Para ver se a gente consegue num grande esforço nacional convergir estas divergências filhas-da-puta, né filho?*

A Convergência nacional em torno do emprego e da coesão social, proposta pelo João Rodrigues e subscrito por uma mão cheia de personalidades, do Manuel Alegre ao Carvalho da Silva, do Boaventura Sousa Santos à Helena Roseta, do Rui Tavares ao João Cravinho, tem a frescura de captar a simpatia do activismo, veja-se as subscrições da Paula Gil (Geração à Rasca) e do Tiago Gillot (Precários Inflexíveis), mas parece-me, numa primeira leitura, cometer erros demasiado repetidos no passado.

Desde logo e em primeiro lugar o documento parte de um equivoco perigoso. Ao privilegiar a procura de um caminho de “convergências democráticas”, no conjunto do todo da “sociedade portuguesa”, abstêm-se de reforçar o necessário antagonismo entre quem nos trouxe e quem nos pode tirar daqui. Nesse sentido, a ausência de um chamado à manifestação de amanhã contra o FMI, ou mesmo o apelo geral à luta contra a transferência do poder legislativo para a troika do FMI-BCE-CE, é uma omissão irresponsável.

Se é de aplaudir a tentativa de salvaguarda dos serviços públicos e que se exija uma auditoria à dívida externa, é absolutamente errado que se reconheça quer legalidade à troika quer legitimidade à dívida. Ao prescindir de seguir o caminho e a radicalidade das exigências que estão a ser feitas nas ruas da Grécia, da Irlanda ou mesmo nas urnas da Islândia, opta-se por um caminho que não só não rompe como reforça a política que mantém estes países sob resgate e ditadura financeira.

A proposta de inclusão da OIT na troika do FMI-BCE-CE: “A presença, já sugerida, da OIT nas negociações entre o Governo e a troika FMI-BCE-CE seria um sinal construtivo muito importante, colocando a questão do trabalho digno”, faz passar a ideia que essa medida poderia resolver o problema do défice democrático e político da troika e entra no campo da negociação que se devia recusar no actual quadro de dissolução da Assembleia da República.

Por fim, não se entende a defesa implícita ao sacrifício, das contas do estado e consequentemente da vida das pessoas, em suma, a mesmíssima lógica liberal de acção e pensamento dos suspeitos do costume: “ identificando com rigor as necessidades reais e os desperdícios da administração pública e salientando a necessidade de concentrar os recursos na esfera essencial das políticas públicas que combatem a exclusão social e a desigualdade, qualificam as pessoas e promovem a actividade produtiva, a competitividade e o crescimento da economia”.

As declaração de intenções que se formulam na justificação das propostas não trazem nada de novo uma vez que não são acompanhadas por exigências tão necessárias como a suspensão imediata do pagamento da dívida, a nacionalização dos sectores estratégicos da economia, em particular do sistema financeiro, o congelamento dos preços e o reforço dos salários (a palavra “aumento” não é referida uma única vez no texto), e naturalmente o investimento, também, nos sectores não produtivos, como devem ser o Sistema Nacional de Saúde, a Segurança Social ou a Educação, onde o lucro não se mede nem em palmos nem em euros. Fica-se sem perceber o que é a promoção de “políticas de investimento produtivo que permitam superar a crise”...

Para lá, grosso modo, da recomposição do alegrismo, lamenta-se a manifesta falta de ideias novas. Se a base social de apoio do BE e do PS fosse a do seu equivalente brasileiro, estaríamos a ouvir outro tipo de coisas:

Vídeo roubado ao Felipe Demier
*Título adaptado desta passagem do FMI, do José Mário Branco:
“(…) Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus zodíacos: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? A-ni-ki-bé-bé, a-ni-ki-bó-bó, tu és Sepúlveda, tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala em ritmo de pop-chula, não é filho? A one, a two, a one two three: FMI!
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