10 Razões para ir hoje ao Rossio. Paguem-nos o que nos devem!

Às 6, Speakers’ Corner – cada um é livre de pegar no microfone, dizer o que entender, da dívida pública ao que lhe vai na alma.

Às 7 – Assembleia Popular

24 Horas de permanência – vem e tráz um amigo também.

 

No Rossio foi aprovado um Manifesto, por larga maioria, que nos une a todos naquela Praça. É um amplo manifesto, suficiente amplo para que todos possam rever-se nele, suficientemente espaçoso para que cada um individualmente diga também ao que veio.

Pensámos em 10 boas razões para estar no Rossio. Haveria mais, e muitas prendem-se com o ambiente humano que ali se vive, mas o tempo urge e são quase 6 da tarde…

1 – Porque esta dívida não é nossa. Se não a pagarmos quem vai dormir mal são os banqueiros portugueses e internacionais, que detêm a maioria destes títulos. Portugal é, antes de mais, um espaço económico onde as burguesias francesas, alemã, etc., podem despejar os seus excedentes industriais que, de outra forma, ficariam encalhados.

2 – Porque nos devem dinheiro, muito dinheiro, roubado em 37 anos de Bloco Central que diminuiu salários, fez 1 milhão de desempregados, privatizou os serviços que pagamos com os nossos impostos. Paguem-nos o que nos Devem!

3 – Porque não aceitamos a chantagem dos salários. O que está em cima da mesa, em alternativa ao roubo é a devolução do que é de nosso, através da nacionalização dos Mello, da Galp, da PT, da Mota Engil, da Portugal Telecom, do Grupo Amorim, da Sonae, da Jerónimo Martins…da Banca e do sistema financeiro. Nunca é demais lembrar: se um banco é grande demais para falir ele não é grande demais para ser privado?

4 – Porque deve ser feita uma auditoria à dívida, não pelos mesmos que nos querem fazer pagá-la mas uma auditoria democrática, com abertura pública das contas do Estado. E seja qual for o resultado, o objectivo final não é fazer um RX mas enfrentar a pneumonia: «Não Pagamos uma Dívida que Não é Nossa».

5 – Porque com a mesma convicção que Sócrates e a burguesia vêm todos dias, no espaço público e amplo que detêm, dizer «é preciso pagar», nós, com a mesma convicção, sem cambalear, devemos dizer: «Não pagamos a vossa dívida», «Não pagamos a vossa crise», «Não devemos nada a ninguém», «Esta dívida não é nossa».

6 – Porque quem quer renegociar a dívida aceita de facto que temos que honrar os compromissos assumidos pelos governos do Bloco Central. Quem quer renegociar a dívida quer renegociar o roubo em lugar de denunciá-lo e travá-lo. Quem quer renegociar esquece que esse é precisamente o papel do FMI. Quem quer pagar a dívida esquece que o seu pagamento é apenas um aspecto desta contabilidade macabra. O outro aspecto tão importante como a continuação do saque por meio de divisas que vão dos bolsos dos trabalhadores directamente para os bolsos da burguesia é, sob a chantagem da dívida, ajudar a burguesia na destruição do mercado laboral e na privatização dos serviços públicos, ou seja, numa palavra, na redução da massa salarial de quem trabalha.

7 – Porque o mínimo de democracia que se poderia esperar era um referendo à população sobre se aceita ou não pagar uma dívida que não contraiu.

8 – Porque devemos recusar a humilhação de depender dos pais, em parte ou totalmente, até aos 30, 40 anos.

9 – Porque 500 euros é um salário indigno, porque não poder decidir o futuro é angustiante, porque a precariedade é uma faca nos nossos sonhos.

10 – Porque precisamos de dormir conscientes que, se neste país há um milhão de desempregados, nós fizemos parte daqueles que não foram coniventes com esta tragédia, nós recusamo-nos aceitar a barbárie social.

Raquel Varela e Renato Guedes

Via Rubra

 

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13 respostas a 10 Razões para ir hoje ao Rossio. Paguem-nos o que nos devem!

  1. André diz:

    Pois é, lá está a falácia de que a culpa é dos alemães, dos frances, dos holandeses e do raio que os parta. A culpa da crise em Portugal é única e exclusivamente, e notem-se bem estas duas palavras, dos portugueses. Tanto da população como dos políticos, dos empresários, dos professores, de toda a gente, em suma. Trabalhem, esforcem-se, defendam os vossos direitos, mas acima de tudo saibam negociar em tempos de crise; coisa que ainda não aprenderam muito bem o que é.

    Já agora, a razão nº3 para se ir ao Rossio é uma mentira. A GALP não é minha, nem tua nem do Zé que não investiu na GALP. Assim como a PT ou qualquer outra empresa, e isto aplica-se em especial àquelas empresas que NUNCA foram públicas (Sonae, JM, etc). Roubar o dinheiro dos outros e o trabalho dos outros é feio, certo? Ou será bonito quando se roubam os “burgueses” e o “grande capital”? É um roubo justo?

