A revista Sábado escarnece do jornalismo

A revista Sábado encarregou um jornalista de fazer-me uma entrevista sobre o meu livro História do PCP na Revolução dos Cravos. Gastámos, eu e o jornalista, pelo menos 2 horas do nosso tempo com ela. Hoje saiu a peça e que vejo eu: não existe uma única citação minha. Tudo se resume a um comentário do Vítor Dias, do PCP, feito há 2 anos no seu blogue sobre uma comunicação minha onde ele assume não ter estado, um comentário do ex-director do Público José Manuel Fernandes, que assume não ter lido o livro, e uma imprecisão histórica da comentarista Helena Matos, que confunde o cerco da Assembleia Constituinte com o 25 de Novembro. São 3 comentários retirados de blogues sobre uma tese de doutoramento! E entretanto, a entrevista foi às malvas!Senhores editores (ou deveria dizer censores?) da Sábado: não invoquem o nome do jornalismo em vão!

Eis o resultado final depois do tratamento dos «editores» da Sábado. E a entrevista que me foi feita.

Um das questões ligada a este livro foi a polémica com José Manuel Fernandes, ex-director do Público. Ele leu uma entrevista sua e levantou uma série de problemas à entrevista. E faz uma série de comentários às motivações políticas de Raquel Varela. Que tem a dizer sobre as motivações políticas de que ele fala?

Pelo menos três coisas. Não é sério comentar um livro sem o ler. A segunda é que o José Manuel Fernandes faz um duplo comentário aqui, um à minha profissão e outro à polémica em torno do livro. O da minha profissão eu não lhe reconheço, claro, legitimidade. Estou há 12 anos a ser avaliada em várias universidades, sou avaliada semestralmente com artigos pelos meus pares e tenho anos e anos de avaliações como historiadora e não é JMF que está em posição de questionar isso.

Ele está em posição de ter uma opinião sobre um livro, que seria muito mais sólida se o tivesse lido. Ter uma opinião sobre um livro sem o ler é estranho sobretudo vindo de quem teve responsabilidades num jornal que se quer sério. Acho que essas opiniões devem ser a opiniões sobre o livro e não sobre a pessoa que escreveu o livro porque no fundo o que se está aqui a fazer é uma espécie de macartismo é pedir que se ponha uma legenda quando se entrevista um cientista sobre determinado tema, que essa pessoa tenha uma ficha política. Isso é uma característica de regimes que perseguem politicamente as pessoas ou de situações onde as regras básicas da democracia não são respeitadas. Isso não é feito aliás com nenhum historiador em Portugal. Se o fizéssemos havíamos de descobrir que a esmagadora maioria dos historiadores em Portugal são militantes e com toda a legitimidade. Ser militante de uma organização é um direito básico reconhecido pela Constituição.

 

Quando fala de militância está a falar de militância partidária?

O Rui Ramos é militante, o Tiago Moreira de Sá é do PSD, creio mesmo que até é eleito por uma freguesia, o Fernando Rosas deputado do Bloco de Esquerda e um dos melhores historiadores portugueses e nunca ninguém questionou a sua excelente produção académica pela sua militância no Bloco de Esquerda. Se fossemos por aqui iríamos questionar o trabalho de se calhar centenas de pessoas em Portugal que é um trabalho meritório e sujeito às mais duras avaliações anuais, que nós hoje temos nas universidades. Acho que isso é ilegítimo e que lhe fica muito mal.

Essa militância pode ser vista como uma forma de subjectivar esta escrita da história? No caso de um Rui Ramos, no seu caso?

Acho que a militância é um dos elementos que nós devemos conhecer das pessoas até porque abre uma clareza porque a história não é neutra, nunca foi, mas pode e deve ser séria. E isso não é aferido pela militância das pessoas mas pelas fontes e pelo tratamento das fontes que é dado, pela metodologia, pelo suporte teórico. Por uma série de itens que não têm a ver com as escolhas políticas. Pode haver um encontro entre as escolhas políticas das pessoas e a sua análise teórica e metodológica e há-o em todos os casos.

Historiadores liberais tendem a aproximar-se muito de uma história muito institucionalista. Historiadores marxistas de uma história que tem o conflito social como núcleo explicativo do processo histórico, que é o meu caso. Alguns dos melhores historiadores do mundo são historiadores marxistas, a começar pelo Hobsbawn, durante vários anos membro do Partido Comunista Inglês. Grande parte dos historiadores que conheço, não se filiando em nenhuma organização política, defendem uma história mais pós-moderna, muito ligada à análise dos discursos, que tem a ver com o seu posicionamento político – neste caso o não querer assumir um posicionamento é também assumir um posicionamento político.

É muito fácil estabelecer uma relação, mas isso não é o critério de análise de uma obra. O critério é uma interpretação minimamente coerente das fontes, é o suporte metodológico e teórico e, claro, é uma série de provas que as pessoas passam extraordinariamente difíceis.

E nessas provas existe gente de todos os quadrantes?

Claro. Basta ver que na minha tese, no meu júri de doutoramento, havia seis historiadores e só um era um historiador marxista. E as provas terminaram com louvor e distinção.

O JMF critica o facto de defender que Cunhal nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal, nunca existiu o risco de o PCP tomar o poder em Portugal em 1974 e 1975. Como defende este ponto de vista?

Os documentos estão todos citados, são 400 páginas.

E não existe enviesamento? Não há grande peso de jornais como o Avante?

Muitas citações são do Avante e d’O Militante e outras publicações ou textos do próprio PCP. Há dezenas de documentos do PS, centenas de documentos de arquivos estrangeiros, imprensa da mais variada cor política, do centro de documentação 25 de Abril. Há um constante diálogo entre as fontes.

O discurso é um discurso defendendo a revolução socialista mas repare um discurso que defendendo a revolução socialista vai às portas das fábricas distribuir folhetos para acabarem com a greve, porque as greves são contra os Governos Provisórios onde o PCP está em aliança com o PS e o PPD. Carlos Carvalhas aprova dois documentos contra o controlo operário que existia de facto nas fábricas dizendo que o controlo operário não podia pôr em causa a economia nacional e a economia nacional tinha 92% da mão-de-obra trabalhando na economia privada, cuja propriedade não é questionada pelo PCP. É um discurso em defesa da revolução socialista que põe fim ao V Governo porque diz que o V Governo não pode avançar, tem de haver uma coligação com o PS, com o sectores do Grupo dos Nove, tem de haver uma reconstituição do MFA.

O importante não é o que o PCP diz mas sim o que faz. Quem põe fim ao V Governo é o PCP, quem impede a Intersindical de sair é o PCP, quem impede os fuzileiros de sair no 25 de Novembro é o PCP. A história política do PCP não se pode fazer sem as fontes. Como se pode analisar a politica do PCP nas fábricas se não vemos os panfletos que as células do PCP fizeram nessas fábricas?

Mas refuta a tese que tem sido dominante de que o PCP foi responsável por uma série de excessos revolucionários e uma tentativa de criar aqui um campo socialista real?

Isso nunca se passou e eu creio que o meu livro põe um ponto final nessa questão. O PCP nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal. Isso não significa que o PCP não tenha querido ocupar lugares no aparelho de estado, quis e muito, e o PS também. Até Setembro de 1975 ocupou muitos lugares no aparelho de estado e partir dai há um volte-face e é o PS que passa a ocupar esses lugares, de tal maneira que Cunhal tem um texto onde diz que “o nosso apoio ao VI Governo diminui consoante os lugares que nos dão no Governo e consoante nos abrem ou fecham a torneira do Estado”

Quando Cunhal se refere à torneira do estado refere-se aos ministérios das Finanças e da Agricultura, que controlavam a reforma agrária e as empresas nacionalizadas. Há uma disputa por ocupar lugares no aparelho de Estado pelo PCP e pelo PS clara. Daí a concluir-se que o partido quer tomar o poder e expropriar a burguesia e tomar o poder dirigindo órgãos de duplo poder pelos trabalhadores… Estamos a falar de um partido que defende a batalha da produção, que defende que os trabalhadores devem aumentar a produtividade no quadro da propriedade privada. O PCP defende que se deve parar de fazer greves nesse quadro dos 92 % da propriedade privada e aumentar a produtividade do país.

