Sentimento experimentado ao saber os resultados das eleições…

Para Jacques Rancière o pressuposto da igualdade das inteligências é condição de toda a política digna desse nome. Hoje a modos que isto não me convence assim muito. Sinto-me, por assim dizer, mais próximo do desabafo de Giorgio Agamben nesta conferência: « A estupidez do cidadão contemporâneo é sem limites. ». Há dias em que parece que é.

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23 respostas a Sentimento experimentado ao saber os resultados das eleições…

  1. Carina diz:

    Sim, sem dúvida! 🙁

  2. jose diz:

    ganhou a melhor a abstenção

  3. sara almeida diz:

    Fogo! Estou tão triste, man!

  4. Rocha diz:

    Choradeiras em noite de eleições não é coisa de esquerda. A Revolução faz-se na rua e não no parlamento.

    E outra coisa: dizer mal do Povo é dizer mal da Esquerda. Só diz mal do Povo quem não é consciente ou não assume pertencer à classe explorada. Não vale a pena cuspir contra o vento. Só a luta é o caminho!

  5. Se a inteligência talvez se possa considerar um dado pessoal não adquirido, não deixa por isso de estar sujeita , condicionada, por outros substratos que informam o sujeito completo, a emoção a consciência a razão etc. Parece-me que o que se valoriza nesta apreciação é a razão e sobretudo uma razão clarificada pelo conhecimento, ora acontece é que para as pessoas decidirem com inteligibilidade tinham que estar predispostas, no mínimo, à recepção dos dados disponíveis, e com base neles formularem ideias , ideias que não fossem dominadas pelos interesses materiais imediatos, livres portanto; nada disso acontece na verdade, nem a consciência nem a liberdade são dados absolutos, completamente autónomos e independentes, a inteligência acaba também ela por estar condicionada numa espécie de jogo, aqui político, e neste quadro em que a maioria das pessoas acredita ainda que é possível um mundo de absoluta abundância esse pano de fundo prometido pelas prateleiras dos supermercados; a esperança é a última a morrer!

  6. Gentleman diz:

    – Pela primeira vez desde 1974, o CDS alcança mais deputados que a Esquerda radical junta.
    – Pela primeira vez desde 1974 Portugal tem simultaneamente uma maioria absoluta de Direita na Assembleia e um homem de Direita na Presidência da República.

    Enquanto votante do PSD, queria agradecer o valioso contributo do PCP e do BE a esta vitória histórica da direita.
    E não queria também deixar de mencionar o tantas vezes esquecido contributo precioso dos maquinistas da CP e Metro, pilotos da TAP e motoristas da Carris para a paulatina degradação da imagem do sindicalismo e, consequentemente, da Esquerda radical.

    • Rocha diz:

      Atão o Gentlemen é do CDS? E eu que pensava que era do PNR…
      E está tão esperançado no declínio do sindicalismo… acha que já viu muito quando ainda não viu nada… gosto da sua ingenuidade. Celebre os seus votos que a “democracia real” vai se ver é nas ruas!

      • Gentleman diz:

        78.5% dos eleitores votaram a favor das medidas da troika. Esse é que é o grande sapo que a Esquerda radical terá que engolir.
        Quanto à “rua”, não tenha grandes esperanças. Isso já foi chão que deu uvas. Atente bem nisto: a década que se iniciou este ano será a década da Direita em Portugal. E isso muito graças ao falhanço da mensagem da Esquerda radical.

        P.S. Aonde é que no meu comentário anterior escrevi que era do CDS??

    • Vasco diz:

      Não misturar o que não é misturável. Com a luta dos ferroviários, estes trabalhadores conquistaram – ou mantiveram – direitos fundamentais relacionados com o trabalho extraordinário, em dia feriado ou de folga e nocturno, para além de manifestarem a sua determinação em defender o carácter público da CP e da CP Carga, demonstrando a TODOS OS OUTROS TRABALHADORES que lutando em unidade é possível conquistar vitórias e defender direitos.

  7. am diz:

    o “cidadão” é estúpido e a sara tá triste…
    continuem assim que (como mais uma vez se viu…) vão longe…

  8. ingenuo diz:

    Sim, dá para ver qual o seu ideal de democracia. Quando ganha aquele que eu não gosto, são todos estupidos e já não quero brincar mais. Pois é. Aguente e não chore.

    Olhe, aproveite e vá para a rua. Dinamização cultural directa, junto das bases e do povo. Monte uma barraquinha no Rossio e faça parte do zoo montado. Faça qualquer coisa, olhe, aprenda a respeitar a vontade de quem vota.

  9. Mário Machaqueiro diz:

    «A estupidez do cidadão contemporâneo é sem limites»
    Só do cidadão contemporâneo?…

  10. José R. diz:

    Para um político experiente, compreendido este num sentido estratégico ou táctico, não deverá nunca dizer que o povo é estúpido. Numa dedução racional, percebe-se que o povo ofendido tenderá a não votar no futuro em quem o desconsiderou. No caso presente, o autor, reconhecidamente um cidadão empenhando e activo, compreende-se, ou pelo menos eu compreendo e acompanho o seu desabafo. Eu aconselharia (a esse) político a seguinte exclamação: «perdoai-lhes Senhor que eles não sabem o que fazem».

