Uma revolução só é revolução ou transformação se fizer desaparecer definitivamente (à força, se necessário) a tirania, económica e política

Acto de soberania popular: execução de Luís XVI.

O interessantíssimo post, em baixo, da Helena Borges (que está a suscitar uma discussão importante), trouxe-me à memória conhecidos episódios de 1789, e sobretudo as magníficas reflexões revolucionárias de Saint-Just. Também logo a 13 de Março passado entrei em suspeição com o 12 anterior e os seus exaltantes desfiles nacionais. Porque, muitos dos que auscultei, disseram-me: “não irei à manifestação seguinte de 19 de Março da CGTP”.
Por mim, e não sei se isso interessa, eu decidi não ir ao 12/3 e ir à da CGTP (!), pois logo ali vi uma espécie de folclore útil, mas pouco consequente: o que é que muitas destas pessoas tinham contra a manif da CGTP, e, no fundo, o que pretendiam e o que é que rejeitavam? A organização? Porquê? Agora, em Madrid, tudo pode ser diferente, e, espero, de uma tenacidade ilimitada. E que não termine sem uma recomposição, violenta ou pacífica, da sociedade.
Mas voltemos a Saint-Just. Recapitulando.

DAVID. “Saint-Just”.


Os acontecimentos de 14 de Julho de 1789, centrados na tomada da Bastilha, constituem o que chamamos de Revolução Francesa. No entanto, a monarquia não foi logo ali abolida. A família real ainda se estabelece em Versalhes no final de 1789, para lá fora levada à força, o rei conspira entretanto com forças estrangeiras, e a monarquia só é abolida em Setembro de 1792. No mês de Dezembro seguinte, com a mais alta e lógica força revolucionária, diz Robespierre: “se o rei não é culpado, então nós que o destronámos, somo-lo.” Impõe-se pois o julgamento de Luís XVI, o qual, para Danton, só poderia ser dado como culpado (do que hoje não restam quaisquer dúvidas).
À Convenção de Novembro de 1792 diz o genial Sain-Just:

“O único fim do comité foi de vos persuadir que o rei deve ser julgado como simples cidadão, e eu digo que o rei deve ser julgado como inimigo”.

Consubstancia-se nesta certeira frase toda a essência de um processo revolucionário – àqueles que o povo (não o voto, porque o voto é um acto de Estado, de subserviência) derruba, não devem ser conferidos quaisquer direitos. O mesmo se dirá do mais do que válido conceito de ditadura do proletariado: o povo não, nunca, derruba, cidadãos, o povo derruba tiranos burgueses e a esses tem de ser dito e mostrado o caminho apontado por Saint-Just, que continuou:

“nessa altura [aquando da morte de César], o tirano foi imolado em pleno Senado, sem mais formalidades que vinte e três golpes de punhal, e sem outra lei que a liberdade de Roma”.

Repare-se, Saint-Just não diz “a lei de Roma” (ou a “lei portuguesa” ou “espanhola”, mas a “liberdade”, o que significa que o povo tem uma razão acima da lei que o limita limitando a sua liberdade. E a lei que limita a liberdade chama-se “democracia”.
Por isso, continua Saint-Just, contra um julgamento “humano” de Luís XVI: “E hoje é feito com respeito um processo de um homem assassino de um povo, preso em flagrante delito, com a mão no sangue, a mão no crime!” Enfim, não pode ser deste modo, mas antes:

“quanto a mim, não vejo meio termo possível: este homem deve reinar, ou então morrer”.

E não podemos transportar isto para esta era gerida pelos governantes que infelizmente todos conhecemos??
Condenado o rei à morte, executada justamente a sentença, diria ainda Saint-Just dois anos depois, num dos seus últimos relatórios apresentados à Convenção: “o que é um rei comparado com um francês?”. Rematando:

“Temos respondido à luta com a luta e a liberdade está fundada; ela saiu do seio das tempestades: esta sua origem é comum com a do mundo, saído do caos, e com a do homem que chora ao nascer”.

Nunca li nada de tão fulminante e certeiro sobre a transformação radical de uma sociedade. Que as palavras de Saint-Just ecoem na cabeça dos manifestantes de Madrid e do mundo inteiro, e que se vá além e muito além da queima de fotos (também necessárias!), sejam elas as que forem.