Mas são muitas vezes acusados de até terem nacionalizado barbearias.

Mas é um discurso que não corresponde à realidade. O sector empresarial do Estado (SEE), depois das nacionalizações, fica inferior ao da Alemanha e da França. 8 % da mão-de-obra trabalha no sector empresarial do Estado, depois das nacionalizações, e na Alemanha e na França entre 10 e 12%. Tomar um sector nacionalizado do Estado como prova irrefutável de uma política revolucionaria é errado. Por essa lógica a Alemanha também estaria em transição para o socialismo, pois tinha mais empresas nacionalizadas que Portugal.

Eu acho que as nacionalizações são a prova de uma revolução em curso mas não são a prova de que o PCP quis fazer uma revolução. Uma boa parte das nacionalizações nasce do desejo de impedir o controlo operário das fábricas. As fábricas vão para as mãos do Estado para saírem das mãos dos trabalhadores. Para evitar a duplicidade de poder nas fábricas. Aliás vimos agora nacionalizações. Os regimes burgueses nacionalizam e nacionalizam sem problema nenhum. Nacionalização não é sinónimo de revolução socialista.

JMF acusa-a de fazer do PCP um cordeirinho pascal e de falar numa revolução sem mortos, esquecendo os mortos junto à PM, no 25 de Novembro.

Sim, há três mortos no assalto dos comandos à Polícia Militar. Quando falo na contra-revolução sem mortos refiro-me à tese de Cunhal de que em Portugal apenas seria possível uma contra-revolução a la Pinochet. Uma contra-revolução feita sob as botas de uma ditadura militar sangrenta, e aquilo a que nós assistimos é uma contra-revolução democrática, ou seja há um golpe militar, rapidamente se evolui para um processo eleitoral, tudo isso se faz sem um banho de sangue. Não há um confronto armado entre classes sociais antagónicas e a única justificação para isso é o recuo do PCP no 25 de Novembro. A disponibilidade do PCP não fazer avançar nem os trabalhadores organizados, na Intersindical, nem as unidades militares por si controladas, que do ponto de vista do equilíbrio militar as unidades de esquerda até tinham mais força que as de direita. A tese de Álvaro Cunhal de que Portugal nunca poderia ser uma democracia burguesa no Rumo à Vitória e que depois é desenvolvida em 74 e 75 ruiu. Portugal é uma democracia burguesa relativamente estável há quase 40 anos e não foi preciso um banho de sangue para instituir a ditadura. Cunhal disse muitas vezes que isto ou será uma ditadura ou uma revolução socialista e o 25 de Novembro é uma contra-revolução democrática que depois será aplicado de forma ainda mais estável em Espanha e depois com a doutrina Carter na América Latina, as revoluções (transições) negociadas no Brasil, no próprio Chile já na década de 80, na Argentina e noutros países. A possibilidade de que as instituições democráticas canalizem as transições, de evitarem rupturas que levem a um estado de guerra civil.

Porque acha que o PCP evitou essas rupturas. Equilíbrio de forças?

Não creio que tenha a ver com isso. Tem a ver com a estratégia do partido que não tem como objectivo a revolução socialista. Tem como estratégia que Portugal fosse uma democracia no quadro da divisão do Mundo pactuada em Ialta e Potsdam, no final da II Guerra Mundial. Portugal estaria na esfera da Aliança Atlântica. Por isso, o PCP não defende a saída de Portugal da NATO.

Mas agora defende.

Mas também defendia no Rumo à Vitória e em 1976, mas em 74 e 75 é contra a saída da NATO, é aliás contra a manifestação que pede a saída de Portugal da Nato dizendo que tem de haver equilíbrio de forças com sectores democráticos e com partidos burgueses.

Acusa-a de fazer do PCP um cordeirinho pascal.

Eu não sei o que é um cordeirinho pascal, isso não é um termo histórico.

O PCP é parte da construção da democracia e não uma ameaça à democracia. É parte do regime e dentro do regime disputa os trabalhadores organizados e melhores condições para os trabalhadores e fê-lo em 1974 e 1975, não questionando o regime, não questionando o sistema político. Estou plenamente convencida disso e quem ler o livro rapidamente chega a essa conclusão.

Nalguns meios do PCP não se convive bem com essa tese. Há quem fale mesmo na questão dos equilíbrios de força, entre o desejo do PCP de querer uma revolução socialista mas evitar o banho de sangue.

O PCP considera que não havia um equilíbrio de forças favorável a uma vitória da esquerda num eventual confronto civil armado. É também a teoria de Álvaro Cunhal na altura.

E se tivesse a certeza teria avançado?

Não sei, isso é uma especulação histórica.

Alguns sectores do PCP não se sentem particularmente lisonjeados com a ideia de que não teriam avançado se tivessem outras hipóteses.

Tem de perguntar isso aos comunistas. Tenho tido um diálogo muito fraterno com várias pessoas do PCP sobre a minha tese, no sentido que de havendo concordâncias e discordâncias elas são feitas com base em argumentos. Acho que o PCP convive bem com a tese pois é a prova de que o PCP é parte da construção do regime democrático e não uma ameaça ao regime democrático, poderá eventualmente conviver mal pois o partido quis ficar, como diz o ditado francês, com a manteiga e com o dinheiro da manteiga. Não é possível historicamente em 1975 ter estado dos dois lados. Quem esteve do lado do 25 de Novembro ou impediu os trabalhadores de tomarem o papel ou pelo menos de disputarem a hegemonia em 1975 é parte da construção da democracia, mas não é parte da construção do socialismo. O PCP fez um acordo com o Grupo dos Nove no dia 25 de Novembro alegando que a revolução continuava. Em 1976 Cunhal diz que a revolução continua e só em 1999 escreve que o 25 de Novembro foi o fim da revolução. Em 1976 nem sequer considera o 25 de Novembro um golpe, considera sublevações militares que permitiram ao PCP reagrupar-se novamente com o Grupo dos Nove e isolar a Esquerda Militar. É o que o PCP escreve em Novembro e Dezembro de 1975. É talvez das coisas mais interessantes do livro.

Álvaro Cunhal vai ao Campo Pequeno no dia 7 de Dezembro de 1975 dizer que o 25 de Novembro até foi uma contribuição para isolar a esquerda militar e voltar a pôr o PCP em contacto com o Grupo dos Nove e com sectores com que o PCP tinha estado desavindo. O PS sim parece conviver muito mal com esta tese, que defendia o socialismo e teve de fazer uma aliança com todos os sectores mais à direita da sociedade e dar um golpe que põe fim à revolução. Convive muito mal com essa tese e JMF é a expressão disso, como o são os autores liberais.

JMF contesta essa sua tese de que o PS se aliou aos sectores mais reaccionários da sociedade.

Quem de facto convive mal com essa tese são os sectores mais liberais e ideológicos, no sentido em que convivem mal com a verdade histórica. Pois esta tese vai ao arrepio de uma mentira mil vezes repetida de que o PS teve de abandonar a luta pelo socialismo por o PCP ameaçar fazer de Portugal um satélite soviético. O que é ao arrepio de toda a documentação nacional e estrangeira. A CIA, pode ler isso no livro do Tiago Moreira de Sá, estava convencida de que o PCP não queria mudar o poder. A URSS estava convencida de que o PCP não queria tomar o poder. Só o PS tem essa teoria.

