Sobre a tomada de posição da CGTP contra direitos sociais para quem presta serviços sexuais

A prostituição é um trabalho porque dá trabalho e dá dinheiro, facto. Reconhecê-lo é apenas bom senso. Reconhecer igualmente que a indústria do sexo – da qual a prostituição, maioritariamente exercida por mulheres, é apenas parte – emprega milhares de pessoas nas mais variadas actividades profissionais, que trabalham tantas vezes sem enquadramento profissional e sem direitos, é… lógica sindical. No entanto, reconhecer que a prostituição é um trabalho (profissão é ainda outro conceito, que importa distinguir) e que lhe devem estar associados direitos sociais – assim como hoje lhe está associado um estigma moral – é também bom senso. Achar que toda a prostituição é exploração sexual é redutor e uma confusão que favorece a impunidade do tráfico de pessoas e da exploração sexual, bem como a perseguição e precarização das pessoas que vendem – não o corpo ou a sua pessoa mas sim – serviços sexuais. 40% dos homens portugueses (heterossexuais) procuram esses serviços (estudos). Sobre os homens que procuram os serviços sexuais de outros homens há menos estudo. Depreender daí que pelo menos igual percentagem de associados da CGTP os utiliza, é senso comum. Perante uma campanha não moralista – a primeira sobre este tema num país em que basta ler a taxa de infecção pelo VIH entre trabalhadores/as sexuais e cruzá-la com os dados conhecidos sobre a quantidade de clientes que propõem pagar mais por sexo sem preservativo para entender da sua urgência -, eis o moralismo de um feminismo sindical anti-sexo que ao negar a existência de serviços sexuais – prostituição incluída – VOLUNTÁRIOS, menoriza as pessoas que os prestam a ponto de lhes negar exactamente a dignidade da pessoa humana que diz querer defender naquilo que lhe é mais estrutural: o direito a escolher, e o direito a escolher sobre o próprio corpo (onde é que já ouvi isto?). Há 4 anos um grupo de trabalhadoras do sexo do Intendente decidiu por iniciativa própria que tinha o direito de ir ao 1º de Maio. E voltará a exercê-lo de pleno direito amanhã. Terei o maior gosto de conversar pessoalmente com o/a sindicalista que lhes vá dizer que não ali não pertencem. Ou com o/a camarada do PCP ou qualquer outra força da esquerda que venha propor, como recentemente, a proibição dos anúncios de serviços sexuais. Camaradas, para tamanha hipocrisia sexual e social já basta a direita.

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39 respostas a Sobre a tomada de posição da CGTP contra direitos sociais para quem presta serviços sexuais

  1. Caro Sérgio

    É uma posição efectivamente errada esta por parte da CGTP, que surge após uma outra assumida pelo PCP, pela voz da sua deputada Rita Rato. Escusado será dizer que não há coincidências aqui, sabemos bem da esmagadora hegemonia que tem o PCP sobre a CGTP, pelo que se trata de um mesmo caldo de cultura, marcado por uma “moral proletária” conservadora, em relação a todo um conjunto de temas que podemos enquadrar naquilo que se convencionou chamar de “políticas da identidade”, isto é, que dizem respeito a valores morais e não à luta (de classe e de classes) em torno da produção de valor, da sua apropriação e da sua distribuição. É efectivamente uma clivagem que atravessa este nosso campo político da esquerda, temos que reconhecer isso. É uma questão importantíssima e cuja resposta é mais complicada do que parece. Obviamente que estou plenamente de acordo contigo, enquanto marxista entendo que os seres humanos ou vivem do seu próprio trabalho ou do trabalho alheio e que, assim sendo, fica claro que se trata no caso da prostituição, de trabalhadorXs do sexo. Aliás, a dado passo dos seus “Manuscritos Económico Filosóficos de 1844”, o jovem Marx aborda esta questão, afirmando que “[a] prostituição mais não é que uma expressão particular da prostituição universal do trabalhador”. Nesta óptica qualquer trabalhador se prostitui na medida em que disponibilizam o produto dos seus corpos (i.e., a sua força de trabalho) em troca de dinheiro. Então daqui decorrerá que ser trabalhador/a do sexo é um trabalho também, ao nível de qualquer outro. A questão, e aqui é que a porca torce o rabo, é que a la limite desta premissa podem decorrer conclusões perversas, no sentido por exemplo de obrigar um/a desempregadX a aceitar um trabalho destes, sob pena de perder o subsídio de desemprego. Isto aconteceu na Alemanha há uns anos, tal como noticiado no Daily Telegraph de 30 de Janeiro de 2005 ( http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/germany/1482371/If-you-dont-take-a-job-as-a-prostitute-we-can-stop-your-benefits.html ). Sou contra uma coisa destas, mas é, creio, a conclusão coerente e lógica de uma política que não discrimine negativamente, com base em fundamentos morais, a prostituição. Como se diz em inglês, “You can’t have your cake and eat it too”.

