O momento certo

No Correio da Manhã há uma entrevista a Pedro Santos, do Movimento 12 de Março, que tem umas respostas que me fazem comichão (sublinhados meus):

‹‹– Mas agora é o momento certo para exigir alterações laborais, com a austeridade expectável da troika?

– Os precários já têm pouco a perder. Mais austeridade só se perderem o emprego, o que pode acontecer por uma série de outros motivos. Não se trata de mudar o Código do Trabalho, mas de criar mecanismos que garantam que a lei é cumprida.››

Portanto estamos bem, apenas é a lei que não é cumprida ou então não é, de facto, o momento certo para essas alterações. Quando o novo Código do Trabalho proposto e aprovado pelo PS ‹‹flexibiliza›› consideravelmente os vínculos de trabalho e aumenta os buracos para a precariedade, o problema é este não ser respeitado? E com isto não defendo o voltar atrás, mas parece-me que têm de existir exigências concretas.

‹‹E porque não emigrar?

Eu sou português, quero é viver no meu país. Apoio quem queira sair, mas que sociedade não quer os jovens com empregos que lhes pague as reformas? E não estamos a falar de empregos para toda a vida, apenas não precários.››

Também não me parece que seja essa a questão. Eu não nasci neste país, mas gosto de cá viver e por isso quero condições para trabalhar e viver feliz (porra!) – a luta por melhores condições de trabalho não entra em contradição com as pessoas quererem ir trabalhar para outros países, as condições de trabalho não podem é ser o motivo para isso.

Além disso, a sociedade querer jovens para pagar reformas pode ser importante (haver dinheiro para as pagar), mas não me parece que seja esse o motivo para se querer ter jovens (e pessoas em geral) com trabalho decente. O trabalho não serve apenas para pagar reformas, essa ideia um pouco chantagista – o perigo de meter gerações pelo meio é que dá para tudo – parece-me mergulhar em águas turvas.

‹‹– Então e qual é a solução?

A solução passa por todos, pelos trabalhadores, pelas empresas e patrões. Temos de falar com os administradores. Tentar fazê-los perceber que é benéfico para a economia não ter precariedade laboral. As pessoas têm de se apropriar dos locais públicos, não serem meros bonecos. O problema em Portugal é que há muito respeitinho.››

Não me parece é que as soluções (social-democraticamente falando) sejam iguais para todos. Os trabalhadores terem que se apropriar dos locais públicos (e privados) e perder o respeitinho pelos que os exploram parece-me um caminho; outro é o de falar com os ‹‹administradores›› para se tornarem mais simpáticos connosco.

Há que ser claro e pensar no que se quer. Que tudo fique mais ou menos na mesma ou tentar uma mudança profunda no funcionamento das coisas – é que muita gente anda farta do mais ou menos a mesma coisa. E não pode ser agora o momento certo?

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5 respostas a O momento certo

  1. Pedro Penilo diz:

    É tudo muito triste, mal amanhado e mal pensado… Pobres administradores, nem sabem o que perdem…!

  2. Youri, esse correio da manhã, na capa, também relaciona o Movimento 12 de Março com a violência policial em Setúbal e diz que a PSP foi “obrigada” a disparar. É o CM, o jornal do polícia e amigo do taxista… as declarações do Pedro foram bastante deturpadas, ele terá oportunidade de corrigir o tiro.
    um abraço

    s

    • Youri Paiva diz:

      O CM é um jornal em que não se confia, mas daí a dizer que as declarações do Pedro foram bastante deturpadas… Não sei… Veremos.

  3. Rocha diz:

    Bom é certo que este jornal é reaccionário e não é de confiança. Mas já que o Youri decidiu comentar as declarações, não percebo como deixou escapar esta:
    “E não estamos a falar de empregos para toda a vida, apenas não precários.”

    O argumento do emprego para toda a vida é uma chantagem habitual dos que defendem a precariedade. Ceder a este argumento equivale a ceder à chantagem. Quem trabalha e cumpre as suas obrigações, não havendo nenhuma falência ou falta grave por parte do trabalhador, deve poder manter-se no mesmo emprego para toda a vida sim senhor.

    A questão deve colocar-se ao contrário: patrão que rouba e precariza os trabalhadores deve poder fazê-lo toda vida? Na minha opinião a solução em última análise para a precariedade é expropriar quem não respeita os direitos de quem trabalha.

    • Youri Paiva diz:

      Pois, deixei escapar essa, é verdade.

      Também não percebo bem o que é isso. É certo que empregos para toda a vida podem ser precários, mas os trabalhos temporários são na generalidade precários. Há bastante falta de clareza desde o surgimento do M12M, 1º como evento do Fb, agora como marca registada.

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