“Me gustas democracia, pero estás como ausente”, por José Vítor Malheiros

Estes jovens não se sentem tratados com justiça pelo sistema económico nem representados pelo sistema político. A frase que dá título a esta crónica, com um cheirinho a Neruda, está escrita num cartão encostado à estátua de D. Pedro IV, no Rossio, em Lisboa. É um dos muitos cartões com dizeres que se acumulam na acampada a que um grupo de jovens espanhóis deu início na semana passada em Lisboa e aos quais se juntaram, entretanto, dezenas de jovens portugueses. O grupo chega a algumas centenas nas “assembleias populares”, momentos de maior concentração. Mas este mesmo cartaz não está só em Lisboa. Ele está a aparecer em dezenas de cidades europeias. Estes jovens do Rossio são uma extensão do grupo de espanhóis que tem estado nos últimos dias a ocupar a praça da Puerta del Sol em Madrid e outras cidades espanholas e que se tem alargado entretanto, via redes sociais, a outras cidades europeias (Amsterdão, Bruxelas, Paris, Dublin, Berlim…).

A Internet está cheia de vídeos, blogs e tweets destas concentrações, ocupações, acampamentos, organizados de forma espontânea ou convocados de forma descentralizada por jovens reunidos no Movimento 15-M (de 15 de Maio, data da primeira concentração espanhola) e unidos sob o slogan “Democracia real já!”. Os jovens espanhóis disseram-se desde o início inspirados pelo movimento português Geração à Rasca, mas as manifestações do Norte de África também são referências no discurso dos oradores que se sucedem atrás dos megafones nas várias cidades europeias. O que querem estes jovens? O que gritam nos seus megafones? O que escrevem nos seus cartões? Democracia verdadeira, dizem. As palavras de ordem, que se repetem com variantes em todas as cidades, são humorísticas (“Yes we camp!”) e de desafio (“Toma la calle!”, “J’y suis! J’y reste! Je-ne-partirais-pas!”) mas são também claramente reivindicativas: “I don’t feel represented!”, “Não somos anti-sistema. O sistema é anti-nós”, “Esta crise não pagamos”, “Não somos mercadoria de políticos e banqueiros”, “A bancos salvais. A pobres roubais”. Há slogans a fazer lembrar Maio de 68 (“Os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas”, “Se não nos deixam sonhar, não vos deixaremos dormir!”), outros mais claramente políticos (“Contra a ditadura capitalista”, “Contra a ditadura económico-financeira”, “Pelo poder popular”), outros anti-liberais (“Porqué manda el mercado, si yo no le he votado?”), muitos contra o FMI. Muitos contra a corrupção (os políticos chorizos…). E muitas referências à Revolução, que estará a começar. Há queixas que se aproximam perigosamente do discurso populista anti-partidos. O cuidado (excessivo) em não se aproximarem das propostas deste ou daquele partido torna por vezes as críticas difusas e as propostas vagas, mas uma coisa é evidente: estes jovens não se sentem representados pelos políticos (“No! No! No-nos-representan!”). Nem no seu país nem na Europa. Nem se sentem tratados com isenção pelo sistema eleitoral. Não se sentem tratados com justiça pelo sistema económico. Não se sentem defendidos pelo sistema judicial. Sentem que o sistema financeiro é desumano, injusto e fomenta a desigualdade e o crime. E, quando se ouvem melhor, as suas críticas aos partidos têm a ver com o facto de o sistema os forçar a escolher entre um PS e PSD (em Portugal) ou entre um PP e PSOE (Espanha) que, se podem ser distinguíveis, representam uma democracia armadilhada, que está como ausente, que coloca todas as escolhas fora da sua mão, do seu voto, da sua vontade, na mão do FMI, da União Europeia ou do mercado. Não foi por acaso que a multidão que enchia a Puerta del Sol recebeu o resultado das eleições regionais espanholas na mais absoluta indiferença. O que os move não é a adesão a este ou àquele partido. Nenhum os entusiasma nem lhes merece confiança. Não apelam ao voto nem à abstenção, mas sentem que não é nas eleições que vão conseguir mudar o que querem mudar. E, ganhe quem ganhar as eleições, estão dispostos a não nos deixar dormir. Ainda bem.

Via Portugal Uncut

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12 respostas a “Me gustas democracia, pero estás como ausente”, por José Vítor Malheiros

  1. Fafe diz:

    VOTO ÚTIL CONTRA O PS DE SÓCRATES NOS DISTRITOS COM POUCOS ELEITORES

    http://educar.wordpress.com

  2. MBO diz:

    Desculpe-me a malta de esquerda, mas … adoro espanha
    http://supraciliar.blogspot.com/2011/05/espana-me-encanta.html

  3. MBO diz:

    E depois há este detalhe (http://supraciliar.blogspot.com/2011/05/revolucao-e-imitacao-da-revolucao.html) que advém da facilidade com que se brinca à revolução. Perde-se o filtro e torna-se menos fácil para alguns (o 5 dias p.e.) distinguir opções de vida de reinação.