    Enfim, creio então que é um debate que deve ser tido, mas de forma fraterna, com consciência de que se trata de um debate feito “entre nós”, entre os que estamos do mesmo lado da barricada contra aqueles que nos querem assaltar. E um debate, sobretudo, no qual Xs própriXs trabalhadorXs do sexo devem fazer ouvir a sua voz, tal como fizeram em 1997 as trabalhadoras do Sexo indianas com o seu Manifesto de Calcutá:

    “As mulheres prostituem-se pela mesma razão pela qual adoptam qualquer outra opção de subsistência que esteja ao seu alcance. As nossas histórias não são fundamentalmente diferentes das do trabalhador do Bihar que puxa um riquexó em Calcutá, ou do operário de Calcutá que trabalha a tempo parcial numa fábrica em Bombaim. Algumas de nós somos vendidas à indústria. Depois de seremos subjugadas à senhora que nos comprou por alguns anos ganhamos um grau de independência no seio da indústria do sexo. [Nós] acabamos no trabalho do sexo depois de passar por várias experiências na vida, frequentemente contra a nossa vontade, sem compreender plenamente todas as implicações de se ser uma prostituta. Mas quando é que a maioria de nós mulheres temos acesso a uma escolha no interior ou no exterior da família? Tornamo-nos trabalhadoras domésticas informais por nossa vontade? Temos uma escolha sobre quem queremos casar e quando? A ‘escolha’ raramente é real para a maioria das mulheres, particularmente as mulheres pobres.” (SEX WORKERS’ MANIFESTO, Calcutta, 1997 – http://www.bayswan.org/manifest.html)

    Aquele abraço

    SH

  2. Bruno Carvalho diz:

    Se a prostituição é um trabalho, espero que venha a ser integrada nas profissões a ser propostas a desempregados. E que o Sérgio Vitorino e o Sadik sejam ‘obrigados’ a prostituir-se para não perderem o direito ao subsídio de desemprego.

    • Leo diz:

      Eu estou-me marimbando para o que possa acontecer ao Sérgio e ao Sadik, eu não quero é que aconteça aos meus filhos ou aos meus colegas de trabalho.

    • closer diz:

      Mais uma vez, Bruno Carvalho, mostra a sua face beata. Incapaz de discuttir o tema e encabulado pelas posições conservadores que os seus dirigentes defendem, opta pela provocação fácil e gratuita. Nada de surpreendente, mas triste vindo de uma certa esquerda

