Ainda sobre o livro da Raquel Varela, o JMF e outros opinadores e o PCP

 

 

 

 

 

O livro da Raquel Varela, por demonstrar que o PCP nunca quis dar, em 1974-75, um «golpe de Praga», incomoda – e muito – todos aqueles que usaram esse argumento para darem, eles sim, o seu golpe contra a revolução: Mário Soares em primeiro lugar e todos os outros que se puseram debaixo do seu chapéu no Verão-Outono de 1975.

Para os que não viveram esses tempos, e também para os esquecidos, lembro que não havia na altura cão nem gato que não se dissesse pelo socialismo – até o CDS, ao contrário do que hoje pretende, chegou a dizer-se por um «socialismo humanista»! A opção não estava então, supostamente, entre socialismo e capitalismo, mas entre que tipo de socialismo queríamos para Portugal. A ficção que vendeu Mário Soares era de que ele queria um socialismo democrático, pluralista, enquanto o PCP e a extrema esquerda queriam um socialismo ditatorial, copiado dos países de Leste.

JMF e outros propagandistas do actual sistema percebem que derrubar estas ficções fundadoras do actual regime é perigoso, por isso atacam.

Mas o livro da Raquel também causa incómodo no PCP (e não porque denuncie ‘traições’, etc. e tal. As coisas são o que são e o PCP é o que é, e não pode ser posto em acusação por não ser aquilo que outros gostariam eventualmente que fosse). O que causa incómodo é que o PCP sempre alimentou duas versões contraditórias em relação à sua história na revolução: por um lado, seria um «partido democrático», fundador e respeitador das instituições vigentes; por conseguinte, acusá-lo de querer tomar o poder pela força (o tal golpe de Praga) não passa de uma calúnia. Mas por outro lado, junto da sua base, alimenta a versão de que seria um partido «leninista», isto é, revolucionário, o que implica que só não se teria batido pelo poder – isto é, por um poder anticapitalista, com expropriação da propriedade privada (porque bater-se pelo poder é o que todos os partidos fazem) – porque «a relação de forças» não o permitiria.

Ora como diz o ditado francês, on ne peut avoir le beurre et l’argent du beurre (à letra, «não se pode ficar com a manteiga e com o dinheiro da manteiga», não se pode ter tudo, é preciso fazer escolhas). E a escolha que o PCP deveria fazer era sobre que versão dar de si próprio.

Não vale disparar contra o pianista. A Raquel contou a história com muito trabalho e muita seriedade. As críticas deveriam tentar ter a mesma seriedade (não seria mal começarem por ler o livro, que trata de um tempo essencial da nossa história).

 

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59 respostas a Ainda sobre o livro da Raquel Varela, o JMF e outros opinadores e o PCP

  1. João Pais diz:

    E a Reforma Agrária caiu do céu ou não era anti-monopolista? E todas as empresas onde houve controlo operário? E quem é que era o Partido que estava ao lado dessas lutas, era o PS? E onde estava o Otelo no 25 de Novembro?
    Há um livro muito interessante de Álvaro Cunhal que falta ler a muita gente, chamado “A verdade e a mentira sobre a revolução de Abril!” que fornece boas informações e bibliografia precisosa!
    De caminho, bom sentido de oportunidade para quem enche a boca com a “unidade”… neste quadro não seria mais oportuno algo sobre as tendencias fascizantes dentro do proprio PS?

    • Manuel Maria diz:

      O PCP é um traidor da revolução portuguesa muito mais sinistro e sujo do que essa senhora descreve.
      O PCP tem como objectivo servir a União Soviética e actualmente a Rússia (os mesmos interesses). O PCP efectivamente não queria tomar o poder em Portugal, o que queria era por Angola (o seu petróleo e diamantes) sob influência Russa.
      O PCP traiu a revolução portuguesa, enganou e engana milhares de honestos militantes e cidadãos, tal como os interesses Russos destruíram a grande revolução soviética.
      E agora estamos a caminho de um novo império acima dos EUA e da Rússia – o império do petróleo, que o PCP vai servir pois é o que interessa à Rússia actual.
      No pequeno cenário do Portugal actual o PCP é o grande pilar do sistema, pois ninguém como ele tem a capacidade de levar multidões a lutas administrativas inconsequentes, exactamente as que convêm ao grande capital para continuar a parecer que o sistema é uma democracia

      • António Paço diz:

        Manuel Maria, não vou publicar o seu comentário. Neste blogue participam pessoas de várias tendências políticas, incluindo do PCP, e todos merecem ser tratados com respeito. Podem cruzar-se acusações muito duras, desde que fundamentadas. Aquilo que você faz são acusações gravíssimas, para as quais não procura sequer avançar nenhum dado que as fundamente. Para esse tipo de comentário, bem pode procurar outra tribuna. A. Paço

        • António Figueira diz:

          António, tu não publicaste este comentário, mas alguém o fez, quem não sei, mas pouco importa. O que interessa é q o comentário está errado: o PCP não servia a URSS nem sequer a Rússia, vê o 48, se te apetecer, e pergunta a quem quiseres, à malta morta, torturada, combatente, que a resposta surge sempre límpida e inequívoca, haja espíritos inteligentes, tipo António Maria, para a perceberem: o PCP, o povo português, a classe operária industrial, mais o proletariado agrícola, o campesinato, as classes intermédias, a intelectualidade de merda tipo nós, desde q há PCP, desde q houve sindicalismo revolucionário de classe, desde q houve, antes dele ainda, o radicalismo democrático, e ainda antes, a malta q pura e simplesmente, e antes q chegasse a consciência de classe, não aceitava pura e simplesmente ser lixada – ninguém servia Moscovo: como bem percebeu o António Maria, estamos todos, desde há muito tempo, ao serviço do petróleo puro e duro (isto é, oleoso), e como tal da Arábia Saudita e dos sacanas dos xeiques, é claro, e tudo o mais é treta. Viva, pois, o António Maria, por finalmente ter feito luz nos espíritos! (e com uma simples lamparina de petróleo, para a qual pode procurar sempre as mais versáteis aplicações).

