Razões para votar (1): Crónica de um despedimento anunciado

Foi mais ou menos há um ano que o meu chefe me chamou a uma sala para termos uma “conversa”. Antes de mais, deixem-me contextualizar a cena.

Tinha sido pai há coisa de dois meses (de facto, creio que naquele dia se comemorava o segundo mês de vida do meu filho, no primeiro mês estava a fazer uma directa para entregar um concurso). A gravidez da minha corajosa companheira foi dificil: eu em Espanha, ela em Esposende a dar aulas no Porto e em Aveiro. Lá para o final da gravidez, numa noite em que não esteve capaz de percorrer os 160 km que a separavam de casa, teve dores fortes sozinha numa residencial daquela cidade atravessada pela ria. Um susto, para os dois (mas apenas um susto). Mas eu trabalhava. Afinal, eu estava no quadro duma multinacional de origem espanhola e ela trabalhava a recibos verdes num lado e a contrato a termo (6 meses) noutro. Era preciso termos alguma segurança para mantermos a cara levantada para aquele que aí vinha.

Num dos fim-de-semana que passava em Portugal, por volta das 7 da manhã rebentaram-lhe as àguas. Um mês e meio antes do prazo devido. Não estava nada pronto.  Uma confusão, fazer a mala, telefonar a familiares, falar com médicos, saber o que era preciso fazer, tudo num caos meio delirante enevoado pela falta de café e excesso de adrenalina. Quem por lá já passou, acho que saberá do que falo. Somos todos muito diferentes nas nossas semelhanças.

Já passado o tempo dos protocolos aplicáveis, o miudo lá nasceu de cesariana com umas gramas acima do peso que o deixaria numa incubadora, para alivio e felicidade nossos. A mulher com quem partilho a vida acabou por apanhar uma infecção, o que a obrigou a passar quase uma semana num espaço que certamente seria o 10º circulo de Dante caso este o tivesse conhecido: as maternidades. Um choro interminável de bebés, mulheres a arrastarem-se pelos cantos com perdas de sangue, privação do sono e do contacto com familiares, o sadismo de alguns profissionais.

No segundo dia internamento, telefonei ao meu chefe para falar com ele (já tinha dado conta a uma das secretárias do sucedido). “En buena hora” contestou-me ele do outro lado da linha, seguido de um menos simpático “Cuando piensas regresar?”. Respondi-lhe que não sabia, que um puto nem 24 horas tinha, que a minha mulher estava com uma infecção e que teria de ver o evoluir da situação. “Bueno, es que como estavas con aquel concurso…” Não o deixei terminar. Disse-lhe que teria de arranjar outra pessoa para esta fase, que tinha direito a um determinado tempo e que se no passado tinha abdicado de muitos direitos, agora não ia ser assim. “Pienso coger los proximos 10 dias a que tengo derecho por asistrencia hospitalar y por parentalidad”. “Ya, ya, te entiendo” respondeu-me do outro lado, no que me pareceu um “estou-me a borrifar”, “Habia pensado que podrias coger ese tiempo después de entregarmos el concurso, tio”. “A ver, G., mi mujer, en este momento necesita de asistencia para todo, se mueve con dificuldad. Esto sin hablar de que me gustaria de disfrutar de las primeras semanas de mi hijo” Cortando a conversa, rematou “Bueno, tu mismo. Cuando sepas cuando vuelvas, comunica. Y en buena hora”. “Vale, gracias. Hablamos. Hasta luego”, acabei eu.

Terminado o internamento, voltámos para casa. Passámos uma semana embasbacados com a nossa realização colectiva. Embasbacados, cheios de sono, mas felizes, muito felizes. Passado este tempo de ilusão, voltei ao trabalho. Ao concurso que tanto fazia falta acabar. A minha familia, ela e ele, rumaram para casa dos meus pais para conseguir ter algum apoio. Se antes nos separavam os 200 km entre Esposende e Santiago, agora a impossibilidade de uma visita rápida era uma certeza: 500 km, mais coisa, menos coisa da cidade dos peregrinos à encosta da Serra da Estrela. Mesmo com todo o voluntarismo do mundo, mesmo com toda a urgência que sentia, aproximar-me era impossível. Engoli e calei, era uma semana e só uma semana. Tinha que ser, eu estava no quadro e o trabalho dela era precário. Era preciso termos alguma segurança para mantermos a cara levantada para aquele que já cá estava.