    • Ao Bruno Carvalho (e também ao Sadik, que acreditou no que leu): tenho a dizer-vos que a historieta que foi noticiada há menos de um ano pela imprensa segundo a qual uma desempregada alemã teria perdido o subsídio de desemprego por se recusar a prostituir-se, é falsa, nunca aconteceu, não é verdade, tive oportunidade de verificá-la e desmenti-la. Ao Bruno que me deseja que me OBRIGUEM a prostituir-me, tenho a dizer-lhe: a) que me obrigam a prostituir-me todos os dias (no trabalho que faço); que já fui prostituto (voluntariamente – em situações de carência económica extrema, que sim, são uma condicionante, escolhi sobreviver, e não deixou de ser uma escolha – lá está tb podia ter ido fazer esticão a velhinhas mas sentiria que era imoral fazê-lo); c) Bruno, o que não entendeste no termo “trabalho sexual VOLUNTÁRIO”? Precisamente, importa distinguir entre as situações de tráfico de pessoas e exploração sexual, das situações de escolha voluntária por essa actividade, não o fazer só favorece as primeiras ao confundi-las com a segunda. Além de ser falsa a tal história ds serviços de emprego alemães, não posso qualificar como menos do que ridículo o argumento de que se os/as trabalhadores/as do sexo vissem direitos reconhecidos (e não sei sequer se é através do reconhecimento formal de uma profissão, duvido bastante que seja por aí), os serviços de emprego passariam a “FORÇAR” pessoas a prostituir-se. Vá lá, ao menos argumentos sérios, e já agora não me coloquem na boca quaisquer propostas específicas de modelos para o reconhecimento de direitos que estou a exigir, porque não as fiz. Reconhecer que as mulheres do Intendente que ultrapassam a idade possível para continuarem a exercer aquela actividade deviam ter direito a uma reforma como qualquer outra idosa em fim de vida activa, ou que a Segurança Social não tem o direito de sistematicamente retirar a estas mulheres a guarda dos seus filhos com base no critério único da profissão que têm (e não na avaliação das condições em que a criança se encontra a ser cuidada e educada, ou seja, se se trata de uma “boa mãe”), reconhecer direitos como estes implica passar a ter o trabalho sexual na lista de profissões reconhecidas num centro de emprego?! Vocês regularão bem?!

      • Nuno Ramos de Almeida diz:

        Sérgio,
        A historieta é falsa, pq mesmo as autoridades estigmatizam a prostituição, mas no dia que a considerarem uma escolha livre e voluntária e uma profissão tão boa (ou má) com as outras, a historieta continuará a ser impossível?

  3. Bruno Peixe diz:

    Bruno,

    Se calhar não te deste ao trabalho de ler o texto do Sadik, que apontava justamente para os limites de uma equivalência, em termos de reconhecimento institucional, da prostituição com outras profissões.
    Digamos que há duas maneiras de fazer essa equivalência, e de escapar ao discurso moralista, herdeiro da concepção cristã do corpo. Uma é a liberal, para quem a prostituição é uma profissão como as outras e para quem a venda do trabalho é uma questão contratual entre duas partes livres. Infelizmente, quando o Sérgio opta por usar palavras como voluntário para descrever o trabalho sexual, é um bocado por aqui que vai, e só esse pormenor me impede de subscrever inteiramente o seu texto.
    Mas há uma outra maneira de fazer essa equivalência, que é por onde vai o Sadik, e que consiste em afirmar que as formas de trabalho capitalista são quase todas elas formas de prostituição, em que o trabalhador vende o seu tempo e o seu corpo para sobreviver. Entendo a crítica do trabalho sexual como uma parte da crítica do trabalho sob o capitalismo, e não entendo muito bem porque é que uma parte da força de trabalho se há de ver subtraída de direitos e proteção de que os outros gozam, se o seu trabalho for feito nos mesmos moldes.
    É que enquanto não acabamos com o capitalismo e a exploração laboral é uma realidade, mais vale que não haja trabalhadores de primeira e de segunda.
    Isto não implica que uma pessoa no desemprego tenha de se prostituir. Que eu saiba profissões de alta exigência física, como o trabalho nas minas, não costumam ser impostas a quem está no desemprego, penso eu. Aliás, o teu argumento aceita a prática infame de impor aos desempregados um trabalho que eles têm compulsivamente de aceitar sob pena de perder o benefício social de que gozam. É essa lógica perniciosa que tem de ser recusada.
    Um abraço aos três,
    bruno peixe.

    • Sassmine diz:

      nem mais nem menos. e bravo, Sérgio. como sempre, aliás.

      (sempre tiveste de explicar alguma coisa a alguém?… 😉

      e só para recordar: a puta precária também é proletária! (um dos melhores slogans do mayday, diga-se)

  4. Dédé diz:

    “A prostituição é um trabalho porque dá trabalho e dá dinheiro, facto”

    E roubar malas a velhinhas de esticão, também é um trabalho porque dá trabalho e dá dinheiro?

    • Rocha diz:

      Ora nem mais!

    • Inês Ribeiro diz:

      Como é que se pode comparar algo que provoca dano no próximo (as tais velhinhas) e que não foi pedido, com algo que é feito de livre e espontânea vontade entre dois adultos (como a prostituição).
      Que eu saiba nenhuma prostituta obriga quem quer que seja a pagar pelos seus serviços.

