É evidente que estar a citar a Constituição na sua 7ª revisão é inútil: deve-se é comparar a pastelice de 2005 com a ideia genuína de 1976 ( claro, se vamos por aqui, é por aqui que temos de ir: )

ARTIGO 1.°
(República Portuguesa)

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes.

ARTIGO 2.°
(Estado democrático e transição para o socialismo)

A República Portuguesa é um Estado democrático, baseado na soberania popular, no respeito e na garantia dos direitos e liberdades fundamentais e no pluralismo de expressão e organização política democráticas, que tem por objectivo assegurar a transição para o socialismo mediante a criação de condições para o exercício democrático do poder pelas classes trabalhadoras.

[Abril, 1976. Já agora, o mês de ABRIL diz-vos alguma coisa? Naturalmente, o fulcro disto reside na ligação entre a “dignidade da pessoa humana” e a “sociedade sem classes” – é muito difícil perceber isto? Custa muito defender isto, é?]

————————————————————————–

Agora, na pastelice de 2005, a coisa dá isto:

ARTIGO 1.º
(República portuguesa)

Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

ARTIGO 2.º
(Estado de direito democrático)

A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.

NOTA: Aceitam-se comentários. E, nesta caixa de comentários, como de costume, promover-se-á a defesa intransigente da democracia e da livre expressão, porque disso gostamos (perdão, gosto) muito muito!!

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36 Responses to É evidente que estar a citar a Constituição na sua 7ª revisão é inútil: deve-se é comparar a pastelice de 2005 com a ideia genuína de 1976 ( claro, se vamos por aqui, é por aqui que temos de ir: )

  1. miriam diz:

    Um recadito à Joana?

    • Carlos Vidal diz:

      Claro que não.
      Se dirigido a alguém este post apenas poderia ser aos que desfiguraram a Constituição.

      • Sassmine diz:

        bom, o título do post sugere bem o recado de que fala a Miriam, embora seja perfeitamente incompreensível a necessidade desse recado. por um lado, não estou apenas a citar a constituição, estou a reproduzi-la ponto por ponto. razões (úteis) para isso há muitas. o facto de ter a noção de que praticamente ninguém recebeu formação na escola sobre o texto fundamental do sistema político em que vive e poucos foram posteriormente informar-se. mas a mais importante será que vejo na CRP, mesmo com sete revisões, um documento tão forte que não pôde ser (ainda) descaracterizado no seu essencial, e um garante indispensável à democracia. mesmo. citar a CRP de 1976 dentro do que me propus fazer com estes posts, isso sim, seria inútil, uma vez que não é a de 1976 que está em vigor.

        • Carlos Vidal diz:

          Compreendo.
          Mas, se eu seguisse sempre o “que está em vigor” não me mexeria mais da minha cadeira.
          Eu posso defender a CRP de 1976 contra a que está em vigor – pela razão que aponto no post: creio que a “dignidade da pessoa humana” depende da existência de uma “sociedade sem classes”. E daqui não saio.
          Fico sozinho?
          Além disso, a Constituição de 1976 (ou a actual) são, do ponto de vista do “que está em vigor” (do que estava em vigor), ilegais à luz da lei de 1973.
          Então, voltemos a 1973!

          • Sassmine diz:

            Se quiser explicar o raciocínio, Carlos… é que eu não percebi. Isso é uma proposta? É que é um bocadinho preocupante. Sendo que os fachos que ainda gostariam de ter em vigor a de 1932 achariam uma excelente ideia.

          • Carlos Vidal diz:

            Não percebeu, porque não leu os comentártios deste post:
            cansa, ler, não é?
            (Também me cansou escrevê-los – mas gostei muito de dois diálogos que se seguem aqui, já em baixo: percebe-se quais são:)

            Mas eu explico o que não entendeu; e explico como um pintor que eu gosto, que dizia: a pintura é como a m…. – cheira-se, não se explica.
            Pora agora, é o que me ocorre.
            Amanhã há mais.
            (pode sempre passar para as linhas mais abaixo que recomendei.)

          • Carlos Vidal diz:

            E posso explicar ainda de modo mais simples, como convém:

            – é que eu não gosto do que está em vigor só por estar em vigor. OK ?

