Merda de tempo que nos coube, merda de lugar, merda de MANIFESTOS que temos de gramar

1.

Era uma vez, era uma vez… não, de outro modo porque isto é demasiadamente sério:

Houve um tempo, houve sim senhor, houve um tempo ainda não muito distante (ou muito distante, sim, se o contarmos segundo a unidade de medida do estúpido “tempo espectacular” que nos cerca) em que um MANIFESTO servia para: a) resgatar o presente à sua condição de presente fixo exigindo nada mais nada menos que um futuro inédito e imprevisível, porque, como afirmava Marinetti, o passado tinha de ser forçosamente inferior ao futuro; b) colocar no tempo e na vida um plano vertical (um corte de gume afiado), a partir do qual começaria uma vida, uma nova vida (na política, na arte); c) em suma, assinalar, na realidade, o começo de uma nova data e um novo calendário – ou seja, houve um tempo em que o MANIFESTO era um risco de vida ou morte e tinha como função assinalar o início de um novo século. Percebido?

Deste modo, teremos de afirmar que o século XX começou com a publicação em 1909 (a 20 de Fevereiro), no parisiense Le Figaro, do Manifesto Futurista de Marinetti: “Pretendemos cantar o amor pelo perigo, o hábito forte da energia e a ausência do medo. (…) Coragem, audácia e revolta (…). Glorificamos a guerra, a única higiene do mundo”. Etc. (Já lá iremos.)

Agora, agora, vivemos em Portugal, estamos ocupados por uma troika que impunemente chacina o mundo por onde passa, que por cá é bajulada por todos os débeis e pelos “arrastados” do costume (que, à “esquerda” dizem eles, ainda acham que com ela nos devemos reunir, para a “repreender” – tinha pois razão Marinetti, a guerra é higiénica duplamente: porque limpa o mundo e, com sorte, nos libertava provavelmente de “arrastados” e cia.), agora vivemos em Portugal, dizia, e só numa semana fomos brindados por 3 MANIFESTOS 3!!, qual deles o mais direitinho, certinho, compostinho, enfim, qual deles o mais democrático (a “legitimidade do voto” é soberana, diz sempre o jornalista DOliveira, ligado a um dos três MANIFESTOS e à exigência de boa recepção – “crítica”, diz ele: “foda-se”, digo eu – da troika): do primeiro MANIFESTO a aparecer (“Compromisso dos 47”), inútil como os outros dois, não estaremos aqui a falar dele muito mais tempo além do tempo deste post, pois a manchete jornaleira que originou (Expresso, 9/4/2011) se esgotará nos próximos 5 a 7 dias (ou menos), e ainda dele se fala porque me parece que “novos subscritores” vão aparecendo, alimentando assim um cadáver que procria, mas não muito. O seu objectivo é só um: a consolidação (“consolida, filho, consolida”) do Bloco Central, o que explica as reuniões secretas de Mário Soares (o chefe da coisa, sempre ele!) na sede do PSD, e os seus recentes efusivos elogios ao seu presidente, qualquer coisa “Coelho”. O segundo MANIFESTO é uma coisa à medida dos “arrastados” de sempre, tem como charneira ou coisa vertebral o que restou desse exemplar movimento que foi a candidatura de Manuel Alegre (parte II), que também subscreve a prosa, manda cá para fora umas merdas banais como “Num momento dramático como o que vivemos…”, chega a necessidade de “convergências democráticas”, chega ainda o momento de travar a “especulação em torno das dívidas soberanas”, e de lutar pelo “emprego”. Nada de “guerras”, conflitos, despertares, tudo, mas tudo mesmo, dentro da “legitimidade democrática”, como se não fosse esta “legitimidade”, de que estes tipos falam sem vergonha na cara, que até aqui nos trouxe. Cheira-me que este MANIFESTO, conhecendo eu o nome de 3 implicados (DOLiveira, João Rodrigues e o historiador-deputado-anarco-Tavares), foi mais ou menos assim feito: DOliveira faz uns telefonemas, comunica a Rodrigues que já arregimentou umas “vedetas” ou “celebridades” do PCP, do movimento Geração à Rasca, do PS, do BE, da cultura, da agricultura e das pescas; Rodrigues, não querendo ficar-se, faz o mesmo e ataca em Coimbra com todo o vigor – e, claro, traz com ele uma boa colheita; o historiador bate palmas e dirá “publique-se, está cumprida a nossa missão interventiva, cidadã…..”, ou sei lá que mais (mas creio que um dos 3 disse isto). A coisa pôde não ter sido exactamente assim, naturalmente, mas com estes “vultos” não foi certamente muito diferente. Do terceiro MANIFESTO, também não vai rezar a história (Ricky e Tiago Saraiva, saiam desse “barco”, rápido): defende-se “Abril” e o “Estado Social”, umas irreverências sobre a “dívida” e pouco mais, ou mesmo mais nada. Nada de nada, nada que daqui a uma semana não abra espaço para mais 10 MANIFESTOS 10!!!