          • António Paço diz:

            Pois, agora está feito e o tal Manuel Maria lá conseguiu ver publicado seu «comentário» trauliteiro. Mas os Manueis Marias ficam avisados: palpites deste calibre só por algum descuido é que serão publicados nos meus posts.

      • Vasco diz:

        Quem é este grande revolucionário que fala assim do PCP? Deves ser o maior revolucionário de todos? Lutas inconsequentes? O PCP não faz acampadas no Rossio, meu caro. Trava, sim, a luta de classes.

        Já agora, o que é uma luta consequente para si, grande mestre?…

      • Sensei diz:

        Eximo. Sr. Manuel Maria

        V. Exa. é um perfeito exemplo de ignorância e inconsequente, irresponsável e profundamente estúpido raciocinio.

  2. LM R diz:

    Bem visto.

  3. joaovalenteaguiar diz:

    António Paço,

    eu não li a obra da Raquel Varela. E acredito que tenha questões pertinentes. O que aqui venho perguntar-lhe é o seguinte. Vc diz no seu texto a certa altura que «versão de que seria um partido «leninista», isto é, revolucionário, o que implica que só não se teria batido pelo poder (…) porque «a relação de forças» não o permitiria».
    Creio que a sua afirmação prestasse a equívocos. Primeiro, porque vc não apresenta nada que corrobore a sua tese que o PCP não quereria geneticamente a revolução socialista. Esse é um problema geral de mta avaliação das revoluções que é achar que qualquer processo revolucionário tenha necessariamente de desaguar no socialismo. Uma coisa é o desejo, outra é a possibilidade. A correlação de forças tb se faz, como é óbvio. Mas existem factores não dispiciendos para a evolução das revoluções sem os quais nenhum voluntarismo das massas (e, sobretudo, de certas organizações) consegue ultrapassar. Basta pensar que em Portugal não houve sovietes criados espontaneamente pelas massas. E comités de fábrica não são sovietes ao contrário do que mta gente pensa. Em segundo, gostaria de o ver apresentar dados em contrário. Ou seja, de como pretensamente a correlação de forças e os factores objectivos e subjectivos em equação seriam favoráveis a uma acção para o socialismo. É que nem haveria NATO, nem Franco, nem isolamento da classe operária do sul (tanto de Lisboa como do Alentejo) relativamente às massas populares no norte claramente tomadas pela direita mais hostil a qualquer tipo de saída socializante do processo, nem correlação de forças nas FA, nem nada… Mas isto são apenas algumas questões que eu não vejo no geral debatidas e que me parecem contar decisivamente para o desfecho de um processo revolucionário.
    E para terminar. Num post abaixo a Raquel Varela diz, e até certo ponto correctamente, que as massas espontaneamente é que ditam o rumo dos acontecimentos e que as organizações que se reclamam pelo socialismo é que vão atrás. Ora, isto está em nítida contradição com o que vc diz aqui, no sentido em que pretensamente a revolução socialista só não teria acontecido pq o PCP não teria como propósito e intenção lutar pelo socialismo. Então em que ficamos? São as organizações políticas socialistas que ditam o avançar dos processos ou são as massas? Ou as duas coisas, de acordo com o estado de desenvolvimento de um processo? Inclino-me para esta última. Mas, como disse, isto são apenas questões que gostaria de lançar para debate, mais do que apresentar respostas para assuntos que eu não tenho competência para atalhar.

    • António Paço diz:

      João Valente Aguiar, você levanta questões muito pertinentes, mas eu para responder-lhes precisava de escrever um livro. Do livro da Raquel – do acompanhamento que faz da situação e da política do PCP e de outras forças políticas – podem inferir-se respostas a algumas dessas questões, como a das comissões de trabalhadores (que não são sovietes, estamos de acordo) e de porquê não se desenvolveram e centralizaram, junto com as de moradores e de soldados. E aí já os partidos têm um papel muito importante, decisivo.
      Quanto à relação entre os processos revolucionários e os candidatos a dirigi-los, talvez tenhamos também a mesma opinião: há momentos em que os/as (candidatos a) direcções andam um bocado aos papéis e há momentos em que têm um papel determinante no rumo dos acontecimentos. Na revolução portuguesa não foi diferente.

      • LAM diz:

        António Paço, eu acho que vc coloca muito bem a questão, bem como Raquel Varela (isto pelo que li aqui, não li o livro). Pela vivência de alguns acontecimentos que tive e, apesar de toda a subjectividade que isso encerra, pergunto-me de que condições objectivas estaremos a falar quando dizemos que a “relação de forças” não permitiam avanços revolucionários:
        1- as lutas populares e a vontade de mudança do povo ou,
        2- o controlo dessas lutas por parte do PCP na altura?
        Ora, acho que alguma perda de controlo da situação por parte do PCP nessa época, (que em determinados momentos e até aí, funcionou como tampão de algumas lutas, como referido por Raquel Varela), concorre, não em absoluto mas em parte significativa, para a caracterização da situação por parte do PCP, bem como as “versões contraditórias”, por si bem referidas, sobre a maneira como o PCP conta a sua “estória” do período revolucionários pos 25A.

