Madrid pariu um rato

Em Madrid, a acampada discute uma proposta mínima de consenso. Tão mínima que deixa no ridículo todo o discurso de retórica e lirismo dos que falavam na revolução espanhola. O Che Guevara dizia que os termos médios são a ante-sala da traição. Aqui, efectivamente, falamos de termos mínimos que mais não são do que a velha e gasta ideia do capitalismo de rosto humano. Não pode, pois, haver traição senão para aqueles que sendo uma minoria defendiam – e justamente – a politização de classe do movimento

É certo que não deixa de ser curioso que a alguns portugueses Madrid apareça como um exemplo quando Lisboa consegue ter mais conteúdo. Mas ainda ninguém percebeu que a força de Madrid é a mesma força da Geração à Rasca. Foram as televisões, os jornais e as rádios que construíram o caudal que encheu a Avenida da Liberdade e as Portas do Sol. Sem essa força, a acampada de Lisboa não tem conseguido crescer para além de um grupo de gente que, de certa forma, sempre fez política.

Há quem veja a acampada como um fim e há quem a veja como um meio. Mas os que a vêem como uma ferramenta não a conseguem pôr em marcha. Enquanto se pensar na acampada como uma espécie de socialismo utópico, tipo Fourier, sectário e fechado ao exterior, será impossível que, sem o apoio da comunicação social, o movimento consiga crescer e fazer tremer o capital. E repito que qualquer transformação social terá que estar ancorada no movimento sindical e nos partidos dos trabalhadores.

Proposta mínima de consenso de Madrid:

1. Reforma eleitoral direccionada para uma democracia mais representativa e de proporcionalidade real e com o objectivo adicional de desenvolver mecanismos efectivos de participação cidadã.

2. Luta contra a corrupção mediante normas orientadas para uma total transparência política.

3. Separação efectiva dos poderes públicos.

4. Criação de mecanismos de controlo cidadão para a exigência efectiva de responsabilidade política.

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24 Responses to Madrid pariu um rato

  1. anon diz:

    E neste preciso momento em Barcelona a Plaça de Catalunya está a ser despejada violentamente pela policia.

    • Bruno Carvalho diz:

      Sim. Com a desculpa de que vão limpar a praça. Neste momento, em Valência os próprios manifestantes estão a limpar a praça para que a polícia não os desaloje. Pensava que a ideia era resistir.

  2. anon diz:

    Aqui está a dar em directo: http://www.antena3.com/directo/
    Estão a deitar caixas de computadores para os camiões do lixo

  3. Tiago Mota Saraiva diz:

    http://www.antena3.com/directo/
    Estão em directo de Barcelona.

  4. António Paço diz:

    A proposta minimalista pode ser um rato, mas este é um rato que ruge!

  5. Rocha diz:

    Bruno, espero que não estejas a criticar a forma de luta em si mas sim a forma como ela é gerida.

    É muito mau descartar formas de luta válidas como ineficazes ou pequeno-burguesas esquecendo diversos precedentes históricos que foram de natureza operária e eficaz usando o método de acampar. É por causa de análises taxativas da suposta ineficácia de certas formas de luta como por exemplo a armada, que se criam muitos equívocos que afastam revolucionários de progressistas.

    Aliás, mesmo as recentes revoltas do mundo árabe foram muito importantes para a formação de sindicatos combativos (e quanto mais não seja greves sem precedentes), convém não esquecer esse detalhe. E isso aconteceu porque se articularam várias formas de luta, um ensinamento das lutas guerrilheiras que está bastante esquecido, combinando várias formas de luta simultaneamente obtém-se melhor resultado que cada forma de luta isolada.

    Uma pergunta: teria sido Lenine, o Lenine que conhecemos sem ter tido um irmão narodik?

    • Raquel Varela diz:

      «Teria sido Lenine, o Lenine que conhecemos sem ter tido um irmão narodik?». Claro Bruno, o Rocha tem razão, acho. É muito progressista o que está a acontecer e para onde vai depende de muitas pessoas, depende tb de ti, de mim. Não há vazio em política e isto pode ser o início de um movimento de assembleias populares para organizar a luta contra a regressão social como pode ser um acampamento ocupa, cheio de amor e fraternidade mas politicamente vazio. Estamos em jogo.

      • Bruno Carvalho diz:

        Raquel, é muito importante que o pessoal abra a pestana e saia à rua. Mas sabes tão bem como eu que as esperanças goradas conduzem, normalmente, ao desânimo e à apatia. É isso que me preocupa.

    • Bruno Carvalho diz:

      A forma de luta em si não me chateia. O que me chateia é a forma como é gerida, naturalmente.

    • Bruno Carvalho diz:

      Em relação ao Lénine, não é por ter tido um irmão narodnik que agora vamos estimular essa linha pequeno-burguesa que Lénine condenou.

  6. Luis Ferreira diz:

    Então e onde é que foste buscar esta informação? Foi no artigo do El País?

  7. Luis Ferreira diz:

    Estes pontos são linhas de debate de apenas UM dos cinco grupos de trabalho, o que trata das questões de política a curto prazo. Este pormenor que faz bastante diferença não é referido neste post, nem no artigo do El País. Concordo no entanto que estes pontos em discussão são muito pouco e que nos levam para um beco sem saída.