    Para a Carina, para a Sara e também para o Rocha (talvez para am ) digo o seguinte:
    já estava à espera deste resultado. Portanto não há motivo (racional) para me por com choradeiras. Até abri uma garrafa de espumante para acompanhar uns camarões fritos e festejar com a minha mulher esta derrota. Se já tivessem inventado a transposição material até os convidava para virem aqui discutir o conceito de “Povo”. Acontece que, estranhamente, estou com uma rolha entalada no esófago que não me sai, nem para baixo nem para cima. Portanto o problema é físico.

    Aos restantes também gostava de me dirigir, mas já estou cansado, talvez depois,
    boa noite.

    • am diz:

      muito obrigado pela atenção José R.
      melhoras rápidas
      rolhas entaladas são f…

      • José R. diz:

        Obrigado, já passou. Temos sempre de “fazer diluir a rolha” para não paralisar, o que não é a mesma coisa de alienar o problema, que é grave, e é global…

        Volto aqui porque fiquei atravessado por não ter incluído o Adão no meu convite (ficcionado).
        A falha deveu-se não a desatenção mas ao facto de ter terminado o texto sem desbobinar o que o que me passava pela cabeça. O que me apetecia discutir, não era tanto o conceito de Povo, era mais sobre o discurso da esquerda. Para uma conversa nesse campo eram imprescindíveis, tanto o Adão como o Rocha. Na minha ideia, penso que a verdadeira esquerda (como diz Boaventura), deveria reflectir no sentido de reformular a sua linguagem. A linguagem, se não é o único instrumento de comunicação é o mais decisivo no contacto directo.
        A “Esquerda verdadeira”, inerentemente plural, precisa afinar a sua linguagem; trabalhar para uma convergência dos vários códigos de grupo. Não digo fundir as várias ideologias num corpo (seria aberrante), mas trabalhar num entendimento, eliminar as disparidades de linguagem ajudaria o diálogo inter grupos. Teríamos muito a aprender com a experiência de Chiapas… mas adiante.
        Assim eram os meus pensamentos domingo à noite. Como poderia a esquerda concorrer com uma comunicação social completamente dominada pelo adversário e com contornos de autêntica “máquina de lavar” cerebral? Ao ler o Gentleman, tirando o cardápio reaccionário, tive de concordar num ponto «falhanço da mensagem da Esquerda radical», mas com a devida limpeza, trocando radical por verdadeira… Pensava como aquele pessoal da escrita neo-realista soube passar as malhas de uma censura apertada. Seria por ventura então mais fácil do que com a aparente liberdade de expressão que vivemos hoje? Não sei. Talvez a dificuldade patente, nua e crua, apurasse a arte. Lembrei-me de “A Selva” de Ferreira de Castro, lembrei-me de como aquele dono de seringal poderia representar o FMI, e de como aqueles seringueiros faziam lembrar, a Grécia, Portugal a Irlanda … eternamente endividados ao cliente único e único fornecedor, por entremeio da «casa aviadora». Uma confusão de autonomia formal e escravidão efectiva. Na nossa realidade, falta-nos o velho eis escravo louco, para fazer justiça no final.

        Um novo grupo de trabalho para o M19 já:
        Enumeração e descodificação das falácias mais recorrentes nos media. Investigação objectivada na análise da construção histórica desses produtos discursivos, apurar seus pressupostos lógicos, discuti-los, e elaborar “contra-chavões” , que sejam “antídoto de sofisma” mas não “sofisma em sentido contrário”. Construir frases humorísticas, piadas, anedotas, porque não…

        Sugestões de leitura: “A Manipulação dos Média” de Noam Chomsky (livro pequeno)
        Fala-nos o livro da «fabricação do consentimento», tema perfeitamente adequado à polémica gerada pelo Bruno Peixe.
        Também sobre a discussão, “Povo estúpido ou não”, tem o livro matéria relevante.
        Chomsky desmonta o conceito de «rebanho tolo». Essa expressão tem origem, não na esquerda, mas nas elites liberais americanas ligadas aos media, promotores segundo eles de uma “revolução na arte da democracia”, exactamente o que Chomsky chama de «democracia de espectadores»…

        A discussão aqui está muito emotiva, o que se compreende num dia como este. Mas não devemos desperdiçar demasiada energia em “tiros para o ar”, que podem acertar eventualmente num companheiro de luta. Há que definir bem o alvo.

        Um bom programa para descomprimir: http://camaraclara.rtp.pt/#/arquivo/218

        ( noite das eleições no museu do Neo-Realismo)

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  12. Julia diz:

    A estupidez do cidadão comum!!

    E a tua? Como é que alguém pode acreditar na igualdade das inteligências???

  13. Julia diz:

    Quando as massas não confirmam ou validam as expectativas dos Inteligentes, só nos resta chamar-lhes de estúpidos.

    Toda a filosofia do Agamben resume-se a isto: as massas são estúpidas. E ele também. Por não as ter compreendido. 🙂

  14. Gentleman diz:

    E já agora, estreou esta semana o novo filme do Peter Weir, Rumo à Liberdade, passado em 1940 na URSS e que conta a história de um grupo de sete prisioneiros que consegue escapar de um campo de trabalhos forçados da Sibéria. Tal como as atrocidades nazis, é um passado que convém relembrar e estudar já que passados 70 anos ainda há por estas bandas muitos revisionistas que se recusam a enxergar que o Gulag foi o maior sistema esclavagista de toda a história da humanidade.

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