Direito a Brincar 2

A Mariana fez este post sobre a prisão em que se transformou a escola, que mantém 35 a 37 horas por semana as crianças dentro de uma sala de aula e/ou sobre a orientação permanente de adultos. Na sala brinca-se, pinta-se, canta-se e, pasme-se, vê-se televisão; no recreio pinta-se, desenha-se e faz-se fichas de leitura. É o aprender a brincar e brincar a aprender. Lembrei-me por isso de Carlos Neto, hoje creio que director da F. Motricidade Humana, que estudou os tremendos impactos que a falta de brincar tem nas crianças. Que tal aprender e brincar a sério?

Entrevista a Carlos Neto – Professor da Faculdade de Motricidade Humana
“O Recreio” “É o único local que resta às crianças para brincarem livremente”. Um lugar onde estão por elas, entre elas, sem adultos a preencher-lhes o tempo.   Os pais têm cada vez mais medo e mais medos. Têm medo que os filhos se magoem, que sejam roubados, que sejam atropelados, que sejam violados, que sejam raptados.

Os pais estão cada vez mais a inventar a infância dos filhos e o modo como o fazem poderá estar já a deturpar o seu desenvolvimento. Serão menos de 15 em cada 100 as crianças portuguesas que continuam a poder brincar na rua sem a supervisão de adultos e menos de 30 por cento as que se deslocam para a escola sozinhas ou apenas acompanhadas por amigos, adianta Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, com base em inquéritos e estudos que tem vindo a desenvolver, tanto no âmbito do mestrado em Desenvolvimento da Criança, de que é coordenador, como em parceria com universidades e outras instituições. Também por observação directa Carlos Neto fala de um progressivo “analfabetismo motor” que está a tomar conta desta geração criada entre quatro paredes. As crianças mexem-se cada vez menos e cada vez pior. Por exemplo, começam a correr e chocam com as cabeças uns dos outros. “O afinamento perceptivo está em decadência”, constata. Para esta “falta” de rua contribuem vários fenómenos cruzados. Entre eles: os pais estão com mais medo, as cidades têm mais carros e menos espaços livres, há mais oferta de actividades dentro de casa (computador, televisão, vídeo), as crianças têm menos tempo livre. O tempo que pertence por direito às crianças, para fazerem o que lhes apetece, está a ser roubado pelos adultos e os miúdos estão a ser  transformados em “crianças de agenda”, num corrupio entre a escola, onde passam o dia inteiro, e as actividades fora dela, alerta Carlos Neto. Alberto Nídio, sociólogo da infância, descreve assim o que acontece no resto do tempo destas crianças: “Depois chega a noite e têm que fazer os deveres. Aos sábados, têm escuteiros, catequese, piscina. E aos domingos ainda têm que sair com os pais.” “Um inferno”Nídio está agora a redigir a sua tese de doutoramento – Trajectos inter-geracionais do jogo, do brinquedo e da brincadeira -, que tem por base  entrevistas a 10 famílias, com quatro gerações vivas (os seus entrevistados oscilam entre os seis e os 98 anos), residentes em diferentes meios (urbano, rural e intermédio) e de classes sociais distintas. Numa das casas, a mãe queixou-se por a filha já não querer acompanhá-la nos passeios de domingo. A miúda explicou-lhe porquê, resumindo o que vai na alma de muitas outras crianças: “É uma seca. Vai visitar a avó ou a tia. Fica lá a falar. Durante a semana, faço o que outros querem, mas ao domingo queria fazer o que me apetecesse”. Alberto Nídio e Carlos Neto não poupam palavras duras para descrever este quotidiano: “Um inferno”. “A identidade da infância não é compatível com a ideia de um intelecto activo num corpo passivo”, adverte o professor da Faculdade de Motricidade Humana (FMH). As crianças precisam de brincadeiras espontâneas, de ter tempo para explorar, de contacto com a natureza, de dispêndio de energia, de aventura. “Todos os animais que têm uma infância prolongada (como é o caso da vida humana, têm necessidade de investir muito tempo e jogo durante esse tempo como uma ferramenta de aprendizagem e adaptação para situações inesperadas e imprevisíveis de natureza motora, social e emocional na vida adulta”, explica Carlos Neto, que frisa: “Brincar é treinar para o inesperado”. Durante muito tempo, a rua foi o espaço de eleição da infância. Hoje, esse é… o recreio da escola. “É o único local que resta às crianças para brincarem livremente”, diz o professor da FMH. Um lugar onde estão por elas, entre elas, sem adultos a preencher-lhes o tempo. Este espantoso sinal dos tempos é também apontado por Alberto Nídio, que está, aliás, a colaborar com a Câmara do Porto num projecto destinado a adaptar melhor os recreios escolares a esta função central que agora desempenham. “Dar-lhes na cabeça”Para o sociólogo, que foi professor primário durante mais de 30 anos em Vila Verde (distrito de Braga), a própria escola vai ter de mudar para responder ao tempo crescente que ocupa na vida das crianças. Em média, recorda, as crianças passam ali mais 10 horas semanais do que há três anos, quando foram implementadas as chamadas “actividades de enriquecimento curricular” e alargado o horário das escolas do 1.