E que semana, meus amigos, que semana. Quando cheguei, encontrei-me com o meu outro chefe, o J. O J. é o que podemos chamar o “chefe mau”. Lá na empresa – a multinacional espanhola- a secção de Arquitectura tinha dois chefes, o G., que era bonzinho e o J., que além de mau era um narcisista complexado a viver o pesadelo de ser um arquitecto modernista preso na contemporaneidade. “Poli bueno y poli malo” era assim que companeiros galegos se referiam a eles.

O J. foi peremptório. “No tienes idea del transtorno que ha sido esta tu ausencia. Despues de entregarmos esto, tendremos de hablar. Estoy con dos concursos [mentira, passava duas horas por dia a dar ordens o que contrastava claramente com as seis horas semanais que dedicava à empresa recebendo o quadrupulo do meu salário]  y me estoy volviendo loco [mentira, louco já ele era]. Por tu culpa, tube un accidente de coche, lo destrozé todo y casi me maté. [mentira, era o 3º ou 4º acidente de carro que tinha neste ano e não era por trabalhar em excesso]”. Perante o nível das acusações que me eram imputadas e sabendo de antemão que não falava com uma pessoa equilibrada perguntei na minha inocência “Sabes que he tenido un hijo, no?” A resposta que veio do outro lado deixou-me perplexo “Si, ya lo sé. Pero también yo estoy pariendo un hijo que es este proyecto para el concurso. Y estoy sofriendo bastante con este proceso.”

A partir daqui, remeti-me a banalidades sobre o projecto porque ficou claro que em nenhum momento podia continuar qualquer tipo de diálogo que tivesse lógica, que tivesse um fio condutor guiado pelo bom senso ou pelo sentido comum. E lá começou a minha semana, uma semana de 100, 120 horas de trabalho ad nauseam, suportando todo o tipo de pressões e incongruências próprias de umas chefias perdidas nos seus egos e sem nenhum tipo de noção, de contacto com a realidade produtiva, projectual criativa do mundo em que vivemos.

Acabei o concurso e fui de férias. Lá na empresa -a multinacional espanhola- não se pagam horas extraordinárias. Existe uma espécie de banco de horas informal que os chefes de secção permitem à revelia da gerência. Pois, porque a gerência é o mau dos maus. E quando se fala com o gerente, o mau dos maus dos maus é a Administração que está em Bilbao. Há sempre um mauzão que impede que os chefes intermédios (e tantos chefes intermédios que há, meu Deus) sejam bonzinhos. Bem, mas lá tirei as minhas férias que  fui buscar ao banco de horas.

Duas semanas porreiras, perdido algures entre Coimbra e a Figueira da Foz, onde não se via vivalma, numa familia alargada, sempre à beira da insanidade tipica das familias que se amam demasiado. E depois voltei. Voltei para Espanha, para a Galiza [o pais, dirão os companheiros nacionalistas]. Para o inferno diário (mas necessário, afinal a minha sócia era precária e eu, eu estava no quadro da multinacional espanhola) da labuta transfronteiriça onde cada curva da autoestrada já é um amigo próximo e onde os trabalhadores das estações de serviço já sabem a que horas chegamos e o que vamos pedir. Voltei, então para a vida que fazia já lá iam 4 anos e voltei ao inicio da história. O meu chefe, o G. – o poli bueno- chamou-me para termos uma conversinha.

