem o PS” não são ziguezagues à direita quanto baste, quer mais.

      (Os deputados da CDU estão tramados, não há-de ser fácil terem um Renato Teixeira à perna.)

      • Renato Teixeira diz:

        O Daniel molda a realidade aos seus desejos, é mestre nisso, mas desta vez o cinismo foi longe demais especialmente porque ele defendeu cada uma das grandes opções estratégicas do BE, especialmente aquelas que mais afastaram o BE da sua “natural base de apoio”. Ele quer à força que essa base seja a do PS não querendo ver o que se tornou demasiado evidente.

        • Helena Borges diz:

          Chama-lhe lorpa! O Alegre ensinou-lhe que não há almoços grátis.

        • Helena Borges diz:

          E, sim, o BE tem de reflectir muito sobre o seu resultado, sem subterfúgios como “a derrota de toda a esquerda”. A autocrítica faz-lhes falta, muita.

          • Renato Teixeira diz:

            Essa nem é a pior. A que me parte a rir é ainda alimentarem a fantasia de que foram castigados pela táctica e não pela estratégia. O BE nasceu para ser contrapoder e só faz sentido como contra poder. A sua adaptação ao quadro institucional é a sua via rápida para o exílio.

      • armenio diz:

        o povo quer la saber de avales à divida grega e a posiçao anti-nato.
        oh meu deus, voces do be e do pcp n tem limites.

    • Mike diz:

      E o Zé!!!
      O zé que faz falta!!!!

    • Rocha diz:

      Escrevi isto no Blog “Vias de Facto”, escusado será dizer que estive a pregar no deserto:

      «E como sempre, como é tendência deste Blog, o desaire do Bloco vai ser culpado do pouco de esquerda que ainda resta, das suas aproximações com o PCP, das suas propostas mais marxistas como nacionalizações.

      Miguel Portas e a corrente manifesto vão conseguir afirmar que o problema foi insuficiente alegrismo, insuficiente aprovação do emprestimo do FMI à Grécia, insuficiente ambiguidade que dá lugar à No-Fly-Zone dando lugar às bombas da NATO, insuficiente sindicalismo amarelo à António Chora que chorar a demissão do “amigo” ex-ministro Manuel Pinho (o tal que diz aos chineses que os portugueses se vendem barato), insuficientes apelos à fantasmagórica “ala esquerda do PS”, vem aí o Sócratismo sem Sócrates, a direita do Bloco pode abrir correr para os braços do seu amado PS…

      Vão conseguir negar que foram as cedência à direita que levaram o Bloco e este brutal desaire eleitoral, vão negar que quando o Bloco se cola ao PS o povo prefere o original à cópia, vão usar muito palavreado sem reconhecer o caminho que o Bloco tem feito em direcção à social-democracia e vão continuar a levar o Bloco mais para a direita em direcção ao desastre.

      Podem não acreditar no que digo, mas… tenho pena. Tenho amigos que estão a ser enganados.»

  6. Tomás Guevara diz:

    A história ainda está por contar.Com a consciência plena de quem são os inúmeros actores desta tragédia portuguesa desde barroso, passos coelho, portas, cavaco, sócrates, só para citar os nomes mais sonantes dos que assumiram a capitulação perante a troika e os seus interesses, pode-se dizer que a luta é para continuar. Mais firme e com maior convicção.Porque se os tempos vindouros serão difíceis e tenebrosos,há muitas coisas porque vale a pena lutar e não são os votos conjunturais que vão impedir que o façamos. Portugal está acima de qualquer “internacionalismo monetário” .Acima de barroso,de coelho,de portas,de sócrates ou de cavaco…acima de merkel,cameron,sarkozy ou quejandos.Independentemente do controlo mediático feroz E podem crer que por causas justas,por quem trabalha,por quem faz do seu quotidiano a luta incessante do seu ganha-pão,muito mais gente se irá mobilizar.Mais do que barroso,passos,portas e os mais que houver possam algum dia sonhar.E há no meio de tudo isto alguns dados curiosos.O primeiro é que a direita que detém a maioria absoluta no parlamento não a tem na população do país.Façam as contas e logo percebem que ainda há muito por onde caminhar.Por outro é de certa forma um consolo verificar que as políticas de direita vão ser assumidas como tal pelos partidos da direita ,sem que as assaquem à esquerda ou ao “socialismo”graças a esta vergonhosa governação do PS que durante os seus consulados governou à direita,com a direita e para a direita.A hora não é de desânimo mas sim de firmeza.E todos seremos precisos, independentemente do que votámos (ou não) a 5 de Junho.

  7. Rui F diz:

    Nada está perdido.
    Afinal hoje é o primeiro dia…
    Particularmente congratulo-me por o PCP não ter subido à conta da perda do BE e nem provavelmente o que restar do BE votará PC.