º ciclo do ensino básico: “Estão sufocadas. Há crianças que estão nas escolas antes da oito horas da manhã e saem depois das 18, em actividades que, apesar de mudarem de nome, são mais do mesmo: ensinar”, descreve, chamando a atenção para esta características dos tempos correntes. Todos os adultos ali, sejam professores ou monitores em ATL e actividades desportivas, aparecem com um projecto para cumprir. “De um modo ou de outro, as crianças acabam sempre por estar com alguém a dar-lhes na cabeça.” Carlos Neto aponta também o dedo: “O aumento da carga curricular e a total formalização escolar não é compatível com as necessidades de desenvolvimento de crianças e jovens, que necessitam de tempo informal para a promoção de um estilo de vida mais activo”. O investigador tem dúvidas, por exemplo, acerca dos efeitos benéficos das aulas de substituição. “Na perspectiva das crianças, a falta do professor representava um ritual fundamental para se gostar de estar na escola. Era um momento para a actividade livre no recreio, actividades físicas e desportivas e convivência com os amigos.” Neto frisa, por outro lado, que as mais das vezes as novas aulas de substituição têm pouca ou nenhuma mais-valia: são preenchidas “com actividades incoerentes e não coincidentes com o projecto de ensino de cada disciplina”. Ao contrário das vivências experimentadas pelas gerações antes delas, a maioria dos miúdos de hoje desconhece, em absoluto, a explosão de energia que acontecia nas ruas no final de cada dia passado em aulas. Um estudo sobre níveis de bem-estar das crianças da Área Metropolitana de Lisboa (AML), realizado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, o Instituto de Apoio à Criança e a Faculdade de Motricidade Humana, em que foram inquiridas cinco mil crianças, mostra que quase 85 por cento não podem brincar com amigos depois do anoitecer, revela Carlos Neto. Os pais têm cada vez mais medo e mais medos. Têm medo que os filhos se magoem, que sejam roubados, que sejam atropelados, que sejam violados, que sejam raptados. Neto e Nídio falam mesmo de “paranóia” e sublinham as responsabilidades da comunicação  social neste processo, que tende a agravar-se. Também para efeitos  de cultura familiar “o caso Maddie foi uma tragédia”, alerta o professor da FMH. Inês Lobão, psicóloga, monitora na mediateca do centro social da Musgueira, Lisboa, regressou há sete meses aos arredores da capital, depois de quatro anos numa aldeia do Centro do país, onde nasceu o seu filho mais novo. O mais velho foi para lá ainda quase bebé. Cresceram de porta aberta para o quintal. Hoje, no prédio onde vivem, em Queluz, descem por vezes à frente da mãe: “Os meus vizinhos ficam em pânico se os vêem lá em baixo a brincar sozinhos”. “Um tesouro”Nisto do que fazer com os filhos, as novas tecnologias, e, antes delas, já a televisão, são amigas dos pais: estão a transformar a casa – e, nela, o quarto – no centro do mundo dos filhos. “O quarto dá-lhes tudo. Têm lá a televisão, o computador, a consola”, refere Nídio. Mesmo nas casas mais humildes, os miúdos têm isto tudo, constata. Em média, as crianças portuguesas passam mais de três horas por dia à frente de ecrãs. Alberto Nídio chama-lhes “nativos digitais”, em contraposição com a “maioria de info-excluídos” que compõem as gerações dos seus pais e avós. Diz que este contraponto poderá estar a contribuir para a sobrevalorização da criança nos tempos de hoje: “Os pais olham para elas e acham-nas importantes. São depositadas muitas expectativas  nelas”. “É um tesouro que está ali”, disse-lhe um bisavô de 92 anos sobre o neto de oito. Este modo de encarar as crianças poderá também ajudar a explicar o medo crescente que tem tomado conta dos adultos. E que está a condenar  os mais novos. Nos inquéritos que tem feito, Nídio constatou, por exemplo, que mesmo aqueles para quem o quarto é tudo, se tivessem oportunidade, se os deixassem, o que queriam era ir brincar lá para fora. Menos rua em países do SulAo contrário do que poderia parecer óbvio, até por causa do clima, é nos