Rossio hoje às 6. Derrota da Direita Espanhola nas Eleições. Zapatero tem Medo

Estamos a aprender pela primeira vez na vida como se participa numa Assembleia Popular. Por isso, ontem, um grupo de 20 pessoas, professores, investigadores, advogados, estudantes e desempregados, esteve reunido até às 3 da manhã a falar da melhor maneira de dar voz a todos. Estamos a aprender a democracia, com erros, hesitações, mas estamos a aprender rápido.

No Rossio uma casa foi erguida para lutar contra o FMI. Há grupos que asseguram a limpeza, a reciclagem, o dinheiro, a alimentação. Todos os dias as Assembleias enchem-se, às 6 da Tarde, para quem quer dizer e propor o que fazer contra a regressão social do FMI/Troika, contra a falta de democracia, que é a razão porque estamos ali. É um espaço público contra o pensamento único, a favor da acção conjunta contra a Troika, por isso é aberto a muitas e diferentes opiniões e por isso há pessoas que falam da dívida e outras que lamentam a conta da electricidade e outras, como um senhor ontem, que explicam, num momento de desespero humano, que apesar de desempregado e com uma esposa doente, lhe reduziram o RSI de 300 para 120 e poucos euros. Hoje, às 6 Assembleia, depois da Assembleia reunião aberta e pública do Comité Contra o Pagamento da Dívida.

A direita não arrasou a esquerda nas eleições espanholas, como se pode ver pelos resultados abaixo. Cada um faz deles a leitura que quiser. Eu, que Não Vou Abster-me, lembro que em Espanha o número de abstencionistas e votos nulos e brancos no conjunto foi mais de 13 milhões e meio de pessoas. A menos que o PCP e o BE achem que o PSOE é de esquerda, a conclusão a tirar de Espanha é que o PP subiu cerca de 500 mil votos e o PSOE perdeu cerca de 1 milhão e meio o que significa que a direita no seu conjunto, ou seja, PP e PSOE, que são justamente apontados como culpados na Praça do Sol, perderam nestas eleições 1 milhão de votos face às eleições passadas.

Agradeçam esta derrota à Praça del Sol, que trouxe muitas mais vitórias: quantas concessões vão ser feitas depois deste acampamento à classe trabalhadora? Quantas medidas de austeridade vão ficar na gaveta? Eu vi duas pessoas com medo, finalmente com medo, o rei a falar do emprego jovem (mas desta vez com medo) e Zapatero a dizer que «compreende» (mas desta vez com medo).

2007 2011
Abstenção 12 910 375 11 710 762
Brancos 427 067 584 012
Nulos 262 404 389 506
TOTAL 13 600 183
PP 7 916 075 8 474 031
PSOE 7 760 865 6 276 087
Total 15 676  940
IU 1 217 030 1 424 119
CIU 723 325 778 679

 

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24 respostas a Rossio hoje às 6. Derrota da Direita Espanhola nas Eleições. Zapatero tem Medo

  1. Carlos Vidal diz:

    Não tenho paciência nem tempo para isto, mas lá vai:
    onde é que está escrito ou dito que o PCP, dito pelo PCP, que o PSOE é esquerda, ou representa a esquerda espanhola??
    Disse o PCP que a esquerda espanhola, há dias, perdeu as eleições??

    • Raquel Varela diz:

      Disse que «a direita arrasou o PSOE» In
      http://www.odiario.info/?p=2082. Carlos, das duas uma: ou o Miguel Urbano não é do PCP, ou sendo não reflecte a posição do Partido, ou o PSOE não é de direita, uma vez que em português não se conlcluiu daquela frase que a direita arrasou a direita. Reduzir uma discussão política a uma frase de português… Ficamos sem perceber? Afinal a direita ganhou as eleições?

      • Carlos Vidal diz:

        É um pormenor sem qualquer interesse, num texto muito interessante.
        A questão é clara: o PSOE e o PP têm histórias diferentes, bases sociais diferentes. Estas cada vez mais se intercambiam hoje, se indistinguem, é certo, mas as histórias, sem dúvida, são diferentes (nem é preciso falar das Internacionais, pois não? O PP não veio de nenhuma, e se calhar quem sabe??).
        No essencial, o texto do Urbano Rodrigues diz que em Espanha como cá não se vive em democracia, que PSOE e PP são os dois rostos da democracia burguesa, ou de uma fachada democrática.
        Mas, se a lógica é irritar/provocar por nada, então… caminho aberto.
        Não vale a pena prolongar o “debate”. Faço como um francês que admiro: “o meu oponente tem sempre razão”.

    • Pedro Penilo diz:

      Também não vejo motivo para a afirmação de que o PCP disse o que a Raquel Varela diz que disse. A não ser que o PCP não seja um partido e se passasse a chamar Miguel Urbano, não vejo a possibilidade de se fazer tal afirmação. A não ser uma necessidade: precisar que isso tivesse sido dito.

