Mobilidade total

Falou-se muito, por estes dias, em “mobilidade total”. Parece que no admirável mundo novo do neoliberalismo social democrata, “um professor de Setúbal pode ser convidado a trabalhar nas Finanças no Porto”. Eu desconfio que eles queriam mesmo dizer era que o professor de Setúbal pode ser “obrigado” a trabalhar nas Finanças do Porto. É que convidado ele já pode ser. E a esmagadora maioria das pessoas a quem se coloque essa hipótese recusará. Com razão.
Para quem tanto acusa a esquerda de utopias, é estranho fazer propostas políticas com base em pessoas que não existem. É que este trabalhador, disposto ou empurrado para a mobilidade total, é um homem só e sem freios. Um homem que não existe. Este trabalhador não tem família, não tem amigos, não tem filhos em idade escolar, não tem (nem quer ter) casa própria, não tem pais idosos de quem cuidar. Este trabalhador não tem um café onde gosta de ir ao fim de semana, não tem uma mercearia ao pé de casa onde sabem o seu nome, não pratica desporto no clube da sua terra, não tem actividade política ou associativa, não é membro activo de uma paróquia. Este trabalhador não é uma pessoa, com todas as pequenas e grandes coisas que fazem de nós pessoas. Não tem quotidiano, não tem família e não tem quaisquer laços comunitários. Ele é, só, uma máquina de trabalhar.
Não existe política mais inimiga da família e das comunidades que a da mobilidade. A direita, que tantas vezes berra por estes valores, devia lembrar-se disso. A esquerda também. A maior parte das pessoas não quer mobilidade nenhuma e tem razões válidas e atendíveis para isso. Nada está feito para a mobilidade. É impossível ser nómada e não ter problemas infernais com a inscrição dos miúdos numa escola pública (exige-se um “comprovativo de morada” com 4 meses de antecedência), com o exercício do direito de voto ou com a inscrição nos centros de saúde e médico de família, que agora é necessária para quase tudo. É impossível ser-se nómada e educar as crianças perto dos avós, ver crescer os filhos dos amigos, ver evoluir e consolidar-se a instituição em que trabalhamos ou a associação de que fazemos parte. Isto para ficar dentro de fronteiras, porque ir para fora é pior.
A mobilidade é uma treta. A sociedade em que tudo é móvel (menos os políticos, que raramente colocam um pezinho fora de Lisboa) será um pesadelo, com custos económicos e sociais de que ninguém fala (ou acham que as mudanças de casa, as repetidas cauções por novos arrendamentos e outras coisas mais, que só quem anda com a casa às costas sabe o que custam, saem do bolso de quem?).

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9 respostas a Mobilidade total

  1. Raquel Varela diz:

    Mariana,
    Subscrevo aquilo que escreves. Sobretudo porque te vales de um argumento que devia ser da esquerda, sempre – a família. A família não é de direita nem de esquerda, há famílias de direita e outras de esquerda. Parece que a esquerda tomou os temas minoritários da família como seus – e bem – esquecendo-se de toda a vidinha maioritária, a qual por vezes parece despertar um certo desprezo por parte dos partidos de esquerda: colégios, compras, alimentação, trabalhar e educar, escolas públicas de qualidade, educação comunitária, escola a tempo inteiro que sufoca as crianças, crianças a tempo inteiro que sufocam os pais, sociedade reduzida ao núcleo familiar restrito (casal) a cuidar das crianças e dos avós, carros por todo o lado na cidade, que reduzem o espaço infantil ao mínimo, crianças que deixaram de brincar umas com as outras porque não há quem cuide delas colectivamente e a mobilidade dos carros se impôs. Era fracturante levantar todas estas questões, uma por dia 🙂
    Abraços
    Raquel

  2. JL diz:

    A ser assim é Indecente.
    Eu sou da Direita e concordo com tudo o que a Mariana escreveu.
    É preciso não facilitar a vida a estes destruidores de Pessoas.

