Estar no Rossio

No Rossio aconteceu e acontece muita coisa. Praticamente do dia para a noite começaram a juntar-se pessoas sem saber muito bem o que iriam lá fazer. De repente fizeram-se assembleias diárias em que todos podiam falar, discutir e apresentar propostas que seriam votadas por todos os participantes. Todos os dias havia um microfone aberto para que a discussão existisse de uma forma mais informal. Montou-se um acampamento com uma cozinha, tentando criar todo o tipo de condições para que as pessoas se pudessem juntar no Rossio. Formaram-se grupos de trabalho de todo o tipo – uns mais funcionais, tratando de questões logísticas e de comunicação; outros de maior discussão e debate para apresentarem propostas de posição e de acção.

Depois de várias assembleias que reuniam centenas de pessoas, algumas com discussões acesas mais sobre o funcionamento das próprias assembleias ou do acampamento, percebeu-se que não existiam condições para manter o acampamento. Desmontou-se, mas as pessoas continuam a reunir no Rossio. Para sábado, dia de reflexão para as eleições, está marcada uma concentração com muita coisa a acontecer – microfone aberto, assembleia, música e outras actividades.

Mas porque é que isto é interessante para além dos factos já enumerados? Para mim, o mais interessante é sem dúvida o fazer coisas com os outros de uma forma à qual não estava habituado. Ultrapassando desconfianças, conhecendo pessoas novas, confrontar-me com posições e ideias diferentes daquelas às quais me tenho confrontado, criar relações que nos levam para novos e menos novos caminhos, todos os que passam no Rossio acabam por lidar com estas questões com maior ou menor irritação.

E ao que se propõe este movimento? Não se percebe muito bem ainda, é isso que se tem tentado construir e discutir. Mas existe aquela ideia que já não é apenas sussurrada: queremos uma vida melhor para todos.

O maior poema

Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros

Mário Dionísio, As Solicitações e Emboscadas, 1945

Até sábado então, a partir das 15h.

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8 Responses to Estar no Rossio

  1. ezequiel diz:

    Queremos uma vida melhor para todos.

    Isto não basta, meus caros.

  2. kissmyassjackass diz:

    E,no fundo vão votar no arco da velha!PSD/PS/CDS

  3. tartaruga diz:

    Se me permitem uma opinião…
    Toda esta movimentação espontânea é muito válida. Acaba por ser a prova provada de uma insatisfação geral e de um “não-saber-exactamente-o-que-fazer” de uma grande parte das pessoas lúcidas e conscientes que sentem as amarras a bloquear os seus movimentos, enquanto Cidadãos, enquanto Humanos, enquanto Povo!
    Todo o disparate político em que se deixou mergulhar Portugal representa como que uma guilhotina para quem quer ter uma vida com dignidade, trabalho, saúde, educação, enfim todos os componentes de uma vida que deve ser vivida sã e em paz… Mas há alguém que não deixa que assim seja… Alguém que se propôs a salvaguardar amigos, parentes e a si próprio, deitando ao chão todas as espectativas de um Povo, de várias gerações…
    A espontaneidade de Estar no Rossio é maravilhosamente o reencontro de vontades! Afinal, é ali que se conhecem histórias de projectos mutilados, de caminhos estropiados por quem não tinha o direito de o fazer. É a (re)união das pessoas a quem foram roubados sonhos, valores, forças… É o ponto de encontro daqueles a quem querem convencer a qualquer preço de que afinal a esperança não será a ultima a morrer…
    A minha opinião, enquanto filha deste Portugal triste de hoje, é que se preserve, respeite e mantenha o Estar no Rossio! Por entre tristezas e decepções, sentem-se alegrias, cantam-se ideias, respiram-se Artes… Enfim, é o (re)encontro de um Povo no seu formato e essência mais singelo. É o Povo Português!
    Cresci a ouvir defender que “da união nasce a força”, e é dessa união apolítica e incolor que nascerá, com certeza, a luz que (espero) em breve ilumine e alegre de novo as gentes de Portugal!
    Vamos Estar no Rossio porque é lindo Estar no Rossio…

    • Youri Paiva diz:

      Quase, quase de acordo. O meu discurso não teria tanto Portugal, mas tudo bem. Não concordo é em união apolítica e incolor. No Rossio há política e muita, o mesmo com as cores.

      • tartaruga diz:

        Agradeço a crítica Youri Paiva!
        Depois de reler uma quantas vezes, acredite que pensei o mesmo… Talvez seja ainda um pouquinho da minha esperança a funcionar ou talvez (quem sabe) alguma ingenuidade na matéria!
        Mas agradeço a crítica, pois só com ela se aprende…
        Abraço

  4. Luís diz:

    Uma das coisas que urge fazer, entre muitas, é de uma vez por todas criar uma distância crítica de figuras tutelares. Há que matar os pais.

    É que é preciso muito mais do que as ideias a que já se chegou (ou em que já se entrincheirou), e a resposta não é apenas dadas por citações de sábios idos.

    Nada se repete, nunca, estou em crer. Mas temo que o que se passou no Rossio tenha tido algo do que agora enuncio. E pouca abertura, e pouca estratégia, e pouca visão.

    Por isso é que não cresceu, e todas as caras ou já eram ou passaram rapidamente a ser conhecidas. Por isso é que temo que não dê em nada.

    Nem sequer se teve a clareza de pensamento de reconhecer que o que está hoje em dia em causa é a democracia, e se descaiu para o costumeiro protesto contra a situação da faixa de Gaza. É verdade que lá nos safámos do Mumia Abu Jamal, mas isso não chega…

    Cumprimentos, Luís

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