A narrativa segue dentro de momentos

Março de 2016 - O recém-empossado Presidente da República, José Sócrates, recebe na audiência semanal da quinta-feira o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, que cumpre a sua segunda Legislatura no comando dos destinos de Portugal


As eleições legislativas de ontem iniciaram um ciclo político novo em Portugal. E ou muito me engano ou todos aqueles que ontem festejaram a derrota de José Sócrates vão ter muito que amargar. A verdade é que tão cedo não nos vamos livrar desta gente.
Passos Coelho vai governar com Maioria Absoluta num momento em que a maioria dos portugueses já está convencida das dificuldades que vai enfrentar. O discurso perante a agitação social já deve estar articulado: a culpa é de Sócrates, que deixou o país na bancarrota; e vão ser necessários alguns sacrifícios para que voltemos a ter dias felizes. Com a máquina do Estado e dos grandes grupos económicos ao seu serviço, a partir de 2014 começarão a ser distribuídas umas côdeas aos portugueses, anunciando-se o fim dos sacrifícios graças à política rigorosa do PSD. Que em 2015 ganha novamente as eleições – e quem sabe se com Maioria Absoluta. Já vimos que os portugueses são capazes de tudo.
Quanto a Sócrates, no discurso da derrota já ensaiou a continuação da narrativa. Um discurso que foi ensaiado ao pormenor para que o autor deixasse de ser visto como o «animal feroz» de antigamente. Agora não: é um ser afável, meigo, simpático, cordial e digno. E logo no momento da maior derrota do PS nos últimos 24 anos! Aposto que nos próximos 2 anos ninguém lhe vai pôr o olho em cima. Em 2013 voltará a aparecer para preparar a candidatura às Presidenciais de 2016. E ganhará, porque em confronto terá um Durão Barroso com o estigma da fuga para Bruxelas em 2004. Sócrates andará durante um ano inteiro (ou alguém por ele) a debitar a cassete da fuga. E o povo, burro como sempre, já não se irá lembrar de tudo o que Sócrates lhe fez ao longo de 6 anos e dar-lhe-á mais 10 anos de poder.
Enquanto isso, a Esquerda irá definhando. Por essa altura, o Bloco já deve ter desaparecido e muitos dos seus elementos estarão integrados no PS. Quanto ao PCP, está visto que a receita certa não é aquela que tem sido seguida. Se num momento de Bancarrota, com um culpado claramente identificado e outros dois coadjuvantes também claramente identificados, não consegue assumir-se como a terceira força política em Portugal, então é porque alguma coisa está mal. O discurso do costume, com as noites eleitorais que são sempre vitoriosas, se calhar precisa de ser revisto. É que, se isso não acontecer, teremos os mesmos de sempre a governar. E quando pensámos que nos livrámos deles, afinal não.
Gostava muito de estar enganado.

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26 respostas a A narrativa segue dentro de momentos

  1. Mike diz:

    Sobre a opinião de que era mais fácil ao PCP neste contexto, remeto-o para um texto do Vitor Dias, porque explica melhor do que eu que isso não é verdade…

    Se acha sinceramente que o socrates virá a ser mais qualquer coisa eleito pelo povo portugues, então acho que não viveu em Portugal nos últimos tempos.

    O tipo teve menos votos do que o santana!!!!!

    28% de indefectíveis, que como se pode ver pelo que disse o amado, só lá estavam porque….

    • Carlos Sousa diz:

      “O tipo teve menos votos do que o santana!!!!!”
      Em contrapartida teve mais votos que o louçã e que o jerónimo juntos…
      Queres ver que o Jerónimo ganhou estas eleições com sete virgula tal porcento??

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Teve menos votos do que o Santana? Isso é agora. Basta pensar no Cavaco. Era detestado quando deixou de ser primeiro-ministro e, ao fim de 10 anos, já era Presidente da República.

