Como o PS preparou a privatização do ensino

Primeiro, privatizaram alguns serviços das escolas, como as cantinas, concessionadas a privados. É o que temos hoje na maioria dos estabelecimentos de ensino público: comida de pior qualidade (na minha escola, dizem os alunos, come-se arroz com arroz, porque às vezes a carne ou o peixe não chega para todos ou chega aos seus pratos intragável), gastos maiores para o Estado e um reduto privado dentro da própria escola que, no fundo, não é público. Chega-se ao absurdo de ver a escola a pagar o aluguer da cantina se quiser organizar aí um convívio de professores ou de alunos. Isto se a empresa autorizar, claro.
Forma hábil, também, de reduzir drasticamente a probabilidade de existirem greves e consequente encerramento das escolas. Em tempos, bastava que as cozinheiras fizessem greve para que a escola fechasse. Com privados, a cantiga é sempre outra.
Depois veio a entrega do ensino básico de 1.º ciclo aos municípios, que muitas vezes gerem o seu parque escolar através de empresas municipais facilmente privatizáveis. Não é difícil imaginar que, nas mãos de um município, uma escola perde a sua autonomia administrativa e pedagógica. Mesmo nas restantes escolas básicas e secundárias, os famigerados Agrupamentos e Mega-Agrupamentos, hoje em dia são os municípios que, na prática, escolhem o Director. Fecharam-se escolas a torto e a direito nas aldeias, mas em seu lugar criaram-se centros escolares, muitas delas em centros urbanos e em locais muito apetecíveis para os privados. E todos conhecemos o apetite devorador das Câmaras pelo sector urbanístico.
Ainda dentro do 1.º ciclo, a criação das AEC’s – Actividades Extra-Curriculares foi porventura o exemplo mais às claras de privatização do ensino. Actividades entregues sem disfarce a empresas privadas, que por sua vez passaram a contratar os professores. Aqui, a exploração foi sempre a palavra de ordem. Abundam os casos em que estes professores, muitas das vezes a recibo verde, recebem 4 euros por hora e, para além das aulas, ainda têm de acompanhar os meninos durante o intervalo. Uma situação que foi piorando à medida que o programa se foi implementando. Na Câmara do Porto, por exemplo, começou por ser a Faculdade de Letras a contratar os professores de Inglês das AEC’s, mas dois anos depois já era uma empresa privada de Lisboa a tratar do assunto, pagando, como é óbvio, muito menos. Em 2009/2010, numa medida com o mais elevado sentido pedagógico, os docentes receberam os seus horários para o ano lectivo numa garagem de Matosinhos.
A cereja no topo do bolo chamou-se Parque Escolar. A pretexto de modernizar as escolas – algumas precisavam, outras não – entregou-se a uma empresa pública o planeamento, a gestão, o desenvolvimento e a execução das obras, na maior parte das vezes através de ajustes directos e sem a menor transparência, como o Tiago Mota Saraiva tantas vezes denunciou no 5 Dias. Uma empresa pública que, repare-se, tornou-se a proprietária das escolas que intervencionou, sendo que estas passaram a pagar verdadeiros balúrdios de renda mensal à Parque Escolar. E se esta um dia for privatizada (será uma das duas grandes empresas que Sócrates queria privatizar em 2012?), todas essas escolas passam a ser privadas. Simples, não é?
Num assomo de honestidade, em fim de festa, os nossos amigos corporativos acabam por reconhecer que os Governos de Sócrates não pararam de aumentar o financiamento do ensino privado, apesar da diminuição do número de turmas subsidiadas.
Depois disto tudo, é provável que os socialistas tenham a suprema lata de vir dizer que o PSD quer privatizar o ensino. E logo eles que não fizeram nada para isso…

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12 respostas a Como o PS preparou a privatização do ensino

  1. susana diz:

    não sei porque não tem comentários, mas eu gostei desta análise e dos respectivos links.