      Eu faço a mesmíssima leitura dos resultados eleitorais: a direita ganhou, mas com menos votos; a esquerda reforçou posições. Isto quer dizer duas coisas: nem as “spanish revolutions” produzem resultados milagrosos, nem, por isso mesmo se poderão atribuir exclusivamente a elas estes resultados. Mas deram a sua contribuição, na medida em que, ao contrário da “Geração à Rasca”, souberam apontar baterias aos responsáveis: a direita, a oligarquia financeira e militar.

  2. João Pais diz:

    Então mas quem é que ficou a governar a esmagadora maioria das autarquias, não foi o bloco PSOE/PP? Então como é que aumentar a abstenção (ou o voto branco e nulo) ajuda os que estão nas Puertas del Sol?!

  3. miguel serras pereira diz:

    RV,
    por importante que seja a luta contra as condições do resgate que a oligarquia financeira europeia e global ditaram a este país, parece-me que o movimento das acampadas tem objectivos mais vastos e que é necessário não afunilar os seus objectivos, que a palavra de ordem “democracia já” resume bem e que são retomadas tanto pelo Manifesto da Puerta del Sol como pelo do Rossio.
    Assim, os objectivos concretos ganharão em ser situados e perspectivados a todo o momento do ponto de vista da democracia (real): outra forma de fazer política, repolitização da organização económica, propostas constituintes (reivindicação de direitos de participação governante dos cidadãos, reforma do sistema eleitoral no sentido da substituição dos “representantes” por delegados mandatados e efectivamente responsabilizáveis no desempenho das funções que exijam delegação, etc.).
    Daí que me pareçam de evitar formulações equívocas que tendem a resumir a uma acção “contra o FMI” as acampadas – sem dúvida, que no Rossio e noutros lugares é bem mais do que “uma casa contra o FMI” que se trata de construir, sendo que , ao mesmo tempo, o combate contra as condições ditadas pelo FMI e não só pode assumir várias formas e fazer-se por vias diferentes – por exemplo, numa perspectiva soberanista ou numa perspectiva internacionalista (e, para começar, federalista porque e para que global) – entre as quais será necessário optar por meio de uma deliberação clara e que ponha as diferentes propostas em cima da mesa.

    Alargando o termos do debate, será também necessário pôr com rigor e honestidade a questão europeia. Uma coisa é a revolta contra o enquadramento institucional antidemocrático da Europa ou o comportamento de instâncias responsáveis da UE – outra, e muito diferente, é a recusa da construção de uma cidadania europeia orientada pelos princípios da participação democrática, etc. como momento e via do combate contra a ditadura financeira da oligarquia.
    Quanto à posição de pura e simples recusa da dívida, sem mais, acaba, sob o seu radicalismo aparente, por encerrar e, do meu ponto de vista, encurralar a luta num quadro nacional limitado e em termos “nacionalistas” tacanhos – opostos ao que de melhor apareceu com os prenúncios do que poderá ser uma multiplicação e potenciação recíproca das acampadas ao nível da Europa (e não só), perspectiva que implica por certo uma articulação inteligente e integrada dos problemas de cada região.

    Assim, por exemplo, em vez de protestarmos contra “a Alemanha” e reclamarmos a nossa “independência nacional” contra ela quando Merkel diz o que diz sobre os horários de trabalho, a idade da reforma, os esforços a exigir em matéria de austeridade, etc., etc., deveríamos, continuando a repudiar essas soluções, endereçar aos trabalhadores e cidadãos comuns alemães e aos demais cidadãos europeus a seguinte mensagem: Achtung, companheiros, a imposição de tipo “colonial” de condições degradadas na periferia é um primeiro passo que prepara a ofensiva oligárquica no centro. Se não a travarem agora, o sucesso de uma política como a que Merkel tem em mente fará com que, daqui a nada, ela esteja a dizer aos trabalhadores alemães, franceses, etc. que precisam de compreender os imperativos da competitividade e da modernização económicas impostos pela globalização: o interesse da oligarquia é consolidar as suas posições globais e asfixiar em todas as regiões do mundo a construção de alternativas que apontem para a mundialização da democracia e da emancipação; por isso, a ofensiva contra as periferias é também uma ameaça aos direitos actuais e uma barreira à sua extensão posterior dos cidadãos comuns da Alemanha e de toda a Europa, etc., etc.

    Os exemplos poderiam multiplicar-se facilmente. Mas a pergunta é sempre a mesma: não será assim que devemos falar e agir se o quisermos continuar a fazer pela “democracia (real) já”?

    msp

    Post-scriptum: Para esclarcer bem alguns aspectos importantes sobre o que significam a renegociação, a reestruturação e a recusa da dívida, será muito útil visitar os posts recentemente publicados, nem todos na mesma perspectiva, pelos “Ladrões de Bicicletas” (http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/). Sobre o “exemplo islandês”, o Luís Rainha pôs os pontos nos is com a limpidez habitual num post ontem publicado no Vias (http://viasfacto.blogspot.com/2011/05/porr-calem-se-la-com-islandia-ou-pelo.html) e a leitura do dossier “islandês” posto a circular pelo esquerda.net contém também elementos indispensáveis.