  8. Augusto diz:

    O Renato Teixeira tirou um Coelho da cartola.

    Criticou tudo aquilo que o BE foi propondo, e agora de maneira hipócrita diz-nos que depois de ponderar, votou CDU.

    Pois eu votei Bloco de Esquerda, e acho que TODA a esquerda tem que reflectir , nos resultados.

    A direita, está em maioria na Assembleia da Republica, pode voltar a propôr um referendo sobre o IGV., pode revogar algumas das leis mais progressistas, que foram aprovadas nestes ultimos anos.

    Pode propôr o famoso cheque de ensino, que a médio prazo destruirá o ensino publico, já tem istrumentos para despedir sem justa causa, pode acabar com o RSI, pode aumentar para valores incomportáveis para os mais pobres os cuidados de saude, pode aprovar novas leis do arrendamento que podem permitir o despejo de milhares de reformados.

    A esquerda vai ter de se mobilizar para responder a este ataque da direita.

    Quanto ao resto.

    Francisco Louça
    Ana Drago
    Luis Fazenda
    Mariana Aiveca
    Cecilia Honório
    João Semedo
    Catarina Martins
    Pedro Soares

    Foi os que restaram, espero que estejam á altura das enormes responsabilidades que os esperam.

    • Renato Teixeira diz:

      O seu a seu dono. Antes hipócrita que cínico.

      • José diz:

        “O seu a seu dono. Antes hipócrita que cínico.”

        Sério??

        Significado de Cínico

        adj. e s.m. Diz-se de filósofos antigos (como Diógenes) que professavam uma moral ascética e um desdém absoluto das conveniências sociais.
        Impudente, inconveniente, descarado: linguagem cínica.

        Significado de Hipócrita

        adj. e s.m. e s.f. Que tem hipocrisia.
        Que denota hipocrisia; falso; fingido: um ar hipócrita.

      • armenio diz:

        a nova do renato é q n andou sistematicamente a criticar o be. vem para aqui para o 5 dias dizer. eu q até pensava votar be. o giro é q votou em alguem. pensava q so ia votar na mesa de voto da acampada.

        • Renato Teixeira diz:

          Tenho este defeito. Costumo votar sempre que posso nem que seja para os mandar todos à merda. Basta ver as últimas presidenciais e perceber que nem sempre é útil votar útil.

  9. Gualter diz:

    Enquanto a esquerda portuguesa continuar fixada na lógica do crescimento económico para a geração de emprego, não se liberta das correntes da ditadura financeira internacional. A esquerda deve repensar as suas teorias económicas, criando propostas verdadeiramente radicais, capazes de romper com a lógica de funcionamento do capitalismo e, em particular, do neoliberalismo e da bolha da dívida.

    Enquanto isso não acontecer, o que a esquerda defende, é pura demagogia. Não pagar a dívida, implica reduzir a capacidade de atrair investimento externo e, como tal, torna praticamente impossível um crescimento económico que assente numa lógica produtivista.

    O governo PSD-CDS vai certamente agradar aos investidores externos. É provável que, no curto prazo, as privatizações de todo o bem público venham a trazer uma redução da dívida e algum crescimento económico. Totalmente insustentável, claro está. Uma hipoteca das gerações futuras, um acto de puro egoísmo intergeracional.

    À luta de classes, junta-se agora a luta de gerações. Não no sentido de culpar os velhos pensionistas, os avós, os pais. A culpa não deve, não pode recair no indivíduo, mas sim num sistema que cresceu e proliferou à conta de uma depleção predatório dos recursos energéticos e materiais da biosfera, para alimentar o crescimento de alguns e sustentar as estruturas de pacificação social (rendimento mínimo, segurança social, etc.) e a criação de uma classe média alargada, capaz de estabilizar os regimes supostamente democráticos das sociedades ocidentais.

    A luta que se segue já não será apenas entre as classes oprimidas e a burguesia actual. Será também entre as gerações que querem manter os modelos sociais construídos em tempos de abundância e as gerações que não querem perder o pouco que lhes resta para manter os níveis de sobreconsumo, não só da burguesia, como de toda a classe média.

    A esquerda precisa, por isso, de repensar os seus paradigmas, se quer manter um estado social – ou outras estruturas de justiça social – suficientemente autónomo da finança internacional e sustentável no longo prazo.

    • Renato Teixeira diz:

      Que se repensem todos os paradigmas, claro, mas enquanto não inventarem outra forma de sobrevivência que não se deixe de reivindicar o direito ao trabalho condigo e o debate face à produção. Mais do que decrescimento o que faz falta é uma melhor redistribuição. Enquanto houver quem não tenha o frigorífico cheio qualquer nova concepção não só é inconsequente como perigosa. Abraço. Tens feito falta no Rossio. 😉

      • Gualter diz:

        Renato, se leres algumas coisas minimamente detalhadas sobre o decrescimento verás que se preocupa mais com a questão da redistribuição do que propriamente com a ideia de qualquer simplicidade voluntária ou anti-consumismo só porque se acha que deve ser. A questão central é que não é possível – materialmente, fisicamente – encher o frigorífico de boa parte da Humanidade enquanto outra parte se apropria de todos os mantimentos que há disponíveis para o encher.

