A DRACMA PERDIDA. Por José Martins

 “Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar? E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida.” (Lucas 15:8-9).

Depois que Portugal tornou-se o terceiro pais da zona do euro a pedir socorro para ser resgatado da crise financeira – acaba de negociar em 3 de Maio um empréstimo de 78 bilhões de euros (US$115 bi) com o banco central europeu e o FMI – uma preocupação muito maior está a agitar os capitalistas europeus: o iminente calote da dívida grega com os bancos e empresas globais instaladas no país. Se o governo alemão, quer dizer, o banco central europeu, não equacionar direito essa ameaça de “reestruturação” da dívida grega, o que estará em jogo, mais uma vez, é a própria existência dessa grande ilusão de “internacionalismo burguês” que atende pelo nome de União Européia, ou, popularmente, eurozona.

Como Portugal, agora, a Grécia recebeu um ano atrás 110 bilhões de euros (US$160 bi) com a suposição de que isso poderia consertar suas finanças públicas. Junto com o pacote, severíssimas condições de arrocho nas despesas sociais do governo e na vida da população grega. Não consertou nada, a não ser a vida dos bancos e empresas privadas da Alemanha, Estados Unidos, etc., fortemente credoras do governo e empresas privadas gregas. De todo modo, é apenas para isso que os governos das economias dominantes organizam e financiam (com recursos públicos dos seus países, off course) esses obscenos pacotes de resgate de economias dominadas e falidas.

ATENAS, BUENOS AIRES – O problema vai além de um simples calote das dívidas públicas e privadas da Grécia, o que já acarretaria por si só prejuízo e falências de grande número de empresas industriais, comerciais e bancos, tanto nacionais quanto internacionais. Acontece que a situação econômica e social da Grécia deteriorou-se tão gravemente com os “remédios comunitários” que até uma tresloucada opção do governo de Atenas foi ventilada publicamente, nesta primeira semana de Maio 2011, pelo principal jornal alemão:

“A crise da dívida na Grécia sofreu uma nova e dramática reviravolta. Os problemas econômicos da Grécia são massivos, com protestos contra o governo acontecendo todos os dias. Agora, o primeiro-ministro Georges Papandreou aparentemente sente que não existe outra opção: Spiegel Online obteve informação de fontes do governo alemão por dentro da situação em Atenas a indicar que o governo de Papandreou está considerando abandonar o euro e reintroduzir sua própria moeda. Alarmada com as intenções de Atenas, a Comissão Européia convocou uma reunião sobre a crise em Luxemburgo, na noite de sexta-feira. Dada a tensa situação, a reunião em Luxemburgo foi declarada altamente confidencial Alem da possível saída da Grécia da união monetária, uma urgente reestruturação da dívida do país também consta da agenda da reunião. Um ano depois da eclosão da crise grega, o desenrolar da situação representa potencialmente um ponto de reversão existencial para a união monetária européia – independentemente de qual variante será finalmente adotada para lidar com os enormes problemas da Grécia.”[1]

A Grécia é a Argentina de ontem na eurozona. E a Grécia de hoje é Portugal de amanhã, assim como Espanha, Irlanda, e outras economias dominadas da eurozona. A Grécia está a derreter como a economia portenha na crise de 2001/2002. A produção está em queda livre. O desemprego, em alta desenfreada.

A TRAGÉDIA ATENIENSE É ESCRITA EM BERLIM – Se cada um dos PIGS cuidasse bem das suas finanças domésticas, todos poderiam usufruir do crescimento econômico do bloco do euro, certo? Errado. De que adianta cortar despesas públicas, como querem os burocratas de Bruxelas, se as receitas fiscais caem mais aceleradamente com a queda livre do nível de atividade da economia? Os latino-americanos conhecem de cor e salteado esse podre roteiro imperialista, conhecido como Consenso de Washington.

Mas terminam aqui as semelhanças da Grécia com a Argentina, da periferia da eurozona (PIGS) com a América Latina. Acontece que a falência da Grécia e dos demais PIGS, além de não ser caso isolado, também não deve ser considerada como um problema meramente monetário e financeiro, como os economistas, a burocracia de Bruxelas e a imprensa tratam o assunto. Na base das turbulências circulatórias na Grécia e demais PIGS encontra-se a acumulação desigual e combinada de capital no interior da eurozona. Alemanha (e outras economias dominantes menos dinâmicas como França e Inglaterra) de um lado, PIGS de outro.