países do Sul da Europa que as crianças passam mais tempo em interiores. A diferença é abissal: nos países nórdicos, quase todas as crianças (99 por cento) vão para a escola sozinhas ou com amigos e podem brincar na rua com autonomia, adianta Neto, com base em dados constantes de um estudo comparativo sobre a mobilidade das crianças europeias, publicado em 2001. Uma sondagem conduzida anualmente pela Duracell em nove países europeus, Portugal incluído, dá conta de que, na Alemanha ou na Holanda, as actividades no exterior encontram-se no topo das preferências, com percentagens (33 e 30 por cento) que praticamente triplicam as contabilizadas junto das crianças portuguesas (11 por cento). Mas não são só as diferenças Norte-Sul a ditar variações. Brincar ou não na rua depende ainda também  da  classe  social  de  pertença  e  do  meio  envolvente.  As  crianças  e  jovens  realojados  na Musgueira que diariamente frequentam a mediateca onde Inês Lobão trabalha terão, pelo contrário, “rua a mais”, constata a psicóloga.  A “cultura de rua” é ainda muito forte em quase todos os bairros de realojamento e também nos bairros mais populares, em forte contraste com o deserto silencioso em que se transformaram as zonas residenciais da classe média. Inês Lobão diz que os “seus” jovens se habituaram a estar na rua desde pequenos, que esta cultura é passada de irmão para irmão. Muitos deles vêm de famílias com oito e 10 filhos. É outra diferença: os filhos únicos estão mais “enclausurados” do que os outros. Na Primavera passada, Alberto Nídio confirmou que se pode mudar de mundo em apenas um quilómetro. Nas entrevistas que realizou, deparou-se, nas quatro gerações, com uma referência comum ao lugar da catequese como local de brincadeiras. Foi ver o que se passava. Constatou primeiro que, “no meio urbano, o tempo que antecede e procede a catequese já não é de brincadeira”. “As crianças são transportadas de automóvel, geralmente pelas mães. Não são sequer deixadas no adro, mas levadas à porta, para [os adultos] terem a certeza de que as entregam ao catequista: cerca de cinco minutos antes do fim da catequese, que demora à volta de uma hora, já estão outra vez à porta para pegarem nas crianças e desaparecerem dali.” Mas a mil metros de Vila Verde, num contexto que Alberto Nídio descreve como “intermédio”, já não totalmente urbano mas ainda sem ser rural profundo, “a esmagadora maioria das crianças vai sem adultos para a catequese, numa brincadeira pegada que se estende ao adro do templo e às ruas em volta”. Parques infantis iguaisPara repor as crianças em acção não é só preciso que os pais mudem, é também necessário mudar as cidades e o que se decide sobre elas. O automóvel invadiu todos os espaços. Por se ter privilegiado sempre mais construção, as zonas  livres são cada vez menos; e aquelas que foram “concebidas” para as  crianças  sofrem de um mal de raiz. “A maior parte dos espaços de recreio e jogo para crianças resulta de critérios ligados ao ‘negócio’ empresarial e político. Um bom exemplo disso são os parques infantis completamente padronizados, iguais em todo o lado, sem interesse nenhum para as crianças”, denuncia Carlos Neto. Uma entre outras lacunas, diz: “Está ainda por criar em Portugal o conceito de espaço aventura”, em que os mais novos são intervenientes no processo de construção e se privilegia o contacto com a natureza. “Hoje, a vida na cidade é desesperadamente adulta e racional”, lamenta o professor da Faculdade de Motricidade Humana. Em Londres, Nova Iorque, em vários pontos da Alemanha, entre outros lugares, estão em curso projectos com o objectivo de tornar as cidades mais amigas das crianças, promover a mobilidade (em Londres, os transportes públicos são gratuitos para menores de 16 anos) e assim ajudar também a combater uma das grandes ameaças do século, a obesidade. Calcula-se que, nas sociedades desenvolvidas,  40 a 45 por cento das crianças e adolescentes sejam sedentárias ou insuficientemente activas, adianta Carlos Neto. Provavelmente, irão dar corpo a uma geração de obesos (em Portugal, cerca de 14 por cento das crianças já o serão). Mas não é só o corpo, é também a alma que se encontra ameaçada. Neto di-lo de outro modo e deixa o recado: “É absolutamente importante que as  crianças tenham uma infância feliz, não uma infância inventada pelos adultos”.

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Uma resposta a Direito a Brincar 2

  1. ss diz:

    também os finlandeses passam menos tempo na escola e têm melhores resultados

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