  2. JDC diz:

    As alterações à constituição são mais do que óbvias: a CRP não deve ser um documento com côr política mas antes uma ferramenta neutra que permita às diversas forças políticas eleitas pelo povo governar de acordo com o seu programa. Obrigar cada governo, cada assembleia, a percorrer um caminho de transição para o socialismo é anti-democrático. É o povo, através do voto, que deve eleger um partido que faça a transição para o socialismo.

    • Carlos Vidal diz:

      Discordo de todo.
      O sentir e os anseios colectivos, inclusive expressos na representação parlamentar em 1975/76, apontavam para um país novo (ou “novidade”, se quiser), uma sociedade socialista, o que ficou na Constituição.
      Ora, só posteriormente um abstracto e difuso raciocínio sobre o que é ou não é a democracia (um raciocínio antipopular, no fundo) veio alterar e rever vezes sem conta a Constituição. O que não é democrático é a abstracção democrática.
      Para abreviar.

      • TdBP diz:

        Isso é um raciocínio um bocado enviesado, não? Se os sentir e anseios colectivos expressos na representação parlamentar em 1975/76 ficaram consagrados na constituição inicial, porventura os mesmos sentir e anseios expressos nas representações parlamentares subsequentes ficaram expressos nas revisões. E convém não confundir democracia com socialismo.

        • Carlos Vidal diz:

          Discordo, outra vez.
          A democracia não se confina à legitimidade parlamentar, ao parlamento.
          Aliás, no parlamento é onde ela precisamente não existe, ou apenas existe de forma muito enviesada, condicionada.

          • TdBP diz:

            Então onde existe a democracia? Na rua? E quem afere as dimensões – e direcções – do “sentir” e dos “anseios colectivos”? Se me disser que a coisa se tinha resolvido com um referendo, concordo. Aliás, ainda vamos muito bem a tempo.

          • Carlos Vidal diz:

            Os movimentos colectivos de emancipação e transformação começam por se manifestar de maneira informe (porque indecidíveis e inéditos, sem precedentes).
            Depende de nós aderir ou não àquilo que ainda é indefinido. Aderir e querer aderir.
            Um fim desse processo, se fantasiado e executado às mãos de uma abstracção (dizia-se no PREC, ou seja, no PS, que acabaríamos no “totalitarismo”: como se poderia então tal saber??), um fim desse processo, ou melhor, um corte artificial desse processo, descamba numa coisa meio forçada meio estereotipada: num slogan, numa mensagem publicitária (do tipo: a “casa da democracia” é soberana, “o povo decide nas urnas e não a Constituição por ele” – mas como?, se o povo estava a decidir no seu movimento próprio e foi interrompido, concretamente a 25 de Novembro!).
            É isto, meu caro, o que me ocorre.
            Pode-se não concordar, claro.

          • TdBP diz:

            Carlos Vidal, posso então deduzir que, para si, a decisão popular quantificável (referendo, eleição) não tem valor, e representa um “corte artificial desse processo”? E que representam “transformação numa sociedade sem classes” ou “assegurar a transição para o socialismo” senão slogans, próprios de uma determinada ideologia, que não era sequer partilhada pela maioria da população nessa altura? A evidência lógica são os resultados eleitorais dos defensores dessa ideologia, desde 1975. O processo interrompido foi um que era claramente conduzido por uma minoria, contra a vontade de quase todos.

          • Carlos Vidal diz:

            Vejamos.
            O Partido Socialista e o então PPD votaram a Constituição socialista.
            O colectivo da sociedade então pretendia uma sociedade nova e inédita no contexto europeu ocidental.
            O PS definia-se como “partido marxista”.
            Ninguém nas eleições de 1975, à esquerda (como então se dizia e ainda se diz, embora eu nunca lá tenha posto o PS – na esquerda), nessas eleições, ninguém se afirmava, à la Popper, adepto de uma “sociedade aberta” que pudesse contrariar uma dinâmica social transformadora, esperando pelos resultados “abertos” de uma eleição.
            Os destinos constroem-se, não têm de ser sufragados, não esperam os sufrágios, as formalidades.
            De resto, estou convencido e certo de que o 25 de Novembro foi anti-maioritário.
            Mas, agora, teremos de conversar de outro modo. E, provavelmente, sem olhar para o passado. A emancipação não é nunca uma cópia.