      • Mike diz:

        Falso…

        O cavaco perde, após 10 anos de governo com 34% dos votos.
        Nem um ano passado e perde nas presidenciais com 46% dos votos.

        Não percebo como é que se pode comparar as duas coisas…

        Além disso, não acho que 75% dos portugueses pensem no cavaco como ladrão, corrupto, manipulador e mentiroso compulsivo, ao passo que é isso que os portugueses pensam do ingenheiro da treta que nos ROUBOU nos últimos 6 anos.

        É só…

  2. Augusto diz:

    Como o PS , tem recrutado militantes do PCP ao longo dos anos , e muitos até para ministros .

    Quase poderia apostar, que a próxima aquisição do PS, será o Ricardo dos Santos Pinto.

  3. JDC diz:

    “E o povo, burro como sempre”
    Haja quem ilumine o povo e seja o querido ou grande líder… Lutar pelo povo e apesar do povo!!

  4. Manuel Monteiro diz:

    Análise lúcida que subscrevo…

    Manuel Monteiro

  5. ricardosantos diz:

    Claro que vamos livrarnos deles vamos todos acampar acampar em qualquer lado.

  6. Discordo. Desta vez o PCP teve uma vitória ao arrasar com o Bloco.

  7. Diogo diz:

    Tudo poderá ser assim se entretanto não estoirar uma revolta violenta em Portugal. Vale a pena lembrar que muita da abstenção é de gente que sabe que todo o processo eleitoral está viciado e que 90% dos políticos são corruptos. As manifestações que tem havido, sem organizações políticas a conduzir, são disso prova. E os que já estão desesperados também já não votam…

  8. BLAGUE DE ESQUERDA diz:

    então este post arrisca-se a estar desactualizado:

    http://blaguedeesquerda.blogspot.com/2011/06/fechado-para-balanco.html

    a realidade é mesmo voraz…

  9. Para quem é de esquerda, chamar burro ao povo é um pouco semelhante à direita, sobretudo à extrema…

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Lamento, não sei o que diga do povo que dá 90% às medidas do FMI e 10% às restantes.

      • Justiniano diz:

        Que restantes, caro Ricardo!!??

        • Ricardo Santos Pinto diz:

          Sabes tão bem como eu quais foram os Partidos que se manifestaram contra o programa da Troika, sendo que, desses, houve um que nunca apoiou a candidatura de qualquer militante do PS.

          • Justiniano diz:

            Referia-me às “restantes” medidas a que faz menção!!

          • Nuno Ramos de Almeida diz:

            Caro Pedro,
            Como sempre um comentário interessante e fundamentado. Vamos tentar então discutir aquilo que eu escrevi.
            1. Foi positivo o aumento de um deputado.
            2. Foi mau a descida do BE.
            3. É péssimo que os partidos anti-troika tenham uma votação tão baixa.
            4. Acho que o caminho se faz congregando as forças anti-troika
            5. Acho que é preciso ter a ambição de vencer e de apresentar uma alternativa política e um caminho.
            6. Sobre a evolução dos resultados eleitorais. Pode ser isto aqui. http://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_legislativas_de_Portugal
            O PCP baixou até 2002, tirando no ano de 1999 que cresceu em relação a 1995. Desde aí tem subido, sem alcançar os 8,99% de 1999. Vivemos num país injusto. Acho que o PCP devia ter mais votos, e que a situação objectiva não explica tudo. Tem uma votação mt baixa em relação à sua força. O que me irrita é esse imenso contentamento, no meio do desastre. Lembro-me do PCP ter alcançado 19 % e mais de um milhão de votos e o comité central ter lamentado a vitória da AD e alertado justamente os perigos que ai vinham. Não ficaram cegos por 19 % dos votos. Creio que a actual direcção do PCP fará a mesma coisa. Desvalorizo as vozes sectárias, para as quais, mais importante que derrotar a troika é derrotar o BE. Só isso.