Mas há uma narrativa que diz que o PCP queria tomar o poder e entregar as colónias à URSS.

Mas essa é uma teoria jornalística. Não é uma teoria histórica, deixe-me dizer-lhe com todo o respeito que tenho pelos jornalistas. Aliás o clube dos jornalistas publicou a minha entrevista e diz que «teoria de historiadora refuta teoria de jornalistas». É um censo comum construído junto de órgãos de comunicação social mas não corresponde aos trabalhos históricos nem sequer dos historiadores que não são marxistas. Se for ver livros de outros historiadores que escreveram sobre a revolução, verá que as conclusões não são muito diferentes das minhas.

Mas de quem por exemplo?

Por exemplo, da Maria Inácia Rezola ou Maria Manuela Cruzeiro.

Mas Maria Manuela Cruzeiro talvez tenha uma linha ideológica mais de esquerda

Eu não sei o que é uma linha ideológica de esquerda.
Não? Não há diferenças?

Quando falamos de política falamos de linhas ideológicas. Na historiografia, não. Falamos de sustentação teórica. Que pode ir de encontro ao marxismo ou de uma série de outras vertentes.

Quando me fala de um historiador marxista está-me a falar de um modo de análise ou das convicções pessoais sobre o tema?

Estou a falar de um método de análise da realidade. Olho muito mais para o 11 de Março como resultado do aumento das ocupações de terra e de fábricas e de casas pelas comissões de trabalhadores e de moradores do que como um golpe e contra-golpe que se resolve ao nível das instituições. O marxismo olha para os processos revolucionários como processos em que existe crise de estado e a entrada das massas na cena histórica e há uma tensão permanente e um conflito de que a história é um resultado. E não como sucessão de decretos, governos ou instituições. Depois há o papel das crises económicas. O papel da crise económica na nossa revolução é indiscutível se for ler os textos de dois autores completamente distintos do ponto de vista ideológico, Silva Lopes, que foi ministro das Finanças, próximo do PS, e de Eugénio Rosa, hoje economista da CGTP. A crise de 1973 impõe um aumento brutal do desemprego que inclui abandonos de fábricas ao qual os trabalhadores respondem ocupando-as. Essa ocupação leva ao desenvolvimento da consciência de classe e ao enfrentamento político. Silva Lopes diz que as nacionalizações são feitas para dar enquadramento institucional a uma situação criada pelos trabalhadores. 

Como avançou para este tema?

Estou muito ligada aos estudos da Europa do Sul. E havia histórias dos partidos comunistas nos processos de fim de regime em todo o lado menos em Portugal. E nós continuávamos a ser confrontados nos jornais e em todo o lado com mentiras mil vezes repetidas sem que alguém alguma vez tivesse feito aquele trabalho pesado de estar anos PCP está feito para o período de 1974/75. Agora estou mais voltada para a história do movimento operário.

O PCP nesse fluxo acaba por ser uma vanguarda ou por receber o fluxo das massas?

Normalmente está atrás das políticas dessas massas. Nos primeiros dois meses da revolução o PCP não apoiou uma única greve, ao ponto de ter feito uma manifestação contra as greves no dia 1 de Junho de 1974, no parque Eduardo VII, com a Intersindical. Uma manifestação reclamada na primeira página do Avante, e o Avante não é um documento interno do « Não à Greve pela Greve». No dia 28 de Maio publicam um texto onde dizem que as greves são reaccionárias («fazem o jogo da reacção»), que são esquerdistas, que são provocatórias, que tem de se apoiar o Governo Provisório.

Por estar no Governo?

Por estar no Governo e por ter uma política de conciliação, que visa evitar a radicalização das massas mas ao mesmo tempo conseguir conquistas sociais. E esse equilíbrio é o dos 19 meses da política do PCP entre 1974 e 1975.

Teve muitas surpresas com esta tese?

Ia convencida, por vivermos no meio de uma intelectualidade que veio muito dos partidos maoístas, de que os partidos de extrema-esquerda no movimento estudantil eram um problema para o PCP. Agora estou convencida de que o PCP tinha muito pouca preocupação com o que se passava nas universidades. Se a extrema-esquerda dirigia uma fábrica como a Lisnave isso era problema para o PCP, que apontava para aí toda a energia.

E porquê esse desinteresse pelos estudantes?

Creio que Cunhal achava que o movimento estudantil era policlassista e que não seria a partir daí que se construiria o partido mas sim a partir do movimento sindical organizado e a partir da construção de uma central sindical única, a Intersindical, dirigida pelo PCP, e uma fonte constante de financiamento e de quadros para o partido. Nesse quadro, o movimento estudantil era absolutamente secundário. O PCP não «acordava de manhã» a pensar no que os maoístas iam fazer no Técnico, na faculdade de Letras ou em Direito. Mas «ficava acordado a noite inteira» para saber o que se passava na Lisnave.

O trabalho da direcção do PCP assenta num colectivo ou Cunhal destacava-se?

Há um trabalho colectivo forte. O comité central do PCP é de grande coesão interna, onde a maioria é funcionários do partido há 10, 20 anos ou mais. Todos juntos os seus membros estiveram 308 anos presos. Extremamente centralizado, monolítico. O partido não é monolítico de maneira nenhuma. A imagem contrária é uma imagem errada. O PCP faz aprovar documentos onde impede a criação de novas células por dizer que não tem controlo sobre os militantes. O comité central vem do Estado Novo, entra no processo revolucionário, o Partidp cresce de 2 mil para cem mil militantes e não muda a direcção.

Como cresce tanto o PCP?

Julgo que se deve ao facto de ser o único partido organizado quando se dá o processo revolucionário, está em melhores condições para no imediato dirigir a revolução. Tinham quadros e experiência. E tinha o prestígio de ser o único, dos que sobreviveram, que sempre resistiu ao fascismo, pagando por isso um preço elevadíssimo. Nos dias a seguir à revolução há uma série de câmaras municipais cujos dirigentes pró-Estado Novo são expulsos e substituídos pelos do PCP e do MDP-CDE. O PS em 1973 «cabia num táxi». Mário Soares vai a Bona no dia 2 de Maio pedir dinheiro para formar o partido pois acredita que se houver eleições imediatamente o PCP ganha. Até 1974 o PCP não era um partido de massas, era um partido de vanguarda com influência de massas. Os 2000 militantes do PCP são referidos por vários autores e Cunhal escreveu que o partido nunca mais teve tantos militantes como a seguir à II guerra, quando terá atingido os cinco mil.

O PCP é visto como tendo papel no Cerco da Constituinte (Helena Matos)?

O PCP publica um comunicado no dia 13 onde apoia a manifestação mas diz que é contra o cerco.

Mas essa não é a imagem que prevalece?

A imagem publicada é uma imagem errada, distorcida, não corresponde à realidade histórica. Os historiadores não têm de estar a fazer história em função daquilo que se escreve nos jornais. Não podem estar dependentes do que o senso comum cria porque a ciência é a antítese do senso comum. Por isso é que o historiador demora anos a fazer um trabalho, que obriga a uma pesquisa muito cuidada no tratamento das fontes, e de muitas fontes, que não é o mesmo que escrever um artigo ou uma crónica de opinião com um prazo muito curto.

