A escola a tempo inteiro e o direito a brincar

A lei sobre organização curricular do primeiro ciclo do ensino básico (a antiga escola primária) prevê que as crianças dos 6 aos 10 anos tenham 25 horas de aulas semanais. Aprenderão língua portuguesa, matemática e estudo do meio, terão aulas de expressões artísticas e físico-motoras. A somar a estas 25 horas, é suposto que as escolas ofereçam mais 10 horas semanais de actividades extra-curriculares. Ou seja, é suposto os miúdos estarem 35 horas por semana (o horário de muitos adultos) na escola, em contexto de aula, o que implica estarem sob direcção e orientação de um adulto. Depois disto, muitos estabelecimentos de ensino oferecem ainda a “componente de apoio à família” (afinal, quantos pais podem recolher os filhos na escola às 17:30, que é quando acabam as actividades lectivas?), na qual os miúdos fazem os trabalhos de casa e, por fim, se der tempo e ainda tiverem forças, vão brincar.

Isto está errado. Está pura e simplesmente errado. As necessidades de apoio por parte das famílias são reais, como bem sabe quem trabalha muitas horas por dia e não tem uma avó reformada disponível para recolher as crianças cedo. No entanto, o que estamos a fazer, enquanto sociedade, é organizar o tempo das crianças de acordo com as necessidades dos pais, das empresas, do mercado de trabalho, da economia, do Estado. O que deveríamos estar a fazer, pelo contrário, era organizar o tempo de todos eles em função das necessidades das crianças. Porque elas têm que aprender, é verdade, mas têm também direito a brincar. Direito a ter tempo para estar sem fazer nada, para correr, para jogar à bola, para conversar com os amigos. Tempo para ser criança. É de uma violência incrível pôr garotos de 6 anos a cumprir o horário de trabalho semanal de um adulto.

Para responder a este problema, é necessário repensar muitas coisas diferentes. Em primeiro lugar, os horários de trabalho dos adultos e as formas de trabalhar. Eu gostava de ver uma reflexão séria, à esquerda, sobre a organização dos tempos de trabalho, quer na função pública, quer nas empresas privadas, sobre a transformação do direito à jornada contínua num direito potestativo de pais e mães, sobre o teletrabalho, o trabalho por objectivos, por turnos e muitas coisas mais. Em suma, é urgente um novo discurso de esquerda sobre trabalho e família, com propostas claras e exequíveis.

Em segundo lugar, é indispensável repensar o papel da escola e dos processos de aprendizagem. A escola tem, hoje, que apoiar os pais no cuidado das crianças de uma forma diferente de há 30 anos. Queiramos ou não, já poucos sentem como solução viável mandar um filho de 6 anos sozinho para casa, depois das aulas, com chave de casa e instruções para aquecer o almoço no fogão. Isso significa que os miúdos têm mesmo que passar mais horas na escola. Mas passar mais horas na escola não tem que implicar actividades lectivas 35 horas por semana. A duração destas actividades tem que ser bem mais curta, para poder ser séria. Chega de fazer joguinhos para aprender e de ter que aprender quando se devia estar a brincar. Parece-me que deviam separar-se claramente os tempos de aprendizagem, em que se exige atenção e o cumprimento de uma série de regras (estar quieto, estar calado, esperar a sua vez, participar na aula, esforçar-se, concentrar-se no trabalho, etc) e os tempos de lazer, com liberdade e espaço para a imaginação e as preferências de cada um. Ou seja, as crianças podem perfeitamente estar mais horas na escola, simplesmente, a brincar. Urge falar disto tudo, enquanto não está terminado o processo de privatização da escola pública, de que o Ricardo Santos Pinto tão bem deu conta. Porque para salvar a escola pública, esta tem que ter qualidade e responder ao que as famílias esperam dela. Caso contrário, estamos a condená-la a uma morte lenta.

 

 

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