Ary dos Santos, uma certa forma de agitar e cantar.

O que, na minha opinião, torna Ary um grande poeta da revolução, e uma figura que a marcou indelevelmente, não é tão só o texto, que tem as suas qualidades e defeitos, mas a comunicação que estabelece com as multidões em luta e vigilância, num país de fracos oradores, e o ímpar carácter performativo da sua poesia, pensada para cantar e (de)clamar. Mesmo não gostando deste poema por igual, ouço-o sempre com extrema emoção.

Ary dos Santos é conhecido por muitos como o autor de belíssimos poemas para canções. Mas há uma dimensão de Ary que é efémera – aconteceu, marcou a quem nela viveu e logo se extinguiu: os seus longos poemas políticos (manifestos, Carlos?), bradados perante multidões que viviam elas próprias a alegria, o entusiasmo, a angústia e tensão que só uma revolução conturbada pode fazer viver. Nessa dimensão, Ary nasce e morre com o momento histórico, e só pode reviver pela comoção de quem, estando vivo, o ouviu alguma vez nesses dias. É essa dimensão de Ary que o torna único entre todos. É efémera. E é maior.

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17 Responses to Ary dos Santos, uma certa forma de agitar e cantar.

  1. joaovalenteaguiar says:

    Meu caro Pedro,

    eu creio que existe esse lado efémero mas tb importa considerar o que será resgatado do Ary (poemas políticos) em lutas futuras. Portanto, creio que o lado de perenidade da obra dele é superior à efemeridade que falas não apenas pelo “resgate” que necessariamente ocorrerá, mas tb porque o que ele retrata nos seus poemas políticos, no meu entender, tem mto mais de estrutural do que conjuntural. Ou seja, penso que ele abordou mto mais aspectos transversais à esmagadora maioria dos processos revolucionários (a luta popular, a natureza de classe do Estado, o papel das forças armadas nos processos revolucionários, etc etc) do que aspectos conjunturais. Estes são sobretudo a roupagem de aspectos substantivos que me parecem transversais. Não todos eles, nem em todos os momentos, mas por ser capaz de inserir o conjuntural (a nossa Revolução) no estrutural (os processos revolucionários de emancipação do proletariado).

    Um abraço!

    • Pedro Penilo says:

      Caro João,
      Quando digo efémero, não digo conjuntural. E o efémero não tem para mim menor valor. Quando eu morrer, morrerá comigo a imagem que tenho na cabeça do 25 de Abril, que não pode ser substituída por nada.

      Do mesmo modo, o que aqui valorizo, e que suspeito ser mais intenso do que os poemas (ou seja, os poemas como texto) é Ary como presença, como acção viva. Melhor: não é só uma questão de intensidade, a poesia de Ary, aquela poesia de Ary, que ele de(clama) nas praças, é maior porque é assim. A sua poesia berrada é a poesia “em si”. (Não estou a falar da poesia para canções, que é outra coisa)

      Claro que pode alguém mais jovem, admirar o texto dessa poesia. Mas não terá acesso a essa dimensão efémera, nem em filmagens. E eu considero essa dimensão vivida um traço excepcional de Ary e “dessa sua” poesia e que, na minha opinião transcende o valor da poesia enquanto texto.

      Um abraço.

      • joaovalenteaguiar says:

        Pegaste então no lado performativo do Ary. Estou certo?

        Abraço

        • Pedro Penilo says:

          Certo! A minha hipótese é que, no caso destes poemas, essa dimensão não é um mero modo de apresentação. Essa qualidade performativa é (ou tornou-se) intrínseca. Desde logo porque Ary não os lia de um modo “normal” (compenetrado, encenado, introspectivo). Berrava-os, fazendo-nos lembrar certos discursos históricos. E obtinha resposta.

        • Carlos Vidal says:

          Mas também há o lado performativo do próprio texto.