      • Rocha diz:

        Existem prostitutas de borla? Que fazem serviços à borla?

        Olhe Inês eu conheço inúmeros casos de jovens mulheres enganadas no país de origem levadas por mentiras para um país longínquo para que se prostituam na base de levarem porrada todos os dias. É isso que você está a legitimar.

        Isto é como dizer que a exploração dos falsos recibos verdes seria melhor se fosse considerada uma actividade legítima perante a lei. Mas qual lei, qual Estado e qual sistema judicial? Os que temos? São óptimos para a exploração do ser humano e para exploração sexual são ainda melhores.

      • Dédé diz:

        Mas quem é que está a comparar? Só estou a chamar a atenção que aquilo do trabalho coiso e tal… é um “argumento” da treta.

    • isso dá dinheiro, mas não trabalho. Quem vai roubar (por exemplo os gestores de elite) é precisamente quem não quer trabalhar, não meu caro? Ou estou enganado?

      • Dédé diz:

        Então o que quer dizer o segundo TRABALHO na frase de abertura? Não é que envolve esforço? Está a perceber o absurdo da afirmação que mete no mesmo saco o operário fabril, a prostituta, o malandro que rouba a velhinha, e os gestores que se abotoam com milhões?

        • devolvo-lhe a pergunta: em que é que a exploração do trabalho sexual é mais grave do que qualquer outras exploração do trabalho?

          • Dédé diz:

            Antes de chegar aí diga-me o Sérgio se considera que o esforço desenvolvido pela operária têxtil, pelo malandro que rouba a velhinha, ou pelo gestor que se abotoa com milhões, é tudo trabalho?

          • já respondi a isso, Dédé, entendeu o meu argumento ao contrário: é evidente que quem rouba (o ladrão assumido e o gestor) escolheram roubar para não trabalhar. Não só não é trabalho como é imoral. Vender e prestar serviços sexuais, pelo contrário, é trabalho.

          • e agora, responde à minha questão?

  5. Pingback: Contra a mercantilização do sexo | cinco dias

  6. Carlos Carapeto diz:

    Destuir pontes, viadutos e torres de alta tensão com cargas de dinamite (deste que não mate ninguém) , ainda dá muito mais trabalho, são trabalhos urgentes que nem precisam ir a concurso.

    Haja algum cuidado com aquilo que se diz.

    Em vez de escrever disparates porque não denunciam as causas da prostituição?

    Porquê a falta de coragem para denunciar que a pobreza é a principal razão que empurra milhões de jovens para esse flagelo?

  7. José diz:

    Há aqui demasiados “beatos” sobre esta matéria. Arreigam-se a preconceitos morais e generalizações, censores da actividade e ficam cegos perante as realidades.
    A Inês diz: “Que eu saiba nenhuma prostituta obriga quem quer que seja a pagar pelos seus serviços.”
    E a resposta que obtém é: “Existem prostitutas de borla? Que fazem serviços à borla?”
    A resposta é uma pergunta que nada tem a ver com a afirmação da Inês e continua com outra afirmação que nada tem a ver com a troca de serviços consentida entre adultos prevista pela Inês: “Olhe Inês eu conheço inúmeros casos de jovens mulheres enganadas no país de origem levadas por mentiras para um país longínquo para que se prostituam na base de levarem porrada todos os dias. É isso que você está a legitimar.”
    Não está a legitimar coisa alguma! O que a Inês afirma como legítimo é a venda de um serviço, de livre vontade, entre dois adultos. É claro que tal conceito não integra a venda do corpo de uma mulher forçada a tal!
    Esse tipo de generalização representam argumentos fracos e perigosos, próximos de mensagens tipicamente fascistas e racistas, como os ciganos/negros/romenos são criminosos, porque um foi apanhado a roubar; ou as brasileiras são putas, porque algumas se encontram na Europa nessa profissão.