  2. simplesmente brilhante.profundo conhecedor destes meandros. faltou só referir a morte lenta dos concursos nacionais. a alternativa será pois então a entrada de professores amigos e amigas da força política da câmara.voltamos ao caciquismo do final da monarquia.

  3. Ricardo Santos Pinto diz:

    Faltou referir tanta coisa, Francisco…

  4. Alexandra Ferreira diz:

    Na escola da minha educanda, foi preciso avisar VÁRIAS vezes, para porem um fiozinho de azeite no prato, em dia de peixe cozido!!! Se me perguntarem, digo o nome da escola!!!

  5. Pingback: A escola a tempo inteiro e o direito a brincar | cinco dias

  6. DaLheGas diz:

    Eu que sou mãe de dois alunos do Básico e do Secundário vi tudo isto acontecer, lutei como pude contra o sistema nas escolas, vi a deterioração instalar-se de ano para ano. Vi o fim dos ATL onde as pessoas se dedicavam às crianças com extraordinária sensibilidade, onde os miúdos brincavam, davam asas à imaginação e os seus talentos eram explorados, onde faziam os TPC com calma e ajuda. A escola mudou para pior. Desde o deficitário apoio da CMLisboa às refeições que as crianças detestam (tínhamos uma cozinheira óptima, os alunos adoravam a comida da D. Ilda), acabaram com a cantina, asfixiaram os miúdos até às 17h30, enfiados nas salas, e ainda inventaram a componente de Apoio À Família, para antes e depois da Escola. Há crianças que chegam às 8 da manhã e saem às 19h para regressar a casa. As AEC’s pese embora o esforço de quem as lecciona, são uma carga que as crianças suportam com sacrifício. Chegam à sala fartos de ouvir adultos a debitar matéria, querem brincar e os professores mal conseguem mantê-los sentados, quanto mais em silêncio ou interessados no que querem dar.
    Tinhamos uma Escola melhor sim, antes destas alterações. Foi triste e nos primeiros anos ainda andaram a brincar às disciplinas. Podiam ter incluído o Inglês no horário normal, duas vezes por semana, não se compreende (parece-me complexo de inferioridade do Primeiro-Ministro, que não sabe falar inglês e catapulta para a sociedade esse seu problema), recorrendo a professores do Estado, do secundário, tantas vezes com horários semanais pequenos.
    Custa-me muito é ver os miúdos chegarem a casa fartos de escola, ávidos de brincar e em notória carência de tempo para serem crianças.
    Enfim, já perdi a esperança sobre este assunto. Ainda achei que a experiência levásse à conclusão de que estas medidas não eram as melhores, e retrocedessem, mas não. Os pais foram ouvidos por gente surda (gente da CML e da Junta de F.) e as medidas foram tomadas sem se consultar aqueles que todos os dias têm diante de si dezenas de alunos para ensinar e que serão os adultos do futuro. Os professores primários foram os primeiros a discordar desta carga horária. Eles sabem bem, porque sentem na pele. E as crianças também. Os professores das AEC, alguns parecem irmãos dos alunos, de tão novos, também podem contar aquilo por que passam por essas escolas fora, quanto ganham e etc..
    Obrigada por ter escrito sobre este assunto! Muito obrigada Ricardo.

    DaLheGas

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Em relação ao ensino do Inglês nas AEC’s, estamos em presença de uma situação vergonhosa. Como não é uma actividade obrigatória e que nem sequer existe em tdos os municípios, temos uma situação em que há alunos que chegam ao 5.º ano com 4 anos de Inglês e outros alunos, se calhar na mesma turma, que nunca tiveram Inglês na vida. É assim que se perpetuam as diferenças de oportunidades.

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  8. donatien diz:

    Está aqui A SÍNTESE…

  9. JS diz:

    tanta demagogia…

  10. ANDANALUA E LUA ANDA diz:

    A JS fala em damagogia, mas não querería escrever:TANTA TRAFULHICE ?
    A socrates a e coelho se não lhes fecharmos as portas, acreditem, ficamos entregues aos bichos, que é o mesmo que dizer: À TROIKA !

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