Limpar a porcaria, pois sim, mas a outra

O futebol dá sempre muito jeito. Pelo menos é essa a justificação pela expulsão dos manifestantes da acampada de Barcelona com uma carga policial pela calada da madrugada:

«A intenção dos agentes é que os “indignados” abandonem temporariamente a praça para que os agentes a limpem antes da final da Champions, que decorre amanhã e que vai colocar frente-a-frente o Barça e o Manchester United.»

Diz que é temporário, mas a limpeza inclui também o roubo de todo o tipo de materiais que os manifestantes da acampada utilizavam e cuidavam. Um roubo descarado, uma carga policial e o esvaziamento de uma praça pela manutenção da ordem da higiene pública. Sempre quero ver a higiene mantida pelos adeptos do Barcelona e do Manchester United nas praças da capital da Catalunha e se essa é a real justificação por este acto simpático das autoridades.

Isto lembra-me uma coisa que está a acontecer em Coimbra. A CDU pinta um mural na monumental escadaria, os estudantes trajados – que fazem magníficas limpezas nos corpos dos caloiros – manifestam-se contra a coisa.

A higiene moral desta malta é uma coisa repugnante.

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9 respostas a Limpar a porcaria, pois sim, mas a outra

  1. Pedro Penilo diz:

    Num inquérito tendencioso no Facebook, onde se mistura sentido estético com o direito de uso do espaço público para a expressão livre, João Almeida, do Bloco de Esquerda, classifica o acto da CDU de “vandalismo” (André Freire, esse comentador democrata, também – mas este, sem espanto meu).

    Não fosse a suspeita de que alguma dor de cotovelo terá motivado, mais que tudo, a opção oportunista (para mim surpreendente) de João Almeida, e perguntaria que pensa ele deste mural monocromático, na parede da FCSH:

    http://1.bp.blogspot.com/_lhCkUctAfaA/TOzZPDG0NAI/AAAAAAAADcE/avMBrFkfFy0/s1600/IMG00264-20101124-0913.jpg

    Eu cá gosto. E não tem a ver com gosto…

    • Youri Paiva diz:

      É preciso manter a aparência e o bom gosto, mesmo em relação a murais. As pessoas desabituaram-se a ver murais, principalmente em sítios parecem «monumentos». Mas é estranho, antes era normal os estudantes fazerem murais, agora qualquer um – pseudo-monumento ou não pseudo-monumento – é considerado por boa parte dos mesmos como vandalismo.

      • Pedro Penilo diz:

        Mas não estamos a falar de “murais” – palavra que associamos a painéis figurados, normalmente com uma assumida intenção estética. Nem a lei determina o grau estético da intervenção. Nem a nossa consciência militante nos desvia do que é justo, consoante a “mestria” do autor.

        • Youri Paiva diz:

          Sim, mas não falo da nossa consciência. Parece-me que estamos a voltar para trás: existe uma percepção mais ou menos generalizada que prefere o limpinho a qualquer tipo de «confusão» na visão, audição ou ideia.

  2. l'outre diz:

    Está a comparar o incomparável

    • Youri Paiva diz:

      Ai é? Então porque?

      É que há umas porcarias que interessam e umas outras «porcarias» que não interessam. Escolhas da sociedade contemporânea.

  3. António Baptista diz:

    Correctíssimo, Yuri. Confesso que ver apoiantes/amigos/militantes do bloco a chamar o mural (qualquer mural político) de “vandalismo” deixa-me (honestamente) escandalizado. É uma questão de pura sensibilidade democrática mínima perceber que os partidos e movimentos têm direito a fazer propaganda política, transmitir mensagens políticas por um meio relativamente inócuo, ainda para mais. Para entender isto não deveria sequer ser preciso ser de esquerda, mas parece que nem sendo “genericamente” de esquerda se entende hoje isso. E nesse sentido acho que tens razão quanto a retrocessos. Também já andam a dizer que se gasta muito dinheiro com o acto eleitoral, aliás, só com o papel dos boletins de voto (esta pérola veio de uma prima minha membro da JSD)!

  4. Abilio Rosa diz:

    Mais moral proletária e menos «mural» pequeno-burguesa.

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