“O inevitável é inviável” – Um manifesto melhor

Depois do Manifesto do Bloco Central e do Manifesto da Junta de Convergência Nacional, é uma lufada de ar fresco ler o “Manifesto dos 74 nascidos depois de 74”. É verdade que não avança grandes propostas e que insiste em confiar em quem tornou inviável o passado (como entender a subscrição da socrática Marta Rebelo?), mas para além do chamado à luta tem a coragem de nem legitimar a troika do FMI-BCE-CE, nem legalizar a dívida. Um bom ponto de partida se a par dos bons diagnósticos houver a intenção de não voltar a repetir os erros que tornaram o futuro inevitável.

Manifesto dos 74 nascidos depois de 74

“Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma «evolução», colocando o «R» no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.

O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara – com a cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do «grande centro» ideológico – pode  significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde.

O primeiro eixo dessa ofensiva ocorre no campo do trabalho. A regressão dos direitos laborais tem caminhado a par com uma crescente precarização que invade todos os planos da vida: o emprego e o rendimento são incertos, tal como incerto se torna o local onde se reside, a possibilidade de constituir família, o futuro profissional. Como o sabem todos aqueles e aquelas que experienciam esta situação, a precariedade não rima com liberdade. Esta só existe se estiverem garantidas perspectivas mínimas de segurança laboral, um rendimento adequado, habitação condigna e a possibilidade de se acederem a dispositivos culturais e educativos. O desemprego, os falsos recibos verdes, o uso continuado e abusivo de contratos a prazo e as empresas de trabalho temporário são hoje as faces deste tempo em que o trabalho sem direitos se tornou a norma. Recentes declarações de agentes políticos e económicos já mostraram que a redução dos direitos e a retracção salarial é a rota pretendida. Em sentido inverso, estamos dispostos a lutar por um novo pacto social que trave este regresso a vínculos laborais típicos do século XIX.

O segundo eixo dessa ofensiva centra-se no enfraquecimento e desmantelamento do Estado social. A saúde e a educação são as duas grandes fatias do bolo público que o apetite privado busca capturar. Infelizmente, algum caminho já foi trilhado, ainda que na penumbra. Sabemos que não há igualdade de oportunidades sem uma rede pública estruturada e acessível de saúde e educação. Estamos convencidos de que não há democracia sem igualdade de oportunidades. Preocupa-nos, por isso, o desinvestimento no SNS, a inexistência de uma rede de creches acessível, os problemas que enfrenta a escola pública e as desistências de frequência do ensino superior por motivos económicos. Num país com fortes bolsas de pobreza e com endémicas desigualdades, corroer direitos sociais constitucionalmente consagrados é perverter a nossa coluna vertebral democrática, e o caldo perfeito para o populismo xenófobo. Com isso, não podemos pactuar. No nosso ponto de vista, esta é a linha de fronteira que separa uma sociedade preocupada com o equilíbrio e a justiça e uma sociedade baseada numa diferença substantiva entre as elites e a restante população.

Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada.

Por isso dizemos: queremos contribuir para melhorar o país, mas recusamos ser parte de uma engrenagem de destruição de direitos e de erosão da esperança. Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio!”

Alexandre de Sousa Carvalho – Relações Internacionais, investigador; Alexandre Isaac – antropólogo, dirigente associativo; Alfredo Campos – sociólogo, bolseiro de investigação; Ana Fernandes Ngom – animadora sociocultural; André Avelãs – artista; André Rosado Janeco – bolseiro de doutoramento; António Cambreiro – estudante; Artur Moniz Carreiro – desempregado; Bruno Cabral – realizador; Bruno Rocha – administrativo; Bruno Sena Martins – antropólogo; Carla Silva – médica, sindicalista; Catarina F. Rocha – estudante; Catarina Fernandes – animadora sociocultural, estagiária; Catarina Guerreiro – estudante; Catarina Lobo – estudante; Celina da Piedade – música; Chullage – sociólogo, músico; Cláudia Diogo – livreira; Cláudia Fernandes – desempregada; Cristina Andrade – psicóloga; Daniel Sousa – guitarrista, professor; Duarte Nuno – analista de sistemas; Ester Cortegano – tradutora; Fernando Ramalho – músico; Francisca Bagulho – produtora cultural; Francisco Costa – linguista; Gui Castro Felga – arquitecta; Helena Romão – música, musicóloga; Joana Albuquerque – estudante; Joana Ferreira – lojista; João Labrincha – Relações Internacionais, desempregado; Joana Manuel – actriz; João Pacheco – jornalista; João Ricardo Vasconcelos – politólogo, gestor de projectos; João Rodrigues – economista; José Luís Peixoto – escritor; José Neves – historiador, professor universitário; José Reis Santos – historiador; Lídia Fernandes – desempregada; Lúcia Marques – curadora, crítica de arte; Luís Bernardo – estudante de doutoramento; Maria Veloso – técnica administrativa; Mariana Avelãs – tradutora; Mariana Canotilho – assistente universitária; Mariana Vieira – estudante de doutoramento; Marta Lança – jornalista, editora; Marta Rebelo – jurista, assistente universitária; Miguel Cardina – historiador; Miguel Simplício David – engenheiro civil; Nuno Duarte – artista; Nuno Leal – estudante; Nuno Teles – economista; Paula Carvalho – aprendiz de costureira; Paula Gil – Relações Internacionais, estagiária; Pedro Miguel Santos – jornalista; Ricardo Araújo Pereira – humorista; Ricardo Lopes Lindim Ramos – engenheiro civil; Ricardo Noronha – historiador; Ricardo Sequeiros Coelho – bolseiro de investigação; Rita Correia – artesã; Rita Silva – animadora; Salomé Coelho – investigadora em Estudos Feministas, dirigente associativa; Sara Figueiredo Costa – jornalista; Sara Vidal – música; Sérgio Castro – engenheiro informático; Sérgio Pereira – militar; Tiago Augusto Baptista – médico, sindicalista; Tiago Brandão Rodrigues – bioquímico; Tiago Gillot – engenheiro agrónomo, encarregado de armazém; Tiago Ivo Cruz – programador cultural; Tiago Mota Saraiva – arquitecto; Tiago Ribeiro – sociólogo; Úrsula Martins – estudante
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25 respostas a “O inevitável é inviável” – Um manifesto melhor