  8. Diz a Alexandra Oliveira, e eu sublinho: “O que é indefensável é que, independentemente do reconhecimento que o Estado faz ou não duma actividade laboral, os sindicatos não façam o seu papel. Ainda por cima, se a actividade não é formalmente reconhecida, mais uma razão para os sindicatos defenderem os direitos destes trabalhadores. Que se deixem de moralismos e que pensem nas condições de trabalho das pessoas.

    Só a desonestidade e a hipocrisia permitem a utilização do argumento da “legalização da exploração” para se oporem à legalização da prostituição. É tão imoral a exploração do trabalho sexual como a de outro trabalho qualquer.

    O caso alemão que tantas vezes é citado como tendo acontecido, NÃO É VERDADE. NÃO ACONTECEU NENHUM CASO DE TRABALHADOR DESEMPREGADO NA ALEMANHA QUE TENHA SIDO OBRIGADO(A) A ACEITAR UM EMPREGO NO TRABALHO SEXUAL. É uma daquelas mentiras que de tanto ser contada se transformou em verdade. Grupos de trabalhadores/as do sexo alemães explicaram que alguém, num artigo de opinião num jornal, fez um exercício teórico de discussão de um caso inventado para provar as debilidades da lei. Depois isto começou a ser discutido como uma possibilidade e passou a “ter acontecido”. Só isto. Para quem não sabe disto, acha que aconteceu mesmo.” No caso da CGTP será difícil ser só ignorância, é má fé, diz a Alexandra. Eu acho que é pelo menos um argumento desonesto.

  9. João Pais diz:

    E a pequena burguesia continua entretida com o Lumpen… clássico, de facto! Não vos diz nada que JS e JSD apoiem esta posição de legalizar a prostituição? Pensem lá um pedacinho entre um charro e uma cuspidela da CGTP.

    • João, não seja grosseiro. Eu sou sindicalizado, num sindicato afecto à CGTP e devolvo-lhe o cuspo na cara, pelo sectarismo evidenciado. Já agora, a pequena-burguesia não ganha um salário mensal abaixo do salário mínimo, que é o que eu ganho, depende muito dos meses, é flutuante, depende do trabalho que consiga, e passam meses sem receber. Vá, portanto, chatear um pequeno-burguês, eu sou mais parte do precariado há demasiados anos. E vá informar-se: a prostituição é legal em Portugal, ninguém está a debater legalização nenhuma. O que é ilegal é a exploração da prostituição por terceiros (lenocínio). O que se está a defender são direitos iguais para todos, e já agora mais direitos para todos – no caso das pessoas que exercem trabalho sexual, o direito a uma reforma na velhice, por exemplo. Garanto-lhe que nem JS nem JSD são a favor destes direitos, e as propostas de “legalização que chegaram a avançar há já algum tempo, não eram senão propostas de “regulamentação” que, bem lidas, visavam reprimir o trabalho sexual – exactamente o que tem defendido o PCP (ao defender por exemplo a proibição dos anúncios de serviços sexuais nos jornais argumentando que se está a permitir o anúncio da exploração, e revelando o gigante desconhecimento de que os anúncios existentes nos jornais são todos eles colocados por trabalhadores sexuais que exercem a actividade por conta própria – lógico, quem trafica pessoas não costuma anunciá-lo…). Já agora, obrigado pela importância que está a atribuir a este tema com os seus comentários. Devia ter visto com os seus olhos como as trabalhadoras do Intendente se manifestaram ontem contra a presença do FMI em Portugal e pelo trabalho com direitos PARA TOD@S!

    • José diz:

      Pois, o Lumpen – nas palavras do João Pais – não tem direitos, deve ser desprezado.
      No fundo, o João Pais gostaria de viver numa sociedade estratificada como a indiana, com castas bem definidas, com o Lumpen no lugar dos intocáveis e o João Pais no topo, contemplando com desprezo as castas inferiores, quais formigas, como a pequena burguesia.

    • fernando andré rosa diz:

      João, a CGTP pronunciou-se, declarou publicamente ser contra uma campanha que apela à utilização do preservativo na prostituição. O que pensa disto? `´e Esta a questão! Se a CGTP não os considera trabalhadores, porque tem de interferir na prevenção de infecções sexualmente transmissiiveis entre pessoas?

