Olá, cá estou eu, a bloguer descontínua

Já estou na paragem do autocarro quando os vejo: 15, 20 peixes na montra de uma boutique chique de artesanato africano, espetados em pedestais com alturas diferentes, como totens a flutuar num aquário. Atravesso a rua para ver o cardume mais de perto. São de madeira, como a generalidade da estatuária africana, queixada articulada como as marionetas, os maiores com um metro de comprimento, os mais pequenos com 40 centímetros; mas o que os distingue das máscaras e estátuas africanas que a loja também vende, além do pedestal de ferro que os converte automaticamente em objectos de arte, é a cor: brancos, laranja, azuis, vermelhos, amarelos, pintados à mão por pescadores do Mali que não imaginam que os seus peixes podem custar quase dois mil euros numa loja do Sablon. “Vendem-se lindamente”, garante-me um africano com botões de punho e camisa de seda, divertido com o meu interesse ictiológico. “Ainda na semana passada vendi uns ao curador do Museu de Arte Moderna de [...], levou-me cinco. São espantosamente modernos”. Assegura-me que os artistas recebem “a justa compensação” pelo seu trabalho, e é verdade que o preço não choca o comprador familiarizado com as caixas de madeira do Jasper Morrison, que custam o que custam e são iguaizinhas às caixas de vinho e de legumes das mercearias, “a apropriação do objecto”, elogiava uma revista parva de decoração dessas que enchem a boca com “havres de lumière” e falam em “vestir as janelas”. “As pessoas entram aqui convencidas que podem regatear com o preto, sabe como é? – les africains crèvent de faim!”. Ri-se muito. “Pas moi! Sempre que me falam em descontos, subo o preço, ‘agora custa o dobro – não, o triplo!'”. Ri-se mais. “Os objectos têm uma alma, é preciso respeitar a alma do objecto”, diz num tom subitamente sério, e eu receio a conversa da treta que ali vem, incongruente com o pragmatismo que me diverte quase tanto como os peixes. “Alguns não se vendem, ficam aí imenso tempo na montra, e eu então tenho de ter uma conversinha com eles. Que se passa, pequeninos, qual é o problema?”. Olha para um peixe verde no lado direito da montra, e é verdade que é menos vistoso que os outros, pobre peixinho feio. “Quando não há maneira de os vender… Subo o preço! Quando custam o dobro, vendem-se num instante”. Rimo-nos os dois. “É trágico, sabe? A sociedade ocidental dá demasiada importância ao dinheiro, as pessoas só pensam no dinheiro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro, o dinheiro converteu-se num ídolo, numa espécie de…”.  “Totem?”, proponho. “Isso. C’est tragique”.

ACP (Auto-crítica pública): Na minha ausência, o Renato postou coisas, entrou imensa gente (olá a todos), o Renato postou mais coisas, e foram aprovadas regras anti-morgada por um colectivo que claramente não leu a última série de posts da sassmine nem respeita as garantias constitucionais de todos nós. Por enquanto decidiram expulsar quem estiver seis meses sem escrever, mas é possível que isto venha a ser usado contra arguidas que não têm rigorosamente nada a dizer desde Março e que por isso não dizem rigorosamente nada desde sensivelmente a mesma altura, por cúmulo jurídico e/ou infracção continuada. Vivemos tempos difíceis para a liberdade de cabulação.

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19 Respostas a Olá, cá estou eu, a bloguer descontínua

  1. Helena Borges diz:

    E tabu!

    (Olá, Morgada.)

  2. Renato Teixeira diz:

    bentornata!

  3. Justiniano diz:

    Caríssima Morgada, folgo em re(lê)vê-la!
    Todos sabemos que a sua escrita requere a recorrencia de momentos excepcionais e a profunda meditação e remeditação sobre os mesmos! E mesmo que assim não seja é como se fosse!! Com o Renato a coisa é muito diferente, da pena, empenada, brota sempre qualquer coisa, nem que sejam ácaros (não sei como inserir aqui uma daquelas caras sorridentes)!!
    Um cordial bem haja para si,

    • Morgada de V. diz:

      Lenta e ruminante – guilty as charged. O Renato é Grande, e Alá é o seu profeta.