Na base dos problemas monetários e financeiros dos PIGS encontra-se o caráter imperialista da moeda única alemã, travestida de euro, sobre a periferia da área. Esse desenvolvimento desigual e combinado da eurozona aparece nos seus indicadores econômicos mais corriqueiros. Vejamos alguns deles. 

Nos últimos doze meses (março 2011/2010) a produção industrial na eurozona cresceu 7.6 %. Isso demonstra que a área está sincronizada com a recuperação cíclica global iniciada em meados de 2009. Mas essa sincronização acontece no interior da área de maneira desigual e combinada.

De um lado, a economia dominante (Alemanha) com um “crescimento chinês” de 13.8 %, quase o dobro da média do bloco. Mais que sincronizada com a expansão global. A Alemanha reina absoluta. Interessante observar que mesmo outras grandes economias da área estão com taxas de expansão da produção bem abaixo da Alemanha. É o caso da França (6.0 %), Inglaterra (2.3 %) e a Itália (2.3 %), esta última uma seríssima candidata a colocar mais um I na sigla dos PIGS.

De outro lado, as economias dominadas (PIGS) com quedas abismais na produção. É como se para essas últimas a economia global ainda continuasse em crise. Mas suas perdas se combinam sincronizadamente com os lucros da Alemanha, Estados Unidos… Falando de outra maneira, através de mecanismos de comércio, de preços, de deslocamentos industriais do centro para a periferia, e, finalmente, de mecanismos monetários e financeiros, os PIGS transferem para as economias dominantes montanhas de valor e de mais-valia (lucro) produzidas em suas dominadas economias.

A ARTE IMPERIALISTA – As perdas das economias dominadas se transformam em ganhos das economias dominantes. A crise das economias dominadas é uma importante alavanca para a prosperidade das economias dominantes. Essa é a essência do desenvolvimento desigual e combinado da acumulação capitalista. A moeda única européia foi um expediente mais que providencial, quase artístico, criado pelas potências imperialistas para contrarrestar as cada vez mais ameaçadoras quedas da taxa geral de lucro em suas economias e engordar as receitas dos capitalistas em geral. Mas as coisas materiais se movem como contradições. Por isso, é justamente aquele engenhoso expediente imperialista que, agora, com a falência dos BRICS, desemboca no “ponto de reversão existencial para a união monetária européia” que falou acima o jornal Der Spiegel. Hegel seja louvado!

 Os PIGS também contribuem com cotas desproporcionalmente absurdas de desemprego da força de trabalho. Essa é uma arma importante dos capitalistas para rebaixar ainda mais os salários e os custos unitários do trabalho na formação da taxa média de lucro da eurozona e, por extensão, na elevação da taxa geral de lucro do mercado mundial. Como se verifica nos números da tabela acima, enquanto a Alemanha ostenta uma taxa de desemprego relativamente civilizada (5.8 %), os PIGS amargam taxas socialmente insustentáveis por muito tempo: Portugal (12.2%); Grécia (17.8%) e Espanha (21.5 %). Os PIGS fazem a média do desemprego da eurozona subir para 10.2 %. É uma taxa sanguinária. Do jeito que o capital gosta.

 Mais sanguinárias ainda são as taxas de desemprego dos jovens nas diferentes economias. Segundo o último relatório da Eurostat sobre desemprego (29/Abril/2011), em Março deste ano o desemprego dos jovens (menos de 25 anos) estava em 19.8% na eurozona. Praticamente o mesmo nível de Março de 2010 (20.9 %). As menores taxas do desemprego dos jovens foram observadas na Holanda (6.9 %), na Alemanha (8.2 %) e na Áustria (9.4 %). As maiores taxas na Espanha (44.6 %) e na Grécia (36.1 %). Foi exagerado, acima, qualificar de sanguinárias essas taxas?

 O PALETÓ É MAIOR QUE O DEFUNTO – Do mesmo modo que outros PIGS da periferia européia, a Grécia é apenas um elo mais frágil do bloco do euro, e, por isso, está entre as primeiras a arrebentar. É uma economia de baixa produtividade, quer dizer, com pouca qualidade econômica para suportar uma moeda forte. Por isso é altamente vulnerável às crises cíclicas globais, o que só pode se revelar de fato com o choque excepcionalmente desestabilizador ocorrido nos anos 2008/2009.

Essa fraqueza econômica dos PIGS pode ser ilustrada pelos números sobre a produtividade do trabalho mostrados na tabela acima. A Alemanha, potência dominante, apresenta um nível de produtividade do trabalho (110) dez pontos percentuais acima da base média da eurozona. As periféricas Espanha (96.7), Grécia (71.7) e Portugal (56.7) apresentam-se como economias de baixa produtividade.

