Da ideologia variável de Paulo Portas ao apartidarismo

Quando defende o seu apoio à troika, Paulo Portas, tem repetido com insistência que a posição do CDS está “livre de questões ideológicas”. A purga que Portas reivindica é extremamente eficiente para quem quer ser eleito sem qualquer tipo de compromisso político. Em boa verdade, isto é o “apartidarismo” transportado para as eleições.
Não tenho nada contra o apartidarismo das lutas, ainda que prefira o multipartidarismo como expressão. Quem me conhece sabe que já participei, ao longo dos anos, em inúmeros movimentos políticos que congregavam gentes da esquerda à direita, e creio que o sectarismo não faz parte das minhas qualidades. Pela minha experiência, os movimentos multipartidários alcançam tanto mais vitórias quanto mais claros e objectivos sejam as suas intenções políticas, ou seja, quanto mais tomarem partido pelo que defendem.
O problema dos movimentos “apartidários” é quando o apartidarismo se transforma em ideologia pois, necessariamente, passa a excluir quem já tomou e/ou toma partido, privilegiando os de ideologia variável consoante o vento eleitoral.
Serve esta introdução para notar a vitória que PS-PSD-CDS obtiveram na acampada do Porto ao conseguirem ver retiradas as referências aos seus partidos do ponto 6. do manifesto, substituído pela mais comercial expressão: “partidos políticos que pela sua acção ou inércia nos conduziram à situação política actual”. Não sendo de crer que tenham estado na Praça da Batalha, os dirigentes do PS-PSD-CDS agradecem.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

8 Responses to Da ideologia variável de Paulo Portas ao apartidarismo

  1. Pedro Penilo diz:

    Apesar da vontade de apanhar o comboio da Praça Tahrir, há um mundo de diferenças que começa logo por esta questão: a dificuldade que há cá em chamar os bois pelos nomes, em apontar reivindicações, em tomar partido (que como qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe, não significa “ter/ser de um partido”).

    (Um desabafo: quando vejo um slogan como “Yes we camp” fico destroçado. É preciso explicar? É que não me apetece…)

    • Helena Borges diz:

      Preciso e certeiro, Tiago!

      E importa desmistificar: tomar partido não tem de passar por militar num partido. Se passar, qual é o problema? Nenhum! Os indivíduos têm o direito de organizar a(s) luta(s) às suas maneiras. Se preferem organizar-se dentro de um partido, qual é o problema? Nenhum! Há que ter coragem para tomar partido, militando ou não.

      Apontar o dedo aos partidos – como massa disforme de gente oportunista que só quer mama – é não ver o problema maior, é profundamente sectário. É mais fácil encontrar sectarismo naqueles que usam o termo como arma de arremesso.

  2. D. Nicola diz:

    a mim é o slogan “o povo unido não precisa de partido” que me inquieta. A abstenção e o voto branco só favorecem os partidos do poder, os bajuladores das inevitabilidades, a regressão social em marcha. Não tomar partido agora, é desejar que continue tudo na mesma ou pelo menos contribuir para isso.

    • Renato Teixeira diz:

      Esse slogan não foi proposto na Assembleia.

      • D. Nicola diz:

        e ainda bem que não passou apesar de ter sido aventada! isto foi mais em jeito de desabafo porque tenho notado que há muito boa gente que à partida tinha tudo para votar à esquerda, e que irá votar branco, nulo ou ficar em casa à espera que a avó decida por ela.
        A esquerda tem bastas razões para fazer uma reflexão séria sobre o porquê da não capitalização de votos no maior ataque ao “Social” e à própria dignidade de que há memória. Mas a 15 dias da esperada capitulação face ao “inevitável” a mim só me apraz lembrar a todos os descontentes, mesmo aos anarquistas, que “las barricadas” se fizeram com todos, e que só vencendo as eleições que legitimam o poder se poderá transformar o que quer que seja, seja uma monarquia numa República, seja uma República numa República Popular. Ou isso, ou como refere o B. Carvalho, tomar o poder de assalto!

  3. João Labrincha diz:

    Ser apartidário não significa ser contra os partidos e, muito menos, não ter ideologia(s). E apesar de o significado lato da expressão poder querer dizer “não tomar partido”, no caso dos movimentos cívicos, a palavra apenas pretende significar que estes não são controlados ou fomentados por partidos políticos.

    Cabe a estes movimentos explicar (incessantemente) a diferença entre antipartidarismo e apartidarismo. Misturar as duas coisas, como se tem visto muitas vezes em Espanha (e, erradamente interpretado, na índole do Movimento 12 de Março), é, concordo, extremamente perigoso para o regime democrático e, a meu ver, completamente improdutivo e desmobilizador da participação cívica (que é essencial que seja feita, também, nos/pelos partidos)

    Quanto ao multipartidarismo, ou estamos a falar de uma coligação pura de partidos políticos ou de uma plataforma de entendimentos e sinergias. Podemos chamar-lhe movimento cívico? Sim. Independente, com agenda e vontade próprias? Não me parece.

    Um movimento cívico mutlipartidário admite a participação dos filiados nos partidos que a ele adiram. Um movimento apartidário admite a participação de todas as pessoas, independentemente de terem ou não filiação partidária.

    Finalmente, as acampadas e suas assembleias não são um movimento, em si, apartidário, nem antipartidário, nem multipartidário. São, por enquanto, a meu ver, apenas e só, assembleias. Fruto da participação de vários movimentos e pessoas, da influência de uma rede informal internacional, emanantes de uma energia e vontade de mudança que estão a percorrer os quatro cantos do mundo.

Os comentários estão fechados.