  4. Rocha diz:

    O que eu gostaria de ver nas reflexões do Renato ou outros participantes na acampada é: até onde vai a moda anti-partidos e isto tem alguma coisa à ver com luta de classes?

    A mim recorda-me o arqueológico fenómeno dos Narodiks na Rússia pré-revolucionária czarista, que eram um movimento romântico e muito bem intencionado naquele contexto percursor de algo mais substantivo, como os sovietes e os bolcheviques.

    O Renato e outros que estão na acamapada podem não se rever em nenhum partido de momento mas não lhe preocupa os danos que a moda anti-partidos possam causar? Não me digas que a Rubra não tem ambições de construir um partido revolucionário…

    O discurso anti-partidos soa-me familiar, recorda-me o megafone de um gajo anarco-sindicalista daqui do Porto que não hesita em deitar abaixo todos os partidos e sindicatos esquecendo-se que ele próprio é o grande promotor do seu Sindicato de Ofícios Vários-AIT anarco-sindicalista. Não receará ser queimado como o seu próprio fogo?

    De cidadania anti-partidos também já tivemos a dose do Alegre versão 1.0 e do Fernando Nobre transformando-se posteriormente em montanhas que pariram ratos, mas ainda cá ficaram os “nobres cidadãos” do Movimento Esperança Portugal, o Coelho da Madeira e muitos outros salvadores da pátria do Partido Anti-Partidos.

    Os que para já ainda não abraçaram essa nobre causa eleitoreira (que eu saiba…) são os nazis do PNR, mas por mero acaso diria eu, já que ninguém poderá gerir melhor esse embuste demagogo que aqueles fascistas que de bom grado dissolveriam o parlamento e todas as assembleias locais e regionais e ilegalizariam todos os partidos em nome da “unidade nacional”.

    Eu acho que as estratégias de terra queimada e de quanto pior melhor merecem neste momento uma importante reflexão. A dúvida é se isto é uma revolta, ela é contra quem? Contra PS-PSD-CDS (os da Troika-FMI), a CIP (e sua gémea UGT), a AEP, a Banca por um lado ou contra o PCP, BE e CGTP por outro lado?

    Às vezes isto não fica claro, embora eu possa concluir que se trata de um protesto fundamentalmente contra os do sistema PS-PSD-CDS e eventualmente contra o PCP e BE quando lá vem a onda anti-partidos. Coloca-se a questão das alternativas, do que querem afinal estas iniciativas. Se não são partidários, se não são um movimento político, se não querem fazer um partido (o que me parece o mais correcto), serão um movimento social? Porque não se assumem como um movimento social? E se optassem por se assumir como movimento social, o que já é uma classificação importante, restaria saber que classes representam, que classes defendem.

    Não vale a pena protelar estas questões por muito tempo sob pena de a montanha mais uma vez parir um rato: os que estão contra o sistema, opõem-se ao capitalismo? Que alternativas de pode político propõem? Que alternativas de poder social propõem? Democracia participativa? Partidos de esquerda? Partidos revolucionários? Sindicatos de classe? Cooperativismo? Reforma agrária? Nacionalizações? Controlo operário? Socialismo? O quê?

    Se isto tem alguma coisa à ver com luta de classes, onde está isso afirmado? Salienta-se essa questão central nos manifestos que têm produzido? Que classes pretendem assumir a acampada contra o poder do actual sistema?

    • Helena Borges diz:

      O gajo da AIT-SP de megafone na mão é um amigo querido. Não gosto de ler-lhe associada a imagem de um sujeito incongruente de discurso bota-abaixista, porque não é disso que ele se trata. Sabe ouvir, portanto, saibamos ouvi-lo, também, ainda que não concordemos com o que diz.

    • criminal mental diz:

      disculpe que le hable en español pero mi portugues es cosa de risa. dejeme decirle que lo que hoy esta sucediendo en rossio es una muestra de humanidad colosal. a pesar de lo que pueda soltar un individuo concreto en el megafono; que conste que no me refiero al tipo ese del que habla; lo que alli sucede es la emancipacion de una generacion entera de portugueses, de diferentes estratos y edades, de la manipulacion que ejerce el mercado sobre, me atreveria a decirlo, la poblacion mundial. acaso usted no teme por el futuro de sus hijos y nietos? acaso usted no cree que el sistema economico vigente agoniza de viejo e incongruente? no ha pensado nunca que al ritmo que vivimos nuestra sociedad esta al borde de un colapso y que un sistema de consumo que, y esto es INNEGABLE, es insostenible por definicion, tiene los dias contados. acaso duda usted que con la tecnologia y los avances cientificos actuales, y teniendo en cuenta su ritmo de avance, no nos seria posible acabar con las desigualdades sociales y economicas, asi como erradicar el hambre y muchas de las enfermedades que asolan nuestro planeta? de verdad seria usted capaz de afirmar que las guerras que hoy dia asolan gran parte del mundo, y en las cuales nuestros paises participan activamente, estan justificadas y obedecen a principios eticos sostenibles? y asi podria seguir con un larguisimo etcetera.
      Evidentemente no tenemos la solucion. ni yo, ni ninguno de los que cada dia salimos a la calle a exigir un mundo mejor para USTED. Pero la solucion no empieza por quedarse de brazos cruzados, estoy seguro. y menos aun, por contribuir a la destruccion de pueblos enteros y de una biodiversidad que agoniza bajo la bota del sistema de mercado.
      Imaginese dentro de 20 años. haga el esfuerzo. cuando los recursos empiecen a no ser tan abundantes. cuando el agua empiece a no ser potable. cuando la biodiversidad de la tierra, tan rica un dia, se haya visto reducida en gran medida. cuando su nieto le pregunte; abuelo,¿ por que destruiais los bosques?. cual seria su respuesta.
      no, no tengo soluciones. pero tengo propuestas. y propuestas sensatas. lastima que usted no quiera oirlas. o si quiere? yo tengo las mias, y en cientos de ciudades a lo largo del mundo la gente empieza a tener las suyas. hoy en grecia, mas de 20.000 personas salieron a la calle a decir BASTA. por que esta situacion parece una sátira de The Monty Pyton Show. y lo peor, es que hoy tambien se reunia el G-8 en Francia. Con el firme proposito de crear una “Internet Civilizada” segun dijo el presidente frances. de verdad cree que ese es el camino hacia un mundo mejor. un camino en el que presidentes de varios paises, guiados por intereses de mercado, deciden el No-Futuro de cientos de millones de personas.
      Al leer su comentario me parecio usted una persona culta. de verdad no piensa que es hora de cambiar las cosas. si pensara que si, le guardare un sitio a mi lado en la proxima asamblea. quizas juntos se nos ocurra como hacerlo.

      Si yo con 25 años puedo entender esto.
      que han estado ustedes haciendo toda su vida?
      la proxima vez, piensen en que mundo quieren que vivan sus hijos.

      • Rocha diz:

        Amigo criminal (un poco raro ese nombre, no?), compañero, compatriota de la humanidad,

        La crisis que le preocupa, las amenazas a la humanidad y a la naturaleza/biodiversidad que le preocupan las comparto hace muchos años. La gravedad de la situación es muy de acuerdo con sus terminos. La lucha contra este sistema podrido es impostergable.

        Mi comentário reflexiona sobre una tendencia ideologica anti-partidista en las acampadas, no como rechazo de las personas acampadas que creo mis amigas, que creo estarmos en la misma lucha, pero como preocupación. Los amigos se preocupan con las debilidades de sus amigos.

        El anti-partidismo es una debilidad, en mi opinion. Incluso en España donde los sindicatos anarquistas tienen más fuerza que en qualquer otro lugar del mundo, que seria de ellos sin plataformas de unidad con muchos partidos y sindicatos marxistas y izquierdistas que de igual manera luchan valientemiente contra el capitalismo?

        El anti-partidismo es muy divisionista y peligroso porque ya muchas veces en el pasado se utilizo el anti-partidismo para atropellar y destruir lo poco de democracia que quede en una republica y quien lo aprovecharon fueron los fascistas/falangistas.

        No es eso que quieren los miles que este momento acanpan por todo el mundo, lo sé, pero como amigo no debo ignorar las debilidades de mis amigos. Solo estoy intentando ayudar.

    • Renato Teixeira diz:

      Rocha, passe no Rossio. Tome a palavra. Ouça o que lhe é dito. Crie ou passe num grupo de trabalho ou de debate, coloque lá cada uma dessas perguntas. Verá que vai ficar surpreendido.

      • Rocha diz:

        Só posso participar no Porto porque não há guita para ir a Lisboa. No Porto o acampamento está tomado por um extremismo sectário feminista, até ver. Gostava de ver a coisa a alargar no Porto à gente comum, mas se o núcleo inicial insistir no sectarismo vai ser muito difícil.

  5. Diogo diz:

    Recoloco uma sugestão:

    As manifestações e os acampamentos, que considero um extraordinário esforço de vontade e abnegação, com o passar dos dias podem tornar-se mais cansativos e desgastantes para os manifestantes do que para o «PODER».

    A geração à rasca dispõe de muitos milhares de advogados. Porque não começar por acusar judicialmente os políticos cujas obras inúteis e faraónicas enterraram o país perante os bancos – eufemisticamente chamados «mercados»? E ter um exército constantemente nas salas de tribunal para não deixar os juízes colocar o pé em ramo verde e a beneficiarem o político A, o administrador B ou o autarca C.

    A geração à rasca dispõe igualmente de muitos milhares de economistas, contabilistas e engenheiros. Porque não colocá-los a examinar a pente fino as contabilidades do Banco de Portugal, dos Bancos, das Câmaras Municipais e das PPPs?

    Não será tempo de agir também de outra forma? Com mais assertividade?

    • criminal mental diz:

      sus propuestas seran bienvenidas en la proxima asamblea. por que tambien usted deberia estar indignado. muestre su apoyo a los que se manifiestan por SUS derechos, los de usted. por que 20.000 personas en grecia salieron hoy a la calle para decirle a usted, que el FMI hundira su vida en la miseria.

    • Renato Teixeira diz:

      Essas propostas|perguntas fazem todo o sentido na Assembleia. Não aqui.

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