        • Vasco diz:

          Tampão de lutas? Não vêm outra vez com a Lisnave e a TAP, feitas por (supostos?) esquerdistas para matar à nascença o processo revolucionário?…

      • Pedro Penilo diz:

        António Paço

        A “sua versão” é ela própria uma contradição e é falsa. É uma contradição pois o próprio “leninismo” exige, como bem sabe, ter em conta a “correlação de forças” a cada momento. Não há portanto nada de anti-leninista na posição do PCP, nem sequer para “consumo interno”.

        É falsa porque o PCP não tem a tal “versão interna” que o António Paço agora foi buscar. Em múltiplos documentos do PCP e de Álvaro Cunhal, o que se afirma é precisamente que o 25 de Novembro foi um golpe contra-revolucionário que usou como pretexto uma hipotética tomada do poder pelo PCP. O 25 de Novembro existiu para travar a revolução, sim, mas a revolução que se vinha fazendo através da luta de massas e da legalidade revolucionária.

        O que verdadeiramente chateia ao PCP é meterem-lhe na boca e no corpo iniciativas que não teve, enquanto que teses “por demais externas” o criticam, isso sim, por não ter feito o que outros gostariam que o PCP fizesse: ou seja; meter o seu couro, cabelo e sangue em representação dos críticos de bancada.

        É aliás um tique que prevalece, a quantidade de “encomendas” ao PCP para fazer isto e aquilo, que outros gostariam que se fizesse, mas sem arriscarem a sua própria cabeça.

    • Comités de fábrica? Em Portugal, e em português, houve Comissões de Moradores e Comissões de Trabalhadores. E umas coisas na tropa aparentadas. Não se constituíram como sovietes? Pois não. É certo que as condições para que tal ocorresse não existiam e estou de acordo que isto de revoluções socialistas fazem-se quando existem condições históricas e não quando nos apetece.
      Mas tem a sua graça ver quais foram os partidos que se empenharam em fazer deles um embrião de sovietes (que nalguns casos, mais avançados para usar gíria da época, chegaram a ser), e quem a tal se opôs terminantemente. Não, não foi o P”S”, que assim grafo numa de nostalgia revolucionária, sempre actual e pertinente.

  4. FOREVER PROVINCIANO?

    Eu tenho curso superior, tal como os meus pais e os meus irmãos. Quer pelo esforço, quer pelos sacríficios, respeito quem seja formado na universidade e afins. Porém, e com todo o respeito pela Raquel que revelou o seu CV neste blogue, penso que somos ainda um povo bastante provinciano, ou seja, ainda se dá demasiada importância aos títulos.

    E sei do que falo. Ao longo da minha vida tenho convivido com pessoas de todas as classes e de diversas formações (com ou sem grandes habilitações literárias). Uma coisa tenho a certeza neste país onde tenho vivido: estamos no século XXI, mas há coisas que não mudam nunca. Gostamos de parecer, do que propriamente ser. Tenho conhecido muitas pessoas interessantes sem qualquer curso, a não ser o da vida, e pessoas petulantes só porque o menino ou a menina tem mestrado ou é doutorado (e outras coisas mais). Claro que neste último capítulo também existe quem realmente não precise de andar com esses títulos cravados na testa para impor as suas opiniões.

    Os meus pais fazem parte de uma geração em que tratar por Dr. ou Engenheiro é coisa importantíssima. Compreensível. Nessa altura, quem tirava Mestrado era mesmo Mestre…Hoje é o que é, na maior parte das vezes: alguém que não consegue profissão na sua área e estuda até ao fim da linha só para encher o tempo. Há excepções, claro…

    Os títulos, no fundo, reflectem o povo que conseguimos ser após o “boom” dos milhões que nos injectaram após a entrada na Comunidade Europeia, isto é, vive-se no reino das aparências. É o político que disfarça que não está interessado no tacho e só lhe interessa servir o país; o fulano que tem o particular gozo em ter o melhor carro que o vizinho, mesmo que não tenha dinheiro para isso; ou o nº de divórcios que acontecem por ano, apesar dos casais quererem dar o ar de “felizes para sempre” (agora com o FMI aí nem tanto…).

    Mas, nem tudo é mau. Antes do mítico dia 25, aparentava-se que não se passava fome. Hoje, também há, mas há prazeres que ajudam a passar o tempo. Bem haja os centros comerciais…

    Assinado: ogajoadoranortenhas@nullgmail.com

    • António Paço diz:

      Esta, na verdade, quem devia respondê-la era a Raquel. Mas chamo-lhe a atenção para o seguinte: o José Manuel Fernandes, quando se lhe referiu, pôs entre aspas «historiadora». Desde que a Raquel pôs o currículo no post, não houve mais nenhum «jornalista» nem «opinador» a contestar que ela o seja. É uma medida estilo Madrid do Mourinho: pode não parecer a jogada mais bem desenhada, mas a eficácia foi a 100%.

  5. Leo diz:

    “A Raquel contou a história com muito trabalho e muita seriedade. As críticas deveriam tentar ter a mesma seriedade (não seria mal começarem por ler o livro, que trata de um tempo essencial da nossa história).”