  4. Carlos Fernandes diz:

    `É um espaço único contra o pensamento único´ , era bom era, minha cara blogger, até parece que isto é original e não é um movimento internacionalista, com mais de 500 ou 600 cidades mundiais. Portanto, eu não vejo aqui originalidade nenhuma, lamento mas vejo é carneirada, da mesma maneira que a outra carneirada (aqueles, e são muitos, que votam sempre no partido a ou b porque sim, sem pensamento crítico).

    Original era lançar temas e perspectivas originais, por exemplo, em Portugal (que é o que nos interessa antes de mais), porque é que os combustíveis são tão caros e a autoridade da concorrência não actua, porque é que a industria do petroleo, que controla (são accionistas) quer os mass.media quer as próprias marcas e fábricas automóveis continua criminosamente a poluir o planeta, a matar literalmente o nosso futuro e dos nossos filhos, e a abafar e a impedir alternativas limpas, como o automóvel electrico. And so on…

    • Leo diz:

      Se acompanhasse minimamente a intervenção do PCP e dos Verdes saberia que foram vezes sem conta que não só o PCP e os Verdes levantaram essas questões como até apresentaram soluções alternativas. Mas como desvaloriza o papel dos partidos prefere continuar autista.

  5. Augusto diz:

    Então a a Esquerda Independentista Basca , a grande surpresa destas eleições, não merece referência.

  6. Eduardo diz:

    Estou inteiramente de acordo com a autora. Espero que a Direita tenha em Portugal a mesma derrota que teve em Espanha.

    • Raquel Varela diz:

      Tem toda a razão mas num post não se pode falar de tudo. Foi um resultado proporcional à força dos juizes e socialistas que acharam que a questão basca se resolvia com leis.

    • Vasco diz:

      Eu também. Se o PSD tiver cerca de 40% e o CDS 15% será uma derrota com sabor a vitória!

  7. António Carlos diz:

    “É um espaço público contra o pensamento único, a favor da acção conjunta contra a Troika …”
    Não há aqui uma certa contradição? E quem for a favor da Troika, também pode participar?

    • Raquel Varela diz:

      Quem for a favor da Troika deve aparecer no Rossio e esperar a reacção. Não sei qual vai ser…

      • Leo diz:

        Não sabe qual vai ser a reacção? Ora…

        Calculo que não seja diferente da reacção à sua tirada reaccionária – como está no filme aí em baixo – “Andamos há 37 anos a ser roubados” o que foi entusiasticamente aplaudido pelo Renato Teixeira (“Sou evidentemente suspeito mas a intervenção da Raquel foi das melhores que já ouvi em Assembleias” e pelo Rocha (“Grande Raquel, espero que consigas passar essa mensagem”).

      • Vasco diz:

        Isso é uma bela declaração democrática…

  8. miguel serras pereira diz:

    Raquel Varela,

    chamo a sua atenção para esta adenda que acabei de incluir no meu post:

    “Aviso à Navegação (24.05. 2011, 15 h 34): Raquel Varela acaba de enviar um comentário (publicado) a este post, afirmando que não censurou o meu comentário, mas o terá apagado por lapso, ao mesmo tempo que declara a sua disponibilidade para as questões que levanto. Aceito as explicações – que comento na minha réplica à Raquel (ver infra). Mas, na generalidade, mantenho as considerações que enunciei — tanto sobre a censura como método de luta política como sobre a questão da dívida. Se não espero ter o gosto de ver RV adoptar as minhas teses sobre o segundo ponto, não posso deixar de me congratular com o acordo que me concede sobre o primeiro”. (http://viasfacto.blogspot.com/2011/05/raquel-varela-e-censura-como-metodo-de.html)

    Saudações

    msp

  9. Abilio Rosa diz:

    Podem mandar os parabéns ao PP do cabrão do Ravoy.
    O gajo manipulou bem a «manifestação» das Portas del Sol.
    Foi para se vingar da derrota eleitoral à data dos atentados e dos sms’s….

  10. José diz:

    Voltamos ao tempo das “vitórias morais”…

  11. Serafim diz:

    o indymedia pt acobertando fascistas e anti-semitas:
    http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/4575

    e como eles muitos esquerdolas toleram esse socialismo dos imbecis.

  12. Carlos Fernandes diz:

    E, em todo o caso, Prof. Dra. Raquel Varela, é errado invocar e comparar a situação de Portugal em 1975 e as nacionalizações então feitas, e replicar isso como argumento para os dias de hoje como retaliação às reacções dos credores a um hipotético não pagamento da dívida, basta referir que hoje Portugal não possui moeda, e algo do género implicaria sair de imediato da União Europeia. Ora será que defendem, por caminhos tortuosos, o mesmo que o outro de Santa Comba do ´orgulhosamente sós´, caramba. E é isso que defende(m), afinal, ou quê…

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