    “Estos puntos no son aún acuerdos finales, sino líneas de debate en desarrollo que vienen del subgrupo de trabajo sobre política a corto plazo. Existen 5 grupos (“Política”, “Economía”,”Medio Ambiente”, “Derechos Sociales” y “Educación y Cultura”) con la misma importancia que están trabajando otras lineas de debate que se publicarán en esta web cuando pasen por asamblea general.”

    http://madrid.tomalaplaza.net/2011/05/26/acampada-sol-consensua-cuatro-lineas-de-debate/

  8. !!! diz:

    O Lénine nunca teve um irmão narodnik. Este movimento fez a sua transição do populismo para a actividade conspirativa terrorista, mas a actividade política do irmão do Lénine é posterior e integraria outro grupo de extrema-esquerda, descendente mas diferenciado e distanciado dos narodniks.

    • Carlos Carapeto diz:

      O anarquismo hoje é um embuste divisionista.

      Em Portugal o que restou do grande movimento Anarquista, foi António Gonçalves Correia e mais um ou outro. O resto mudaram de campo ao primeiro espirro dos esbirros Salazaristas. Na Catalunha houve um anarquista que nunca se rendeu levou vinte anos a fazer sabotagens, até ser morto nos finais dos anos 50.

      O avô de um que anda para aí, também foi anarquista e teve preso. Mas acabou a vida como deputado num partido de direita.

      Comprei há tempos um livro de Júlio Carrapato um anarquista de “renome”. Desanca na esquerda da primeira à ultima página. Não poupa nenhum partido ou movimento operário.

      Li tudo o que encontrei de Prokotkin admiro os seus principios morais e politicos. Por esse facto não tolero oportunismos divisionistas que evocam os seus ideais.

  9. Chalana diz:

    Camarada Bruno:

    Quem se mete com esta cambada… acaba numa marmelada! E das grandes. Se tu e mais meia-dúzia de camaradas compreenderem isto, já todo o movimento “Revolução 19 de Maio” será uma inestimável vitória! Não vou perder muito latim com isto aqui porque temos tratado disto no http://anti-trollurbano.blogspot.com e, por outro, a dupla maravilha Renato & Raquel inauguraram a censura política no blog 5 dias.

    Posto isto, é como tu dizes: Madrid pariu um rato e, quanto a plataformas mínimas como esta – se aceitas a opinião -, atá o Partido Nova Democracia subscrevia.

    Saudações comunistas

  10. António Baptista diz:

    Bruno, também acho que é um minimalismo extremo e não espero maravilhas de um grupo politicamente tão heterogéneo como os “acampistas”. Em todo o caso, creio que seria bom (para a esquerda espanhola e para as perspectivas até de um partido como o Bildu ou o PCPE que sei que apoias) e democrático trazer muito mais proporcionalidade ao sistema político espanhol que é fortemente enviesado (é quase um sistema maioritário com aparência de proporcional) a favor das maiorias e dos partidos do centrão (PP e PSOE) e que foi assim mesmo pensado pelos franquistas para sufocar a esquerda à esquerda do PSOE por meio da patranha do “voto útil” – by the way, a nossa proporcionalidade também poderia e deveria melhorar muito e isso teria efeitos positivos a longo prazo em Portugal. Sem falar que a perspectiva de real perda de votos e apoios para a esquerda mais à esquerda sempre pode ajudar a constranger o afã neoliberal de reforma dos PSOEs. Nesse sentido, até essas propostas mínimas, poderiam ter ganhos a longo prazo, ganhos para forças que considero mais consequentes poderem defender projectos mais radicais. Acho que o mais “grave” destes movimentos é um posicionamento infantilmente “anti-partidos”. Mas o posicionamento das pessoas dos partidos parece-me excessivamente “anti-movimentos-não-dominados-pelos-partidos-consequentes”: parece às vezes que esses movimentos fazem “mais mal do que bem” e eu apesar de tudo acho que são possibilidades a explorar, embora sabendo de antemão muitas das limitações desses movimentos. Dali não vai nem poderia emergir qualquer coisa de realmente revolucionário (até pela falta de organicidade ou simplesmente de coerência ideológica do movimento). Mas também isso não é um cenário que se possa colocar a propósito de qualquer acção política (dirigida ou não a partir de partidos políticos) nos tempos que correm.

  11. Abilio Rosa diz:

    Madrid foi uma boa «golpada» do PP para criar um ambiente propício à mudança.
    À mudança deles!
    Há burros que nunca aprendem!

    • Carlos Carapeto diz:

      Partindo deste principio não se faz nada fica tudo tal como está? Se à partida sabemos que a direita vai ter mais de 80% dos votos, para quê perder tempo a fazer campanha ? Se as leis que vão sair têm a provação garantida da direita, para quê lutar contra elas?

      Vamos ficar apáticos à espera de milagres? O povo e os trabalhadores são eles que devem fazer os seus próprios milagres.

      O A Aleixo disse.

      Isto vai mal dizemos
      E vai de mal a pior
      Afinal o que fazemos
      Para que tudo melhor?

  12. Filipe Feio diz:

    Madrid pariu um rato? Na minha opinião, Madrid fez algo de monumental, que dificilmente cabe em palavras, e que, por certo, será apenas expressão de algo maior em curso, e que temos ainda dificuldade em compreender: Madrid agregou, reuniu, ouviu, dialogou, cresceu, continuou. Madrid ganhou voz. MADRID GANHOU VOZ! E, por fim, Madrid falou! Mas não falou para si mesma. Falou para o Mundo, porque o Mundo estava atento ao que Madrid tinha para dizer. Madrid mostrou ao Mundo que é possível. Será isso um rato?

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