    É então disso que se trata vender o livro da Raquel? No início de uma muito importante campanha eleitoral? Haja pachorra!

    • António Paço diz:

      É isso, Leo. Vá lá comprá-lo e leia-o. Não conhece aquele tipo um bocadinho careca que dizia «Aprender, aprender sempre»?

      • Leo diz:

        Cada um sabe das suas prioridades e eu sei que tenho uma importante campanha eleitoral e que o dia só tem 24 horas.

  6. vítor dias diz:

    Pois eu creio que, nas suas linhas mais importantes e profundas, o que a obra de Raquel
    Varela mais ofende é o principio que você aqui formulou de que «As coisas são o que são e o PCP é o que é, e não pode ser posto em acusação por não ser aquilo que outros gostariam eventualmente que fosse».

    Foi isso mesmo que critiquei a propósito de algumas das suas teses quando escrevi aqui em
    http://tempodascerejas.blogspot.com/2008/11/combates-da-memria-29.html o seguinte :

    «2. Acontece que a Profª Raquel Varela no seu papel de historiadora, que comporta ou devia comportar exigências e metodologias específicas, tendo como cidadã assumido determinadas concepções ou posicionamentos ideológicos, passa a olhar a actividade e orientação do PCP entre Maio e Outubro de 1974 pelo filtro das suas próprias opções pessoais e, por este via, formulando apreciações e juízos críticos e despejando epítetos pouco apropriados numa historiadora («erguer estátuas» etc.») sobre o PCP como se o PCP devesse ter sido nesse período da vida nacional um fiel executor das concepções e teses que sempre combatera firmemente, em vez de, como fez, agir de acordo com a sua análise e reflexão anteriores sobre a situação nacional, sendo entretanto de relevar que o fez não de uma forma rígida ou mecanicista mas antes revelando uma enorme criatividade e abertura e compreensão para as «surpresas» e «novidades» do processo iniciado em 25 de Abril ( como se revela pela sua imediata valorização do papel do MFA e pelo lançamento da ideia central da Aliança Povo-MFA).»

    • António Paço diz:

      Vítor Dias, uma coisa é fazer acusações estridentes, que é coisa pouco recomendável. Outra é desenterrar factos e discuti-los. Haverá coisa mais pública e discutível que as políticas de um partido? Por definição, elas são isso mesmo: públicas e discutíveis.
      Quanto à questão de se os historiadores podem ou não fazer história séria, científica*, tendo ao mesmo tempo posições e militâncias cívicas e políticas, julgo que já foi (bem) discutida recentemente aqui no 5 Dias e noutros blogues, pelo que não vou acrescentar nada.
      (*Esta do científica não é para si, mas para os tipos que parece acharem que só a física ou a química é que podem ser científicas, mas as ciências sociais não, como se charlatães, por um lado, e bons profissionais, pelo outro, só os houvesse na história e nunca noutros ramos da ciência.)

    • António Paço diz:

      Armando Cerqueira, se quer dizer esse tipo de coisas desagradáveis ao Vítor Dias, sugiro que o faça no blogue dele, ‘O tempo das cerejas’, onde ele poderá decidir se lhe dá ou não troco. Não me parece que caiba fazê-lo aqui.

      • Armando Cerqueira diz:

        António Paço: eu não escrevi coisas ‘desagradáveis’ ao Victor Dias, antes lhe fiz uma crítica justa quanto à superficialidade e ao sectarismo duma pretensa ‘crítica’ dele, bem como à sua cegueira platónica (a caverna do idealismo subjectivo de Platão).
        Estava habituado à censura salazarista dos anos 60-65 quando colaborei no ´República’. Não esperava que você também praticasse a censura… de ideias.
        Aliás há neste poste sobre a obra da Raquel, sua mulher, textos bem mais violentos e menos educados do que o meu que você censurou. Enfim problemas de incoerência…

        Armando Cerqueira

        • António Paço diz:

          Armando Cerqueira, agora acho que já não consigo repor o seu comentário anterior (sobre o Vítor Dias), mas lembro-me de que terminava a dizer-lhe «descanse em paz», que é uma frase que me parece de bastante mau gosto numa troca de ideias (equivale a desejar a morte de alguém). É verdade que por aqui aparecem coisas violentas e um bocado para o trauliteiro. A minha preocupação não é de censurar, mas de editar, coisa que todos os jornais fazem. É como usar os cartões amarelos e vermelhos para impedir que um jogo de futebol descambe num arraial de sarrafada. O critério do árbitro é criticável? Claro que é. Mas é necessário. E, voltando a este caso concreto: para dar recados ao Vítor Dias não é melhor dar-lhos no blogue dele directamente?

  7. miriam diz:

    Patati patata-o certo é q depois do 25 de abril os fascistas desapareceram(foram mortos no campo pequeno?) e só restaram comunistas e democratas-foi uma carnificina do caraças!Ainda houve um ramiro moreira e outros,pruque(sic!) ‘é a vida’!É só democratas e gente amiga da ditadura-os comunistas!Apesar do nivel de vida se ter agravado,das desigualdades,dos morticinios é tudo uma ganda democracia-excepto qdo Hugo Chavez ganha as eleições,o q se torna numa ditadura,claro!!!!FMI.ffffeeeefff,democratas,o roubo do petroleo no Iraque onde manifs são esmagadas democratica/ para as 4 irmãs continuarem a sugar-é tudo democracia.Libia,petroleo,ouro,água tudo para ficar na democratica america q já tem leis para reprimir(Matar,por em Gulags,o proprio povo qdo se rebelar o q,pelas minhas contas não deve tardar muito…).M’enfin,desculpe-me o desabafo é q ontem vi/ouvi uns gajos terroristas a falar de q esta malta não deve ter direito a nada enquanto eles,é em grande.Talvez se fodam:por minha vontade era já hoje.É q não posso com terroristas!!!!!