“Que tal el nino?”, “Bien, fantastico” dizia eu na ingenuidade de novel pai. “Tiene algunos colicos, pero esta muy bien. Es un nino precioso”. “Bueno, te llamé porque necesitava hablar contigo. Este concurso no ha ido muy bien. Tuvimos mucho tiempo y el resultado no ha sido el que pretendiamos.” assim, de estaca. Num minuto, como está o puto e de seguida portaste-te mal. “Oye, G. Ya te habia advertido. Estaba yo suelo con esto. J. la paisagista se marchó pasadas dos semanas, C. ha empezado con esto pero le has asignado otro proyecto, J. ha ido a las visitas al sitio pero no ha hecho un carajo. Solo por participar estamos cobrando 10 000 €. Podriamos haber contratado alguien para hechar una mano, no lo crés? Ojo! Te he dicho que no llegavamos o que llegavamos mal ocho veces. Ocho. Que quieres que te diga. Tubimos cuatro alternativas distintas. No te ha gustado ninguna pero no has hecho ninguna sugerencia concreta. Has demonstrado una falta de disponibilidad completa con este tema. Cuanto tiempo has perdido con esto? 10 minutos antes de la hora de la comida, dos veces por semana. Hombre, he dado mi mejor y sabes las circunstancias personales que tenia pero no se puede hacer tortilla sin huevos.”. “Ya, ya”, respondeu “No digo que sea todo culpa tuya. Ya sé que tengo que hacer alguna autocritica, pero eras tu que estavas con esto y las cosas no han ido bien. Entiendo tu circunstancias personales, pero bueno tenemos que dar todo por todo a a la empresa y en este momento, tu vida familiar empieza a ser un lastre para esta empresa.” rematou ele e continuou “Estuvimos hablando y lo mejor para todos es que te marches. No te preocupes. Te damos algun tiempo para que encuentres un chollo, mejor en Portugal, donde puedas estar cerca de tu familia. Creo que eso sera el mejor para todos”. “Pero, joder, y eso?” interpelei-o eu.

Refriei os ânimos, recordei-me que na Espanha democrática existe a figura de “despido improcedente” ou seja nas palavras de um companheiro do sindicato “te despido porque me sale de los huevos”, respirei fundo e perguntei-lhe: “Bueno, como lo hacemos. Cuanto tiempo tengo y si no encuentro trabajo me despides con que condiciones?”

A conversa continuou e deram-me 6 meses para encontrar trabalho. No final, na Espanha do desemprego acima de 20% e do desemprego jovem perto dos 40%, fui despedido “porque le sale de los huevos” como diria o outro, mas obrigado a assinar um documento em que assumia um despedimento disciplinar, embora com uma idemnização de despedimento sem justa causa, tudo para evitar um processo moroso em tribunais do trabalho onde teria de esperar pelo que me era devido, tudo para evitar arrastar a minha familia para um processo (com custos que não tinha condições de suportar) com retorno incerto e sem data marcada. Ainda me custa o frete que fiz ao patronato. Sim, frete. Engolir e calar.

E quando penso nestes recentes acontecimentos, penso também nas datas: fui avisado que ia ser despedido quando o meu filho fazia dois meses e na minha ausência por estar no trabalho sem futuro; fui despedido a 23 de Dezembro pela manhã, seguido de um almoço de Natal de  empresa, num processo cheio de vicissitudes e contradições. Enganos e trafulhices na forma tentada e consumada. À tarde, fui compar a prenda de Natal do meu filho.

E quando oiço o Zé, o Pedro e o Paulo a falarem da flexibilidade do mercado laboral, quando oiço o Zé, o Pedro e o Paulo a falarem que é preciso ajudar as empresas a terem mais competitividade, quando oiço o Zé, o Pedro e o Paulo a falarem dos custos do trabalho, quando oiço o Zé, o Pedro e o Paulo a falarem da mobilidade necessária, que são realistas, que não há empregos para toda a vida, que a produtividade anda pelas ruas da amargura, lembro-me sempre das palavras do meu chefe: “tu vida familiar empieza a ser un lastre para esta empresa.”

Ao Zé, ao Pedro e ao Paulo, de rabos sentados e bem quentinhos, olhando para o macro e cagando para o micro, tentando fazer crer que nós não percebemos, que esta é uma realidade que nos ultrapassa, que sofremos mas é para um bem superior e que as coisas vão melhorar se pudermos ser facilmente despedidos seja por sermos considerados ineptos ou seja porque “le sale de los huevos”, ao Zé, ao Pedro e ao Paulo com toda a raiva pessoal, com toda a alegria de quem luta por si e pelos seus, ao Zé, ao Pedro e ao Paulo

estimo muito que se fodam.