          • TdBP diz:

            O PS e o PPD votaram favoravelmente a Constituição, e foi dessa forma que ela foi estabelecida. Analogamente, foram esses dois partidos que votaram favoravelmente as revisões. Que lhes retira a legitimidade, então? Ou, depois de consagrada pelo voto, teria necessariamente que ser um documento estático? Quem conferiu tal poder à geração de 1974? As gerações seguintes não têm o direito de se pronunciar?
            “O colectivo da sociedade então pretendia uma sociedade nova e inédita no contexto europeu ocidental”? Creio que pretendiam, isso sim, uma sociedade nova e inédita no contexto português. E para isso foi derrubado o Estado Novo. Mantenho que, se quisessem um estado socialista ou marxista-leninista, o espelhariam nos boletins de voto. Tal não sucedeu.
            “Os destinos constroem-se, não têm de ser sufragados, não esperam os sufrágios, as formalidades”? Mas então como se legitimam? O poder da rua não pode ser legitimador, pelo menos não em última instância. Senão o poder é de quem melhor mobilizar apoiantes, e de quem fizer mais barulho. Basicamente, a lei da selva. É esse o critério que pretende para a condução da sociedade?
            “De resto, estou convencido e certo de que o 25 de Novembro foi anti-maioritário”. Mas isso é apenas uma questão de fé. Eu, pessoalmente, acredito que exprimiu a vontade da maioria da população. Seja como for, pelos mesmos critérios que utiliza, o 25 de Novembro também foi o resultado de uma “dinâmica social transformadora”. Por que motivo é então para si menos legítimo?

        • Carlos Vidal diz:

          As perfeições geométricas dos seus raciocínios, caro TdBP, são absolutamente formais e formalistas, o que em estética-arte seria interessante (acarretando a reivindicação da autonomia da arte), mas aqui, em política, espaço de invenção, transformação e ruptura, não são adaquadas/adequados se excessivamente obedientes a uma mecânica paralisante.
          É certo que os partidos que votaram a Constituição de 1976, também foram os mesmos que a reviram posteriormente mais sete vezes. Mas naõ me pode dizer que o tenham feito porque tal inscreveram nos seus respectivos programas eleitorais (pelo menos no lugar de destaque que deve merecer a lei máxima do país), nem me pode dizer que essas revisões corresponderam ao mesmo anseio que a CRP de 1976. As revisões obedeceram a exigências económicas externas, às reivindicações da própria economia dominante (CEE, União Europeia, formalidades políticas e conómicas, Euro, etc., etc.), mais que às auscultações de eleitoradas e colectivos. Ou seja, os protagonistas das revisões automandataram-se para tal, e antes de tudo partiram de uma fantasia ou fantasmagoria: a de que a esquerda (não o PS) pretendia uma sociedade totalitária, ou a inscrição do socialismo na Constituição era não democrática, uma vez que vinculava governantes de vários matizes, como se não fosse essa a missão/função de uma Constutuição.
          O projecto português era inédito no contexto europeu. Potugal foi um laboratório internacional, que interessou gente de todas as cores, desde Sartre a Kissinger ou Carlucci (estando Soares, o “ex-marxista” que dorme a ler Marx, como deve dormir a ler o que quer que seja do lado destes últimos).
          Por último, repare na tomada da Bastilha, de onde proveio a carta dos direitos humanos (onde a propriedade não era o direito mais importante, mas estava lá). Para lhe dizer que o chamado poder popular não tem de ser legitimado porque ele INVENTA formas de legitimação, pois a política ou é invenção ou paralisia na situação (repetição).

          • TdBP diz:

            Caro Carlos Vidal, opto por tomar as suas palavras iniciais como um elogio, ou antes como uma constatação de personalidade, tão válida como qualquer outra.
            É evidente que as revisões não corresponderam ao mesmo anseio de 1976. Nem tinham que corresponder, porque os anseios das populações não são – lá está – estáticos. Tomar esses (aliás, discutíveis) anseios de 1976 como objecto intocável corresponde a retirar às gerações seguintes o direito a pronunciarem-se quanto ao seu futuro, o que não é de todo aceitável. Não sei, tal como o Carlos Vidal não sabe, se as revisões correspondem aos anseios da maioria da população. Mas os partidos que as levaram a cabo foram legitimados, uma e outra vez, pelo poder popular. Convenhamos que se fosse um exercício extemporâneo, a população teria tido mais do que uma oportunidade para corrigir a situação nas urnas de voto.
            A inscrição do socialismo na Constituição era, decerto, um factor de grave limitação das possibilidades de evolução da sociedade. A democracia é um termo que se permite diversas interpretações (caminhos, se preferir), e o socialismo é apenas um deles. De uma Constituição apenas se pretende que consagre o direito universal à democracia (se essa for a opção da maioria da população, naturalmente, e não me parece que esteja hoje minimamente em causa que o é em Portugal). Os matizes que lhe queiramos emprestar têm que estar abertos à mudança e evolução, para que a política não tombe para um processo paralizante. Este ponto de vista é claramente demonstrado pelos resultados eleitorais pós-1976, nos quais partidos claramente não-socialistas (nos quais até admito que se possa incluir o PS, de tempos a tempos) saíram vencedores.
            É desta forma que não entendo que simultaneamente defenda a estaticidade de um texto referencial e apregoe um espírito de invenção política. Por muito que se possa reinventar o tal socialismo, este termo não deixa de condicionar a uma certa forma de actuação, que até pode não ser – não é – pretendida pela maioria.

          • Carlos Vidal diz:

            Diálogo interminável e ainda bem, caro TdBP:
            São, os nossos, pontos de partida ou de vista inconciliáveis, mas, no fundo, compatíveis para o encetar e desenvolvimento (como se vê) de uma conversa – a qual suponho a decisiva; a que questiona: o que é a democracia? Um modo de vida participativo, uma regulação da representação, ou apenas (globalmente) um “regime”? Quais os seus limites ou limiares (preferindo eu esta última palavra)? E o que fazermos e a partir desses limiares (na crítica de arte, em Greenberg, a investigação do limiar é um modo de ultrapassar o formalismo estrito sem sair desse mesmo formalismo)? Mais: o que é uma democracia participativa, que ainda hoje a Constituição propõe que desenvolvamos? Etc.
            Creio, como se depreende, que os anseios de emancipação de um colectivo (de uma comunidade) não são cambiáveis ou mutáveis entre gerações, ou seja creio-os invariantes (digamos, desde Spartacus: emancipação ou morte, o que terá provavelmente inspirado Fidel na sua invocação pátria, revolução ou morte).
            É certo, como diz, que o “direito universal à democracia” é hoje defendido por todos. Não é isso que discuto. Mas não me convencerá, nem a min nem a ninguém, que estas mesmas populações por aqui se quedem. E, ao não se quedarem por aqui, advogam mudanças no próprio conceito de democracia, e sua prática tradicional, que tem de estar aberta à “novidade inédita”.
            Esta inventividade da política que eu refiro vem, por exemplo do “Manifesto” de Marx e Engels e da sua primeira frase que faz alusão ao espectro do comunismo que sobre nós paira, que é o espectro, em suma, da justiça.
            Digo, para terminar, que a invenção vem daqui: das formas de viver com e realizar esse “espectro” (que, repito, é uma invariante).

  3. Rocha diz:

    Onde está o Rui F para gritar contra o terrível papão comunista?

  4. xatoo diz:

    de notar que as revisões constitucionais foram feitas perante a mais completa passividade dos partidos ditos “de esquerda”. Que não lutam à gfrente dos movimentos de trabalhadores (antes actuam para as desmobilizar) por medo de perderem lugares à mesa do Parlamento burguês. O esquema está montado e daqui não sairemos sem um corte radical. Os dois partidos ditos de “esquerda” tornaram agora a não levantar uma única voz contra a Censura audiovisual do canal público de televisão no caso dos debates que incluissem os partidos extra-parlamentares que TAMBÉM CONCORREM ÁS ELEIÇÕES. Nem nada disto apareceu na RTP:

  5. Justiniano diz:

    Caríssimo Vidal, discordo em absoluto (íntima e expressamente se me permite)!!
    A tentativa do caríssimo Vidal, recorrente, em ligar ontologicamente a dignidade da pessoa humana à tal sociedade sem classes carece de enormíssima justificação!! Porquê!!?? Porque há-de a dignidade da pessoa humana ser posta em perspectiva face ao outro!!?? E porque não contra o outro ou todos os outros da mesma classe!!?
    Essa ideia comunista, caríssimo Vidal, compreende um largo conjunto de abominações contrárias ao direito natural!! A remoção dos milhentos obstáculos à sua racionalidade implicaria a amputação de almas!! A igualdade material, potenciada à sua última instancia, será um absurdo e uma farsa!!
    Cordialmente,