  8. sportiguista ateu diz:

    Das maiores vitórias do socialismo em portugal foi a “exemplar” nacionalização dos bancos e a consequente indemnização “exemplar” aos respectivos donos. Foi só lucro!

    Agora, de uma grande dignidade, foi a obediência de uns tantos alentejanos ocuparem com suas enxadas e foices, as herdades alentejanas.

    Como uns tantos “inteligentes” conseguiram convencer esses tantos alentejanos a praticar tal façanha, é que deixa qualquer português de hoje, boquiaberto!

  9. Bolota diz:

    João,

    Não há equívocos nenhum a haver é que tu queres baralhar para voltares a dar.
    O Crime que a Raquel cometeu foi o de trazer a lume falsas teorias e de sentido unico.
    Já agora tu que percebes disto a potes…na segunda feira comemoraste o 25 de Abrl ou o 25 de Novembro???

  10. xatoo diz:

    muito interessante, para a compreensão da Aliança Povo-FMI

  11. Rocha diz:

    Ser democrático e leninista revolucionário não é incompatível. Muitas guerrilhas marxista-leninistas que levaram a sua luta até às últimas consequências em confronto armado aceitaram participar na democracia burguesa em nome da paz. Tanto a paz como a guerra popular são revolucionárias dependendo das circunstâncias.

    Num país a sair de uma guerra colonial, com um povo clamando por eleições, com uma correlação de forças militar desfavorável, queriam alguns uma guerra civil? O camarada Cunhal tem uma resposta muito certeira para os aventureiros, querem luta armada? Façam na! E não fiquem só no paleio que o PCP podia, que o PCP não quis… é que os bitaites não vencem guerras civis.

    • joaovalenteaguiar diz:

      «não fiquem só no paleio que o PCP podia, que o PCP não quis»

      100% de acordo. Até agora ninguém me conseguiu convencer que seria possível uma revolução socialista em 75 no nosso país, dados os factores em jogo. E não era só guerra civil, era tb a possível intervenção da NATO e do Franco. Por outro lado, quem é que lutou de facto, com realismo e de acordo com o leninismo, pelo avanço do processo revolucionário? O PCP. Pena é que mta gente de esquerda se preocupe mais em criticar o PCP pelo que pretensamente não fez e não se preocupe, por um lado, no que não fizeram e, por outro lado, porque as massas populares mais avançadas que fizeram a Reforma Agrária e que viviam/trabalhavam nos concelhos industriais dos distritos de Lisboa e Setúbal estavam com o PCP.

      • José diz:

        «não fiquem só no paleio que o PCP podia, que o PCP não quis»
        Será, mas não vejo é como se pode ser simultaneamente adepto da democracia parlamentar e leninista revolucionário.

      • António Paço diz:

        Essa conversa de que o PCP fazia/faz e os outros (à sua esquerda) falavam/falam, «ficam só no paleio», conversa que você, João Valente Aguiar, já usou mais do que uma vez, e outros, como o Rocha, aqui replicam já começa a cheirar mal. Está mesmo convencido disso? De que o PCP era a formiga e os outros a cigarra? Quantas comissões de trabalhadores, de moradores, de soldados, quantas comissões sindicais acha que os militantes da chamada extrema esquerda criaram e dirigiram ou co-dirigiram durante a revolução? Quantas greves, quantas ocupações, quantas acções de esclarecimento promoveram? Quantos problemas básicos dos bairros populares, dos bairros de barracas, foram resolvidos por iniciativas deles, quantas acções de alfabetização foram feitas pelas suas mãos?
        Em parte destas acções, em muitas até, estiveram ao lado de militantes do PCP. Mas também houve outras em que tiveram de confrontar-se com o arrastar de pés ou com a oposição declarada de militantes do PCP (porque era preciso dar tempo ao tempo, ao Governo Provisório, ao MFA…). Durante meses, o PCP acusou as greves e os grevistas de «fazerem o jogo da reacção». Sabia disso? (Também está documentado no livro da Raquel, tal como estão documentadas outras acções mais meritórias, como as mobilizações contra os golpes de direita, por exemplo.)
        Não sei que idade você tem, ou tinha na altura, mas se quiser, e mantendo o espírito de cordialidade, podemos um dia destes tomar uma bica e trocar umas ideias sobre o assunto.

        • Rocha diz:

          Não sei se o António leu bem o que eu escrevi, não era disso que eu estava a falar. Eu não falei da luta social mas sim do 25 de Novembro, ou seja, da eventual disputa militar. Não falei do que o PCP fez mas sim do que decidiu não fazer, instando aqueles que se queixam do não feito a fazerem eles mesmos.

          O PCP na altura decidiu não arriscar a vida de muitos milhares de pessoas (das suas fileiras e não só) numa guerra civil e atendendo à correlação de forças militar e outros aspectos que mencionei creio que foi a decisão correcta.

