Explosão em Fukugima, desemprego em Sumaré.

 

JOSÉ MARTINS (economista, professor de Economia Política na Universidade Federal de Santa Catarina)

O que os trabalhadores metalúrgicos no Brasil têm a ver com a explosão das usinas nucleares em Fukugima, no Japão? A resposta já chegou para muitos deles na pior forma possível: na semana passada, a montadora global japonesa Honda anunciou a demissão de 400 funcionários de sua montadora instalada em Sumaré (118 km de São Paulo). O facão cortou 12% do efetivo da unidade, que reduzirá a produção pela metade – de 600 para 300 carros por dia.

O motivo? Interrupção do fornecimento de peças e componentes produzidos pela matriz no Japão, devido à drástica redução da produção industrial naquele país desde 12 de Março, data em que ocorreu o grande terremoto. Ninguém da empresa garantiu se e quando a situação pode ser normalizada. Como veremos abaixo, a produção industrial da terceira grande economia dominante do sistema imperialista ainda está completamente abalada.

IMPACTO GLOBAL

É claro que esse tsunami capitalista não está a atingir só a produção industrial brasileira. Suas conseqüências se espalharam instantaneamente por todos os poros do mercado mundial. Para locais, diga-se de passagem, muito mais nobres para o capital do que Sumaré, Zona Franca de Manaus e outros rebotalhos do sistema.

Vejam, por exemplo, os estragos provocados no mês passado na produção industrial da maior economia do mundo: “Em Abril, a produção industrial dos Estados Unidos caiu 0.4 por cento após subir por nove meses consecutivos. O total de veículos das montadoras caiu de uma taxa anualizada de 9.0 milhões de unidades para 7.9 milhões em Abril, devido principalmente à interrupção de peças resultante dos terremotos no Japão. Excluindo veículos e autopeças, a produção industrial subiu 0.2 por cento em Abril.”1

Pode-se imaginar o impacto ainda maior dessas turbulências nas economias satélites do Japão na área asiática: China, Índia, Indonésia, Filipinas, etc. Na China, a maior delas, as montadoras japonesas são responsáveis por um quarto da produção automobilística do país. Por isso já se comenta no mercado que essas montadoras poderão deslocar para a China a produção atualmente centralizada no Japão, caso o impasse atual deva permanecer por muito mais tempo – mais de doze meses, por exemplo. Na avaliação da Crítica, como veremos abaixo, o mais provável é que isso não ocorra.

A favor da avaliação de uma longa interrupção da produção joga o problema energético japonês. Há que se levar em conta principalmente as sucessivas interrupções no fornecimento de energia elétrica, o que pode desorganizar produção e, consequentemente, impedir a recuperação. A Tepco, maior empresa fornecedora de energia do Japão, levou o caos diretamente sobre a produção do país. O problema energético no Japão, doravante, será mais do que temporário. Qual a alternativa à geração de energia elétrica com combustíveis nucleares? Depois das explosões de Fukugima, a forma de geração de energia elétrica passou a ser um problema estrutural de dificílima solução para os japoneses.

PERSPECTIVAS

Para que ninguém duvide da gravidade da situação conjuntural da produção japonesa, vejam alguns dados mais recentes da sua produção industrial de bens duráveis, de acordo com dados do seu Ministério da Economia, Comércio e Indústria. 2 No mês de dezembro de 2010 a produção de bens duráveis crescia velozmente a uma taxa anualizada de 4.9%. No mesmo nível de recuperação cíclica da produção industrial de EUA e Alemanha, que formam com o próprio Japão o núcleo duro das economias dominantes (e imperialistas) mundiais. No primeiro trimestre de 2011, entretanto, essa produção desabou 12.2%, por conta de uma derrocada fenomenal de 41.1% já no mês de Março sobre o mês anterior. Não está ainda disponível a produção no mês de Abril. A previsão é que a derrocada de Março não foi significativamente alterada. A verificar.

Essa situação levanta algumas perguntas importantes. Existe alguma possibilidade da derrocada japonesa afetar a atual tendência de recuperação da produção mundial? Neste exato momento, a produção capitalista encontra-se no segundo ano de um novo ciclo econômico. Mas até quando vai espichar essa transitória fase de expansão? Depende de uma série de acontecimentos reais que estão caracterizar o ciclo atual.

Cada ciclo tem sua própria história. O ciclo tem que ser microscopicamente observado, para depois se estabelecer cenários de evolução. O que está a acontecer com a economia japonesa desde Março é um desses acontecimentos externos totalmente inesperados que poderia alterar a tendência desta atual fase de expansão. O mais provável, entretanto, é que a fortíssima recuperação da produção e dos lucros de EUA e Alemanha se sobreponham e mantenham a economia japonesa pelo menos em um estado estacionário até o final deste ano, aproximadamente. Analisaremos oportunamente os números de EUA e Alemanha que sustentam essa nossa avaliação.

A própria economia japonesa, a partir do último trimestre deste ano, no mais tardar, tenderá a reforçar a atual tendência expansionista da economia mundial, contribuindo ainda mais do que vinha fazendo até Fevereiro deste ano. Em primeiro lugar, os desastres de Março transformaram o exército industrial de reserva no Japão, tornando os trabalhadores totalmente enfraquecidos pela tragédia pessoal, pelo súbito aumento do desemprego. Esse desastre na vida da população pobre reduz instantaneamente os custos unitários do trabalho e aumenta a taxa de mais-valia extraída dos operários nas linhas de produção. Os lucros devem se elevar imediatamente, em nível muito superior ao que existia antes do terremoto. Por isso os capitalistas já voltaram a investir na economia.

A reconstrução das cidades e da infraestrutura em geral – rodovias, prédios e instalações industriais, portos, ferrovias, rodovias, aeroportos, usinas e linhas de transmissão, hospitais, escolas, etc. – também já está a pleno vapor, com volumosos recursos públicos e investimentos privados das maiores indústrias japonesas. Essa gigantesca elevação da demanda agregada da economia impulsionará o multiplicador dos investimentos, da produção e dos rendimentos das diversas frações das classes dominantes japonesas: acionistas proprietários de empresas industriais; sistema bancário e financeiro; propriedades territoriais (agrárias e urbanas); serviços em geral; grande comércio de atacado, distribuição e comércio exterior; alta burocracia estatal; família imperial; monges budistas, economistas, e uma miríade interminável de serviçais parasitas do capital.

Deve se confirmar a velha regra: a pior situação possível para a classe trabalhadora (a maioria da população) corresponde, no regime capitalista, às mais favoráveis oportunidades de negócios, de expansão dos lucros e de aumento da acumulação de riquezas sociais pelas classes dominantes. No Japão, teremos a oportunidade de testar, nos próximos meses, mais uma vez, a justeza desta regra de ouro do regime capitalista de produção.

1 Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) – Industrial Production and Capacity Utilization – 17/Maio/2011 www.federalreserve.gov

2 Ministry of Economy, Trade and Industry (Japão) – Indices of Industrial Production (Preliminaire Report) – Março 2011. www.meti.go.jp

Via Rubra

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Uma resposta a Explosão em Fukugima, desemprego em Sumaré.

  1. O marreta diz:

    alô Raquel! Tudo bem? K passa com os comentários?!? Um gajo posta & posta e nda, nickles, varapau!!!

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