  2. miguel serras pereira diz:

    Os subscritores do texto têm todo o direito a defender a sua opinião quanto à dívida. No entanto, convém notar que, quando apresentam a recusa da renegociação e/ou da reestruturação da dívida, como uma das razões que os levam a participar na acampada, deveriam deixar claro que essa posição não é uma condição necessária de adesão ao movimento. Muitos outros acampados poderão não ter opinião definida sobre o assunto – embora não estejam dispostos a pagar a factura da crise em benefício dos bancos, etc. – ou ter uma opinião semelhante à de gente que, na área do PCP, do BE e noutras ainda, defende a renegociação/reestruturação da dívida. Assim, por exemplo,quando se invoca o exemplo islandês, convém dizer e saber que, além de terem sabido distinguir entre a dívida pública e a dívida privada, os islandeses NÃO recusaram o pagamento da totalidade da dívida: mobilizaram-se para impor ao FMI e às demais instâncias a redefinição dos termos do “resgate” – ao contrário do que por vezes se quer fazer crer (cf. o post do Luís Rainha: http://viasfacto.blogspot.com/2011/05/porr-calem-se-la-com-islandia-ou-pelo.html) -, mas nem por isso capitularam perante uma solução do tipo da que a troika promoveu entre nós.

    msp

    • Raquel Varela diz:

      O Manifesto não apela nem ao não pagamento nem à renegociação, justamente para que todos possam caber nesse manifesto. O texto do manifesto é «recusamos hipotecar o futuro por uma dívida que não é nossa». Outra coisa é aquilo que nós, eu e o Renato Guedes, o Colectivo Revista Rubra defendemos, o Não Pagamento.

  3. Nuno diz:

    Hummm… é!

  4. Renato diz:

    Bom André, ninguém falou em culpa. Falamos dos que se beneficiam com a desgraça social. Na verdade, eles estão a fazer a sua parte, ou seja, usando o aparelho do estado para garantir que os seus activos tóxicos se mantenha ou se valorize. Uma casa que para um banco pode não passar de um papel tóxico, para os trabalhadores torna-se um precioso meio de sobrevivência. Façamos nós a nossa parte a riqueza deles tem sido a nossa miséria. É interessante notar que para ti não entra na categoria de roubo toda a verba pública que foi usada desde o início da crise para para manter esses activos. Tão pouco é roubo que essa factura seja transferida para a sociedade. Também, percebe-se que não entra nessa categoria toda a delapidação do património público feito, muito a custa do financiamento público (as privatizações) e com garantia de retorno, como no caso das PPP. Que para ti, o problema está nos salários de miséria aferido pela classe trabalhadora. O que não é claro é como perdes o teu tempo a discutir com “preguiçosos” e “ladrões”.

    • André diz:

      Ninguém falou em culpa directamente, há é que saber ler nas entrelinhas. É muito comum associarem culpa a quem beneficia, se beneficiar, com esta crise. Esta frase indica muito bem o pensamento de quem escreveu esta posta: “Portugal é, antes de mais, um espaço económico onde as burguesias francesas, alemã, etc., podem despejar os seus excedentes industriais que, de outra forma, ficariam encalhados”. Certamente que quem a escreveu não culpa exclusivamente os portugueses pela crise, antes culpa principalmente outros europeus!

      É curioso ver na tua resposta que eu falo de alhos e tu de bogalhos. Eu não disse que é correcto utilizar fundos públicos para sanar divídas privadas, especialmente se o saneamento for a fundo perdido. Também não falei de PPP e nem para aqui são chamadas, pois o que esta posta está para aqui a advogar é o roubo, tão simplesmente por ganância e despeito, da propriedade dos outros. Mas falemos das PPP… Esses instrumentos de destruição de muita coisa neste país e que foram negociadas por idiotas, precisam (URGENTEMENTE) de ser ou renegociadas ou terminadas. Satisfeito agora?

      E sim, é indigno que alguém aufira 500€. Isso são trocos para se tentar sobrevivar, mal e porcamente, num país que se diz desenvolvido e que tem um relativamente elevado custo de vida.

  5. Óscar diz:

    Será que já se notam as primeira fissuras deste amplo movimento social?
    Se o manifesto diz «Não pagamos a vossa dívida» – para não citar o ponto 5…

    Porque vem negar a Raquel essa evidência afirmando exactamente o contrário para, nas suas palavras “todos possam caber nesse manifesto”..?

    Este é o mais um exemplo de ecletismo político de meia-dúzia de deserdados de Bakunine & Trotsky. E parece que os do Trotsly-Bakunine já se estão a chatear com os do Trotsk-Louçã…

  6. Rainha das Bichas do Chiado diz:

    500 euros não é um salário digno, ou os preços da habitação, arrendamento, solos, electricidade, água, gás, vestuário ou alimentação não são dignos desde meados dos anos 90? O euro foi um embuste. Admitam. Agora para a maioria das nossas PME não é possível ter salários mínimos europeus, acima de mil euros. Quando muito 650 a 750 euros de salário mínimo, o que seria mesmo assim muito baixo, quando comparado com os salários da maioria dos nossos parceiros da antiga UE a 15. Penso que há margem de manobra para subir os salários mínimos para valores acima dos 600 euros, mas mesmo assim continuará a ser um salário mínimo muito baixo para se poder levar uma vida minimamente confortável, e sim, poupar alguma coisa. Tratem de colocar a tónica noutros problemas, como o custo do arrendamento, a ausência de mercado fundiário, o preço dos alimentos, dos combustíveis ou da electricidade…

  7. Óscar diz:

    Raquel: estou agora mesmo a imaginar o debate fraterno que os funcionários políticos do Bloco de Esquerda que vagueiam pelo Rossio fazem com os seus militantes acampados acerca das palavras de ordem onde nem todos cabem e dos porta-vozes do movimento que o público cita na sua edição de hoje. Dê-lhe mais uns dias de fraternidade!

  8. Ricardo Noronha diz:

    Acho que onde se pode ler “500 anos é um salário indigno” se queria na verdade escrever “500 euros é um salário indigno”.

  9. Abilio Rosa diz:

    Se querem acções mediaticas façam isso no Largo dos Ratos, no Largo das Caldas e na S.Caetano à Lapa.

    Esses sim, é que são a troika que vos anda a roubar há 30 anos!!!!!!!

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