        • joaovalenteaguiar diz:

          Xiii… Isto já vai na idade… Não era nascido em 75, para o bem (isso faz com que hoje seja mais novo) e para o mal (não vivi o 25 de Abril).

          Eu não disse que o livro da Raquel Varela não terá o seu valor. O que me interessa discutir é o facto de até hoje ninguém ter conseguido provar porque a correlação de forças (que é obviamente um processo dinâmico) não contaria num contexto revolucionário. Houve erros, houve contradições nas acções do PCP e seus aliados? Claro que sim. Se até o Partido marxista mais bem-sucedido até hoje, o Partido Bolchevique, cometeu erros (e refiro-me aqui só ao processo de tomada do poder no ano de 17) porque o PCP não poderia cometer? A questão, para mim, não é essa. Creio que o discurso do género “isto não foi para o socialismo pq o PCP não quis” (discurso veiculado por mta gente na chamada extrema-esquerda, seja ela trotsquista, maoísta, ou outra) é mto redutor. Por um lado, isso parte do pressuposto voluntarista dessas visões. Por outro lado, parece-me que se analisa o PCP (e mesmo outras organizações) à luz do que disse ou não disse e estuda-se pouco as condições objectivas e subjectivas em jogo no tabuleiro, o posicionamento das classes e fracções de classe no xadrez político de então, etc. E sobre isto penso que ainda falta distanciamento para se analisarem estas questões essenciais. E digo essenciais porque creio que são relativamente transversais a todos os processos revolucionários.
          Cumprimentos

          • António Paço diz:

            JVA, não sabia que era tão novo, e muito menos a intenção seria desclassificar as suas opiniões devido à pouca idade. O convite para a bica/conversa mantém-se: talvez na próxima almoçarada do 5 Dias?

        • Vasco diz:

          Quantas não sei mas muuuuuuuuuuuuuuuito menos do que fez – e faz – o PCP. Não “erotizemos” a luta, como se estivesse desligada do contexto geral. Tal como qualquer outra coisa, uma greve ou uma ocupação pode servir vários interesses que não os do socialismo ou da revolução. A contra-revolução no mundo está cheia de greves e manifestações que não passam a ser justas por serem greves e manifestações. Sabia que na Lisnave a administração apoiava as listas da UDP à CT, para reduzir a influência do PCP?… Sabia, certamente. Mas que interessa isso agora?

      • Armando Cerqueira diz:

        Exactamente. Para instaurar o Socialismo eram/são necessários vários ingredientes, além de condições propícias objectivas e subjectivas. O Dr Álvaro Cunhal compreendeu-o lucidamente. O Gen Costa Gomes também, entre outros. Mas faltava o tal ingrediente essencial: socialistas. Autênticos socialistas, quer no PCP, quer no P’S’, quer na esquerda Radical havia, finalmente, muito poucos. As massas populares estavam corrompidas e ludibriadas pela burguesia capitalista (o JMF que perdoe a terminologia tão do seu desgosto, mas é a única aplicável…) do partido caplitalista reformista disfarçado de ‘socialista’.
        O Dr Cunhal, o Gen Vasco Gonçalves, mesmo o Cap Vasco Lourenço e outros dos (i)’moderados’ bem tentaram um entendimento do P’S’ com o PCP. O inefável Dr Mário Soares e correlegionários da ala direita ‘socialista’ tudo fizeram para inviabilizá-lo. Não queriam revolução social mas sim domínio político-social das suas classes (média e pequeno-burguesia) e manutenção da exploração do homem pelo homem. O resultado seria um qualquer ’25 de Novembro’, preparado desde há muito. Soares era, aliás, o amigo lusitano das autoridades norte-americanas e o político escolhido para inviabilizar uma solução revolucionária.
        Enfim, há que ler a documentação já publicada da época com olhos imparciais mas criticamente.
        Outra questão: o PCP não é nem o detentor da verdade nem intocável. Deixem essa bodega da escolástica ‘marxista-leninista’ e sejam marxistas/marxianos. Usem e abusem da metodologia de Marx e Engels, que previlegiavam o método e abominavam o sistema filosófico, que é sempre finalista, teleológico.
        Saudações

        Armando Cerqueira

        • Rocha diz:

          Ó Armando sinceramente! “Não sejam marxista-leninistas” “sejam marxista/marxianos”??

          Ó Armando, estava a falar bem, estava a dar a sua opinião e tinha de borrar a pintura no fim do comentário… tentando formatar-nos a cabeça.

          Não sejam isto, sejam aquilo? Mas quem é você para nos dizer o que devemos pensar, que ideologia devemos ter?

          Isso é aliás de uma presunção e arrogância sem nome! E de uma imensa infantilidade!

          Caro, Armanado seja “marxiano” e seja o que você quiser e respeite a liberdade de pensamento dos outros!

          • Vasco diz:

            Cá para mim sou marxista-leninista. Marxiano não sei o que é. E concordo, borrou a pintura, até estava a ir bem…

    • Vasco diz:

      Muito bem, Rocha, 100% de acordo!

      Mas eles têm um problema. Falam porque só podem mesmo falar. Quem tem a organização, os combatentes de vanguarda, os militantes e a CORAGEM para lutar onde se trava a luta de classes é, no plano político, o PCP. E mais ninguém. Não é? Então quem é?