Vamos à luta que é o que é preciso.

 

publicado originalmente aqui

 

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46 respostas a Razões para votar (1): Crónica de um despedimento anunciado

  1. Pascoal diz:

    Fica bem dito e explicado, sem ser preciso fazer nenhum desenho porque não se pode aceitar a propaganda dos partidos do arco da velha, digo da governação.

  2. Nuno L diz:

    Caro Rafael

    Manda o Zé, o Paulo e o Pedro levarem na peida, e vamos à luta contra
    estes cabrões.

  3. Sassmine diz:

    hasta los huevos con Zé, Pedro y Paulo. y los mercados. abraço.*

  4. LAM diz:

    Grande posta. Parabéns.

    p.s. sabe explicar, mais ou menos, o conceito desse “despido improcedente”?

    • Rafael Fortes diz:

      Obrigado. A Mariana explicou perfeitamente, creio que existe só uma ou outra excepção em que esta figura não pode ser aplicada, mas não as tenho presentes.

  5. Luís Bernardo diz:

    Rafael, só me ocorre repetir as tuas últimas frases.

    Estimo muito que se fodam (eles mais a escumalha que pesa nas costas de nós todos). E vamos à luta, que é o que é preciso.

  6. voluntariamente anónimo se me permitem diz:

    Com diferente cenários, mas sei como é. O meu sacrifício no altar foi por prece à manutenção dos carros, benesses e ordenado dos que ficaram… Quanto ao final da saga, é como o nosso, seja o individual como o colectivo. O que me vale é ter 2 mãos, posso atirar as pedras que quiser! voluntariamente anónimo, se me permitem.

    • rafael diz:

      caro amigo, que me conta. eu soube por uma secretária que um dos meus chefes tentou meter como gasto pessoal uma factura de 800 euros de um whisky bar…

  7. Diogo diz:

    Não basta! Ao Zé, ao Pedro e ao Paulo é necessário estrangulá-los.

    A maravilhosa mão invisível que o Zé, o Pedro e o Paulo defendem, já provocou que nos Estados Unidos, segundo a revista Forbes, os 400 americanos mais ricos tenham mais dinheiro que os 150 milhões de americanos mais pobres.

    A maravilhosa mão invisível que o Zé, o Pedro e o Paulo defendem, já enviou milhares de famílias portuguesas para a mais abjecta das misérias, e prepara-se para fazer outro tanto a muitas mais.

    O Zé, o Pedro e o Paulo já assassinaram – pela fome, pelo frio, pela falta de cuidados médicos, pela falta de uma cama e pelo desespero.

    O Zé, o Pedro e o Paulo têm o direito e a obrigação de conhecer o garrote da «mão invisível», até que o ar se lhes esvaia dos pulmões. Este garrote, devemos ser todos nós a proporcionar-lhes. Que a «mão invisível» que defendem se transforme na mão visível que os vai sufocar.

    Admirável post do Rafael Fortes. Um abraço e um beijo ao seu filho.

    • JDC diz:

      Compreendo a frustração e raiva que o move contra o “arco da governação”, mas está a apelar ao homicídio literal dos respectivos?

      • pol diz:

        homicidio é: na palestina,no iraque,na libia,em africa,na SERVIA,nas honduras,etc.Se eles levarem um tiro na nuca,mim ficar feliz,ou o sr foi transplantado com orgãos do kosovo?-já reparei q não foi o cr
        erebro,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,

        • JDC diz:

          Homicídio também foi na sibéria, em katyn, no cambodja, etc, mas não é disso que estamos a falar, pois não? E quanto ao cérebro, penso pelo meu, obrigado.

      • Diogo diz:

        Não são necessários dois dedos de testa para compreender que os partidos do Zé, do Pedro e do Paulo são instrumentos da banca.

