Sons de Abril: Amália – Grândola


Amália sempre revelou uma grande ambiguidade no seu posicionamento ideológico, ambiguidade essa que foi aproveitada pelo poder político antes e depois do 25 de Abril.
É verdade que fez muitas digressões ao estrangeiro no âmbito da campanha propagandística dirigida por António Ferro. É também verdade que foi homenageada por Marcello Caetano e que chorou no funeral de Salazar.
A fadista chegou a estar na China no início dos anos 50, a convite da República Popular que se iniciara pouco tempo antes.
Mas voltando atrás, é também verdade que Salazar falava dela, de forma depreciativa, como «a criaturinha». E é também verdade que a PIDE via-a como simpatizante do Partido Comunista devido às suas ligações a Alain Oulman, músico e compositor de Esquerda que chegou a ser preso e torturado pela PIDE e que acabou por ser deportado para França.
Uma das músicas que Oulman compôs para Amália, «Abandono», mais conhecido por «Fado de Peniche», com poema de David Mourão-Ferreira, foi proibida por ser considerado um hino aos que se encontravam presos em Peniche.
Por essa altura, Amália terá envidado esforços para a libertação de Oulman, bem como para a saída de muita gente de Esquerda do país.
Por diversas vezes, contibuiu com donativos para o Partido Comunista, então na clandestinidade. É conhecida a simpatia que Amália nutria por Álvaro Cunhal, que, diz-se, chegou a convidá-la para a Festa do Avante.
Após o 25 de Abril, Amália foi acusado de ter colaborado com o regime fascista, sendo então defendida por Alain Oulman e por pouca gente mais. A gravação que fez de «Grândola» terá sido uma tentativa de se dissociar dos tempos da Ditadura.
A sua popularidade, no entanto, esteve sempre em alta e o novo poder, com Mário Soares à cabeça, não hesitou em utilizá-la para fins eleitorais.
No fundo, Amália foi uma artista sem grande consciência política que sempre procurou ambientar-se ao regime em que vivia.
Neste vídeo, postado no youtube por um espanhol, é possível ainda ver a «Grândola» cantada por José Saramago e por gente como Luis Pastor ou Pilar del Rio.
É isso, ao contrário do António Paço, eu adoro a Grândola. Na voz do Zeca, da Amália ou dos Filhos da Madrugada. Na versão original, em fado, pop ou clássico. Em português, em basco e até em finlandês.

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , , . Bookmark the permalink.

1 Response to Sons de Abril: Amália – Grândola

Os comentários estão fechados.