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41 respostas a A revista Sábado escarnece do jornalismo

  1. Parabéns pela entrevista, principalmente na desmontagem da pretensa objectividade dos historiadores conservadores, em oposição à subjectividade dos historiadores progressistas, para simplificar conceitos.
    Sobre o livro nada a dizer para já, pois interessa-me tanto que vou guardar a leitura para o sossego das férias. Mas, como curiosidade, as páginas mais interessantes que já li sobre o PCP nos episódios mais quentes da Revolução são exactamente do Álvaro Cunhal, no romance Um risco na areia.
    Quanto a colocar revista Sábado e jornalismo na mesma frase é absoluto contraditório. Já passei por elas…

    • Raquel Varela diz:

      Eu pensei que nas férias se lia um policial, ou uma coisa tipo Montalban contra los Gourmets 🙂
      Saudações João

  2. Nightwish diz:

    Da sábado espera-se tanto jornalismo ou honestidade intelectual como de jmf ou helenamatos: 0.

  3. Ao ler a entrevista percebe-se que quem a fez esteve muito aquém das condições de possibilidade e entendimento, o seu uso em vez de dar validade à racionalidade comunicativa viola as condições de compreensão de qualquer acto de fala quando não existe uma única citação da entrevistada:a distância entre a entrevista realizada e a publicada demonstra a violação do primado da racionalidade comunicativa sobre a estratégica.

  4. AA diz:

    Minha cara, o mercado quer intriga. Se a procura quer intriga, a oferta orienta-se no sentido de lhe fornecer intriga.

  5. susana diz:

    muito interessante, a sua análise. o kierkegaard já dizia que era a imprensa que dava o pensamento aos homens, mas a denúncia, já tão antiga, dessa manipulação não parece ser tida em consideração quando se constata a realidade. e é assustador que o jornalista vá para uma entrevista não iluminado pelo trabalho da entrevistada mas pelas palavras das luminárias que o orientaram, JMF e HM.

    aconselho, no entanto, a raquel a rever a sua transcrição, pois há situações em que a oralidade constrói menos bem as frases e a entoação resolve parcialmente o problema pela adição de uma vírgula aqui e ali, assim como outras em que parece faltar qualquer coisa (ex: “E nós continuávamos a ser confrontados nos jornais e em todo o lado com mentiras mil vezes repetidas sem que alguém alguma vez tivesse feito aquele trabalho pesado de estar anos PCP está feito para o período de 1974/75.” entre “estar anos” e “PCP” parece faltar parte da frase…)

  6. joão viegas diz:

    Isto infelizmente não é so em Portugal. Todos percebemos que os jornais (também) se regem pelo imperativo de interessar os seus leitores, o que supostamente é o caso quando conseguem titulos bombasticos, pseudo-noticias escabrosas ou fofoquices para alimentar conversas de café.

    Mas ha limites.

    E eles não são assim tão impossiveis de traçar. E’ perguntar ao jornalista o que é que ele pretende fazer, se informação, se circo, e não hesitar em dizer-lhe quando afirmou uma coisa e depois fez outra, mandando-o bugiar e dizendo-lhe que da proxima vez que procurar informação, pode ir fazer cocegas a camelos !

    E que os jornalistas (muitos lêem blogues) não venham dizer que isso se deve a imposições que os ultrapassam, ou então mando-os ler as regras constitucionais sobre liberdade de imprensa oportunamente postadas pela Sasmine.

    E’ que não ha paciência, mesmo !

    E depois queixam-se de que existe uma crise do jornalismo…

    Mas como é que podia ser de outra forma ?

    • Raquel Varela diz:

      Vou voltar publicar a entrevista. Só uma nota: dentro das redacções há hierarquias e neste caso a culpa e a vergonha recaem sobre os editores. As melhores revistas, mais à direita do mundo, não se lembrariam de descer a este nível.

  7. LAM diz:

    Nada que não estejamos habituados quando o objectivo é fazer sangue: dar mais relevância às reacções do que ao acontecimento em si, neste caso o livro e o que lá é dito pela autora.

  8. João Pais diz:

    Cuidado, não morda muito a mão que lhe dá de comer…

  9. Inacreditável mas é assim.
    Acabei de ler o livro ontem à noite: imprescindível.

  10. Rocha diz:

    Para quem acha que o PCP tem sido pouco revolucionário, não convém esquecer-se que a Sábado (tal como 95% ou mais dos jornais e revistas) é uma tribuna da burguesia e da reacção. Os meus camaradas de outras latitudes costumam chamar-lhe o “latifúndio mediático” aos media burgueses como um todo.

    Para quem se acha muito revolucionária, não queria que a Sábado, por sua vez, fosse pouco reaccionária, pois não? Sabe que é assim que essa gente costuma “reagir”.

    • Raquel Varela diz:

      Rocha,
      Conheci muitos reaccionários na vida e li muitos. O Público sempre foi um jornal burguês mas nos anos 90 tinha direito a contraditório por exemplo. Numa das pesquisas que fiz para Os Anos de Salazar vi que a imprensa dava espaço a sectores muito mais à esquerda como o Vitorino Magalhães Godinho e outros, isto em ditadura. Leio o El País, que é doentiamente espanholista, segregador do País Basco mas fala dos «resistentes» afegãos. Não conheço toda a imprensa europeia mas daquela que conheço a portuguesa está no fundo – são opinadores, não há reportagem, há estagiários que não distinguem o 25 de Abril do 25 de Novembro, Monet de Picasso, a Tailândia do Laos. E, como sou casada com um, por agora, ex-jornalista e no actual historiador, tenho o prazer de fazer umas jantaradas com muitos jornalistas excelentes, homens e mulheres de grande cultura e rigor – foram todos postos na prateleira, reformados antecipadamente e despachados.

      • miriam diz:

        E, ainda há, quem fale da sanha saneadora do José Saramago…claro,que isso de pôr jornalistas na prateleira e jornaleiros no ativo não tem nada a ver…

    • LAM diz:

      Claro, Rocha. Vai daí há que destacar o que diz Vitor Dias (evidente que Vitor Dias não tem culpa disso), em vez de destacar o que diz o livro.

      • Rocha diz:

        A burguesia é perita em instrumentalizar as palavras da esquerda para as suas provocações. E como a sua questão responde-se a ela própria, o Vítor Dias não tem culpa de ser citado por este jornaleirismo reaccionário.

        Não sei se o LAM percebeu o essencial do artigo: a burguesia não perdoa à Raquel que revele o golpismo do Soares e restante direita novembrista. A Raquel tocou no nervo (da história oficial da burguesia).

  11. Pedro Pousada diz:

    Sem querer insinuar o quer que seja mas onde estavam “esses jornalistas excelentes, homens e mulheres de grande cultura e rigor” (que acredito que o sejam como acredito nas suas competências) quando a direita tomou o poder no 25 de Novembro? E que posição tomaram quando o jornalismo de papel se transformou numa espécie de ventriloquo da cassete anti-comunista? Qual foi o seu rigor e objectividade quando se sucederam as “crises” no PCP e decretaram a sua infundada morte? Que disseram eles publicamente sobre o facto da opinião dos comunistas ter uma existência de rodapé nos “jornais de referência”? Que fizeram eles para desfazer os mitos Mário Soares e Sá Carneiro como salvadores da Pátria e da democracia, esses mitos malditos que nos envenenam há 35 anos?Desde os meus 10 anos que leio jornais, muitos deles já extintos outros que às vezes apetecia-me usá-los como papel de embrulho, (recordo-me com saudades do diário de lisboa, do jornal, do o diário), agora com 41 anos verifico que o anti-comunismo continua o mesmo, infestado de lugares comuns, de diz que diz, de boatos e meias-verdades e de muita mesmo muita ignorância e ocultamento. Que novidade constitui esta notícia que nos dá? Não acredito que seja ingénua e não saiba a regra de ouro do jornalismo bacoco nacional é que tudo o que envolva o PCP, posições políticas, iniciativas, propostas, programa, etc, estará sempre imerso num cocktail desinformativo e ao serviço de interesses que não os da informação séria e rigorosa.