  10. Alexandra Oliveira diz:

    Bom texto, Sérgio.
    No meio dos comentários perdeu-se o essencial: os sindicatos portugueses não têm defendido um dos grupos de trabalhadores mais vulneráveis e manifestaram-se contra a participação da(o)s prostituta(o)s no Dia do Trabalhador. Defenderam o indefensável, que há trabalhadores que são menos trabalhadores do que os outros.

  11. Vítor Hugo diz:

    Sérgio Vitorino, Bruno Peixe, Alexandra Oliveira, Inês Ribeiro, José
    são exemplos de quem se pode contar para debater uma assunto grave, melindroso por inerência e descriminado pelo sindicalismo burguês (inclui a Cgtp), para não falar da esquerda (Pcp e Be), igreja, dos conservadores, fascistas e por aí, os restícios do período negro (antes 25A) pairam ainda…

    Vítor Hugo
    Almada

  12. José diz:

    Em Portugal há quadros mentais, com centenas de anos, criados no caldo que é a cultura portuguesa e que enformam a atitude social para com as prostitutas.
    Para quem se recorda das obras de Gil Vicente perceberá a alusão às centenas de anos.
    Se atentarmos à pobreza franciscana dos nossos insultos, verificamos que, na esmagadora maioria das vezes, quem é insultada é a nossa mãe ou a nossa namorada/mulher e não nós, que não temos culpa pela profissão da mãe ou dos apetites sexuais de namorada e mulher.
    O sexo continua a ser um tabu, e o prazer feminino um anátema na visão masculina.
    Um homem que tenha várias namoradas continua a ser considerado um “galifão”, visto com inveja e admiração pelos homens e com respeito e desejo pelas mulheres.
    Já uma coleccionadora de homens é crismada por ambos os géneros como puta, alguém que não tem controlo e não se sabe dar ao respeito.
    Evidentemente que já nem falo dos preconceitos referentes à homossexualidade e aos prostitutos, tenham estes clientes masculinos ou femininos.
    Os estereótipos culturais tão profundos como estes não se alteram em poucas gerações e são transversais à sociedade portuguesa, ultrapassando as divisões políticas, como alguns hiper-conservadores da CGTP e do PCP aqui o têm demonstrado.
    A atitude face ao prazer feminino e ao direito de mulher e homem em dispor livremente dos seus corpos e dos seus sexos – em actividade liberal, cooperativa ou subordinada – é uma das mudanças culturais que terá de ser prévia a uma mudança legislativa.
    A regulação de uma actividade como o comércio do sexo não é uma iniciativa fácil nestas circunstâncias, nem deixa de ser um percurso cheio de escolhos, tendo em vista os problemas que têm de ser resolvidos, desde a saúde à liberdade de escolha dos (as) trabalhadores (as).

  13. Vítor Hugo, só não concordo nisto: o sindicalismo burguês não é a CGTP, é quando muito a UGT. Isso não impede a UGT de ter feito um debate mais aprofundado sobre este tema. Porque é Mas o preconceito às vezes não tem classe, embora a generalidade das discriminações tenha relação com as diferenças de classe. Eu gostava era de ver a CGTP a debater e rever a sua posição de fechamento a esta temática, quando na verdade denota enorme desconhecimento das realidades concretas que envolve, para lá da caricatura ou do estereótipo. Para esse debate, cá estou, gostaria particularmente de ver uma evolução ou pelo menos uma abertura a aprofundar a complexidade do tema da parte da CGTP, embora me reconheça cansado de repisar um nível de debate fraco e desinformado que não é apanágio apenas da Inter, mas ausência quase absoluta de debate social – este assunto é invisível a não ser na sua visibilidade comercial. Quantas vidas se escondem por detrás dessa muralha de preconceito e em que condições vivem, trabalham e recorrem pontual, temporária, acidental ou permanentemente à venda – não do corpo – mas de serviços sexuais?

  14. prestador de serviços diz:

    Primeiro que tudo, quero referir que não me considero trabalhador sexual, porque não é a minha actividade remunerada principal, mas sim uma prestação de serviços que faço de tempo a tempo para equilibrar contas. Vou tentar abranger alguns factos que espero que vos ajude no debate.