Mas deixem-me dizer-vos ou explicar-vos as características dessa coisa a que se chama MANIFESTO (pelo menos desde Marx, no fundo o “espectro” que toda esta gente teme!). Vamos pois a isso.

 2.

Um MANIFESTO tem de ser sempre uma espécie de acto de loucura e uma porta de saída para uma outra realidade. Ele é espirituoso, sarcástico, sofismático e oposicional (opõe-se sempre a algo, logo institui uma confrontação entre “nós” e os “outros”); é o elogio do momento como se de uma descoberta se tratasse – cada instante é novo e irrepetível.

Anuncia o que anuncia e anuncia-se a si mesmo: ele é ruidoso por oposição ao silêncio meditativo do ensaio (atenção à oposição MANIFESTO Versus ENSAIO como géneros literários, oposição interessante e a trabalhar); a sua poética e política é a do Aqui e Agora; é exclamativo (usa e abusa das maiúsculas e dos pontos ordenados – que também são ordens!! – 1. 2., etc.), é megalómano, chama sempre a atenção e a aderência; é excessivo e desmesurado; é uma instância legislativa: quem o promove está de acordo com a lei, porque é da lei fundador (que se lixe o “Voto”!!).

Situa-se sempre entre o realizado e o futuro potencial (existir em potência é a forma de ser do MANIFESTO).

Barnett Newman diz, no seu The Sublime is Now (1948), nós aqui na América (aqui e agora, claro!) libertos do peso da cultura e da história europeias, fundemos uma nova relacionalidade com as emoções, inédita; Breton usava muito a expressão “para sempre e pela primeira vez” – sendo que a tónica residia no “pela primeira vez”.

O MANIFESTO não se apoia em nada, a não ser no arbítrio da sua Vontade (“Voto” para o lixo, evidentemente!). É a máxima subjectividade alicerçada no máximo Nada. Nada mais. E é tudo.

Por isso, peço a quem de direito, não utilizem mais esta palavra, ó Convergentes.

 Antes, convergenciem e discutam muito futebol (logo há Benfica!).

CARLO CARRÁ. Parole in Libertá.

(PS: O leitor reparou que, para este post, me servi de links de um só blogue. Porque o considero a trampa/armadilha maior para aquilo que se pode e deve chamar Esquerda: estão lá os defeitos todos a evitar.)

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22 respostas a Merda de tempo que nos coube, merda de lugar, merda de MANIFESTOS que temos de gramar

  1. Carlos,
    Não concordo com metade, mas está muito bom o texto. É quase um manifesto.

    • Carlos Vidal diz:

      Muitas frases destacadas, bolds, pontos de exclamação, pontos numerados, ordens, maiúsculas, exclamações panfletárias: é isso, é meio Manifesto (já agora, qual é a tua metade preferida? A minha, seria logo a vitória do Benfica).

      • Nuno Ramos de Almeida diz:

        Não me provoques com clubes que não são vermelhos, mas encarnados. Para mim, a crítica à sucessão enternecedora de manifestos. Deviam arranjar uma forma de fazer política que não passasse pela assinatura bem sentada. Cheira-me que o único que vai ter consequências práticas é aquele que quer o bloco central.

        • Carlos Vidal diz:

          Mas a mando da troika e não por causa do Manifesto lá deles, nem das manobras secretas encetadas.
          Tudo lixo.
          (E sobre o Benfica, logo? Nada a dizer? Lamento que este “vermelho” nada te diga – ninguém é perfeito.)

  2. miguel serras pereira diz:

    O “para sempre” que Breton conjuga com o “pela primeira vez” é uma exigência tão fundamental como a do “pela primeira vez”. Essa exigência, entre outras coisas, permite-lhe, ao contrário de Marinetti, não sucumbir ao fascismo. É um traço que distingue a ousadia ou audácia surrealista do belicismo reactivo e da fanfarronada “ducesca” que inquina parte do “modernismo”.

    Já quanto ao manifesto dos 74, o meu comentário é óbvio: quem quer o mais, quer o menos. Só que não se fica por ele como os adeptos do “mal menor”.

    msp

  3. PP diz:

    O melhor post de 2011.

