Soberania, do Levantamento da Páscoa à Troika

Soberania, onde ela reside é das questões mais fundamentais, se não a mais fundamental de todas as questões sociais e políticas. Por isso até fiquei de cabelos em pé (infelizmente, ou felizmente, ainda me sinto indignado como os media retratam esta e várias outras questões…) quando num daqueles programas da manhã na TSF, ao discutir o “auxílio” da Troika, a jornalista /apresentadora encarava a defesa da soberania como uma mera questão de orgulho, orgulho ferido neste caso… As dificuldades podem ser grandes, as opções a tomar restringidas, mas nunca da soberania podemos abdicar. Sem Soberania um povo, uma nação, nada tem. Esta situação faz-me lembrar os cidadãos da antiguidade que se vendiam como escravos para pagar as dívidas… A partir desse momento que confiança se pode ter no futuro? De pés e mãos atados vamos para onde nos mandam… e que senhores arranjámos? Alguns dos comentários que sairam do FMI são reveladores, Europa, querida Europa

Juntamo-nos ao triste clube do qual a Irlanda já faz parte. Ora aí está um exemplo do que significa viver sem soberania. Ao longo de 800 anos das mais bestiais crueldades foi o povo Irlandês vítima às mãos da coroa Inglesa-Britânica. Talvez a maior barbárie tenha sido a “grande fome” também conhecida como “fome da batata”, cerca de um milhão de mortos, um quarto da população morreu ou emigrou… E claro, enquanto na Irlanda se morria de fome, a ilha continuava a exportar alimentos. O mesmo ocorreu alguns anos depois na Índia.

Não foi fácil ao povo Irlandês conquistar a sua Soberania, um dos momentos determinantes foi o Levantamento da Páscoa, iniciado a 24 de Abril de 1916. Se é verdade que no imediato foi mais uma derrota, desta vez o sangue dos mártires, tal como celebra a canção acima, acabou por re-despertar o ânimo e determinação do povo, que após a Guerra de 19-21 (que meteu um Soviete pelo meio) finalmente obteve a sua auto-determinação.

Sobre esse evento escreveram Trotsky e Lenine, como qualquer mortal (excepto o Papa) cometeram erros e nem sempre as suas análises foram as mais correctas, mas as seguintes palavras de Lenine valem bem a pena serem sublinhadas:

“To imagine that social revolution is conceivable without revolts by small nations in the colonies and in Europe, without revolutionary outbursts by a section of the petty bourgeoisie with all its prejudices, without a movement of the politically non-conscious proletarian and semi-proletarian masses against oppression by the landowners, the church, and the monarchy, against national oppression, etc.-to imagine all this is to repudiate social revolution. So one army lines up in one place and says, “We are for socialism”, and another, somewhere else and says, “We are for imperialism”, and that will he a social revolution! Only those who hold such a ridiculously pedantic view could vilify the Irish rebellion by calling it a “putsch”.

Whoever expects a “pure” social revolution will never live to see it. Such a person pays lip-service to revolution without understanding what revolution is.” O itálico é do autor.

Nas primeiras décadas do século XX contra o mais poderoso Império da altura e as expectativas dos “bem pensantes” os Irlandeses conseguiram a sua independência. Se o povo Português quiser sair do beco sem saída para onde está a ser empurrado, uma coisa é certa. Precisa de preservar a independência. Ora, os vende-pátria em Portugal, historicamente as classes dirigentes e seus apaniguados, voltam a mostrar as garras. Precisam da intervenção estrangeira para poderem aplicar as suas receitas ideológicas sobre o país e continuar a sugá-lo. Alguns até se rejubilam perante a aparente passividade popular. E sobre este ponto a Esquerda não pode ter dúvidas, o Euro, as condições em que estamos na União e a nossa própria permanência na União não podem ser bezerros de ouro perante os quais nos ajoelhamos! É como estarmos agrilhoados a um “Titanic desgovernado“.

