Plus ça change

I
Dominique Strauss-Kahn pernoita em quartos a US$3.000 (1.900€) por noite. Un petit rien para o chefe do FMI, un peu trop para um candidato à presidência francesa. Há uns anos, também se descobriu o preço faramineux dos sapatos do MNE francês da altura, e passou a dizer-se que Roland Dumas calçava um SMIC (ou salário mínimo) em cada pé: tanto bastou para que Dumas, politicamente, ficasse por aí (e depois disso foi condenado, comme on l’imaginait, pour des raisons de simple escroquerie). Suponho que em Portugal, país de muito mais longa e profunda tradição democrática, perguntar a um responsável político – daqueles a quem se desconhece fortuna pessoal ou familiar, e que acaba alegremente (i.e., tecnocraticamente) com apoios sociais a cidadãos e cidadãs que não têm dinheiro para acabar cada mês – sobre o custo dos trapos que põe em cima, ou do apartamento em que gasta as horas, seja visto como uma intolerável intromissão na sua sacrossanta esfera privada.
II
Não foi no Sofitel de Strauss-Kahn, mas no Plaza Athénée, da Madison: Jacqueline née Bouvier, depois Kennedy e depois Onassis, ficou lá uma vez, nos anos 60; como não gostou da decoração do quarto, mandou o hotel mudá-la, for the sake of one single night. Uma avó, de quem eu gostava muito, e tinha a pachorra de ler biografias de personagens tão eminentes, contou-me indignada esta história, que achava inaudita, porém não o era: o Barão von R., a acreditar em Claudio Magris, viajava sempre com uma equipagem de madeireiros e serradores atrás; de cada vez que espreitava uma perspectiva notável, mandava-a dar ao machado e alargar-lhe as vistas; e vistas estas, amplamente vistas, ala até à próxima, não mais que uns minutos em cada lugar.

(Publicado também no Albergue Espanhol)

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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11 respostas a Plus ça change

  1. Leo diz:

    Plus ça change… mais continua na mesma.

    Reparou que todos os exemplos que deu são da social-democracia, ou como diria o velho Soares do socialismo em liberdade?

    Ou melhor são de políticos (ou da sua entourage) que se afirmam de “esquerda” mas sempre praticaram (e defenderam) políticas de direita.

  2. ezequiel diz:

    a Marine agradece.

  3. Bolota diz:

    Figueira,

    O socialista Dominique Strauss-Kahn pernoita em quartos a US$3.000 (1.900€) e abusa sexualmente de empregadas de quartos.
    Num pais falido como o nosso, o candidatos socialiste , José Socrates jantou ontem á noite num restaurante de luxo no Porto com apenas 6, sim 6 apoiantes.
    O preço medio da refeição por pessoas neste restaurante é de 100 por refeição .

    Apetece-me dizer que se Dominic violou e sodomizou a empregada de quartos , Socrates á 6 anos que nos faz o mesmo.
    Ao 2 era arranjar um negro bem aviado e sodomização como castigo.

    E são estes homens implutos que fazem o pobre comer o pão que os diabo amassou.

  4. ana cristina leonardo diz:

    um rico ou é rico ou não é rico. e só o é se puder mandar mudar a decoração do hotel por uma noite. menos do que isso, não me lixem
    quanto ao dominique:
    1. o tipo é simplesmente um compulsivo (não é um violador nem é o berlusconi). não deixando de ter graça ter sido lixado por uma operária americana (marx a escrever direito por linhas tortas)
    2. a história tem um aspecto bizarro: como é que uma empregada de hotel entra no quarto do director do FMI com ele a tomar banho? e a segurança?
    3. os franceses continuam a gostar de mulheres… e percebem de sapatos.

  5. cavaco diz:

    Sr. Figueira! É um jovem, conhece o Açor? Sabe o que o carvalho alvarinho da Mata da Margaraça sofre para continuar a existir no último cantinho da floresta nativa mediterrânica na Europa? Mas também o sofrimento do castanheiro, o azevinho, o medronheiro e a cerejeira brava?. Os infestantes ameaçam; são os eucaliptos, as acácias e até os pinheiros bravos.
    S r Figueira não se arranja por aqui uma petição de voluntariado, malta disponível para em conjunto com o ICN, defender aquela pequena maravilha da nossa floresta nativa. De certa maneira é um trabalho social e fica-se a conhecer as aldeias de Monte Frio, da Benfeita, da Relva Velha, Pardieiros, Enxudro, Moura Serra, Mourísia, Parrozelos, etc.

    Sr Figueira sabe que nas as arribas do do Alto Douro Vinhateiro se produz o que é uma das poucas receitas garantidas de divisas? E é assim há muitas centenas de anos.

    Sr Figueira é preciso que o povo que somos nós saibamos que o Alva e o Ceira que por aqui serpenteiam, também têm arribas. Sr Figueira só dogo isto, aquilo é uma mina! Mas não diga nada aos merceeiros, sabe porquê? É jóvem; sabe quem eles são?

  6. Sassmine diz:

    putain…

  7. O Exilado diz:

    Se vamos fazer uma investigação às ligações da classe política entre si e a quem paga as contas e oferece lugares e da esquerda à direita sobraria muita pouca coisa de pé. Para quem ainda não reparou o país é minúsculo e a promiscuidade das elites total (sejam da velha guarda ou recém recrutados).
    Ver ideologia num jogo em que sempre só existiu o interesse próprio é não perceber nada do que se passa. A ideologia é para os jornais e para entreter as massas.

  8. B.P. diz:

    Isto está escrito em Português?
    O autor é o A.Figueira?

  9. Renato Teixeira diz:

    Le coeur bien au chaud
    Les yeux dans la bière
    Chez la grosse Adrienne de Montalant
    Avec l’ami Jojo
    Et avec l’ami Pierre
    On allait brûler nos vingt ans
    Voltaire dansait comme un vicaire
    Et Casanova n’osait pas
    Et moi, moi qui restait le plus fier
    Moi j’étais presque aussi saoul que moi
    Et quand vers minuit passaient les notaires
    Qui sortaient de l’hôtel des “Trois Faisans”
    On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
    En leur chantant

    Les bourgeois c’est comme les cochons!

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