As minhas 4 exposições de Maio (na “Sábado”)

PAULO CATRICA
Museu da Electricidade, Lisboa (até 22/5).
Prossegue o ciclo temático em torno do Teatro S. Carlos, agora com “TNSC: A Prospectus Archive”, por Paulo Catrica. À primeira vista, agora imerso nos espaços interiores do S. Carlos, seríamos levados a pensar num terreno diverso e não habitual para o autor, ligado à foto de arquitecturas. Mas, não, é ainda, e uma outra vez, a arquitectura que aqui está em causa: o seu “interior”, no fundo o que a faz ser “arquitectura”. A exposição contraria um pouco a imagem formatada de Catrica; por isso, note-se que o fotógrafo já abordou a paisagem, o registo da acção desportiva (“Uma Cidade do Futebol”, 2004), onde a observância formal dos elementos em jogo acarreta outra vez uma “arquitectura”. E está presentemente e desenvolver doutoramento numa área atenta ao planeamento urbano (Universidade de Westminster). Esta abordagem aos interiores do Teatro de S. Carlos pode ser assim vista: o fotógrafo recria os bastidores do teatro como “arquitectura dentro da arquitectura”, dissolvendo as fronteiras entre interior e exterior, na forma e espaço. (“Sábado”, 5/5)

KOO JEONG A.
Centro de Arte Moderna, Fundação Gulbenkian (até 3/7)
Poderia começar por dizer – a propósito desta exposição de Koo Jeong A., artista coreana que agora se apresenta no CAM da Gulbenkian com obras produzidas para o local – que ainda bem que ela vai permanecer em Lisboa até ao próximo mês de Julho. Por uma razão simples (tão simples quanto a inteligente austeridade das obras): é que esta é uma exposição contracorrente, requerendo uma vivência meditativa e continuada, inventando lugares e distante da espectacularização da cidade. Koo Jeong A. (n. 1967) é uma artista de consagração internacional (merecidíssima) desde a passada década, por onde circulou pelas mais importantes bienais e locais (em 2010, expôs no Dia Center de Nova Iorque). Aqui expõe cinco caixas ou arquitecturas em forma de bunker, que nos convidam a entrar – mas nessas caixas muito pouco nos podemos adentrar. Apenas perscrutar uma ténue luz vermelha, uma parede escura, etc. Percepção e memória são temas convocados. São espaços nem abertos nem fechados, radicalizando as nossas impressões íntimas – e é essa, no fundo, a função do museu. Aqui cumprida. (“Sábado”, 12/5)

BESPhoto 2011
Museu Berardo (até 13/6).
Nesta 7ª edição do BESPhoto, a premiação foi justa: Manuela Marques, uma fotógrafa de circulação francesa mais que nacional (por cá, uma individual e várias colectivas que não permitem um regular acompanhamento). Os outros finalistas são Carlos Lobo, Kiluanji Kia Henda, Mário Macilau e Mauro Restiffe. Este Prémio nacional tem adquirido prestígio, por criteriosas selecções de finalistas e por premiação a cargo de jurados não nacionais, salvaguardando assim proximidades pessoais (normais num país pequeno). Este ano, a short list final incluía artistas dos países de língua portuguesa. Interessante escolha mas, nalguns casos, presa de realidades nacionais e identitárias. Manuela Marques, longe desses pressupostos, mostrava fotos e um vídeo ligados aos problemas da imagem e sua construção. A sua videoinstalação “Close-up” (em vários ecrãs) é um bom mote para a sua obra: no vídeo, figurantes lançam em câmara lenta bolas que lhes tapam-destapam os rostos. Tal como os seus espaços urbanos, sempre ocultados por árvores e sombras, ou as suas figuras – de costas para o espectador. Questão interessante: o que é fotografar e ser fotografado? (“Sábado, 19/5)


(José Malhoa, “Clara”)

ARTE PORTUGUESA DO SÉCULO XIX
Museu do Chiado, Lisboa (até 12/6)
O século XIX é a porta de entrada na modernidade: pertencem-lhe as revoltas de emancipação (1848 e 1871), Marx, Turner e a destruição do ponto de vista na pintura através de um espectador imerso na cena, a pintura francesa de plein-aire, Barbizon, Millet, Courbet, enfim… o Impressionismo, o começo de tudo. Aparentemente nada disso cá chegou, ao pacato Portugal artístico (porque de revoltas políticas tivemos a nossa conta). Mas esta exposição do Museu do Chiado é surpreendente e imperdível. Precisamente para verificar como, sem revoluções artísticas (não contamos um único pintor Impressionista em Portugal!), sem revoluções as nossas inovações foram aparecendo potencial e contidamente, em indispensáveis discursos de pintura como no romantismo de Francisco Metrass e Lupi, no paisagismo de Tomás da Anunciação e Silva Porto, no simbolismo de António Carneiro, no pré-Impressionismo de Malhoa e Henrique Pousão. Na virtuosa pintura de História de Veloso Salgado ou nos retratos e nas “penumbristas” cenas domésticas de Columbano, o pintor que representou o fim de um tempo e o princípio de outro: o tempo moderno, concretamente. (“Sábado, 26/5)

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7 respostas a As minhas 4 exposições de Maio (na “Sábado”)

  1. Jorge Antunes diz:

    Podias pôr o preço de cada uma destas exposições? É que como isto anda tudo o que não for à pala…

    • Carlos Vidal diz:

      Nada a dizer, nada a pagar: tudo livre trânsito.
      (Mas qualquer uma destas expos, se toda e por inteiro, a comprar por atacado é capaz de ser de compra difícil. Mas, também é facto que estamos em saldos.)

  2. jose diz:

    Boa porcaria metafórica o Bes Photo, a vulgarização da metáfora é tremenda, usada de qualquer maneira para o consolo de algumas palmadinhas nas costas, dentro de um grupo.
    bem bem, haja liberdade também para a porcaria que eu vejo, não quer dizer que seja geral nestes prémios de fotografia.É a minha opinião.

    • Carlos Vidal diz:

      Mais ou menos o que eu disse:
      “… não quer dizer que seja geral nestes prémios de fotografia…”

  3. Helena Borges diz:

    Deixas-me com vontade de ir à segunda e à última. À segunda, irei; à última, pode ser que passe por Lisboa a tempo do tempo moderno…

    • Carlos Vidal diz:

      Boa notícia, Helena.
      Como o meu emprego é numa casa existente nas traseiras da última exposição referida, cá te espero. O século XIX português é muito curioso: quase nem perece o século XIX.
      A Koo Jeong revela-nos o prazer do vazio. Que é o de ter sempre lá dentro qualquer coisa. O que parece não é. Muito bom.

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