Mas numa coisa o discurso dos vende-pátrias e da direita é verdade. Vai ser preciso fazer sacrifícios. Isso é algo que a Esquerda ainda não assumiu muito bem. De uma maneira ou de outra a população vai ter de fazer sacrifícios, a questão é, para quê? por quem? de que maneira? e de como serão distribuídos. Só depois de assumir isso, pode a Esquerda simultâneamente ter liberdade estratégica para propor reais soluções (sim, porque obviamente sair do Euro ou da União também terá os seus custos…) e ganhar alguma credibilidade (sim, porque quem é que acha que as coisas como estão irão durar?). Mais, a própria luta exigirá sacrifícios… do último verso da canção…

“For slavery fled, O glorious dead, When you fell in the foggy dew.”

Muitos caíram para que a Irlanda fosse livre. Nessas primeiras décadas do século passado noutras terras e por semelhantes causas muitos outros também caíram… Agora, no início do século XXI, ao observar o que se passa, a sensação de “dejá vu” intensifica-se… com tudo o que isso implica.

Ironicamente, Dublin arrisca-se a assistir a uma final portuguesa na Liga Europa, um momento para aproximar dois povos com Histórias diferentes, mas um presente semelhante.

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4 respostas a Soberania, do Levantamento da Páscoa à Troika

  1. «It is my considered opinion that in the fullness of time history will record the greatness of Michael Collins, and it will be recorded at my expense».

    Dev the ‘chief’, aka Eamon de Valera, President of Ireland, 1966.

  2. Michael Collins foi um dos «sócios-fundadores» do IRA.

    😉

  3. O João Valera, casado com uma amiga minha do antigamente, também foi embaixador de a «gente» ali na Irlanda….

    Não há nada como realmente…
    🙂

  4. The rise and fall of one of the most important and controversial figures in Ireland’s struggle for independence is chronicled in this biographical drama.
    In 1916, the British government ruled Ireland with a firm and cruel hand, as they had for 700 years.
    When a group of Irish rebels staged a six-day siege at Dublin’s General Post Office, only one of the leaders was able to escape execution — Eamon De Valera (Alan Rickman), an American citizen of Irish blood.
    A number of De Valera’s followers are sent to prison, and one of them, Michael Collins (Liam Neeson), walked out of jail convinced that a new approach was needed to free his homeland from British rule.
    With his compatriot Harry Boland (Aidan Quinn), Collins formed the Irish Volunteers, who used a combination of terrorist violence and guerilla warfare to attack the British where their defenses were weakest, and employed espionage and a key inside informant (Stephen Rea) to learn what the British planned to do next — and what they knew about Collins and his supporters.
    Collins’ strategic skills and talent for warfare made a major impact on the British, and he became the hero of the new-born Republican Movement, which seemed to offer a real hope of freedom, despite the violent reprisals of the vicious paramilitary police, the Black and Tans.
    De Valera, however, was often in conflict with Collins in terms of the methods and approach of their struggle.
    Collins also found himself in a different sort of conflict with Boland when he fell in love with his girlfriend, a strong-willed advocate of Irish freedom named Kitty Kiernan (Julia Roberts).
    Eager to gain support for the Republican cause, De Valera sought economic and military support from the U.S.; when he returned, the Volunteers seemed to have finally won a real victory, as the British government announced that they were willing to formally negotiate with them.
    While Collins was once the radical and De Valera was the moderate, once negotiations began, Collins sought to end the violence that he saw killing so many young people and was willing to agree to a compromise that would create the Irish Free State.
    While the agreement would still leave final political control with the British, it would bring a greater self-determination to Ireland, and Collins believed that it was a crucial first step that could lead, in time, to true freedom for his people.
    De Valera, however, was strongly opposed to the treaty with Britian, and this led to violence among pro- and anti-treaty factions; soon Ireland’s most loved leader was now branded a traitor by many of his countrymen.

    Michael Collins was voted Best Picture at the 1996 Venice Film Festival, and Liam Neeson was awarded the prize for Best Actor.

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