          O Pedro que detalhe um pouco mais a sua questão em torno da “performatividade” (ou efemeridade).
          CV

          • Pedro Penilo says:

            Ora bem (não sei se consigo melhor)… Para quem assistiu aos momentos em que Ary, em comícios, enfrentando multidões pouco dispostas a “saraus de poesia, “berra” um determinado conjunto de poemas, que a multidão conhece, e aos quais reage como se de um concerto rock se tratasse, para quem a esses momentos assistiu, parece difícil tomá-los como simples “textos” que o autor se encarrega de declamar perante um público. Os poemas são longos e são declamados num tom que mais se assemelha ao do discurso político inflamado. Não nego as qualidades desses poemas como texto. Mas há uma qualidade “viva” que é/foi irrepetível. Hipótese: mais ninguém os pode “interpretar” – lidos de outra forma são “outra coisa”. Ou então, terão de ser berrados em condições idênticas. Não podem (podem, claro…) ser lidos numa sala, para um punhado de gente.

          • joaovalenteaguiar says:

            Meu caro Pedro, temos então um ponto de contacto entre essa performatividade do Ary em público que se aproxima do conceito da aura do Benjamin? Curiosamente ele aplicava-o mais à chamada arte erudita…

          • Pedro Penilo says:

            Admito que sim, embora esse conceito de “aura” não seja muito fácil de manejar (fixar) em exemplos concretos. Não creio que tenha necessariamente de ser aplicado apenas à arte erudita. Parece-me que Benjamin distingue apenas arte “individualizada”, de arte reprodutível tecnicamente. O que se pode relacionar também com obras ou artefactos de arte popular. Aliás, Benjamin dedica um ensaio belíssimo ao contador de histórias, que me parece particularmente pertinente, num determinado sentido, sem abusar demasiado, neste caso do Ary.

          • Carlos Vidal says:

            Percebo muito bem o que o Pedro quer dizer, mas, também como eu tento dizer mais abaixo, tem de haver um “factor” performativo no texto, que suponho consistir na sua dimensão narrativa, numa espécie de história que é contada, que prende verso a verso, linha a linha, que secundariza a neutralidade apelando sabiamente à toma de um partido, à parcialidade. Mas para tal se conseguir, repito, tem de haver certo engenho (e arte). Ou seja, as chamadas qualidades formais têm de lá estar.
            É um pouco como o conflito, em meados do século XX, entre Harold Rosenberg e Greenberg, os dois críticos mais conhecidos da América, em torno da obra de Pollock. Recordo que Rosenberg não valorizava muito a obra do pintor, mas antes o modo como ele trabalhava, inédito (tela no chão, na horizontal e não na vertical do cavalete, caminhava ou “dançava” em torno do objecto, que deixava de ter alto/baixo, lado esquerdo/direito, praticando acção, dripping, despejando latas de tinta furadas, etc., daí o termo “action painting”). Greenberg desdenhava desta visão e concentrava-se na obra e nas suas qualidades formais – que eram imensas, e extremamente bem definidas por Greenberg.
            São duas perspectivas que temos de estudar, mas, quando entramos na sala silenciosa do museu, vamo-nos apercebendo que Greenberg tinha razão.
            Mas, por outro lado, Rosenberg não nos contava “mentira” nenhuma. Pollock, por seu lado, era com Greenberg que melhor se entendia e mais se aproximava. Questão talvez sem fim.

          • Pedro Penilo says:

            Certo. Contudo, Pollock não poderia obter esse resultado pintando o quadro na vertical, a pincel. Mas certamente poderia pintar a pincel uma qualquer pintura “emaranhada”. Isso significa que a opção de a pintar de outro modo tinha um papel importante e crucial.

            José Gomes Ferreira (que está citado no título do post) também tomava partido na sua poesia. Mas logo por este exemplo podemos ver como as duas formas de poesia não se equivalem. Comparado com José Gomes Ferreira, Ary parece vir de outro planeta (exagerando um bocado). Ary era um homem da comunicação e da canção. Isso pode ter feito a diferença.

          • Carlos Vidal says:

            Pedro, atenção, que o “modo” (“action painting”) pode e talvez deva ser integrado na forma.
            Era isso que eu estava a tentar aplicar ao Ary.

          • Pedro Penilo says:

            Estou de acordo, o modo deve ser integrado na forma. A oposição Rosenberg-Greenberg e uma leitura apressada induziu-me no erro. Se bem entendo, afirmas que o primeiro valorizava apenas o modo separando-o da forma, enquanto que o segundo as integrava num resultado.

