“Passa por mim no Rossio”, por Pedro Santos Guerreiro.

“(…) No Rossio estão (ainda?) poucos e têm credo diferente do espanhol. Apesar das afinidades, os nossos cartazes protestam contra o FMI e pedem a renegociação da dívida, gritos de partido; em Espanha pede-se uma nova Constituição, o que é um movimento político. Como escreve Nicolau Pais, aqui. Mas em Espanha começou assim, devagar. E agigantou-se.

É impossível dizer o que vai dar o acampamento do Rossio. Mas é incompreensível que a comunicação social, que tão rapidamente se moveu e comoveu com as revoltas do mundo árabe, não desça as escadas para ver o que passa à porta. Demorámos quatro dias a noticiar as Portas do Sol. Não ligamos as câmaras no Rossio. Que carácter mostra este Quarto Poder? Os jornais não podem ser parte do sistema ensimesmado. Porque os jornais são protectores das libertações e das democracias. Como aconteceu em Tahrir.

O sistema político tem uma oportunidade única para mudar mas não sabe como. Não compreende, não consegue comunicar com os manifestantes do 12 de Março. Chega a ser confrangedor, mas é como um ocidental entrar num táxi em Pequim: nem por palavras nem por gestos a comunicação é possível.

Há mais amor que ideologia. O que vai salvar a Europa não é o dinheiro. O que vai salvar a Europa é a política, outra política. Qual? Façam como em Atenas, vão à praça. E se tiverem vergonha, leiam o Villaret: “E mesmo que esteja frio/ Que os barcos fiquem no rio/ Parados sem navegar/ Passa por mim no Rossio/ E leva-lhe o meu olhar.”

No Negócios.

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3 Responses to “Passa por mim no Rossio”, por Pedro Santos Guerreiro.

  1. Carlos Fernandes diz:

    Os mass.media não noticiam isto porque estariam erradamente a dar tempo de antena a quem não o merece, ou seja a anarquistas e a fascistas todos antidemocratas de esquerda e direita, que não aceitam o voto e a voz popular expressa em eleições, ora Tahir foi uma revolta contra uma ditadura vigente no Egipto, aqui e em Espanha há democracias e há eleições, portanto quem está contra o FMI tem portanto a oportunidade em votar nos partidos que estão contra o FMI. Pedro Santos Guerreiro com isto só mostra desorientação e que não tem capacidade de entender as coisas, e se as tiragens do jornal que ele dirige já são minusculas e más, só posso prever que assim ainda venham a ser piores.

    E note.se que eu sou totalmente contra o FMI, não obstante agora não termos de facto outro recurso senão de o gramar, como último rémedio para uma gestão incompetente irresponsável do país e despesista, que foi a que infelizmente o país teve nos ultimos anos.

  2. l'outre diz:

    A diferença é apenas a escala. Quantas pessoas estavam nas Portas do Sol quando este passou a ser “notícia”? Quantas estavam em Tahrir quando os repórteres começaram a noticiar? Quantos é que hoje estão no Rossio? Só a partir de um certo tamanho é que o Rossio deixará de ser “meia dúzia de gatos pingados” e passará a ser notícia de abertura de telejornal.

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