    • Carlos Vidal diz:

      Meu caro Justiniano,
      Da sua parte permito todo o tipo de discordâncias; aliás, permito de toda a gente, mas da sua em particular, porque interpelante no sentido fundado, exacto, isto é, no sentido que dá que pensar, que pode suscitar ao mesmo tempo igualmente concordância e absoluta discordância. É o terreno mais ineteressante para uma conversa: concordar e, ao mesmo tempo, discordar – assim eu estou perante o seu comentário.
      Penso que o meu caro pode levar-me (ou nos levar, leitores quiçá poucos deste post), para um território muito bem tratado pelo Aristóteles da “Política”. De facto, no Livro II surge então uma inquirição muito crítica do comunitarismo de Platão, do seu comunismo familiar, da comunidade de bens e filhos, e da proposta platonista da propriedade comum de bens.
      No Livro I, o Estagirita traça para a política os seguintes objectivos: As acções humanas visam o bem o “viver bem”; as acções comunitárias também (afinal, há zonas no mundo humano que podemos considerar “comuns”, “igualitárias”…); a mais importante das comunidades é a cidade. Antes da cidade está o casal, a família, a casa e a aldeia. Mas o antes é também posterior, porque a cidade é o todo, e o todo é anterior à parte. Adiante, ele vai considerar que uma das tarefas da administração da casa é a aquisição de bens, logo a propriedade é “natural”, e, inversamente, a igualitarização comunitária seria então contranatura. Desse modo, a propriedade constitui a família e a aquisição de bens faz parte da sua administração. Os bens relacionam-se com a subsistência mas não apenas (obviamente). O escravo é um desses bens (e aqui a coisa já começa a complicar-se, uma vez que a teoria da “naturalização” do escravo, mesmo aos olhos de Aristóteles, não é facilmente sustentável – uma brecha portanto no edifício da “desigualdade” e da propriedade). Mas este defesa da propriedade e da desigualdade é mitigada, talvez porque Aristóteles sempre sentiu dificuldades em definir “cidadão” (da qual quase toda a sociedade é excluída). Então, esta defesa é mitigada e faz-nos pensar sobretudo quando o Estagirita ataca a utilização do dinheiro para fazer mais dinheiro, atacando muito claramente a taxa de juro. O que leva muitos defensores desse dispositivo a dizer que isso é incompreensível, pois a taxa é sempre justa, uma vez que se trata de uma compensação pela privação de alguém em relação às suas posses (que as cedeu, emprestou).
      Mas o ponto essencial é o seguinte: A “República” inscreve-se num plano de uma utopia, e a “Política” é empírica; nos termos de Badiou, diríamos que a “Política” está no âmbito da Situação e a “República” no do Acontecimento.
      Se abandonarmos, digamos assim, a naturalização do empirismo (ou da Situação), veremos que se pode abrir uma nova dimensão de mundo e de sociedade, eventualmente igualitária, se esse for o projecto dos homens.
      Continuemos, pois.

      • Justiniano diz:

        Caríssimo Vidal, estava exactamente a pensar em dizer, não apenas por Aristóteles, que a ideia Platónica seria precisamente o maior afastamento antropocentrico, mas também, creio, aquele nunca pretendeu revelar uma concepção antropocentrica (aquele mundo não é, evidentemente, humano, e as contradições platónicas não são menores que as aristotélicas ou as tomistas. Mas que mundo seria este sem contradições, se mesmo Nietzsche as apontou a Kant) poderiamos, inclusive, apontar a Platão o desagrado pelo homem ser o maior obstáculo à perfeição como ideia!!
        As contradições do mercantilismo eram já apontadas por Agostinho e Tomás, mas, ainda assim, as justificaram ética e utilitariamente. Como Kant (e eu gosto do exagero a que as leituras de Kant nos podem conduzir….incluindo a inconfessa pena de morte), mais tarde, partindo precisamente da ideia da dignidade da pessoa humana, do indivíduo humano. E neste caso, foi mais longe, permitindo mesmo a corrupção das coisas na sua natureza e obstando às limitações imanentes (Agostinho, e o Catolicismo ainda hoje, compreendem essas limitações, naturalmente, como necessárias à legitimação utilitária e moral da propriedade.). Obstando a tudo que pudesse instrumentalizar esse indivíduo na sua incindível dignidade humana!! Repudiando, como deve ser, a ponderabilidade da vida humana em todas as suas possíveis manifestações!!
        Mas, caríssimo Vidal, a final, o materialismo (dialético e histórico) desalmado é um vencedor da história!! Onde estamos hoje!? Não é evidente o misticismo hipócrita e sedutor das promessas falazes!??
        Que síntese se ofereceu à família que não a de um mero acto jurídico formal!? E a propriedade, caro Vidal!!? Não é hoje senão a mais utilitária das posições jurídicas reconhecidas a um possuidor pela utilidade das coisas e apenas enquanto forem ambos úteis (Hás-de explorar até morrer, e nem ousarás parar para contemplar, a bem de todos nós!!)
        É evidente que trago aqui vastos exageros e imprecisões, caríssimo Vidal, mas a expressividade do quadro só fica completa, como bem sabe melhor que eu, com o despudorado exagero!!
        Um bem haja cordial,

