Chávez trai solidariedade

Joaquín Pérez Becerra à chegada a Bogotá

De todos os autarcas eleitos, na Colômbia, pela União Patriótica, só dois sobreviveram. Milhares de militantes, de candidatos e eleitos foram assassinados de norte a sul do país pelo Estado e pelos paramilitares. O terror que se abateu sobre a candidatura da esperança não deixou muitas alternativas. Muitos juntaram-se às FARC, outros refugiaram-se no estrangeiro. Um dos autarcas sobreviventes partiu para a Suécia com o acordo do Partido Comunista Colombiano e da União Patriótica. Em 1994, Joaquín Pérez Becerra deixava para trás Corinto, localidade da região do Valle del Cauca.

Na Suécia, dedicou-se a organizar a solidariedade com a luta do povo colombiano. Criou a Agência de Notícias Nova Colômbia (ANNCOL) e chegou a promover junto do Estado sueco conversações com as FARC por uma solução política e negociada para o conflito. O trabalho de Joaquín Pérez Becerra pela paz e contra o terrorismo de Estado é amplamente conhecido em toda a Europa por quem acompanha de perto a situação política da Colômbia. Já com a nacionalidade sueca, nunca teve quaisquer problemas com a polícia naquele país da Escandinávia.

Daí a surpresa quando se soube que Joaquín Pérez Becerra havia sido detido no Aeroporto Simón Bolívar, em Caracas. Sob a desculpa de que estava nas listas de procurados pela Interpol como membro das FARC, a polícia venezuelana deteve-o. O governo venezuelano emitiu rapidamente um comunicado em que destacava que a detenção de Joaquín era um exemplo da sua luta contra o “terrorismo e o narcotráfico”. A reacção do Partido Comunista da Venezuela, do Movimento Continental Bolivariano, do sindicato Unete e de muitas organizações populares foi clara. Deter e extraditar Joaquín Pérez Becerra para a Colômbia seria uma traição à solidariedade internacionalista e até à legislação uma vez que o jornalista colombiano tem nacionalidade sueca.

Em tempo recorde, o governo de Hugo Chávez autorizou a extradição. Nas televisões colombianas, o presidente Juan Manuel Santos destacou as excelentes relações com o homólogo venezuelano e a pronta resolução do caso Pérez Becerra. Mas não é a primeira vez que o faz. Nos últimos anos, vários membros das FARC foram extraditados para a Colômbia. Vários bascos, que estavam com o estatuto de refugiados políticos através de acordos entre os presidentes Carlos Andres Pérez e Felipe González, também foram extraditados para o Estado espanhol. Outros, foram detidos ou impedidos de entrar na Venezuela.

Com esta decisão, Hugo Chávez não só trai um dos princípios básicos de qualquer revolucionário como descredibiliza o processo bolivariano. Para além do aprofundamento das contradições no seio da experiência venezuelana, a imagem que fica é a de um governo que se ajoelha perante as exigências e as mentiras do imperialismo. Num processo verdadeiramente revolucionário não se pode querer agradar a todas as partes. Se o presidente venezuelano prosseguir com a traição à solidariedade internacionalista, o mais provável é ficar isolado.

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13 respostas a Chávez trai solidariedade

  1. miriam diz:

    Lamentalvel,Hugo.Olha o que os campeões do antiterrorismo fizeram com o luis posadas carrilles.Tosco!!!!Já parece o Otolo…

  2. Luís Rocha diz:

    Como membro de uma organização de solidariedade com a Venezuela, foi este tipo de coisas que me fez mudar de posição sobre a Venezuela. A minha solidariedade já não vai para o governo venezuelano, nem para Chávez (que costumava ser o melhorzinho entre uma maioria de ministros descaradamente reformistas e corruptos), mas apenas e só para o povo venezuelano e as organizações sociais e políticas.

    Desde o ano passado que eu temia que isto estivesse a acontecer. As primeiras notícias deste tipo de coisas são do ano passado, quando perante alguma perplexidade, confusão e surpresa dois guerrilheiros do ELN foram deportados da Venezuela para a Colômbia. Na altura estranhamente não vimos nenhum comunicado das FARC e do ELN a repudiar esse facto, dando razões para especular que não seriam guerrilheiros.

    Mas perante um estranho e tenso silêncio das guerrilhas e da esquerda venezuelana já se adivinhava que o governo de Chávez estava a colaborar com a Ditadura da Colômbia.

    Não é apenas lamentável, é a derrota moral do chavismo (apesar de todas as suas conquistas socais) perante qualquer esquerda que se preze, perante progressistas e democratas verdadeiros, a entrega de guerrilheiros ou quaisquer dissidentes colombianos ao regime sanguinário que vigora na Colômbia é criminoso.

    Não se pode aceitar a entrega de opositores a uma Ditadura narco-mafiosa, paramilitar e fascista como é a Colômbia, que mata e tortura opositores.

    Tens razão Bruno.

  3. Leo diz:

    “El colombiano Joaquín Pérez Becerra llegó este lunes a Bogotá desde Venezuela. El ciudadano era requerido por la Policía Internacional (Interpol) con difusión roja y fue capturado el pasado sábado por autoridades venezolanas en el aeropuerto de Maiquetía (norte).

    (…)
    Becerra fue capturado el pasado sábado, cuando regresaba de un vuelo desde Frankfurt, Alemania y fue arrestado por las autoridades venezolanas en el aeropuerto, ubicado en la costa caribe venezolana y que sirve a la capital, Caracas.  