        O decrescimento não é oposto do socialismo. Aliás, o decrescimento surge em primeiro lugar pela mão de um economista, Nicholas Georgescu-Roegen, que estava bastante próximo do pensamento Narodnik.

        A centralidade da questão distributiva no debate do decrescimento está aliás bem patente na declaração da conferência de Barcelona:
        «So-called anti-crisis measures that seek to boost economic growth will worsen inequalities and environmental conditions in the long-run. The illusion of a “debt-fuelled growth”, i.e. Forcing the economy to grow in order to pay debt, will end in social disaster, passing on economic and ecological debts to future generations and to the poor. A process of degrowth of the world economy is inevitable and will ultimately benefit the environment, but the challenge is how to manage the process so that it is socially equitable at national and global scales. This is the challenge of the Degrowth movement, originating in rich countries in Europe and elsewhere, where the change must start from. » (http://degrowthpedia.org/index.php?title=Declaration_Barcelona_2010)

        Em resumo, só será possível encher o frigorífico de muito boa gente quando se tiver a noção dos limites biofísicos da economia e que a redistribuição não se faz com crescimento económico mas, precisamente, com o decrescimento que permite abrir espaço e territórios para a emancipação das classes oprimidas.

        • Renato Teixeira diz:

          Conheço pouco Gualter, mas a ser verdade o que dizes está aí um bom debate que fica para fazer em futuras caminhadas. Acho que no entanto muita gente faz essa confusão, para a qual o nome em muito contribui, de que se prioriza o combate à produção em detrimento da batalha pela redistribuição. Sabemos hoje, contributo do velho Marx, que a população mundial, mesmo tendo em conta a sua impressionante demografia, produz perto do que é necessário para que não houvesse vivalma abaixo do limiar dos limites condignos da nutrição. Por isso mesmo acho que o marxismo mais ortodoxo deve considerar o debate da produção com outros olhos, mas como te disse sem perder de vista a questão da propriedade da produção existente.

          • Gualter diz:

            Renato, Marx escreveu no final do século XIX, em pleno período de abundância energética. O problema de Marx é que morreu demasiado cedo, senão tinha certamente integrado os comentários que o economista agrícola Sergeii Podolinsky (um marxista convicto) lhe enviou sobre as componentes energéticas do trabalho humano. Marx morreu um ano depois de ter recebido a carta de Podolinsky e os historiadores dividem-se quanto à real incorporação das ideias de Podolinsky na teoria marxista. Mas parece claro que Engels – sempre menos sonhador e aberto a novas ideias emergentes nos domínios das ciências – rejeitou claramente estas teorias.

            E assim tivemos e temos a maioria das correntes socialistas e comunistas fixadas numa lógica industrialista e produtivista que não olha às leis da termodinâmica. Isso funciona relativamente bem em tempos de abundância, mas bastante mal em tempos de escassez de recursos.

      • Gualter diz:

        Quanto ao Rossio… o Rossio está em todo o lado e eu continuo no Rossio 😉

    • José diz:

      “O governo PSD-CDS vai certamente agradar aos investidores externos. É provável que, no curto prazo, as privatizações de todo o bem público venham a trazer uma redução da dívida e algum crescimento económico. Totalmente insustentável, claro está”

      Porquê?

      • subcarvalho diz:

        “Mandato forte” do centro-direita “bem visto” por credores internacionais
        http://www.jn.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1871560

      • Gualter diz:

        Porque é que agrada aos investidores externos, porque é que privatizar traz redução da dívida e crescimento económico, ou porque é que é insustentável?

        A primeira já foi respondida pelo subcarvalho.

        A segunda porque o PIB mede todos os fluxos monetários e, como tal, possuir X vale geralmente menos para o crescimento económico e o PIB num dado momento (vale apenas o que pode gerar como valor acrescentado num ano) do que vender X (normalmente o valor de algo é várias vezes superior ao valor acrescentado gerado num ano).

        A terceira porque ao privatizar X, esse X deixa de transferir o valor de produção para o Estado, para o público (a não uma parcela através dos impostos). Isso é tanto mais preocupante quando o que privatiza melhor é o que dá lucro ou tem expectativas de o dar. O que não dá, não interessa a ninguém. O Estado fica com que não é rentável e vende o que é rentável. Ganham as gerações actuais, pelo menos nos próximos pares de anos, perde o futuro, que parte de uma situação de menor capital.

