Constatações polémicas – 1: Liberdade, coisa “natural”

«Ao contrário da maioria dos democratas da minha geração, não me desagrada que o pessoal 20 ou 30 anos mais novo se esteja nas tintas para as comemorações do 25 de Abril.
Não me desagrada, porque isso quer dizer que, para eles, a liberdade é uma coisa natural, um dado adquirido que sempre conheceram e que, por isso, nem sequer justifica celebração.

É claro que não é assim, que a liberdade só é “natural” nas abstracções de alguma filosofia política e que nunca é um dado adquirido.
É claro que a liberdade que conhecem é resultado de milénios de lutas, expressão de um equilíbrio mutável de poderes e um bem permanentemente ameaçado.

Mas estará menos apetrechado para defender a sua liberdade (e para se aperceber quando ela é posta em causa) quem a sinta como natural?
Duvido muito. Não se aperceberão de como é fácil perdê-la; mas, mais do que quem se habituou a conhecer a sua ausência, encararão essa perda como inaceitável.

A aparente indiferença dessas pessoas mais novas é, afinal, a maior das comemorações, o mais forte hino à liberdade – e, saibam-no elas ou não, àqueles que contribuíram para que ela se tornasse normal.»

Maputo, 25 de Abril de 2008

Será que isso não terá alguma coisa a ver com um certo e mais recente dia 12 de Março?

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6 respostas a Constatações polémicas – 1: Liberdade, coisa “natural”

  1. Luis Moreira diz:

    Viver normalmente a liberdade é uma coisa boa, sem dúvida. mas vale pena lembrar como foi. Hora a hora, as operações do 25 Abril estão no estrolabio.blogs.sapo.pt. Horas de incertezas que quem as viveu não mais esquecerá.

  2. Leitor Costumeiro diz:

    Viver na ignorância nunca será bom.. Quando a normalidade é o que temos visto, não pode ser uma coisa boa. O 12 de Março foi bom, mas para muitos que lá foram, não é uma sociedade diferente que interessa, é sim a normalidade que nos trouxe ao Hoje…É uma normalidade individualista que defendes??Achas que se pode ser livre, no me que nos trouxe até aqui??Não achas que a ignorância e indiferença, até por ti defendidas, são um dos braços da repressão e exploração, exercidas pelos interesses de quem nós sabemos??

    • Leitor Costumeiro diz:

      Achas que se pode ser livre, no regime que nos trouxe até aqui??

    • paulogranjo diz:

      Ó homem: eu não defendo; procuro compreender o que é diferente de mim. E, por isso, não me limito a adjectivar a partir da minha própria forma de estar.
      Mas talvez seja de facto melhor, no seu caso, barafustar e afastar-se de tudo o que seja diferente de si.

      • Leitor Costumeiro diz:

        Eram simples questões, homem. Queria conseguir desmontar os teus conceitos, nada mais. Tás a ver, como a subjectividade da observação, toca a todos, ainda mais quando só se lê..
        E sim, mais vale só do que mal acompanhado.

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