    • Raquel Varela diz:

      Pedro,
      Eu concordo que o PCP é em geral muito mal tratado na comunicação social, em contraste claro com o BE. Uma das coisas que mais me irrita é que na smanifs do PCP vejo muitos jovens e na televisão filmam as pessoas mais velhas. Haverá outros exemplos. Mas não tomemos a parte pelo todo. Há dezenas de bons jornalistas que eram e são militantes do PCP, outros do BE e há bons jornalistas que são de outras áreas políticas.
      Raquel

  12. Pedro Penilo diz:

    A amostra serve bem para ter uma ideia do vazio intelectual que norteia o trabalho da Sábado. Nada diz com nada. Tudo se resume ao maniqueísmo simplificador.

  13. vítor dias diz:

    Cara Raquel:

    Em curto de depois de tomar dois Xanax, só desejo, por ora, observar aqui o seguinte:

    1. O que a Sábado fez consigo é uma sacanice repugnante e aqui lhe manifesto toda a minha solidariedade.

    2. Registo, sem favor que é lietralmente exacta a sua frase de que « Tudo se resume a um comentário do Vítor Dias, do PCP, feito há 2 anos no seu blogue sobre uma comunicação minha onde ele assume não ter estado». Mas, tal como a Raquel sabe, devem os leitores deste blog ficar a saber que no meu post em causa eu me baseei numa longa descrição feita por Jorge Nascimento Fernandes no «trix-nitrix» que aliás citei longamente. Ora acontece que, à época, não dei porque Raquel Varela tivesse contestado aquela descrição. Nem dei sequer que tivesse negado a afirmação que Jorge Nascimento Fernandes lhe atribuiu de que a burguesia devia fazer uma estátua ao PCP porque foi este Partido que permitiu que a democracia se implantasse em Portugal» (as comas são minhas não de JNF).

    3. Sem duvidar da sua palavra, estava muito interessado em saber quando é a sua fonte para a afirmação que nesta entrevista atribui a Álvaro Cunha de «o nosso apoio ao VI Governo diminui consiante os lugares que nos dão no governo e consoante nos abrem ou fecham a torneira do Estado».l

    4. Guardo para a minha chafarica a anotação de algumas penosas e tristes inanidades constantes desta sua entrevista como o alegado objectivo das nacionalizações, como que Cunhal só em 1999 é que escreve que o 25 de Novembro é o fim da revolução, como as suas confusões sobre as caracterizações do PCP a respeito do 25 de Novembro ou, entre mais exemplos, como consta do seu livro, que Veiga de Oliveira estaria no VI Governo Provisório a título pessoal e não em representação do PCP.

    • Raquel Varela diz:

      Caro Victor Dias,
      Reconheço que pedir ao autor partes do livro em vez de o ler tem vantagens em termos de tempo mas não diria o mesmo para a qualidade da análise. Vou digamos atender o pedido porque achei muito simpático o Victor Dias ter dito qualquer coisa que não seja um copy de um post que escreveu há 3 anos – para ser exacta – sobre uma comunicação onde não esteve.
      «É no Ministério das Finanças que está a torneira de recursos do Estado e depende em larga medida do ministro, dos secretários de Estado, assim como da contribuição da banca nacionalizada, que a torneira se abra ou que a torneira se feche. (…)» («A situação actual analisada por Álvaro Cunhal». In Avante!, Série VII, 2 de Outubro de 1975, p. 6.)
      «A nossa posição quanto ao Governo é determinada pela quota-parte da nossa responsabilidade. Se as nossas responsabilidades diminuem, diminui também, compreensivelmente, a margem do nosso apoio ao VI Governo Provisório.»
      Editorial, Avante!, 6 de Novembro de 1975.
      «A firme determinação de servir a revolução (…) levou o PCP a aceitar que membros do PCP participem no governo, não em representação oficial do partido» (Editorial O VI Governo Provisório, Avante, 18 de Setembro de 1975, p. 2)

  14. José diz:

    Como a Raquel acima disse, há boa e má imprensa, de esquerda ou de direita.
    A Sábado, independentemente da orientação política, não faz parte da boa imprensa.

  15. Ilídio PG diz:

    A julgar pela entrevista, a historiadora Raquel Varela manifesta uma incompreensão básica da relação entre a democracia e o socialismo, de que a luta pela democracia, isto é, pelo poder dos trabalhadores e do povo, não só não é incompatível, como pelo contrário é uma componente fundamental da luta pelo socialismo, regime social em que esse poder se articula e baseia na propriedade social dos (principais) meios de produção.

    Essa incompreensão é particularmente evidenciada pela falsa oposição entre as nacionalizações e o controlo operário, como se as nacionalizações democráticas não proporcionassem, potenciassem e levassem muito mais longe o controlo dos trabalhadores e a sua influência sobre a gestão das respectivas unidades e na vida económica e social do país.

    Afirmar que “uma boa parte das nacionalizações” (já agora, quais?) “nasce do desejo de impedir o controlo operário das fábricas” e que “as fábricas vão para as mãos do Estado para saírem das mãos dos trabalhadores” é a história da nossa revolução escrita em ficção.

    Para começar, as nacionalizações iniciaram-se na banca, depois da derrota da intentona fascista do 11 de Março, mas na sequência de grandes e memoráveis lutas neste sector, nomeadamente de greves em que os próprios trabalhadores, que não seguiam palavras de ordem à lá Raquel Varela, reclamavam a nacionalização das empresas bancárias, mostrando assim que a consciência social estava amadurecida para a passagem a formas superiores de intervenção e dominação dos trabalhadores na luta pela democracia e o socialismo. Talvez a Raquel Varela pudesse esclarecer mais em concreto o que para ela significa estar “nas mãos dos trabalhadores”, para que possamos todos avaliar que significado real atribui a tão ousada fórmula, que faz parecer o grande avanço da nacionalização, na melhor das hipóteses, como uma espécie de recuo histórico para categorias inferiores de domínio dos trabalhadores, na pior, como uma expropriação por parte do Estado do próprio poder dos trabalhadores.

    Aliás, a Raquel Varela que nos diga o nome das grandes empresas privadas dos sectores nacionalizados pelo Estado, não só na banca e seguros, como nos petróleos, electricidade, água, gás, petroquímica, adubos, celulose, cimentos, siderurgia, construção e reparação naval, transportes marítimos, camionagem, transportes aéreos, transportes ferroviários, transportes colectivos urbanos e suburbanos de Lisboa e Porto, tabacos, cervejas, radiotelevisão, minas e transportes públicos, que, na sua opinião, “estavam nas mãos dos trabalhadores” antes da sua nacionalização, para que possamos perceber melhor o que significa para ela a luta pelo socialismo.

    A Raquel Varela embrulha nas suas respostas as nacionalizações democráticas do nosso processo revolucionário com as nacionalizações de outros países europeus. Demos o respectivo desconto à ligeireza com que a historiadora afirma que “os regimes burgueses nacionalizam e nacionalizam sem problema algum”, manifestando também aqui a incompreensão de que várias nacionalizações em regimes burgueses se revestiram de importante significado democrático e só foram possíveis com a alteração da correlação de forças saída da II Guerra Mundial, o ascenso do movimento operário e dos trabalhadores e a constituição da comunidade socialista. Sim, há “nacionalizações burguesas”, que servem o grande capital e não os trabalhadores. Em Portugal, o próprio regime fascista procedeu a nacionalizações. É por isso que os comunistas têm em geral o cuidado de falar em nacionalizações democráticas e, ultimamente, também em nacionalizações definitivas, para as distinguir daquelas provisórias em que o Estado nacionaliza para socializar os prejuízos dos monopólios e depois devolve à iniciativa privada para privatizar os lucros (como no caso do BPN).