Ora, a produtividade da força de trabalho é o fundamento do valor da moeda nas diferentes economias nacionais. A taxa de câmbio é a forma mais superficial (e concreta) daquele valor fundamental da moeda. Como, então, vestir com uma moeda forte economias fracas que são facilmente destruídas pela concorrência desigual das economias dominantes? Como as mercadorias dos PIGS – vestidas de um câmbio fixo e altamente apreciado – podem concorrer com as da Alemanha, Estados Unidos e Japão? A China não resiste com todas as garras às pressões dos EUA para apreciar o yuan, sua moeda nacional? A burocracia militar de Pequim sabe que se fizer isso será a primeira a cair do cavalo.

DÁ PARA TROCAR? – Como vestir uma moeda forte em quem não tem cacife para tanto? A propaganda burguesa da possibilidade de uma governabilidade global dizia que a experiência da moeda única e do mercado comum reforçaria os velhos Estados nacionais, generalizando o desenvolvimento e bem estar. Esse papo não é novo. Um ultra-imperialismo benigno, como diria os renegados Kautski, Berstein, Hilferding et caterva. Falsa propaganda. Doravante ficará mais claro que o euro é uma camisa de força cambial que criou uma fila de mendigos e frágeis Estados à beira de um ataque de ingovernabilidade e guerras civis.

O melhor, então, devem estar pensando os capitalistas gregos, é voltar logo para a velha moedinha nacional, a dracma,. Correr atrás da dracma perdida. Sonham em ter de novo um Banco Central próprio, poder voltar a mexer nas taxas de juros, de câmbio, etc. Estão sendo tão inconseqüentes do que quando pediram de joelhos para as potências imperialistas sua inclusão na eurozona e que sua população trabalhadora fosse tosquiada livremente pelo capital global.

Os capitalistas gregos querem nada mais do que dinheiro do BC Europeu para continuar rolando as dívidas. Certamente essa decisão de abandonar a prisão do euro, e, espera-se, de toda forma de valor, só poderá ser efetivada pela pressão da população trabalhadora traída pelas promessas não cumpridas pelos patrões e, agora, desempregada e esfomeada pela artística arapuca do euro.

A retirada da Grécia (ou de qualquer outra economia dos PIGS) da eurozona nunca partirá diretamente do seu governo capitalista. Seus patrões de Berlim e de Washington já devem tê-los avisado que qualquer tentativa de restauração da dracma não será nem um pouco tranqüila e que essa ação pode isolar a Grécia do mapa econômico mundial por uns bons anos. Por uns bons anos, pode-se acrescentar, apenas na hipótese altamente improvável dos dirigentes gregos serem capazes de sufocar a fúria das massas e a Grécia ainda existir, no final do processo, como uma economia capitalista.

José Martins é economista, professor na Universidade Federal de Santa Catarina


[1] Der Spiegel On Line: “Greece Considers Exit from Euro Zone”; 05/Maio/2011

http://www.spiegel.de/international/europe/0,1518,druck-761201,00.html

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4 respostas a A DRACMA PERDIDA. Por José Martins

  1. Formas larvares de guerra económica, povos inteiros remetidos para o “ghetto” fiscal -embora com a cumplicidade dos estados do pacto – são propícios a cenários de fractura e aprofundamento da crise inter- capitalista face à recusa daqueles que sabem que não devem ser os povos da Europa a pagar.

  2. Julie diz:

    Raquel

    obrigaste-me a ler D-R-A-C-M-A

    doloroso.

    quase que pedi uma Musallatta (???)

    custa 345 Dráááác-más

    uuufa

    A Dracma está mais perdida que o Platão.
    Acredita. Perdida para todo o eterno Sempre.
    Se não for o Euro.
    É a batata. Ou melhor, batatada. Era isto que eu queria dizer.
    🙂

  3. Rui Fonseca diz:

    Presumo que estamos a comunicar em português europeu, não é verdade?
    Assim, uma pequena grande correcção: 78.000.000.000€, são “setenta e oito mil milhões de euros” e não 78 bilhões de euros (78.000.000.000.000€).
    O erro é de “apenas” 1000 vezes mais!

    • Raquel Varela diz:

      O texto é escrito por um economista brasileiro, em português do Brasil.
      Obrigada pelo reparo de qualquer forma.
      Saudações

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