Ser solidário, assim…

No Jornal de Negócios lê-se que o PSD quer obrigar os desempregados que recebem o subsídio de desemprego e os beneficiários do Rendimento Social e Inserção a trabalhar três dias por mês numa instituição pública ou do chamado sector social. Ou seja, uma pessoa é obrigada a trabalhar – sem receber um salário – com a ameaça de que se não o fizer lhe cortam o subsídio por estar desempregado (que deve ser culpa da pessoa, pois claro) ou por ser profundamente pobre (que também é culpa da pessoa, que ser pobre é uma coisa deliciosa).

Pois bem, isto só tem um nome e não é tributo solidário: é trabalho forçado. E se chamam a isto solidariedade…

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11 respostas a Ser solidário, assim…

  1. Von diz:

    E porque não? Se fosse trabalho relacionado com voluntariado em hospitais ou instituições de intervenção semelhantes? 3 dias por mês? Manter as pessoas activas, focadas e quem sabe, pelo menos algumas delas, cientes das dificuldades alheias? Os voluntários da festa do Avante fazem trabalho forçado? Não recebem salário pois não?

    • Youri Paiva diz:

      Há aí alguma confusão. Voluntariado, como o nome indica, é voluntário; esta coisa a que chamam de ‹‹tributo social›› é obrigatório – é precisamente essa a diferença. E não me parece que essa obrigação mantenha as pessoas focadas (em que?). É que a forma de se fazerem as coisas e de tratar os desempregados como uns idiotas porque não arranjam emprego é realmente deplorável.

      E cientes das dificuldades alheias? Por favor, ‹‹tributo social›› para os dirigentes do PSD e do PS e para os grandes empresários! Agora desempregados e os que recebem o RSI – dificuldades alheias?!

      Quanto à Festa do Avante! não sei, mas parece-me voluntário pelos militantes que PCP (e não só) que conheço e que trabalham na festa. Não são obrigados a trabalhar porque se não o fizerem são expulsos do partido…

      • Von diz:

        Falei em trabalho do tipo (do tipo, para referir o trabalho que o voluntariado de solidariedade verdadeiramente social, faz nos hospitais, etc) voluntariado porque me parece ser útil. E mantenho. Confusão? Tanta como vir falar dos empresários e políticos. Esses já provaram a sua incapacidade e falta de qualidade, mas neste assunto não são para aqui chamados. Se se recebe subsídios, mesmo que resultantes dos descontos, podia num período curto (os tais 3 dias) ajudar quem talvez ainda esteja pior. E é esta falta de solidariedade crónica, do tipo “estás mal? aguenta-te que eu também”, que faz de Portugal um país de invejas e vistas curtas. Há honrosas excepções, mas são excepções.

        • Antónimo diz:

          se há necessidade de gente para trabalhar é contratá-la, seu Von. Portugal é de facto um sítio de vistas curtas, das vistas curtas dos que não vêem a filhadaputice que isto é; e de invejas, dos que até dos miseráveis que não encontram emprego tem inveja e arranjam estratagemas para os foder ainda mais

  2. Von diz:

    Acho que tanto o PS como o PSD têm uma agenda vergonhosa, mas as poucas, ok pouquíssimas, ideias de jeito que se discutam e aperfeiçoem. Porra!

    • Youri Paiva diz:

      Ah, sim. Como se não estivesse tudo num ‹‹pacote››. Vamos discutir remendos e côdeas.

  3. l'outre diz:

    Independentemente de ser solidário ou não, devo dizer que não acho as medidas totalmente disparatadas, sobretudo em relação aos beneficiários do RSI. Um dos principais problemas de quem recebe (devidamente) o RSI é sair da situação de pobreza em que se encontram. Estas pessoas têm falta de perspectivas de futuro, falta de formação e experiência profissional e uma rede de contactos profissionais muito reduzida. Dar a estas pessoas algo que fazer, dar-lhes experiência e uma oportunidade de alargarem a sua rede de contactos profissionais, mesmo numa qualidade temporária, é uma ajuda a saírem da situação de pobreza em que se encontram.

    Naturalmente que discordo em absoluto do não pagamento deste trabalho. Os beneficiários do RSI devem trabalhar (mais ou menos, isso é debatível), mas também devem receber um complemento ao subsídio exactamente igual ao que receberia um funcionário por desempenhar aquela tarefa. Por princípio, o trabalho deve ser sempre pago.

    • Youri Paiva diz:

      A falta de perspectiva de futuro, de formação e experiência profissional não se combate efectivamente com três dias de ‹‹trabalho›› numa instituição social, mas com medidas concretas de dar ferramentas às pessoas. Isto é fingir que se ajuda a pessoa e a instituição. A ideia é tornar o ‹‹inútil›› em ‹‹útil››.

      O facto de ser um trabalho que não é pago transforma é essa ideia ainda mais perigosa.

  4. eirinhas diz:

    Trabalhar 3 dias,trabalhar mas é a semana toda. Trabalhar sem receber ? e receber dos nossos impostos sem trabalhar,com é que é? asssim nós estamos com teorias destas.

    • Youri Paiva diz:

      Os impostos servem precisamente para estas coisas. Uma coisa é um subsídio social, outra coisa é um salário. E eu cá acho muita piada a estes tipos que aparecem com o dedo em riste para os pobres e os desempregados, como se fossem os únicos que recebessem apoios estatais.

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