reflexão para o dia.

Em 1871 a França de Versailles teve de escolher entre entregar Paris aos prussianos, e deixá-la ao seu povo, cedendo à ocupação do vazio de poder pela guarda nacional constituída sobretudo por operários e pequena burguesia parisiense. Não foi difícil a decisão, pois para os donos patriotas a pátria é um conceito muito relativo — em Março, Wilhelm I coroa-se imperador da Alemanha na sala dos espelhos em Versailles, e a Comuna de Paris é proclamada nas ruas e nas instituições da cidade, consagrando o poder “pelo povo, para o povo”, os princípios da libertade, igualdade e fraternidade, e a resistência à invasão prussiana ante a capitulação dos poderes. Entre 26 de Março e 28 de Maio [data sinistra], o mundo cresceu em Paris, e após eleições directas a Comuna implantou inúmeras reformas, muitas das quais ainda hoje deviam fazer corar as democracias europeias:

1. o trabalho nocturno foi abolido;
2. oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas;
3. residências vazias foram desapropriadas e ocupadas;
4. em cada residência oficial foi instalado um comitê para organizar a ocupação de moradias;
5. todas os descontos em salário foram abolidos;
6. a jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas;
7. os sindicatos foram legalizados;
8. instituiu-se a igualdade entre os sexos;
9. projectou-se a autogestão das fábricas (mas não foi possível implantá-la);
10. o monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos;
11. testamentos, adopções e a contratação de advogados tornaram-se gratuitos;
12. o casamento tornou-se gratuito e simplificado;
13. a pena de morte foi abolida;
14. o cargo de juiz tornou-se electivo;
15. o calendário revolucionário foi novamente adoptado;
16. o Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado;
17. a educação tornou-se gratuita, secular e obrigatória; escolas nocturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto;
18. imagens santas foram derretidas e sociedades de discussão foram adoptadas nas Igrejas;
19. a Igreja de Brea, erguida em memória de um dos homens envolvidos na repressão da Revolução de 1848 foi demolida; o confessionário de Luís XVI e a coluna Vendôme também;
20. a Bandeira Vermelha foi adoptada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade;
21. o internacionalismo foi posto em prática: o facto de ser estrangeiro tornou-se irrelevante; os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, polacos, húngaros;
22. instituiu-se um escritório central de imprensa;
23. emitiu-se um apelo à Associação Internacional dos Trabalhadores;
24. o serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos;
25. todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos;
26. havia um plano para a rotação de trabalhadores;
27. considerou-se instituir uma Escola Nacional de Serviço Público, da qual a actual ENA francesa é uma cópia;
28. os artistas passaram a autogerir os teatros e editoras;
29. o salário dos professores foi duplicado.

A paz com a Alemanha e a consequente libertação de prisioneiros de guerra para recompor as forças de Versailles, a cumplicidade entre os poderes face às legítimas aspirações dos donos da cidade, a sua carne, ditou o destino da Comuna de Paris. A semana sangrenta em que 15 mil milicianos communards defenderam a sua casa contra 100 mil soldados das forças de Versailles, acumulou corpos e pôs fim ao sonho. David perdeu, e Golias, furioso, não o matou, desmembrou-o, sangrou-o, incinerou-o. No topo da colina que vigiava os moinhos que alimentavam a cidade, a Igreja exigiu que se erguesse um magnífico marco em homenagem às “vítimas da Comuna”, não os communards mortos, mas os 100 reféns por eles executados e os 900 por eles mortos na legítima defesa de Paris. O Sacré Coeur ergue-se branco sobre a cidade, as paredes decoradas com lápides que falam de amor universal, de magnanimidade. 1000 mortos às mãos dos communards cercados, contra 50 a 80 mil deles esmagados pelas tropas de Versailles. 40 mil foram presos e executados, alguns por falsa denúncia ou por serem confundidos com membros da Comuna. As execuções pararam apenas por medo de que a multiplicação de cadáveres provocasse uma epidemia de doenças na cidade. Há relatos de senhoras, en passant, virando cadáveres nas ruas com as pontas das sombrinhas.

Ontem roubei um livro de €20 do sagrado mercadinho dentro deste tão ecuménico monumento, mesmo debaixo do nariz de duas freiras. Cada um vinga-se como pode.

 

(nota: há duas coisas que não se vêem nas fotografias da Comuna: cães e crianças. radicais livres, que não ficavam parados tempo suficiente para a objectiva os fixar.)

Montmartre, 5 Dez 2009

 

Sobre Sassmine

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4 respostas a reflexão para o dia.

  1. Renato Teixeira diz:

    Amanhã, ou depois claro, voto a favor de cada um dos pontos da grande Comuna. Lá chegaremos. Bela vingança. O roubo e a posta. 😉

    • Sassmine diz:

      😉

      (lembro-me sempre desta história quando pessoas que só pensam em classe me vêm falar em pátria. a pátria dos reis de França acabava na sala dos espelhos. a nossa também parece acabar no banco de portugal. bom dia de reflexão. Renato. ;))

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