    • José diz:

      Caro Justiniano,

      poderei ter entendido mal o seu argumento, mas não me parece necessário ser comunista para rejeitar a existência do direito natural.

      • Justiniano diz:

        Caro José,
        Sim, evidentemente!! Coisas diferentes!! Uma é positivar o direito natural e excluir a sua validade fora do preceito positivado, outra é positivar direito contra o direito natural!!

  6. xatoo diz:

    um pequeno reparo às razões extraidas da filosofia metafisica no “modo de produção” mágico-religioso de Aristóteles:
    os vestigios arqueológicos recentes vincam de forma particularmente relevante que “antes da cidade está o casal, a família, a casa e a aldeia” de facto o primeiro abrigo (chamemos-lhe casa) foi construido por razões de utilização do grupo, não por interesse de propriedade de um qualquer individuo, por mais lider que este fosse, ou mais romanceada possa ter sido a historiografia que contruiu “heróis” para consumo emocional dos subjugados pelas classes dominantes

  7. Sassmine diz:

    Apesar de estar muito cansada, Carlos, eu explico-lhe. Não percebi o raciocínio final do seu comentário, voltemos então a 73. Porque nem logicamente faz sentido. Mas se o Carlos prefere manter as discussões comigo nesse estúpido tom paternalista, sem pingo de argumento e cheio de lixo, só posso dizer-lhe que o deixo a falar sozinho. Com o Bolinha não discuto.

    • Carlos Vidal diz:

      Não ter percebido este post, bem como o conjunto dos seus comentários, parece-me grave. Desse modo, como pode posteriormente escrever um post, ou outro qualquer texto?
      Bolinha?
      Das que se usam no ecrã nos porno?
      Nada mau.

      • Sassmine diz:

        Não, Bolinha como em banda desenhada fraquinha. O Carlos tem nitidamente um problema comigo. E, ao contrário do que apregoa, com o debate democrático. Grave. E triste.

        • Carlos Vidal diz:

          Não, Sassmine, minha cara Sassmine.
          Três coisas:
          – Não tenho nenhum problema com a Sassmine, nenhum, nem pensar – equívoco total.
          – Tenho um problema com o debate democrático, é verdade. Aí é verdade. Debater aborrece-me. Havia um escritor francês, que eu gosto muito (e a Sassmine também deve gostar), que, no fim de uma conferência, esperava por perguntas. Elas vinham, ele dava razão a todas as questões e objecções, depois dizia sempre: “passemos à seguinte, se mais não houver, encerremos a sessão”. Mas na conferência, havia empenho total! O debate é que era uma maçada. Se me permite, não me acho muito diferente.
          – Já agora, uma curiosidade: a cena do “Bolinha”. Não entendo. Nunca ouvi tal coisa sobre mim.
          Imaginação sua?
          Ou é uma referência sua ao Eduardo Prado Coelho? Pensa que sou parecido? Gostava muito do EPC (prefaciou-me um livro, que se calhar ficou melhor que o livro), mas não eramos parecidos.
          Que história é essa do “Bolinha”?

          • Sassmine diz:

            Carlos, muito me espanta ao dizer que acha que eu gosto de um escritor, seja ele qual for. Ora se eu não sou capaz de ler nem comentários, que fará livros…

          • Carlos Vidal diz:

            Não diga isso que é feio.

            Conte lá de onde veio essa do “Bolinha”?

  8. Sassmine diz:

    com toda a wikipédia para pesquisar? que falta de iniciativa…

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