        No Jornal Expresso de 1/9/2007, o jornalista Fernando Madrinha explicou sucintamente de que forma a Banca, a mais poderosa, interligada e influente quadrilha do planeta, utiliza certa política e certos políticos para saquear os Estados Nacionais:

        […] «Não obstante, os bancos continuarão a engordar escandalosamente porque, afinal, todo o país, pessoas e empresas, trabalham para eles. […] os poderes do Estado cedem cada vez mais espaço a poderes ocultos ou, em qualquer caso, não sujeitos ao escrutínio eleitoral. E dizem-nos que o poder do dinheiro concentrado nas mãos de uns poucos é cada vez mais absoluto e opressor. A ponto de os próprios partidos políticos e os governos que deles emergem se tornarem suspeitos de agir, não em obediência ao interesse comum, mas a soldo de quem lhes paga as campanhas eleitorais

        Quando políticos e partidos, a soldo de interesses demasiado escuros, empurram populações inteiras para a miséria, o desespero e a morte, então sim, defendo medidas extremas. Prefiro mil vezes a morte de um Zé, um Pedro ou de um Paulo, do que a morte de um Manel, uma Maria ou uma criança por fome, frio, desespero ou falta de cuidados de saúde.

        • JDC diz:

          Isso é muito simples: pegue em armas e faça-se à vida. Há uns indivíduos que concordam consigo e já se andam a preparar há muito tempo, embora por outros motivos. Mas, para quem fica do lado aberto do cano, tanto faz quem puxa o gatilho.

    • Rafael Fortes diz:

      Obrigado, Diogo

      • Ana M. M. M. diz:

        Se a empresa onde trabalhavas é Espanhola, vivias em Espanha, e descontaste 4 anos para o governo Espanhol, porque é que terminas a falar do governo Português ( não querendo tirar a razão tanto em relação ao motivo que te fez aceitar um despedimento injusto, como o facto de que os nossos governantes são do piorio, sem noção da realidade). Até podíamos viver uma ditadura em Portugal, era dos Espanhóis que devias refilar. Se não formos votar, não vai haver mudança, e para quem não quer Zé, Pedro e Paulo procurem um João ou um Luis ou um Manuel…

  8. Mariana Canotilho diz:

    Grande post, Rafael! Um abraço!

    (Para quem perguntou, o “despido improcedente” é mais ou menos o que querem implementar aqui: é um despedimento ilegal, porque não se cumpriram as formalidades exigidas ou porque não ocorreu nenhuma das causas previstas na lei, mas a única consequência é uma indemnização que, como diz o Rafael, se consegue, eventualmente, depois de um longo, caro e desgastante processo em tribunal; basicamente a ideia é: se o empresário tiver dinheiro para pagar, pode despedir “porque le sale de os huevos y basta”).

  9. kissmyassjackass diz:

    Nunca ouviu falar em TERRORISMO SOCIAL?Estes gajos sao terroristas e há tratamento para esta ‘gente’….

  10. Pingback: In Memory of Elizabeth Reed | cinco dias

  11. Rui diz:

    Magnífico post, Rafael! Perfeito.

  12. Rocha diz:

    Força, força e vamos à luta! Eu também fui despedido logo após a última gloriosa Greve Geral de 24 de Novembro em Portugal, eles não conseguiram domar-me o espírito. Todo o poder à classe trabalhadora! Chega de austeridade e chega de migalhas, venha a nós o bolo todo! Precariedade para banqueiros e patrões (e para os seus boys)! Todo o lucro para o povo!

  13. António Esperança diz:

    Saudações Rafael , um abraço cheio de cumplicidade !

  14. Pedro Penilo diz:

    Vamos à luta com raiva e cabeça. Com a cabeça na raiva.

  15. grande poste, é pena que o motivo seja esse. Mas é preciso que esses gajos paguem de uma forma ou de outra.