    Obviamente que considero que o faço, por opção, nunca fui explorado no trabalho sexual, mas já o fui e sou constatemente pelo Eestado. Semrpe que tento um part-time para me ajudar a equilibrar o ordenado mensal, verifico que no ano seguinte, depois de retirados os custos em deslocações, a alteração às tabelas de IRS, bem como jantar fora de casa, lucrava à volta de 100 euros em seis meses de trabalho, a 25 horas semanais. (para os mais cépticos acrescentem a um ordenado de 24000 euros anuais, para um homem solteiro, sem dependentes a cargo, 3000 euros do part-time).

    Com prestação de serviços sexuais, além de ser dinheiro limpo, em caixa, consegui pela primeira vez em duas semanas depositar 500 euros no banco, sem ter tocado na conta bancária para qualquer movimento (tinha pago supermercado, despesas com o carro, alimentação, tabaco e algumas “futilidades” como jantar fora).
    No part-time que tive numa operadora de call center, além de monitorizarem todos os minutos de trabalho, e ser sujeito a um rigoroso controlo de qualidade (sinceramente, nunca ganhei prémios), vivia sobre pressão constante, era insultado enquanto trabalhador.
    Nos serviços sexuais, depois de ter criado um perfil a titulo individual, e me ter informado com colegas, aprendi a negociar. Atendia quem queria, se queria e quando queria. Em duas semanas já tinha clientes fixos (a 80 euros à hora – sim tenho taximetro, nestas alturas), ou a 200 euros por uma noite. Eu apresentava o serviço e os/as clientes compravam, ou não, não existia falta de respeito, ou regatear de preços – uma falha grave de ética, quer por parte do prestador/a de serviços,quer do cliente, no trabalho sexual.

    No quotidiano de um call center, sentia-me frustrado, dois cursos superiores e não passava de um pedaço de carne, pronta a falar e ouvir desaforos de clientes e supervisores. No quotidiano do trabalho sexual, recebia montes de contactos, tinha de decidir o que compensava mais – preocupar-me principalmente com a fidelização do cliente, mais do que com o dinheiro – só porque gera mais dinheiro, não porque eu tenha algum princípio de moral sexual.

    No trabalho sexual também existe concorrência, desde o primeiro momento, recebi e recebo por vezes contactos: ora de sites e agências, que me propõem agendar clientes, e eu só teria de me deslocar – nunca fechei negócio. Ora de colegas de profissão interessados em formar parcerias – há clientes que gostam de contratar vários serviços em simultâneo. e é preciso mais de duas mãos . Encontrei bons colegas, por vezes quando um têm dois clientes na mesma hora, passa o serviço ao colega (lá está o taxímetro outra vez). O/a cliente no hotel ou domicilio está cheio de tesão, quer lá saber se foi a pessoa que viu no catálogo. (até porque como condição sempre disse que não mostraria o rosto, e que a partir do momento em que me deslocasse a um sitio, ou alguém entrasse em minha casa a tarifa era devida).

    Quando se tem um anúncio, existe alguma pressão, e também existem insultos. Sim, normalmente os clientes chamam-me de chulo (os que não interessam, lá está falha a regra do respeito), pois cobrar 80 euros a alguém que apenas se quer vir em cima de uma farda de polícia, ou mamar alguém com a bandeira na cabeça, consideram chulice da minha parte (eu considero negócio). Agora penso, se eu fosse uma mulher deixaria de ser chulo, e passaria a ser uma pobre coitada? (Claro que eu não sou único, tenho muitas colegas)

    Elas, as colegas que conheci, não se consideram pobres coitadas, antes pelo contrário, mas estão longe das das trabalhadoras do intendente, ou dos putos do parque Eduardo Sétimo, aliás, como dizem muitos/muitas colegas de trabalho sexual, elas/eles são putas, nós somos acompanhantes. Eu diria e todxs somos trabalhadores sexuais, mas com diferenças entre nós. No intendente, ou num site de Escortes (não vou aqui fazer propaganda), nós propomos um fetishe e vendemos um serviço sexual (que pode ser o mais diversificado possível), e que têm regras, e também valores distintos, como em qualquer actividade comercial.