  12. DrStrangelove diz:

    É indisfarçável o odor a revisionismo na entrevista da Raquel… Porque é que o PCP quer, à viva força, que a sua história seja unicamente de heroísmo e vitimização? Porque é que nunca vimos o PCP arrepender-se publicamente do branqueamento (sic) que fez e continua a fazer de regimes totalitários muito mais repressores que o salazarismo?

    O PCP lutou muito, muito mesmo. Mas não pela Democracia e pela Liberdade.
    Lutou pelo derrube do Estado Novo, o que é substancialmente diferente.

  13. Ho Chi Mihn diz:

    Mas agora fiquei confuso! Estamos a falar duma tese de doutoramento ou dum ajuste de contas com o PCP? Ah pois é!! História “científica”.

    É caso pra dizer que, no início da investigação, a Raquel já sabia as conclusões a que ia chegar, o que é meio caminho andado para se poder pensar que investigou e escreveu de acordo com os seus PRÈ conceitos… Honestamente, quem a conhece, sabe que é assim. Repara que nisso não vejo crime, mas a consequência lógica de se viver em sociedade.

    Fraternalmente: parabéns pelo grau académico e pelo livro publicado. Mas não queiram é vender a vossa interpretação como a “verdade científica” só porque um júri atribuiu uma boa classificação e a bertrand publicou. O facho do freire antunes também pode dizer o mesmo das suas investigações “científicas” no campo da história contemporânea.

  14. miguel serras pereira diz:

    Eis um post bem construído e muito inteligente sobre o assunto – pelo menos para quem, como eu, não conhece ainda o livro da RV.
    Não sei se confirmando – e até que ponto – se divergindo – e até que ponto – da leitura do António Paço, gostaria de chamar a atenção para dois pontos.
    1. É empiricamente indiscutível, creio, que, como AP diz, a iniciativa ora pertence à base (“classe” ou “multidão” compósita), ora às organizações de tipo partidário ou sindical de militantes, em torno de um programa e de concepções “anteriores”, ainda que reformuláveis em função das circunstâncias. Mas o problema é outro: faz parte da concepção do PCP, da sua leitura do leninismo, a afirmação de si próprio como O Partido – e não UM partido – dos trabalhadores, a “consciência organizada” da classe ou conjunto das forças populares. Daí, creio, que uma condição prévia à sua aposta na radicalização da luta política tenha sido a necessidade (subjectiva, sentida pelo PCP) de as enquadrar e poder guiar q.b. Só isso explica que de uma posição de alerta e oposição à vaga grevista e reivindicativa dos primeiros tempos da Revolução, à definição de limites bastante estritos para o papel de comissões de trabalhadores, etc., o PCP tenha gradualmente passado a atitudes mais “intransigentes”, sobretudo a partir do 11 de Março – embora continuando a manter a posição de que se não tratava de fazer no imediato uma “revolução socialista”.

    2. Não devemos sobrestimar, parece-me, as divisões que possam ter existido dentro do PCP, eventualmente ao nível da direcção. Devemos, sim, ver que, independentemente do juízo que façamos sobre os seus objectivos (e o meu é severo), a divisão objectiva teve decerto a ver com a natureza desses objectivos comuns. Ao contrário do que hoje se passa, existia ao tempo um “campo socialista” cujo reforço a nível internacional (hoje, dir-se-ia “global”) era tão importante para a direcção como o reforço da posição do PCP no quadro nacional. Embora, em última análise, esses dois objectivos fossem “solidários” e inseparáveis, na prática a sua conjugação levantava problemas de prioridade, equilíbrio, etc., podendo dar lugar a exigências contraditórias. Era necessário, do ponto de vista do PCP, que a acção política interna não comprometesse o reforço do “campo socialista”, não ameaçasse a “coexistência” e os seus compromissos, não se afastasse da linha geral do que já não era uma Internacional Comunista, mas continuava, apesar de tudo, a sê-lo um pouco e a ter o seu centro de gravidade – ou, como diria Cunhal, o seu “sol” – na URSS.

    Seria preciso, sem dúvida, todo um trabalho de análise e reflexão a partir destes dois pontos. E claro que está fora de questão aqui mais do que indicá-los, porque me parece valer a pena tê-los em conta.

    Saudações democráticas

    msp

  15. xatoo diz:

    “estavam com o PCP”, claro que “estavam”. Enquanto o PCP no 25 de Novembro mandou os militantes para casa sossegadinhos da vida depois da direcção do partido ter cozinhado um acordo com a facção moderado-reaccionária dos militares, havia dois mil activistas da esquerda radical à porta da quartel da Trafaria exigindo a entrega de armas para não deixar passar o golpe. Mas claro, os revisionistas enchem a boca de revolucionarite, tentam re-escrever a história, e os que estavam dispostos a arriscar a pele pelo futuro são apagados, hoje em dia já não entram na cassete oficial. É assim que as coisas se passaram, é assim que as coisas são vistas hoje: adira ao PCP, de reforma em reforma até à contra-reforma total e à derrota final

  16. closer diz:

    O que irrita nisto tudo, nos mais dedicados militantes do PCP é que, segundo eles, o Partido nunca cometeu erros, ou se os cometeu, calam..se muito bem caladinhos. Há aqui uma espécie de infalibilidade quase papal e que releva (como tenho tentado mostrar ao João Valente Aguiar noutros posts, embora com fracos resultados) de uma visão profundamente religiosa dos factos. O PCP teve um comportamento exemplar durante o PREC: num dia impulsionava a FUR contras forças de esquerda, no outro dia aliava-se ao grupo dos 9. Impulsionava a reforma agrária, mas opunha-se fortemente à ocupação de casas em Lisboa; defendia os direitos dos trabalhadores, mas opunha-se ao que chamava de greves selvagens instigadas por esquerdistas e que destruíam a produção nacional; era anti-imperialista mas hostilizava as manifestações contra a NATO. Em nome da aliança POVO-MFA nunca se opôs a estrutura profundamente anquilosada da maioria das Forças Armadas, a mesma que fez o 25 de Novembro. Independentemente de haver ou não condições para uma revolução socialista em Portugal, parece-me que o PCP utilizou sempre uma estratégia dúbia de ter um pé na revolução e outro na instituição (mesmo no tempo de Pinheiro de Azevedo continuou a fazer parte do governo).