      • Justiniano diz:

        Ora, caríssima Morgada, estava apenas a brincar com a caríssima e com o Renato (ou melhor, na verdade, o meu comentário constituia apenas mais um elogio à Morgada, tão esgotados que estão na repetição até se assemelham a uma triste ironia. Que já não convence! Creia-me que se trata de um vero elogio – Quanto ao Renato era meia verdade, a da pena empenada, e meia mentira, a dos ácaros, pois mais das vezes é afídios e míldio (Ele não leva a mal)!!!

  4. maradona diz:

    É cada vez mais necessário manifestar o meu desagrado por os textos da professora doutora quase sempre incluirem merdas (no fundo, cenas) escritas em parisience. O próprio Tolstoi, esse velho, deixou vestigios de que as centenas de páginas inteiriras escritas em parisience que nos legou foram, essencialmente, um erro. Uma pessoa sabe que as pessoas importantes de são petersburgo só se falavam em francês, e terá sido Pushkin (não consigo gostar de Mahler) quem começou a enfranquecer essa tradição tão nefasta à civilização; por isso gosto de Pushkin, o qual, no meu entender, é ainda melhor que Gogol. Ontem, quando estava no segundo litro dos quatro de Sagres (deve-se beber sempre quatro litros de cerveja; aquela paneleirice de beber “uma cerveja” deve ter sido inventada por um gajo que só falava parisience; ou bebe-se quatro litros de cerveja ou então não se bebe nada), não consegui convencer uma pessoa de que eu não sabia o significado de “le soir”. Juro: eu não sei o que quer dizer “le soir”. Ficamos assim.

  5. Pedro Penilo diz:

    Gosto muito desta parábola. Eu faço parte desse comité regulador. Mas a Morgada é isenta, digo eu. É uma etapa do socialismo (terá de haver algumas “intocáveis”; intocáveis só algumas; estou a falar de regras: intocáveis pelas regras). E pronto… (estive a pontos de me ir embora daqui, mas a Morgada voltou). Gosto muito desta parábola.

  6. Pisca diz:

    Quem se meter com a Morgada, leva, digo eu que sou seu fã incondicional, quantos são quantos são ????

  7. Mais uma avassaladora vitória do povo e da classe operária!

    Enquanto as camarilhas reaccionárias da burguesia e seus lacaios fascistas e social-fascistas procuravam iludir as massas fazendo-lhes crer que a camarada Morgada de V. teria desertado dos caminhos da justa luta (ou que estaria sob sequestro e amordaçada ad aeternum, algures entre Guantanamo e Abu Ghraib), brigadas de bravíssimos partisans não abdicavam do combate pela sua libertação e chegavam a dedicar à causa praticamente uma linha INTEIRA de um post da blogocoisa militante!

    O povo libertou a camarada Morgada de V!

    Que mil Morgadas floresçam!

    Ninguém há-de calar o V. da Morgada!!!

  8. Ah!… o “post da blogocoisa militante” acima referido era este:

    http://lishbuna.blogspot.com/2011/05/case-study-estes-mocos-raramente.html

    • Morgada de V. diz:

      Muito obrigada, Giovanni. Essa linha trouxe-me muito conforto quando estava nas masmorras do siberia.blogspot.com, mas para a próxima preferia chocolates e cigarros.

  9. Chocolates e cigarros SEMPRE!

    Citando um camarada que já não está entre nós, quando inquirido acerca da sua preferência por perfumes habitualmente associados aos elementos mais rastejantes da burguesia decadente: “A classe operária tem direito ao melhor que há!”

  10. Sassmine diz:

    Muito bom. :)
    seja bem-regressada, Morgada.

  11. ana cristina leonardo diz:

    já passou uma semana…

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