            Em resumo, num determinado grupo de poemas/intervenções de Ary, há um elemento – que não está no texto, é o modo de o “pôr em prática” – que deve ser valorizado, que não pode ser separado, porque era/tornou-se estruturante desse grupo de poemas. E isso é único na poesia portuguesa (?).

          • Carlos Vidal says:

            Sim, sintetizaria pois que é o poema, ou, para usar uma linguagem “formalista” (que nunca desdenhei, pois o “formalismo” por vezes é termo usado pejorativamente), o exclusivo texto do poema que determina o tal modo de o “pôr em prática”. Neste, como noutros pontos, sou aquilo que se chama (por vezes, também pejorativamente) “modernista” – como Greenberg que via sempre em Kant o primeiro modernista.

  2. Carlos Vidal says:

    Questão interessantíssima a da relação entre alguns poemas do Ary dos Santos e a estética (ou o tipo de escrita, exigência de “despertar”…) do Manifesto, assim, em maiúsculas, pois parece que ambos estamos a chamar à colação a hipótese do Manifesto ser um género literário (de facto, assim o fiz há pouco, ao falar de uma oposição entre Manifesto e Ensaio).
    Usando os termos do João Aguiar, acima, diria que este texto de Ary reune questões estruturais, conjunturais e globais – é a palavra que me surge, pois, para além do cunho revolucionário (típico do Manifesto), este poema, de um fôlego impressionante (não só pelo modo como é lido, mas pelo texto), é um retrato de uma comunidade inteira, numa síntese rara, que denota um conhecimento igualmete raro de um lugar em todas as suas dimensões: políticas, históricas, culturais, económicas. Uma grande qualidade que daqui ressalta está no facto deste poema ser um retrato “global” (convoca-se toda uma comunidade, todo um país), mas essa “globalidade” não é neutra, não está aqui exibida nenhuma neutralidade ao falar-se (ou na medida em que se fala) de “tudo”. Logo, o poema dirige-se a nós procurando uma adesão, suscitando múltiplas oposições, cartografias de lutas com história imemorial. Apesar de nem eu nem ninguém ter uma “chave” para designar o que é ou não é um “Manifesto”, tudo aqui transpira a Manifesto. O poema relata-nos detalhadamente e com enormíssimo conhecimento de causa, digamos assim, um facto (a revolução, o tal corte de plano vertical que foi, é, e terá de continuar a ser, o 25 de Abril) e uma história de lutas, levando-nos à identificação com um dos lados. E é óbvio que o consegue, ao mesmo tempo que nos desperta e aprofunda o conhecimento dessas mesmas lutas.
    Outro facto interessante – quando o começas a ouvir (e resulta mesmo que em silêncio o estejas a ler), vês nele um fio narrativo, um enredo tão bem tecido, que és por ele levado e tendes a só parar no final. Então, por que não considerá-lo um “Manifesto narrativo”?

  3. joaovalenteaguiar says:

    Sim Pedro, mas a distinção do Benjamin aplica-se sobretudo à arte “erudita” no sentido em que a aura aponta para um momento de produção mto particular e materializado naquele objecto/momento, etc. A reproductibilidade tem a ver com a difusão de novos meios de reprodução de cada obra e onde a cultura de massas contemporânea ascende. Mas é óbvio que pode ser aplicado ao caso do Ary. Brevemente vou ver se ponho aqui no 5dias fragmentos de um ensaio que publiquei sobre a obra de arte aí há uns três anos na Vértice. Mas esse ensaio é mto incompleto e até imaturo, demasiado preocupado em dar conta de características e propriedades sociais nas obras de arte. Mas penso que poderá ter o seu interesse pelo debate que possa vir a gerar.

  4. Graça says:

    meu deus! ha gente inteligente a debater online! obrigada, pessoal. nem me atrevo a meter-me na conversa, que os meus conhecimentos sobre o assunto sao quase nulos. deixo contudo uma ideia que me atravessou o espirito: ao ouvir o Ary sempre me recordo da tradiçao homérica, o aedo que viaja contando ao mundo a(s) historia(s) do mundo.

    • Pedro Penilo says:

      Faço minha a sua surpresa, Graça! Também estou aqui a pensar: é a primeira vez que me lembro de uma caixa de comentários melhor que o próprio post.

      Meta-se na conversa, Graça!

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