    • rafael diz:

      obrigado, Nuno. por mim está utrapasssado, o que é incrivel é que a produtividade é sempre culpa dos desgraçados dos trabalhadores, nunca do patronato…

  16. xana diz:

    è fodido não é?
    1ª filha: como sou uma rapariga com sorte, o meu contrato a prazo, sim q eu como a sua companheira sempre fui precária, nem faço ideia o q seja pertencer ao quadro seja do q for, mas enfim, como dizia, com um azar q só os precários conhecem, o fim do contrato coincidiu com o fim da licença de parto…vá lá q mandaram uma carta a avisar…o seu contrato nao será renovado por já não se verificar o aumento de volume de serviço q lhe deu origem, ou qq tanga do genero,…
    2º filho:…parece mentira, eu fiz as contas, juro fiz, mas nao sem bem porquê engravidei mais cedo do q era suposto, e tb o miudo lembrou-se de nascer 2 semanas antes, fazendo novamente coincidir a data do contrato a prazo, (mais um, já sao tantos!) com o fim da licença de parto, e desta vez, …uma multinacional americana,… nem uma cartinha, um telefonema ,…nada. Entrei ao serviço depois de ter tido o meu 2º filho e nem lugar havia para me sentar. mandaram-me esperar na sala de reuniões e 10m depois a responsavel dos recursos humanos entrou com um ar sério e olhos no chão,… almoçámos tantas vezes juntas…e estendeu-me um cheque, deu-me uma carta para assinar q confesso não li, e disse-me -lamento muito Alexandra, desejo-lhe sorte…e eu em choque disse-lhe – obrigado Vanda…e saí
    saí e caminhei de cascais a sao joao do estoril, a pensar q nao era possível, ninguém tem tanto azar assim, como é q não reparei q ia entrar ao serviço novamente naquela altura crítica…mas no meu da dor , da revolta, do cancro do meu pai q tinha morrido 6 meses antes do meu 2º filho nascer, a minha mãe tinha morrido fazia ano e meio…e lá estava eu desempregada novamente, com um bebe recem nascido novamente, e desta vez sem pai nem mãe a quem recorrer…
    3º filho: nessa altura nao me despediram porque já estava desempregada havia 7 anos, aliás desde essa altura nem contratos a prazo, é só mesmo recibos verdes ou biscates…isto depois dos 40 é cada vez mais complicado…
    portanto agora resta-me o rsi, q já não sei qual dos filhos da puta, acho q o Paulo, acha q eu devo receber metade em senhas de refeição, não vá eu perder a cabeça e comprar um par de sapatos, ou ir cinema, ou comprar um livro, ou um cd…enfim
    puta q os pariu a todos
    😉

  17. Chiça, ainda dizem que não há coincidências?!

    Eu não fui mãe e a empresa era uma pequena associação com patrões que se auto-intitulam “patrão proletário” (está no presente, porque continuam a intitular-se da mesma maneira com os escravos que lá têm agora).
    Fora isso, o 23 de Dezembro (eu recebi a carta oficial em casa a 24 de Dezembro), o tipo de acusações e de assédio moral, tudo igual. A outra pessoa também a fizeram assinar um documento em que assumia ela a justa causa e eles pagaram-lhe uns trocos (mesmo trocos…).

    De resto, o inferno era constante: da prepotência àquilo que eu hoje sei que se chama assédio moral e que é crime, tudo. TUDO! Só trabalhavam para vigiar pidescamente com dispositivos de vigilância dos écrans de computador, pouco mais.

    Mas boa sorte. A raiva e a frustração de não teres accionado o tribunal vão passando — não completamente. Fica a aprendizagem de começar a topar os filhos da mãe ao longe e nunca mais trabalhar para ninguém do mesmo calibre.
    Mas essencial é mudar a lei das custas de tribunal, para que haja um efectivo acesso universal à justiça. Agora só acede quem pode pagar “a priori” e ser reembolsado no fim se ganhar.

  18. sofia diz:

    e agora como estás, tens trabalho?

    • Rafael Fortes diz:

      claro que sim. Pai, arquitecto independente a fazer concursos, doméstico e jardineiro. Trabalho tenho, não é é remunerado 😉

  19. Justiniano diz:

    Magnífico testemunho, caro Rafael!!

  20. JL diz:

    Cabrões…

  21. Helena Borges diz:

    Vamos!

  22. subcarvalho diz:

    Só uma pergunta, em jeito de provocação:
    O Zé, o Pedro e o Paulo estão lá porque fizeram um golpe de estado e governam o país à revelia da população?…

  23. Manuel Zappa diz:

    A banca-sanguessuga, as empresas de fachada modernaça e práticas reaccionárias, a prepotência dos imbecis com poleiro, os caloteiros, gente que cheira à distância o desamparo de quem vive do trabalho, e aproveita…

    E os Zés, Pedros e Paulos, o estertor nauseabundo do liberalismo económico.