          • Ricardo Santos Pinto diz:

            Parece-me lógico, Justiniano, que me queria referir aos «restantes» Partidos que não apoiaram as medidas da Troika. Nem sempre o comentário sai da melhor maneira.

  10. Leo diz:

    “Quanto ao PCP, está visto que a receita certa não é aquela que tem sido seguida.” ???? Ah sim, Ricardo? Vejamos:

    1 – Abstenções 2009: 3.830.355
    Abstenções 2011: 3.875.022

    Diferença em 2011: mais 44.667 abstenções

    2 – PS 2009: 2.077.695 votos
    PS 2011: 1.557.869 votos

    Diferença em 2011: menos 519.831 votos e menos 24 deputados

    3 – BE 2009: 558.062 votos
    BE 2011: 288.076 votos

    Diferença: menos 269.062 votos e menos 8 deputados

    4 – CDU 2009: 446.172 votos
    CDU 2011: 440.863 votos

    Diferença: menos 5.310 votos e mais 1 deputado

    Num quadro de aumento da abstenção, parece que a “receita” seguida pela CDU foi mais acertada do que a “receita” que PS e BE adoptaram. Enquanto a CDU conquistou 1 deputado o PS contribuiu com 24 deputados para o PSD e o BE com 5 deputados para o PSD e 3 para o CDS.

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Com o mal dos outros posso eu. Se ficas contente por o PCP praticamente estagnar, eu não fico. Enquanto o PCP não começar a subir a sério, não vejo motivos para grande alegria…

  11. xatoo diz:

    “a maioria dos portugueses já está convencida das dificuldades que vai enfrentar”?
    acha mesmo que está?
    Esta votação de uma maioria significativa aconteceu porque os Media (os pasquins da Sonae e do Balsemão) sonegaram aquilo que Passos Coelho declarou ao Wall Street Journal em 30 de Março de 2011:
    “que o seu partido (PSD) chumbou as medidas de austeridade propostas pelo governo “socialista” (PEC IV) por não irem suficientemente longe (ao não incluir um vasto programa de privatizações, incluindo serviços essenciais ou estratégicos, privatização parcial do Serviço Nacional de Saúde e do Sistema de Pensões)” dizendo que tudo fará “para Portugal não ser um fardo para os nossos amigos da União Europeia e do resto do mundo”
    Ora “os amigos” desta gente são os banqueiros e os especuladores financeiros. Juntando os eleitores do P”SD”+C”D”S com os do P”S” acham mesmo que há 4.355.510 portugueses que vivem à pala e gostam de uma economia corrupta e parasitária? Pelo contrário, eu acho que muitos destes estão muito mal informados, mesmo muito mal…

  12. Bolota diz:

    “…não consegue assumir-se como a terceira força política em Portugal, então é porque…”

    Os apoios, as omissões e todo o tipo de artimanhas vindo dos que levando ao colo o CDS e o BE, mesmo assim tiveram os resultados que tiveram.
    O CDS chegou a ter nas sondagens 16% acabou nos 11

  13. Carlos Carapeto diz:

    Que porra! O PCP é pau para toda a obra e culpado de todos os fiascos

    Porque razão em Espanha a esquerda não soube capitalizar o descontentamento? E na Suécia? E na Grécia? E por toda a Europa que dos 27 Estados membros 24 são dirigidos por governos de direita?

    Aqueles que tecem criticas ao PCP o que têm feito para o ajudar?

    Experimentem ir às filas de espera que se formam às portas dos Centros de Emprego tentar esclarecer as pessoas sobre as condições laborais e daquilo que está para vir, depois ficam sabendo o grau de consciêncilização politica deste povo.

    A maioria das pessoas nem nos sindicatos quer ouvir falar.

    • serraleixo diz:

      E é esquecer o papel que a comunicação social tem nas eleições e teve nestas.
      O resultado da CDU é muito bom tendo em conta a comunicação social que temos. Venderam Passos de Coelho e Paulo Portas todos os dias e o resultado, como seria de esperar, deu-lhes a vitória.

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