  3. Daniel Nicola diz:

    O ridículo é exactamente isso, é a direita arvorar-se em protectora da família, quando foi e tem sido a principal responsável pela destruição da mesma, dos seus laços e das suas rotinas com as consequências que se conhecem e que tão bem descrevestes. Boa posta! A luta da esquerda passa também por desconstruir na sociedade estes mitos, do qual Paulo Portas é useiro e vezeiro. Como pode capitalizar para si a supra-protecção dos valores da família quando é o principal instigador da sua destruição?

  4. Carlos Carapeto diz:

    Ter que correr Seca e Meca até ao Val de Santarém com a trouxa às costas, não me assusta muito, porque a empresa onde trabalho é localizada. O que me amendronta mesmo é ter que vir a tomar o cocktail Passos/Bessa. Fim do contrato sem termo + o aumento da carga horária. Depois de duas jornadas de trabalho seguidas terei ainda vontade de olhar para a família quando chegar a casa? A primeira coisa que procuro é a cama.

    Já passei por situações destas na minha vida.

  5. António Paço diz:

    Mobilidade total só a do capital! Muito bom post, Mariana. Pena ter ficado logo tapado por algumas coisas dispensáveis (ou adiáveis), como a 17.ª (!) posta de bacalhau da Constituição (a ideia ao princípio podia nem ser má, mas ao 17.º capítulo já cheira a bacalhau velho).

  6. nf diz:

    Sendo certo que o capitalismo pacóvio é uma falácia ideológica (que nos diz que a sociedade é apenas o somatório das pessoas a tratar da vidinha e que cinicamente apela à restauração dos valores tradicionais, etc, etc) desde quando é que se tornou numa reivindicação da esquerda?

  7. Mariana Canotilho diz:

    Eu acho urgentíssimo que a esquerda recupere o discurso sobre a família (toda a família, porque gays, hetero, solteiros e casados, pagamos todos 23% de iva por esse bem de luxo que é o sabão) . Parece que só a Zezinha Nogueira Pinto e aquela senhora inenarrável do não ao aborto é que falam de políticas de família neste país.
    Há vida e política para além da crise económica, da dívida e do FMI. Há muitos temas e problemas importantes que, sendo por eles afectados, merecem uma discussão própria, com perguntas e propostas de solução.
    Se eu pensar nos temas que mais me preocupam neste momento, eles são: a escola pública, o sns, a mobilidade e precariedade laboral, a poluição ambiental e alimentar, a ausência de espaços públicos e de estruturas comunitárias (estou numa cidade nova há 8 meses e a única instituição que se importou com isso e escreveu a disponibilizar-se para qualquer coisinha foi a paróquia; isto é normal, mas é péssimo; perdemos a capacidade de viver em comunidade fora da igreja). Não é que não me interesse a guerra na Líbia ou que ache que o mundo é feito de problemas e soluções individuais. Mas aquelas questões são as que afectam, directa e diariamente, a minha família. E, como a minha, as outras todas. E a política, para mim, só faz sentido se responder às necessidades e aspirações das pessoas. Se melhorar a vida delas. Isso não se faz sem falar de famílias, de políticas de família e de comunidades.

  8. José diz:

    “A maior parte das pessoas não quer mobilidade nenhuma e tem razões válidas e atendíveis para isso.”
    Não me parece que seja rigorosamente assim. Julgo que terá mais razão quando avança com a frase seguinte do seu post: “Nada está feito para a mobilidade.”
    Gostemos ou não, a sociedade moderna global funda-se nos transportes e comunicações fáceis e baratos.
    A nossa tem estrangulamentos que impedem – ou, pelo menos, dificultam – a mobilidade interna, mais do que a externa. A inexistência de um mercado de arrendamento é, provavelmente, o mais importante.
    A mobilidade não é necessariamente má, fazendo parte da cultura nacional há mais de 500 anos.
    Errado, não é apenas obrigar alguém que não quer sair do seu local de trabalho, da sua casa, da sua família, do seu “lar” abrangente, incluindo aqui os seus amigos e, até, os seus locais de afeição, a fazê-lo.
    Errado é, igualmente, impedir jovens – e menos jovens – de aceitarem melhores empregos, novas oportunidades, porque, como acima diz, “Nada está feito para a mobilidade.”

  9. jose diz:

    Concordo e assino por baixo. Esta direita na pensa direito.

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