  4. Idi diz:

    http://resistir.info/grecia/mitralias_15abr11_p.html
    e que tal discutirmos isto? Glasnost, perestroika?…..

  5. joaovalenteaguiar diz:

    Retirando a parte do clube do parque de estacionamento do shopping Colombo, tudo de acordo.

    Um abraço!

  6. f diz:

    pela primeira vez concordo com cvidal. tinha pensado algo semelhante sobre os manifestos e a necessidade de outro tipo de acção, verdadeira acção. mas não concordo com um ataque paralelo inspirado num purismo, num vanguardismo doentio. se só marchamos com quem concorda em absoluto connosco, marchamos sozinhos, nunca chegaremos a lado nenhum.

    • Carlos Vidal diz:

      E marchamos com quem discordamos em absoluto?
      (Volta M. Rebelo, estás perdoadíssima – és de Esquerda. Votemos JSócrats., nós os dois, juntos.)

  7. Dédé diz:

    Merda de tempo, não. Tempos interessantes como não tínhamos faz tempo. Por mim diria merda de gente que se afadiga a parir destas:
    A Essência da Pólvora: Desesperadamente à procura dum “Compromisso Nacional” para evitar que a gamela entorne.

  8. closer diz:

    as subtilezas tácticas de Vidal são semelhantes às de um elefante (quem será?) a passear-se numa loja de porcelanas.

    Claro que Vidal é contra estes manifestos por uma simples razão: não são promovidos pelo PCP. E por isso, o seu sentido de unidade e de compromisso nunca vai além da senhora deputada do PEV, a dona Heloísia. Porque dessa, já sabemos o que a casa gasta.

    • Carlos Vidal diz:

      Bom, meu caro, eu até gosto da Heloísa, naturalmente. Confesso.
      E você, conte-me lá, também é pós-1974?
      Eu cá sou ante-pós.

  9. Pedro Penilo diz:

    Manifesto “Queremos todos ir para o céu no expresso das 17h45 – sem tirar o lugar a ninguém, diga-se!”

    Condições:
    1. Envolver mais de 10 pessoas e menos de 100;
    2. Garantir que todas elas têm nome;
    3. Angariar potenciais manifestáveis – ou seja, personalidades inclinadas à subscrição de manifestos numerados;
    4. Tornar a acção política fácil, verbal e escrita (nem sequer coisas gritadas numa praça);
    5. Ganhar uma página de jornal;
    6. Esperar a ver o que acontece.

    • Carlos Vidal diz:

      Dará certamente mais que 100.
      (Considerando o ponto 6. e não só.
      Se próximo do 25A, então, abrir pelo menos 500 vagas.)

  10. Marta diz:

    Bom post.
    Finalmente alguém com consciência de que o manifesto é um acontecimento, no sentido revolucionário e radical do termo.

    Cumprimentos
    Marta

  11. Maria diz:

    Sobre a guerra:

    Introduction à la guerre civile,
    Tiqqun
    http://www.bloom0101.org/igc.pdf

  12. ana gusmão diz:

    Isto é daquelas coisas que mais parece uma guerra editorial publico /expresso,” então se eles agora tem a colecção do DVD a 1,95, a gente faz o dos DVDs infantis a 1,99. eles tem um manifesto deixa cá fazer um mais fresco”, e ainda conseguem essa proeza de ter o boaventura, sempre pronto a assinar qualquer coisinha pelos cidadaos e a sociedade civil a assinar os dois, não vá o diabo tecê-las.marabilhoso. carlos vidal, proponho já que depois de eliminarmos o braga na quinta feira, se faça um manifesto pela convergencia nacional benfiquista.

    • Carlos Vidal diz:

      Sim, sim, um Benfica-BR, mas primeiro toca a escrever um lindo texto (com boas tiradas que podem ser subscritas por tudo e todos).

  13. Já te vi em melhor forma Carlitos. Diz lá qualquer coisa de esquerda sobre o manifesto, que vá para além da irritação que ele te provoca. Assim como está, para além do tom professoral perfeitamente dispensável, parece-me que a tua opinião é a máxima subjectividade alicerçada no máximo Nada.
    Eu digo-te já o que me desagrada nele: não sou adepto de um “novo pacto social” e não tenho como horizonte “contribuir para melhorar o país”. Mas parece-me que tu não tens tido problemas em subscrever coisas desse género.
    Dito isto, o tempo é de apontar a mira às contradições antagónicas e não às outras. Foi por isso que o assinei. Por isso e porque o Miguel Cardina me telefonou.

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