    O que, em minha opinião, a julgar apenas pela entrevista, a Raquel Varela não consegue compreender é que as nacionalizações democráticas durante o nosso processo revolucionário foram o mais importante e significativo avanço da Revolução em direcção ao socialismo. Aquilo que, a par de outras extraordinárias realizações, como a Reforma Agrária, é o grande significado histórico da Revolução de Abril e lhe dá, na historiografia contemporânea, uma marca e significado imorredouros. Em 1974-75, não se acabou com o capitalismo em Portugal, mas acabou-se fundamentalmente com o seu modo de expressão natural na época em que vivemos: o capitalismo monopolista.

    Durante o processo revolucionário, por pressão dos trabalhadores e das forças políticas mais consequentes, com destaque para o Partido Comunista Português, o Estado liquidou os grandes monopólios nacionais com as nacionalizações democráticas. Mas para a historiadora Raquel Varela, parece que o Estado liquidou o poder dos trabalhadores com as nacionalizações burguesas. Não pode haver incompreensão maior da Revolução Portuguesa.

    Não foi por acaso que a grande burguesia, o grande capital, que nunca teve hesitações na identificação do inimigo principal e que sempre soube distinguir a firmeza dos trabalhadores (inclusivamente na defesa das pequenas e médias empresas salvas pela sua intervenção directa ou pela intervenção do Estado) das ilusões delicodoces – eu gostaria de dizer pequeno-burguesas, mas evito porque a classificação social e política poderia erradamente ser tomada como injuriosa – do poder “nas mãos dos trabalhadores” à lá Varela, se encarniçou durante décadas e não descansou enquanto não desmantelou o fundamental do sector empresarial do Estado (mais rigorosamente, da sua parte rentável) e reconstituiu o poder dos grandes monopólios.

    Além do mais, para além do diferente significado qualitativo – em Portugal, durante o processo revolucionário, as nacionalizações representaram a liquidação dos monopólios, enquanto na Europa burguesa as nacionalizações se fizeram em grande medida para defender e favorecer os monopólios –, é factualmente errada e disparatada a afirmação repetida de que a propriedade privada representava 92% da economia nacional. Desde logo, em vez de utilizar apenas o critério do emprego, talvez fosse mais adequado tomar também outros indicadores, como por exemplo, a fatia do PIB gerada no sector empresarial do Estado, acima dos 20%, geralmente mais do dobro dos sectores empresariais públicos dos principais países capitalistas europeus da época. Depois, não é verdade que na Alemanha ou na França 10% a 12% da mão-de-obra trabalhasse no sector empresarial do Estado; isso será verdade apenas para a mão-de-obra assalariada, mas por isso não deve ser comparado com os 8%, em relação à totalidade do emprego, referidos do sector empresarial do Estado português. Finalmente, a historiadora faz uma lamentável confusão entre o sector empresarial do Estado e o emprego público e fala da economia privada como se a administração pública, central e local, e outros sectores não privados (como o cooperativo e o de auto-gestão, de muito menores representatividades, mas com relevância social à época) não existissem.

    • Raquel Varela diz:

      Ilídio,
      Creio que confunde as nacionalizações em si com o processo de duplo poder que representa o controle operário e a política da batalha da produção levada a cabo pelo PCP. As nacionalizações só são uma medida transitória para o socialimo se são acompanhadas de expropriação e controle operário (nacionalização de todo o sistema bancário – uma questão interessante é perceber porque o PCP deixou de fora das suas exigências a nacionalização do capital estrangeiro que dizia ser culpado do atraso do país – abertura de livros de contas, comissão de controle eleita em assembleia de base). Lerá, se estiver interessado, no meu livro uma descrição detalhada dos sectores nacionalizados, da polémica sobre o controle operário e da posição do PCP sobra a batalha da produção e o reforço do Estado. Também no livro fiz um pequeno estado da questão a partir de Lenine, Gramsci, Trotsky, Mandel sobre o que é o controle operário, como ele foi visto a partir de situações concretas (rev. russa, biénio vermelho em Itália, Alemanha de Weimar) e nacionalização de empresas. Lamento mas não vou resumir aqui e poupar-lhe o trabalho.

      Saudações

    • Armando Cerqueira diz:

      Caro Ilídio,
      escreveu que “as nacionalizações iniciaram-se na banca, depois da derrota da intentona fascista do 11 de Março, mas na sequência de grandes e memoráveis lutas neste sector, nomeadamente de greves em que os próprios trabalhadores, que não seguiam palavras de ordem à lá Raquel Varela, reclamavam a nacionalização das empresas bancárias”.
      Não é exactamente verdade. O que quer significar por “grandces e memoráveis lutas”? No início de 1975 houve efectivamente uma grande pressão de uma vanguarda de empregados bancários, identificados nomeadamente com a Direcção do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SBSI) e com o PCP no sentido da nacionalização da banca comercial. Os bancos emissores já tinham sido objecto de nacionalização, salvo erro durante a presidência do Gen Spínola. Creio que em Janeiro de 1975 teve lugar nas instalações da Voz do Operário uma Assembleia Geral (AG) em que a nacionalização da banca comercial foi proposta, e votada. A discussão foi dura, dada a oposição de trabalhadores situados à direita, nomeadamente de quadros técnicos identificados PPD. Creio que outros bancários de esquerda não identificados com o PCP apoiaram também o pedido ao III Governo Provisório (ou ao MFA, já não me recordo) de nacionalização dos bancos remanescentes. Greves não me lembro de as ter havido na Banca. Nem a Direcção do SBSI nem o PCP eram, então, sensíveis a acções aventureiras ou irrealistas.
      Nos Programas do PCP de 1965 e de 1974 figuram a nacionalização dos sectores económicos objecto de monopólio, medidas que se inseriam no quadro da política de revolução democrática e nacional, e portanto i) da supressão do regime autoritário e ditatorial, e ii) de uma fase de transição mais ou menos lenta (não há calendarização nos citados Programas do PCP) em direcção a uma sociedade socialista.
      Foi uma vanguarda revolucionária que esteve nessa luta, uma pequena parte dos trabalhadores bancários (suponho que o mesmo se passou nos sindicatos bancários do Centro e do Norte, que nesses tempos tinham nas Direcções militantes comunistas). Essa/s vanguarda/s arrastou/aram massas consideráveis de outros trabalhadores. As revoluções e os processos revolucionários não existem sem, são consequência da acção de vanguardas revolucionárias, reflectem também a contra-acção de vanguardas de sinal contrário.
      MAS não foram os trabalhadores bancários (isto é todos, ou a maioria) quem reclamou a nacionalização. As coisas passavam-se em AGs, em que só as vanguardas (de esquerda, do centro, da direita) queriam assistir. As decisões eram, claro, as da maioria de votos expressos.
      As nacionalizações dos principais sectores económicos foram decididas pelo Conselho da Revolução (CR) a 12.3.75 e noutra data próxima, na sequência da tentativa de golpe de Estado da Direita Militar e da Direita Civil. Há suspeitas de o PS, ou de o Dr Mário Soares não serem estranhos ao evento…
      Acontece que sou desse tempo, acompanhei um pouco essa questão: era bancário, trabalhava com a Direcção do SBSI em questões culturais, fui às AGs, etc.
      Corcdeais saudações

  16. Raquel Varela diz:

    Ilído,
    Terei todo o gosto em aprovar o seu longo comentário, que levanta questões muito importantes, quando e se resolver tirar de lá os adjectivos (des) qualificativos, «lamentável, ligeiresa» e muitos outros que fazem com que as suas dúvidas, legítimas, se percam no meio das ofensas e processos de intenções. Não se faz uma polémica com ninguém nestes termos.
    Raquel Varela

    • Ilídio PG diz:

      Cara Raquel, asseguro-lhe que não há da minha parte nenhuma ofensa ou processo de intenção e julgo que está a reagir com excesso de sensibilidade a adjectivos e substantivos relativamente inócuos como os que refere (lamentável, ligeireza). Mas procederei como pede. Eis o texto expurgado das caracterizações que julga mais percucientes:

      A julgar pela entrevista, a historiadora Raquel Varela manifesta uma incompreensão básica da relação entre a democracia e o socialismo, de que a luta pela democracia, isto é, pelo poder dos trabalhadores e do povo, não só não é incompatível, como pelo contrário é uma componente fundamental da luta pelo socialismo, regime social em que esse poder se articula e se baseia na propriedade social dos (principais) meios de produção.