    • armenio diz:

      sim sim. vamos montar todos montar tendas e viver numa enorme economia solidaria, de trocas e tal.

      • Gualter diz:

        Não armenio. É possível o PIB crescer 5% ao ano durante a próxima década, evitando assim que a dívida continue a crescer.

        Não será sustentada pelos combustíveis fósseis, claro, porque a abundância desses já era e Portugal pouco tem deles, por isso não controla os preços dos mercados internacionais (especulativos ou não, pouco importa). Será sustentada por esta grande força de trabalho nacional, pelas crianças que perdem o seu tempo nas escolas, esbanjando tudo o que este país poupa. Os velhotes, reformados, também serão usados para aumentar a produtividade, disponibilizando parte das suas peles e orgãos não funcionais para gerar biogás capaz de alimentar as indústrias.

        Vamos todos trabalhar muito, cada vez mais, para pagar os juros que crescem de dia para dia. Juntos venceremos!

  10. Vanessa diz:

    E eu que pensava que o seu voto fosse no MRPP, ou no Coelho da Madeira e na sua vassoura?

    Afinal a costela reformista do Renato Teixeita acabou por se impôr.

    Votou no PCP , nos Verdes , ou numa coisa chamada ID?

    • Renato Teixeira diz:

      Diz que se chama CDU. Enfim, a Vanessa desmascarou-me. Claramente. Leu o texto ou não passou da ilustração e do título?

  11. Vasco diz:

    Eu, que não nasci para a política com o BE, já antes era militante do Partido Comunista Português, voltei a votar na CDU – não como um «mal menor» mas como a força necessária para uma real alternativa na vida do País. Sem rancores do passado (do qual me orgulho) nem ilusões quanto ao presente. A direita ganhou, mas a direita já estava no poder! Quanto
    à «reconstrução da esquerda», esqueceram-se de uma palavra: «Bloco». Por cá, estamos bem, a crescer (não só nem sobretudo a nível eleitoral, mas de enraizamento na classe operária, nos trabalhadores e na juventude). E continuaremos a crescer! Ah, e bem-vindo, Renato, ao voto nas forças consequentes.

  12. Manuel Monteiro diz:

    Renato
    Há longas eleições que não votava, mas desta vez lá teve que ser. E, como tu, votei CDU.
    Sei que não votei num programa comunista e também sei que os deputados que ajudei a eleger não são revolucionários. Mas o PC é um partido de resistência, embora inconsequente, e nesta altura é necessário cerrar fileiras contra a direita. E depois, é nesse partido que militam uma grande parte dos meus irmãos de classe…

    Manuel Monteiro

  13. Manuel Monteiro diz:

    Quanto ao BE:
    É confrangedor ver o espectáculo dos antigos revolucionários! Por respeito para com muitos dos meus amigos que ainda militam nem digo mais nada…

    Manuel Monteiro

  14. Renato, da minha parte não temo tendências conciliadoras. ou pelo menos, não é assim que vejo o PCP. De resto, o PCP defende a renegociação da dívida em 3 aspectos: montantes, juros e prazos. MONTANTES e JUROS. Ou seja, haverá certamente parte importante dessa dívida que não é para pagar!

    • Renato Teixeira diz:

      O que sobra então aos montantes, juros e prazos? Se uma parte importante não é para pagar porque é que se tem medo de dizer isso frontalmente sem qualquer receio da demagogia dos verdadeiros caloteiros?

      • João Valente Aguiar diz:

        Caro Renato,

        basta pensar no cancelamento dos 12 mil milhões de euros que o Estado português vai pagar à banca nacional ou das privatizações de empresas públicas que vão ser vendidas por tuta e meia para se perceber o volume enormíssimo de dinheiro que não se pagaria aos chamados credores.
        Em princípio, acho que não se deveria pagar absolutamente nada, pois não foram os trabalhadores que contraíram a dívida com a banca nacional e internacional, mas o Estado burguês e a banca nacional. Contudo, importa contextualizar e se, para a grande maioria da população matraqueada com os discursos pró-FMI nos media a dívida deve ser paga, o mesmo não se passa, por exemplo no cheque em branco de 12 mil milhões de euros dados limpinhos à grande banca ou no juro verdadeiramente agiota de quase 6%. E é a partir destas questões que ganhas a população. Agora, esta questão nunca deve perder em mente a necessidade de, assim que possível, mandar a dívida às malvas.

    • Gualter diz:

      E a outra parte, paga-se como, à conta de quem e do quê?

  15. MBO diz:

    Enquanto planeiam mais uma revolução na teoria e prática do campismo em Portugal, recordo-vos com paixão uma palavra importante em circunstâncias mais sérias:

    http://supraciliar.blogspot.com/2011/06/nao-amais-importante-palavra-da-lingua.html

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