    Tras su arribo a Colombia, en unas breves declaraciones mientras se le trasladaba a los calabozos de la Dijin, indicó que a diferencia de lo que muchos medios internacionales están diciendo, él no es miembro de las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC).  

    “Soy un comunicador social”, expresó.

    En su país, Pérez Becerra deberá responder por los delitos  de concierto para delinquir, financiamiento del terrorismo y administración de recursos relacionados con actividades terroristas. (…)”

    http://www.telesurtv.net/secciones/noticias/92014-NN/venezuela-deporto-a-colombiano-joaquin-perez-becerra/

    Becerra não sabia que estava na lista da Interpol dos mais procurados? Não sabia também que os governos da Venezuela e da Colômbia tinham assinado em 2010 um acordo de segurança?

    • Bruno Carvalho diz:

      Não, não sabia. Porque se assim fosse poderia ter sido detido na Suécia. Porque se assim fosse não viajava até à Venezuela. Para além disso, tendo nacionalidade sueca nunca poderia ter sido extraditado como foi. O Leo está a tentar justificar o injustificável?

      • Leo diz:

        Estava apenas a perguntar. Mas acho extraordinário que Becerra não sabia que estava na lista da Interpol dos mais procurados e que não sabia também que os governos da Venezuela e da Colômbia tinham assinado em 2010 um acordo de segurança.

      • Justiniano diz:

        Ora, caro Bruno Carvalho, muito se espanta ainda, com coisas erradas, mas muito se espanta, e muito me espanto, ainda, eu consigo!! Mas a que injustificável se refere! Que triste lamúria é esta!!? Um tipo que declara guerra ao Estado deve estar preparado para o embate com sistema formal de justiça do Estado! Em nada me surpreende nem, certamente, ao Pérez Becerra!! De onde lhe brotou tão pueril ideia!? E de onde retirou esse cânone da inextraditabilidade de cidadãos Suecos pelo Estado Venezuelano!?

      • José diz:

        A Suécia, como a generalidade dos países – com a notável e recente excepção no seio da UE – não extradita cidadão suecos.
        Qualquer país, signatário do tratado Interpol, está obrigado a cumprir os mandatos exarados nesse âmbito, excepcionando apenas os seus cidadãos e as reservas constitucionais aplicáveis.
        Portugal, por exemplo, não pode extraditar um qualquer cidadão estrangeiro acusado de homicídio para os EUA ou para a China, a não ser que estes garantam que a pena de morte não será aplicada naquele caso.

  4. Fernando Valente diz:

    Camarada, a mim parece-me claro que a detenção de Joaquín Pérez Becerra foi a moeda de troca que o governo colombiano exigiu para a extradição do narcotraficante Walid Makled.

    Este último foi detido na Colômbia em Agosto de 2010 e era solicitado tanto pela Venezuela como pelos EUA. Entretanto gerou-se uma tremenda campanha mediática orquestrada pela comunicação social privada da Venezuela uma vez que Makled afirmava que tinha provas do envolvimento de altos responsáveis ministeriais de Caracas em escândalos de corrupção e tráfico de droga.

    Obviamente que foi a típica estratégia para vitimizar-se e tirar aproveitamento da constante campanha de bombardeamento mediático a que está sujeito o governo bolivariano. Se este senhor tivesse sido extraditado para os EUA a campanha mediática tinha caldo para continuar.

    Com isto não estou a defender a actuação do governo bolivariano, muito pelo contrário, mas são coisas da realpolitik.

    • Luís Rocha diz:

      A realpolitik serve o fascismo. Entregar um jornalista revolucionário exilado ao regime sanguinário da Colômbia é condenar um camarada às masmorras da tortura e à morte.

      Não há desculpas e não moedas de troca com o fascismo colombiano que sejam admissíveis. Isto é imperdoável.

      O Partido Comunista da Venezuela já fez saber que esta atitude do governo venezuelano significa uma quebra de confiança com os seus aliados.

      Estas são palavras graves mas ainda diplomáticas do PCV, quanto a mim não hesito em chamar a esta atitude do governo venezuelano como criminosa. A única central sindical de esquerda venezuelana, a União Nacional de Trabalhadores, também condenou a atitude do governo venezuelano. Isto é uma traição à esquerda e aos movimentos sociais venezuelanos.

      Não são umas quantas reformas progressistas que podem branquear crimes de colaboração com o fascismo. Eu apoio a Venezuela activamente há vários anos, mas o passado da revolução bolivariana não iliba o governo venezuelano deste crime.

      • Fernando Valente diz:

        Não foram só membros do PCV que se pronunciaram contra a extradição, também membros da direcção do PSUV incluindo deputados, a mediática advogada revolucionária Eva Golinger e antigos membros do executivo governamental.

        Embora a situação seja grave, não me parece que o PCV vá romper com a direcção da Revolução.

      • José diz:

        “não iliba o governo venezuelano deste crime.”
        Mas qual crime?
        Não são os tribunais que tramitam os pedidos de extradição?
        Na Venezuela, estes não são indepedndentes do poder político?
        Pretendia que o governo interviesse numa decisão dos tribunais?
        Deveria a Venezuela deixar de aplicar os tratados que livremente acordou?
        Mas qual crime, afinal?

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  6. A diz:

    Foi o próprio Makled que disse de livre vontade ir nomear os generais venezuelanos boliburgueses, comandados pelo assassino e ocupante cubano Valdez, que traficam droga para os EUA. A venda de droga é uma arma do comunismo internacional que se vira cada vez mais para os progressistas da vala comum.

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