      Essa incompreensão é particularmente evidenciada pela falsa oposição entre as nacionalizações e o controlo operário, como se as nacionalizações democráticas não proporcionassem, potenciassem e levassem muito mais longe o controlo dos trabalhadores e a sua influência sobre a gestão das respectivas unidades e na vida económica e social do país.

      Afirmar que “uma boa parte das nacionalizações” (já agora, quais?) “nasce do desejo de impedir o controlo operário das fábricas” e que “as fábricas vão para as mãos do Estado para saírem das mãos dos trabalhadores” é a história da nossa revolução escrita, a meu ver, em ficção.

      Para começar, as nacionalizações iniciaram-se na banca, depois da derrota da intentona fascista do 11 de Março, mas na sequência de grandes e memoráveis lutas neste sector, nomeadamente de greves em que os próprios trabalhadores reclamavam a nacionalização das empresas bancárias, mostrando assim que a consciência social estava amadurecida para a passagem a formas superiores de intervenção e dominação dos trabalhadores na luta pela democracia e o socialismo. Talvez a Raquel Varela pudesse esclarecer mais em concreto o que para ela significa estar “nas mãos dos trabalhadores”, para que possamos todos avaliar que significado real atribui a tão ousada fórmula, que faz parecer o grande avanço da nacionalização, na melhor das hipóteses, como uma espécie de recuo histórico para categorias inferiores de domínio dos trabalhadores, na pior, como uma expropriação por parte do Estado do próprio poder dos trabalhadores.

      Aliás, a Raquel Varela que nos diga o nome das grandes empresas privadas dos sectores nacionalizados pelo Estado, não só na banca e seguros, como nos petróleos, electricidade, água, gás, petroquímica, adubos, celulose, cimentos, siderurgia, construção e reparação naval, transportes marítimos, camionagem, transportes aéreos, transportes ferroviários, transportes colectivos urbanos e suburbanos de Lisboa e Porto, tabacos, cervejas, radiotelevisão, minas e transportes públicos, que, na sua opinião, “estavam nas mãos dos trabalhadores” antes da sua nacionalização, para que possamos perceber melhor o que significa para ela a luta pelo socialismo.

      A Raquel Varela relaciona nas suas respostas as nacionalizações democráticas do nosso processo revolucionário com as nacionalizações de outros países europeus. Saltemos por cima da facilidade com que a historiadora afirma que “os regimes burgueses nacionalizam e nacionalizam sem problema algum”, manifestando também aqui a incompreensão de que várias nacionalizações em regimes burgueses se revestiram de importante significado democrático e só foram possíveis com a alteração da correlação de forças saída da II Guerra Mundial, o ascenso do movimento operário e popular e a constituição da comunidade socialista. Sim, há “nacionalizações burguesas”, que servem o grande capital e não os trabalhadores. Em Portugal, o próprio regime fascista procedeu a nacionalizações. É por isso que os comunistas têm em geral o cuidado de falar em nacionalizações democráticas e, ultimamente, também em nacionalizações definitivas, para as distinguir daquelas provisórias em que o Estado nacionaliza para socializar os prejuízos dos monopólios e depois devolve à iniciativa privada para privatizar os lucros (como no caso do BPN).

      O que, em minha opinião, a julgar apenas pela entrevista, a Raquel Varela não consegue compreender é que as nacionalizações democráticas durante o nosso processo revolucionário foram o mais importante e significativo avanço da Revolução em direcção ao socialismo. Aquilo que, a par de outras extraordinárias realizações, como a Reforma Agrária, é o grande significado histórico da Revolução de Abril e lhe dá um carácter e relevância imorredouros na época contemporânea. Em 1974-75, não se acabou com o capitalismo em Portugal, mas acabou-se fundamentalmente com o seu modo de expressão natural na época em que vivemos: o capitalismo monopolista.

      Durante o processo revolucionário, por pressão dos trabalhadores e das forças políticas mais consequentes, com destaque para o Partido Comunista Português, o Estado liquidou os grandes monopólios nacionais com as nacionalizações democráticas. Mas para a historiadora Raquel Varela, parece que o Estado liquidou o poder dos trabalhadores com as nacionalizações burguesas. Não pode haver incompreensão maior da Revolução Portuguesa.

      Não foi por acaso que a grande burguesia, o grande capital, que nunca teve hesitações na identificação do inimigo principal e que sempre soube distinguir a firmeza dos trabalhadores (inclusivamente na defesa das pequenas e médias empresas salvas pela sua intervenção directa ou pela intervenção do Estado) das ilusões delicodoces – eu gostaria de dizer pequeno-burguesas, mas evito porque a classificação social e política poderia erradamente ser tomada como injuriosa – do poder “nas mãos dos trabalhadores” à lá Varela, se encarniçou durante décadas e não descansou enquanto não desmantelou o fundamental do sector empresarial do Estado (mais rigorosamente, da sua parte rentável) e reconstituiu o poder dos grandes monopólios.

      Além do mais, para além do diferente significado qualitativo – em Portugal, durante o processo revolucionário, as nacionalizações representaram a liquidação dos monopólios, enquanto na Europa burguesa as nacionalizações se fizeram em grande medida para defender e favorecer os monopólios –, é factualmente errada e disparatada a afirmação repetida de que a propriedade privada representava 92% da economia nacional. Desde logo, já que se fala em propriedade e economia, em vez de utilizar apenas o critério do emprego, talvez fosse mais adequado tomar também outros indicadores, como por exemplo, a fatia do PIB gerada no sector empresarial do Estado, acima dos 20%, geralmente mais do dobro dos sectores empresariais públicos dos principais países capitalistas europeus da época. Depois, não é verdade que na Alemanha ou na França 10% a 12% da mão-de-obra trabalhasse no sector empresarial do Estado; isso será verdade apenas para a mão-de-obra assalariada, mas por isso não deve ser comparado com os referidos 8%, em relação à totalidade do emprego, do sector empresarial do Estado português. Finalmente, a historiadora faz uma enorme confusão entre o sector empresarial do Estado e o sector público e fala da economia privada como se a administração pública do Estado, central e local, e outros sectores não privados (como o cooperativo e o de auto-gestão, de muito menores representatividades, mas com relevância social à época) não existissem.

  17. Chalana diz:

    Raquel:

    O meu comentário aguarda a sua “aprovação”. ou vai também intitulá-lo de “desqualificante”?

    Segue-se (novamente) na íntegra:

    São várias as magníficas passagens, mas a minha preferida é “quem pôs fim ao V governo provisório foi o pcp” – muito bom mesmo!

