DEFESA DE UMA ACÇÃO DIRECTA GLOBAL: “É o povo, pá!”


1.
Não, este pequeno post não é uma apologia da violência política, do “terrorismo” (embora me confesse adepto de Robespierre). Mas é a apologia de uma necessidade premente, e quanto ao seguinte ponto de vista sei que há uma esmagadora quantidade de pessoas, colegas, amigos ou camaradas, que com tal concordam. E qual é esse ponto de vista? Provavelmente, até pouco original: não alinho, como muitos “galambeiros”, numa condenação ABSTRACTA da luta armada, não alinho na abstractização dos termos “terrorismo” e “violência”. Assim sendo, se eu seguisse essa via “correcta” e “DOliveiresca” ainda vivíamos na Idade Média, sem Thomas Muntzer (é a sua revolta de camponeses que Álvaro Cunhal, inteligentemente, vê expressa na dolorosa Crucificação de Grünewald, no seu notável A arte, o artista e a sociedade), sem Saint-Just, sem Revolução de 1789, sem barricadas de 1848, sem Marx, sem Comuna (cujo esmagamento, esse sim, foi um dos maiores crimes da história humana), etc.

Este post advoga formas de luta que têm de ser vistas no seu contexto e necessidade, como as lutas anti-imperialistas/anticolonialistas e anticapitalistas, e é também uma oportunidade para recordar algumas cínicas e desprezíveis declarações de um tal Medina Carreira, que do alto da sua escassa educação cívica rebaixa as lutas de toda uma comunidade, roncando graças e gozando connosco: diz o indivíduo que sempre fica satisfeito com as manifestações da CGTP, pois as pessoas abancam (como porcos, suponho eu que ele pense isso) no Parque Eduardo VII, assam peixe, sujam tudo e depois marcham, urram, gritam e vão para casa. É pensando em gente como este Medina que eu fico satisfeito QUANDO SE VAI MAIS LONGE! Porque é preciso ir mais longe!

O assunto é complexo (táctica e ideologicamente falando). Mas o meu juízo, aquilo que sobre tal se me afigura dizer é relativamente simples, duas linhas bastam:

– não me passa pela cabeça criticar ou condenar sem mais, sem pensar, nenhum acto de subversão directa, violenta ou não violenta (e este post é sobre um caso de “acção directa” não violenta), concorde eu total ou apenas parcialmente com os seus princípios, reconheça eu a pertinência, justeza ou inconsequência da sua efectivação.

Por vezes, temos um golpe assestado com justeza ou eficácia, outras vezes não, temos golpes de eficácia duvidosa (embora sustentados em princípios justíssimos), outras vezes não veria os princípios como “justíssimos”, embora a eficácia o seja flagrante e posteriormente. Complicado.

Tudo o que acima disse se aplica acima de tudo às acções de subversão civil armada perpetradas ao longo de décadas contra o capitalismo, o imperialismo e o colonialismo (ou neocolonialismo), tudo o que acima disse se aplica às acções directas de subversão quer executadas no seio das “democracias”, quer no seio das terras, lugares e países, da Argélia ao Vietname, que aspiram (aspiraram e conseguiram) à sua libertação e emancipação (nomeadamente, colonial e anticapitalista). Em resumo, creio que a democracia de “acção directa” e de rua é efectiva, e a democracia parlamentar é formal.

2.
Aliás, sempre admirei esta frase de Ulrike Meinhoff, a mulher que foi, como se sabe, “suicidada” numa prisão alemã:

“O protesto é quando eu digo não querer uma coisa. Resistência é quando eu ponho um fim ao que não me agrada. O protesto é quando eu digo que recuso contemporizar com isto por mais tempo. Resistência é quando eu me certifico de que toda a gente pára de contemporizar com isto por mais tempo”.

Seguem estas linhas como introdução ao movimento de acção directa não violenta “É o povo, pá!” que, pela disseminação das suas acções esta madrugada em todo o país e em simultâneo, denotam um nível de organização que felicito. Em Março, invadiram instalações do BPN onde colaram cartazes com a seguinte mensagem: “O vosso roubo custou 13 milhões”. Agora, em 30 cidades do país (!!!), esta noite, “atacaram” centros de emprego colando cartazes com a frase: “Não queremos subsídios, queremos empregos”. Porque estes lugares tornaram-se “centros de acusação” e fiscalização de quem não tem emprego. Em suma, “lugares” de humilhação.

Ver notícia aqui, e ver principalmente este, o site detalhado do movimento (obrigatório). Liberdade é isto, em resumo. E não me apetece muito dialogar com quem o contesta.

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8 respostas a DEFESA DE UMA ACÇÃO DIRECTA GLOBAL: “É o povo, pá!”

  1. O Exilado diz:

    Ficamos à espera da revolução amanhã. De preferência coordenada do facebook e com comentário constante do twitter.

    • Carlos Vidal diz:

      Pelo menos o fanático Medina Carreira deve estar a roer as unhas e precupado.
      Ele que foi o maior esbanjador dos ministros das Finanças (1976-78), e agora ataca (e acha “graça), do seu sofá, a piolheira que assa sardinhas nas manifs da CGTP.
      Pode ser que não se ria sempre e que a piolheira acorde. Um dia.
      (Que já é tarde.)

      • O Exilado diz:

        Carlos Vidal,

        O país está cansado e anémico. Demasiados falsos começos e esperanças (falo até por mim). Isto é perfeitamente folclórico e todos o sabem.

        • Carlos Vidal diz:

          Mas por isso mesmo é que houve uma revolução em 1974.
          É proibido haver outra?
          É. As revoluções são sempre ilegais. Sem dúvida.
          Por isso é que são necessárias.
          Quando é que irrompem então?
          Não lhe posso dizer. Se se soubesse, não haveria revoluções.
          E por isso é que existe a palavra “irruppção”.
          Certo?

          • O Exilado diz:

            Bem esse optimismo face a apatia portuguesa é fantástico, mas talvez não tremendamente realista. Começando por 74 que na sua génese foi um golpe corporativo, só mais tarde é que se transformou numa hipótese de despertar político colectivo (não realizada diga-se de passagem).

            Voltando ao presente. Nada do que se vê tem sequer potencial para vir a incomodar seja quem for. Basta ver pelas reacções (ou a falta delas). Ninguém se sente ameaçado por nada porque todos sabem que o “povo” (nem vou tentar definir a coisa) não tem qualquer interesse nesse tipo de combate, foi treinado e amestrado e está essencialmente conformado – nem ninguém integrado no sistema parlamentar tem real desejo de ver esse mesmo sistema contornado, querem apenas pequenas coisinhas que possam mostrar em debates como sinal de contentamento ou descontentamento, um discreto aplauso ou assobio à sua oratória.

            Portanto falar em revoluções neste momento, neste caso, é grandiloquente mas vazio (tanto quanto sei e vejo). Não tem significação. O que temos são pequenos momentos teatrais sem qualquer ligação a uma big picture. Considerar isto (entre outros fenómenos ainda menos substanciais) o prelúdio da revolução (ou sequer de um proto-projecto radical) é como considerar um qualquer pôr-do-sol como o fim de toda a luz e calor.

  2. Frederico Brandao diz:

    Comparar estes tipos com o RAF Baader-Meinhof e um pouco absurdo…

    • Carlos Vidal diz:

      Atenção que eu não comparei nada.
      Eu fiz um breve texto retrospectivo.
      E elogiei este movimento pela sua organização: ter desencadeado uma acção á mesma hora em 30 lugares diferentes denota organização.
      O que é positivo, muito positivo.
      Mas o que interessa é o futuro (destas e de outras acções afins).

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