    E os fascistas conspirando na sombra, cozinhando soluções venenosas para dar de beber aos analfabetos políticos…

    E a malta em casa, a remoer a vergonha e a raiva.

  24. Carina diz:

    Este teu relato faz-me reavivar a minha(nossa) história. Então é assim: namorávamos há 10 anos e com o canudo na mão (ele – arquitectura, eu – informática) não podíamos esperar mais, não podíamos esperar por ter um bom emprego (isso existe?), uma boa casa, muito menos uma boa casa mobilada e um sem fim de condições materiais que para muito boa gente é factor decisivo para avançar. Ele arranjou uma formação (a recibos verdes, pois está claro), eu (que sempre preferi trabalhar com pessoas que com máquinas) fiquei colocada por um ano numa escola relativamente perto de casa e fomos em frente na decisão de ir viver juntos, num T1 alugado, com os móveis que conseguimos “roubar” da casa dos pais. Passados dois anos (com ele a continuar a dar uma formação aqui e ali e eu desta vez colocada numa escola a 5 minutos de casa), mais uma vez, não podíamos esperar mais por nos completar e decidimos “vamos ter um filho!”. Depois de 7 meses a tentar sem sucesso, eis que bingo: ele e eu (sim, ambos) fomos diagnosticados com problemas de infertilidade. Num país que também neste assunto deixa muito a desejar, lá fomos nós para o processo de infertilidade (no sistema público, é claro) e demos inicio à longa espera. Um mês após iniciar o processo engravidei, naturalmente, contra todas as expectativas. Não há palavras para descrever a imensa alegria que sentimos. Dois meses antes do pequenino nascer, o meu contrato de trabalho terminou e com a imensa barriga que já tinha na altura, não arranjei contratação em mais lado nenhum (porque nesta altura, não sendo profissionalizada, já não podia concorrer em concurso, mas apenas a contratação de escola). No parto tive complicações completamente imprevistas das quais esteve perto a morte. Estas complicações obrigaram a 8 dias de internamento e a vigilância médica até hoje. Pouco depois cai o primeiro balde de água fria sobre nós, aquele que nos informa que não tenho direito a licença de maternidade porque supostamente nos 4 anos seguidos que havia leccionado não descontei o suficiente para isso (???). Ora estou desempregada, tenho um bebé nos braços e ao invés de estar em licença de maternidade estou no fundo de desemprego, obrigada a apresentações quinzenais. Aos 4 meses e meio o pequenino é diagnosticado com uma pneumonia por um fungo gravíssimo e fica internado entre um hospital e outro até aos 6 meses e meio (em isolamento, com o meu marido a desdobrar-se em mil e um biscates e ainda as visitas para nos ver). Durante todo este tempo do internamento não tive também direito a baixa e o fundo de desemprego continuou a contar. O pequenino ficou proibido de ir para creche e quando finalmente o pode fazer, tinha acabado de esgotar o meu fundo de desemprego. Até arranjar um colocação temporária (desta vez a quase uma hora de casa) estive dois meses sem qualquer rendimento e agora estou a um mês de voltar a ficar sem trabalho (a colega que estou a substituir regressa no fim do mês) e sem qualquer apoio social.

    Pela tua história, pela minha e por tantas outras que sabemos que existem, sim, vamos votar, temos que o fazer! De uma vez por todas, é claro que ninguém gosta de ser escravo e aceitar condições miseráveis de trabalho. Se aceitámos, até certo limite, é porque as coisas não nos caiem do céu, muito menos a comida em cima da mesa. Acho lamentável que exista gente, que no alto do seu pedestal ainda critique claramente “é porque tu aceitas essas condições que elas existem”. Todos sabemos que no Portugal actual, só alguns privilegiados se podem dar ao luxo de recusar trabalhar com esta ou aquela condição miserável. E para que isto mude, vamos lá fazer o que é nosso de direito: o voto! Um voto útil, por favor!

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