    Neste quotidiano, discutem-se coisas, como o melhor estúdio para as fotos a por no site – e acreditem, há estudios que são marca de venda garantida (não vou fazer propaganda), discutem-se coisas como o cliente chato, que deixou de estar fidelizado, e passou a estar fielzado (lá se perde um cliente). Mas também o valor que a nossa identidade pessoal pode ter no mercado. (não, não é só corpo, o que se vende na maioria das vezes é conversa e fetiches, o sexo surge como complemento disso tudo).
    Relativamente ao que nunca fiz, não aceitava fetiches que incluíssem violência física sobre mim. E o que nunca seria negociável, não aceitava práticas sexuais sem protecção.

    Uma curiosidade: recebi alguns convites – sim somos logo sondados pelo mercado, mal aparece gente nova num site -convite para integrar agências ou apartamentos privados, e coincidência ou não nos três casos eram mulheres as donas da ETT (para brincar com as empresas de trabalho temporário).

    O que penso da posição da CGTP sobre a campanha do preservativo (absurda e não creio que alguém lhe dê ouvidos). O que penso da posição da CGTP sobre o trabalho sexual – a CGTP que se meta na vida dos sindicalizados, nós não somos gado, e espero nunca o venhamos a ser, que é a unica conclusão possível que posso tirar desta visão que a CGTP tem sobre uma parte dos trabalhadores.

    O que penso do activismo, pró-trabalho sexual que parece estar a surgir: Detesto que falem por mim, mas detesto ainda mais quando me mandam calar, e os consensos políticos implicam sempre silenciamento de alguns.

    • Claramente não precisas que ninguém fale por ti 🙂 e essa é uma mensagem importante para toda a gente.
      Temos de começar a explicar estas coisas com mais força, só se faz se cada um/a fizer ouvir a sua voz, e também se soubermos unir as nossas vozes.
      Já agora, a posição emitida pela comissão para a igualdade de género da CGTP tem outra grave falha de conhecimento: ignorar a taxa de mulheres heterossexuais (nomeadamente casadas) infectadas com o VIH pelos companheiros. A que situações de risco é que eles vão buscar o VIH? Alguém retiraria o trabalho sexual pago da lista? Não é essa a motivação, correcta em termos de prevenção, da campanha da coordenadora nacional? Então?

      • prestador de serviços diz:

        mas eu dentro do meio que conheco, vejo a prevenção de DST como um factor inegociável, e não falo só por mim. não sei como será com os trabalhadores ou trabalhadoras de rua, mas creio que essa mensagem é muito difundida. possivelmente só os explorados/as não têm opção de escolha

        • infelizmente na rua tenho conhecido algumas situações, igualmente diversas, de aceitação de sexo desprotegido. E em nenhum momento estou a dizer que os dedicados esposos andam a infectar as dedicadas esposas com o VIH apenas ou sobretudo por via do contacto com sexo pago. Uma vez mais, as realidades são diversas, muito diversas.

  15. prestador de serviços diz:

    considero uma falha grave a questão da prevenção. não é ocultando que se previne. muito menos proibindo, ou abolindo através da proibição. O que mais me choca é mesmo a irresponsabilidade no que diz respeito à prevenção de DST’s, com a ânsia de misturarem no mesmo saco tudo. Como se o trabalho sexual fossem só mulheres, como se só as mulheres fossem exploradas. e como se fossem mais exploradas no trabalho sexual do que noutro trabalho. nem tinha reparado que o comunicado vinha de um núcleo encarregado da igualdade entre homens e mulheres.
    lá está, não se pode ver toda a gente como igual, nem todo o trabalho sexual é igual. há para todos os gostos e feitios 🙂

  16. A frase deste imenso debate, que “parabenizo”, é: «O que penso do activismo, pró-trabalho sexual que parece estar a surgir: Detesto que falem por mim, mas detesto ainda mais quando me mandam calar, e os consensos políticos implicam sempre silenciamento de alguns».
    Queria perguntar ao interveniente Rocha, que conhece «inúmeros casos de jovens mulheres enganadas no país de origem levadas por mentiras para um país longínquo para que se prostituam na base de levarem porrada todos os dias», que casos são estes? Conhece-os pessoalmente? É porque as vozes desses casos também deveriam fazer-se ouvir, na primeira pessoa.
    Óptimo texto, Sérgio.
    Abraço.
    Filipa

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