    O problema não é o PCP ter cometido erros nessa altura, como noutras. Todos os cometeram e cometem e muito mais numa época conturbada como essa. O problema é que a visão profundamente religiosa que os anima, transforma os fogosos militantes do PCP que aqui escrevem e comentam, numa espécie de fanáticos integristas da pureza do Partido, da justeza adas suas posições em todos os momentos e situações, a mesma receita que é suposto o Papa ter: o dom da infalibilidade.

    Apenas mais uma pista: pouco depois do 25 de Novembro, um militante comunista dizia-me que pelo menos tinha sido preservado o essencial: que Angola tinha sido entregue ao MPLA. Será que isto ajuda alguma coisa ao tema em discussão?

    • LAM diz:

      Muito bem, Closer. A única diferença é que eu não lhe chamaria “erros”: faziam e fazem parte de uma estratégia e modo de actuação típica que se verificou nessa altura, que se verifica hoje com as tentativas de boicote e apoucamento de todas as iniciativas que não têm o “partido” como organizador e que se verificou em algumas situações mesmo antes do 25 de Abril. Daí que as “condições objectivas” no período pós-25A, segundo e nas leituras do PCP, têm de ter este factor em conta.

      • miguel serras pereira diz:

        Muito bem, LAM. Uma coisa são os “erros” e outra os “objectivos”. Importa distinguir entre os objectivos políticos de fundo do PCP, que podemos recusar politicamente, e os erros que comete, na perspectiva dos seus interesses, ao procurar assegurá-los.

        msp

      • Vasco diz:

        Boicote? Apoucamento? Se estamos nas coisas é porque «queremos controlar» se não estamos porque boicotamos e apoucamos. Se são assim tão bons façam as revoluções sozinhos, não percam tempo com o PCP, esse reaccionário. Ganhem juízo!

    • Vasco diz:

      Erros? Cometemos, certamente. Alguns até os reconhecemos e corrigimos ao longo da nossa longa e heróica história (os documentos do Partido são, nesse aspecto, ricos). Aliás, só não comete erros quem nada faz.
      Agora isso é uma coisa bem diferente do que a acusação de que o PCP não quis o socialismo, que mandou os militantes para casa e blá, blá, blá. O socialismo não se constrói apenas por vontade dos revolucionários. A força da burguesia, as alianças sociais, a conjuntura internacional são, entre outros, factores determinantes. Visão religiosa? Não sei do que fala, sinceramente. Aqui discute-se e debate-se, com visões mais ou menos diferenciadas, todos os aspectos da situação nacional e mundial, da organização do Partido e da intervenção partidária. E age-se. Com chama, com animo e com determinação, sim.
      Quanto ao militante que lhe disse isto ou aquilo nem comento. Não é argumento válido o que uma pessoa diz ou deixa de dizer…

  17. Ho Chi Mihn diz:

    Aqui o problema não são os “erros” de análise ou de acção do PCP. Erros por erros, os “paizinhos” lénine & trotsky também comteram os seus.

    Tão pouco se põe em causa (eu plo menos não ponho mesmo sem ter lido o livro) o valor do trabalho da Raquel.

    A questão é bem simples: manifestamente há pessoal que acha que o PCP traiu conscientemente o processo revolucionário porque nunca quis fazer a revolução socialista, mas antes manter uma espécie de capitalismo democrático. E assim, por coerência, só lhes resta (que é o que fazem) incluir o PCP no ramalhete das forças contra-revolucionárias, juntamente com o PS, o PPD, o CDS (e já agora os MRPP e os PCPMLs). E isto, bem: isto diz tudo, não é?

    • Vasco diz:

      Diz sim. E o PCP não traiu o processo revolucionário. Nem consciente nem inconscientemente. Pelo contrário, se houve processo revolucionário é porque o PCP esteve lá, com os trabalhadores – nos campos do Alentejo, nas fábricas de Lisboa e Setúbal. Poderão outros dizer o mesmo?

  18. Portela Menos 1 diz:

    Comprei hoje, já li 41 páginas e estou a gostar!

  19. António Paço diz:

    Um provocadorzito que assina «jal» fez um comentário onde diz que «Os aventureiros esquerdistas conseguiram o que queria, cumpriram o seu papel histórico, a reacção pagou-lhes e paga-lhes bem». Pois bem, jal: ou apresenta uma factura desses supostos pagamentos, ou não lhe dou troco. Desampare a loja!

  20. Vasco diz:

    E sobre a traição do PCP e a “pureza” ideológica de maoístas, trotsquistas e afins, recomendo a leitura d’ O Radicalismo Burguês de Fachada Socialista’. Esse não foi publicado pela Bertrand, mas ‘também’ é bom…

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