    A formação do grupo dos 9 dentro do MFA, o apoio que Otelo lhes proporcionou, a aliança entre PS, PPD, CDS e toda a escória fascista que assaltava e incendiava as sedes do PCP, pelos vistos, não teve nada a ver…

    Lamento, mas não “há diálogo entre as fontes” que redima o sectarismo e a desonestidade intelectual – exibas tu os méritos, as avaliações e os louvores que entendas.

    • Raquel Varela diz:

      Caro Chalana,
      Eu não gosto de má educação. Muito menos gosto de mal educados não identificados e escondidos num computador. Espero que tenha a mesma raiva e deselegância quando fala com o seu patrão.
      O PCP deixou cair o V Governo desde sempre. É o PS que abandona, contra a contade do PCP, o IV Governo. O Avante sai no dia 8 de Agosto,quando o Governo toma posse e a capa não é o V Governo. Sai um número especial no dia 11 a deixar cair o Governo. Leia, camarada, leia.

  18. vítor dias diz:

    Cara Raquel:

    1. Desejo informá-la que já li o seu livro e que isso não modificou, antes confirmou, os juizos ou observações mais de fundo que formulei no meu «post» de há três anos sobre as suas concepções através das quais filtra, lê ou treslê a documentação oficial do PCP e as suas formulações.

    2. Registo que não respondeu à observação contida no ponto 1 do meu comentário, ou seja desperdiçou a oportunidade de finalmente considerar errónea ou falsa a descrição então feita na sua comunicação no colóquio por Jorge Nascimento Fernandes e que me serviu de base.

    3. Muito grave ou surpreendente é que nesta sua entrevista a Raquel venha atribuir (usando aspas) a Álvaro Cunhal a afirmação de que « «o nosso apoio ao VI Governo diminui consiante os lugares que nos dão no governo e consoante nos abrem ou fecham a torneira do Estado» e agora, por mim convidada e exibir a fonte, venha invocar duas afirmações separadas e de data diferente : a primeira, a de que ««A nossa posição quanto ao Governo é determinada pela quota-parte da nossa responsabilidade. Se as nossas responsabilidades diminuem, diminui também, compreensivelmente, a margem do nosso apoio ao VI Governo Provisório» e a segunda a de que ««É no Ministério das Finanças que está a torneira de recursos do Estado e depende em larga medida do ministro, dos secretários de Estado, assim como da contribuição da banca nacionalizada, que a torneira se abra ou que a torneira se feche», tornando-se assim patente que nada desta última tem qualquer relação com o grau de responsabilidades e sua relação com o apoio ao PCP. Mesclar, ainda por cima com aspas, afirmações duas afirmações de natureza diferente é coisa que não fica lhe fica bem Raquel, para não dizer pior.

    $. Agora estou de saída de casa e não o posso fazer mas cedo tenciono demonstrar que até a Raquel Varela não ligou muito ao editorial do Avante de 13 de Setembro de 75 sobre o carácter da presença de um ministro comunista no VI Governo Provisório, para o que me bastará citar o que diz mais à frente numa página do seu livro no sentido de esse ministro representar oficialmente o PCP, como aliás é natural porque, na imprensa e nas mais variadas referências da época, a ninguém passava pela cabeça dizer que o PCP não era parte constitutiva do leque de forças em que se baseava o VI Governo Provisório.

    • António Paço diz:

      Ò Vitor Dias, deixe lá de chutar para «escanteio», como dizem os brasileiros, e diga: as citações do Avante estão correctas ou não? E o que a Raquel diz corresponde ou não à citação do Avante?

      • vítor dias diz:

        Ó António Paço:

        E Vexa não querer dizer uma palavrinha sobre a magnifica técnica da Raquel referida no ponto 3. do meu comentário ou também gosta de chutar para «escanteio»?

        • António Paço diz:

          Não chuto nada, Vítor Dias. O texto é uma desgravação algo apressada de um entrevista (que acabou por não sair devido a um acto censório); por isso, tem alguns erros, incluindo ortográficos. Em rigor, num livro, não deveria sair entre aspas uma frase que é uma condensação de duas citações (concedo-lhe esta), mas aqui, nestas circunstâncias, parece-me tolerável, sobretudo porque a dita frase traduz correctamente as afirmações de Cunhal que a Raquel citou ipsis verbis algures mais acima (nos comentários). Estou certo ou estou errado?

          • vítor dias diz:

            Se é uma desgravação algo apressada, eu no lugar da Raquel, se não me reconhecesse no «produto» editado, não o vinha publicar aqui.

            É preciso ter bebido gasosa num copo sujo de vinho para poder vir afirmar que duas frases sobre assuntos distintos podem ser «condensadas» numa só e com comas e tudo.

            As dita frase não traduz nada correctamente as afirmações (separadas) de Álvaro Cunhal.

            Aliás só por distracção ou juventude relativa é que alguém imagimna o meu camrada Álvaro Cunhal a ligar o grau de apoio do PCP a um governo «a torneiras do Estado».
            E punto e basta !

  19. Rocha diz:

    A Raquel, de forma bastante pueril, quer atacar o PCP pela esquerda. Mas o discurso é velhinho e fraquinho.

    Dou-lhe razão quando fala que os actos valem mais que as palavras. O PCP fez muito mais pela luta dos trabalhadores e pela construção do Socialismo que todo o conjunto de partidos ultra-revolucionários que existiam na altura. Esta discussão já é mais que bizantina, mas a repetição exaustiva dessa versão esquerdista do prec desde 1976 não produziu grandes ganhos de recrutamento para organizações esquerdistas, pois não? É assim mesmo, cada um que acredite no que quiser.

    E tem piada constatar que o partido que se mantém firme quanto ao seu carácter ideológico marxista-leninista, sempre com adaptações ao contexto actual, à esquerda é apenas o PCP. No Bloco poucos falam sequer de marxismo, não se sabe o que é feito do trotskismo do PSR e do maoísmo da UDP, o MRPP foi outro que se deixou de maoísmos, o Otelo arrependeu-se, etc, etc.

    • Miguel Lopes diz:

      Tudo irrelevante para saber aquilo que realmente interessa: a descrição é factual? A análise dos factos é coerente?

  20. Raquel Varela diz:

    Victor Dias,
    É isso mesmo que escrevo na tese, baseado neste e em outras dezenas de exemplos. O PCP diminui o seu apoio ao VI Governo porque diminuíram os lugares do PCP neste. O Sr. está a transformar uma discussão histórica num acto de propaganda, para o qual não vou continuar a dar resposta. Deixo isso para o Tempo das Cerejas.
    Saudações

    • vítor dias diz:

      Raquel:

      Julgo que era o mínimo dever de rigor intelectual declarar aqui se acha decente e correcto amalgamar numa mesma frase duas afirmações de Álvaro Cunhal de teor e substância diferentes.

      Quanto à relação do apoio do PCP às suas posições nesse governo não a estranhei nada até porque não só a conhecia como, naquele contexto, me parece óbvia.

      Agora relacionar o grau de apoio do PCP ao que pingaria ou não das «torneiras do Estado» já é uma coisa inventada e pior que tudo ofensiva.

      Pobre de mim, Raquel Varela, em matéria de propaganda, desculpará mas serei um menino de coro comparado com os pressupostos que enformam as suas análises históricas.

  21. Duas notas:uma sobre o pensamento de Marx universitário – em relação com a perda de influência da praxis revolucionária;outra sobre a revolução – quando o dilema capitalismo ou socialismo se transforma em democracia ou fascismo.

  22. Vasco diz:

    Correlação de forças, etapas, objectivos de curto e médio prazo… Que é isso para quem apenas pretende culpar o único partido organizado e influente no período revolucionário português pela derrota da Revolução? Pela esquerda ou pela direita, o PCP parece ser, ainda hoje, o alvo a abater. E depois é o PCP que se alia à direita e tal…

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