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8 respostas a Uma revolução só é revolução ou transformação se fizer desaparecer definitivamente (à força, se necessário) a tirania, económica e política

  1. JoseB diz:

    As revoluções, quem quer que sejam os seus autores, não mudaram nada. Conduzem aos mesmos abismos. A dificuldade é mudar o homem (192)
    “O quinto império” Dominique de Roux (1977, Paris) (Portugal 1974/75)
    Em Portugal BC (bloco central),
    deu-nos uma nova classe: a politico empresarial do regime.
    Entre os seus expoentes: Valentim Loureiro ou Armando Vara,
    na banca ou nas EP´s.

  2. zecarapaudecorrida diz:

    De profundis,este comentário acima.É de uma filigrana lógica,que me sinto atirado para o passado-o das trevas.Está claro,q os 20’administradores’ é uma questão com o homem,não de classe.Marx,anda muito longe,assim como Demócrito e a teoria atómica,c’ainda custaa muitas ‘mentes’ encaixar…Da-se!

  3. Diogo diz:

    «àqueles que o povo (não o voto, porque o voto é um acto de Estado, de subserviência) derruba, não devem ser conferidos quaisquer direitos»

    Absolutamente de acordo!

  4. Augusto diz:

    Continuo sem perceber a animosidade de certos militantes do PCP, em relação á manifestação da Geração á Rasca.

    E essa rejeição manifestou-se desde a primeira hora, atenuou-se quando o Jerónimo de Sousa disse que apoiava.

    Mas logo após a sua realização , e talvez pala sua enorme mobilização ESPONTÃNEA, tudo têm tentado fazer para a diminuir o seu impacto.

    O que se está a passar em Espanha é tambem fruto, dessa falta de prespectivas de futuro de uma juventude á procura de saídas, e um certo, desencanto com os partidos do sistema.

    Pode evoluir para acções mais radicais, mas tambem poderá , não passar de um fogo fátuo.

    Afinal tanto na Tunisia como no Egipto, o sistema acabou por controlar a revolta.

    • Carlos Vidal diz:

      Não há nenhuma animosidade. Isso é falso, e Jerónimo de Sousa mostrou-o.
      Há antes uma convicção de que qualquer luta tem de ter uma tenacidade ilimitada.
      O resto é carnavalização.
      E o que é uma tenacidade ilimitada?
      Saint-Just demonstrou-o. Pode-se pagar caro com isso.
      (Pouco somos em comparação com ele.)

  5. Helena Borges diz:

    (Que sintonia, até quis ilustrar aquele post com uma imagem de um reizinho sem cabeça.)

    Subscrevo isto tudo, Carlos, tudo. Fico com as palavras de Saint-Just a ecoar na minha cabeça.

  6. José Luis Moreira dos Santos diz:

    Uma Revolução é uma Revolução se cumprir as aspirações de todos aqueles que acreditaram nela, mesmo que ande a passo de caracól, nunca será uma Revolução se for traída por uns quantos porque, nesse caso, é uma imposição para quase todos. Por agora, mesmo aquelas Revoluções que mudaram de facto a vida e os valores fundadores de novos tempos, só conheço uma que ainda não foi traida. Por isso, a Revolução tão necessária como indispensável que temos pela frente, tem pressupostos, objectivos, valores, etc,. mas ainda não tem teóricos, uma vez que esses, os teóricos de outros tempos são isso, de outros tempos. A Revolução que virá, háde ter em cada prático um teórico, não uma decisão pre-concebida para cada conquista, contradição, etc. É que todas as Revoluções têm a sua contra-revolução, e as forças medem-se com os melhores argumentos, não com a maior capacidade para a brutaliadade. Todas as Revoluções, excepto uma, repito, cairam às mãos dos seus traidores, mais do que dos seus inimigos. Mesmo que eu continue a acreditar plenamente nela, na Revolução, mas sem olhos vendados. Agora, os futuros revolucionários, para além de terem de dizer de onde vieram e o que fizeram, têm que esclarecer muito bem o que querem e ao que vêm. É esse o problema prático que se coloca a todos aqueles que recuam duzentos anos para encontrarem ancoras que só serão cumpridas se interpretadas à luz da hisória e da dialéctica. Mas o mundo gira!

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