  1. Um retrato do nosso triste pais. tudo gente muito… huh … estudiosa, bolseiros, artistas, sociologos, jornalistas, politologos, curadores de arte, linguistas, etc, etc, etc.

    Sem querer ofender ninguem, quantas destas pessoas estudaram matematica depois dos 14 anos? fisica? quimica? Poucas. Em 74 pessoas, 4 engenheiros. QUATRO!!! mas carradas de sociologos, antropologos e ate’ vejam bem musicologos! Acham normal?

    Bolas, que pais inviavel.

    E tambem me parece que esta declaracao deveria ser acompanhada de um disclaimer quanto ‘a fonte de rendimentos destas pessoas. Quantos deles dependem directa ou indirectamente do Estado?

    grouchomarx

    PS: ao humorista acho gra¢a.

  2. f diz:

    É tudo muito válido mas já começo a pensar que são manifestos a mais. Ea acção? Os Manifestos não vão impedir o bloco de direita ou o central que é a mesma coisa.

  3. Leo diz:

    Agora até já tentam dividir entre trintões e os outros?

  4. Leo diz:

    Ahhh! Há um vintão… com tantos estudantes era expectável haver alguns!

  5. vera c.s.castanheira nunes diz:

    Já deviam ter começado acções e manifestos há muito tempo. Levaram uma eternidade a acordar. Eu era vintona (e foi mais ou menos por essa altura ou um pouco mais tarde que o MEC generaliza essa de mais vale ser trintinha que vintão ou quarentinha que trintão…) quando o FMI andou por cá. E não, não era estudante. Trabalhava. E estudava porque o estudo deve-nos acompanhar sempre e não ser apenas e para sempre uma profissão. E agora vou dar-vos uma novidade: qualquer dia os vintes e os trintas já foram! Pois é. Portanto, parabéns! Não vão, parece-me, continuar como a nêspera, à espera!

  6. Helena Borges diz:

    Regra geral, não vou muito com o tom “hey, teachers, leave us kids alone”, mas simpatizo com o texto da manifesto. Para que serve um manifesto, afinal? Para o Celso, a Felismina e a Zeza dizerem a todos que é assim, porque eles dizem que é assim? Nada contra. Portanto, um manifesto vincula quem o assina e é vinculado por quem o assina. E a socranette? O tempo de dar uma no cravo e outra na ferradura já passou.

    • Renato Teixeira diz:

      Estamos mais ou menos na mesma, mas discordo da conclusão. Agora é exactamente a hora em que quem costuma dar na ferradura aparece a dar uma no cravo.

      • Leo diz:

        Espero vê-los na 2ª feira nas manifestações.

      • Helena Borges diz:

        Verdade, verdade: jogar pelo seguro, não vá a coisa dar para o torto. O PS até aprecia as vozes ditas discordantes, podem conseguir endrominar eleitores incautos, convencê-los de que existe espaço para alguma coisa mais à esquerda dentro do partido.

        • Renato Teixeira diz:

          Cumprem mesmo uma função basilar na estratégia do partido. Pelo garrote que estão a dar ao Passos Coelho e pelo que deram ao BE nas presidenciais, estou em crer que se tratam dos mais centralizados militantes do partido.

  7. Carlos Vidal diz:

    Tirando o facto de termos aqui amigos, e mesmo colegas de profissão, porque é que este é um manifesto melhor, Renato?

    • Renato Teixeira diz:

      Pelo que digo na posta Carlos. Nenhuma esperança é depositada na troika, assim como não se reconhece legitimidade à divida, pedindo-se de seguida humanidade nos cortes, que é como quem diz, a escolha de sempre. Em igual sentido constitui um chamado à luta, coisa que tem andado esquecida no frenesim pré-eleitoral das outras plataformas. Isso não faz deste um manifesto perfeito. Faz, como também digo em cima, um manifesto melhor.

      Têm feito falta as tuas munições. Abraço e até breve.

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