Entre a reverência e a não referência

A barriga do arquitecto é/foi um dos mais importantes blogues sobre arquitectura no panorama da escrita em português. O Daniel Carrapa (que não conheço pessoalmente) foi um dos primeiros arquitectos que conseguiu romper, através da blogosfera, o castelo exclusivo de quem escrevia e promovia arquitectura em Portugal. Entretanto muita coisa foi aparecendo e, ainda que vá olhado uma ou outra vez para o que o Daniel vai escrevendo, as minhas leituras foram-se afastando. Ao contrário do Renato, pouco me importa o discurso do Daniel sobre o 5dias, e até o enalteço pelo facto de ser directo, frontal e combativo.
O que me faz recordar a razão pela qual leio menos a barriga do arquitecto é um texto anterior onde se elocubra sobre o que se escreveu do Pritzker a Souto Moura, atropelando-se banalidades e referindo-se a uma certa gente (não identificada no texto) que terá elogiado o trabalho dos colaboradores de Souto Moura (que qualifica como “bons arquitectos”) para, na sua opinião, desvalorizar o premiado. É esta tendência para uma certa opinião cor-de-rosa cuidadosamente trabalhada entre a reverência e a não referência, que não me estimula leituras.

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11 respostas a Entre a reverência e a não referência

  1. Okey Tiago.
    A minha onda é a dos «arquitectos reaccinários».

    O mestre é o f.d.p. do Leon Krier.

    Coisa do meu amigo Bétão, con o Krier a «consultor», ou coisa assim..

    É o museu de Odrinhas…

    http://www.cm-sintra.pt/images/Bank/10_632427679858125000_Museu%20de%20Odrinhas.jpg

  2. DrStrangelove diz:

    Como oportunamente escreve esse blogue a propósito do 5 Dias:
    «Great people talk about ideas. Average people talk about things. Small people talk about other people.»

    Que tal investirem tempo mental em temas da actualidade mas de grande relevância política e histórica tal como o artigo principal do Público de hoje?
    Havana quer salvar o socialismo com um pouco de capitalismo
    Raúl Castro admitiu que Cuba tinha que mudar ou cair no abismo […]

  3. miguel dias diz:

    A propósito dessa coisa da importância dos colaboradores, não resisto a contar um comentário do meu grande amigo Miguel Figueira. Dizia ele a propósito da relação Távora – Siza, não sem uma ponta de maldade para o falecido, que normalmente se vai estagiar com um arquitecto famoso para se adquirir um pouco prestígio. Ora no caso, a coisa inverteu-se, foi o Távora que mais beneficiou do prestígio de ter tido um colaborador como o Siza. Que por sua vez terá beneficiado de ter um colaborador como o Souto Moura, e por aí adiante.
    Na verdade a “Escola do Porto” é um viveiro de talentos. Basta ver que do (s) atelier(s) destes três citados, passaram várias gerações de arquitectos de enorme talento cuja produção é excelente. Deixa-me citar mais alguns da minha geração : Cristina Guedes, Guilherme Páris Couto -Siza-, Francisco Providência, José Fernando Gonçalves – SdeM- , Pedro Pacheco (Távora), Pedro Reis (Távora e SdM). Fora os que não tendo trabalhado directamente com os mestres por ali gravitam, como p.e. o Nuno Brandão.
    Não resisto ainda a contar dois episódios do Siza e do Souto de Moura, que atestam a grande verticalidade e humildade de ambos. O primeiro passou-se comigo e com o Siza., que tendo sido chamado a fazer um projecto num plano da minha autoria, propôs um conjunto de alterações, tendo tido o cuidado de falar comigo antes de as apresentar à entidade promotora, explicando-se com a maior das deferências, quase desculpando-se ( e diga-se de passagem ele tinha razão) o que de certa forma até me embaraçou.
    O outro episódio (em meados de noventa) passou-se com um amigo meu numa entrevista com o Eduardo para um lugar de estagiário. Este dizia-lhe que era difícil admiti-lo porque tinha muitos candidatos rematando :” é pá, não sei, a malta gosta muito do que eu faço que até querem trabalhar para mim de borla, e isso, naturalmente eu não aceito”.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Miguel, estou absolutamente de acordo. Leste o texto que escrevi sobre o Pritzker aqui no 5dias?
      Acrescento um coisa. É tão modernaço falar-se de transdisciplinariedade, multidisciplinariedade ou complexidade, mas ainda não se percebeu que um projecto de arquitectura já não pode ser feito por alguém sozinho sentado ao estirador. A Escola do Porto já o percebeu há muitos anos, e a sua força está no facto de se auto-regenarar continuamente, produzindo geração após geração de bons arquitectos.

  4. Renato Teixeira diz:

    O problema não é o 5dias. De resto, aquilo é uma ode elogiosa. O problema é o FMI: “§ Encontramos nos blogues uma grande campanha contra o FMI. Valerá a pena questionar o sentido desta movimentação, espécie de reflexo condicionado de uma parte expressiva da esquerda. Afinal, com que alternativas nos deparamos. Um penoso enfraquecimento da nossa economia resultante de anos de políticas de austeridade severa impostas pelo exterior – que poderão conduzir, segundo alguns, a uma eventual bancarrota? Ou à recusa da intervenção externa, assumindo a bancarrota desde já?
    Fica a questão: como podem partidos de esquerda defender a não intervenção externa, que acarretaria uma inevitável saída do Euro. Como podem partidos que se batalham pelo aumento do salário mínimo nacional, pela paridade de salários entre Portugal e a média Europeia, defender um cenário de que resultaria a imediata perda real de rendimento por via de uma desvalorização drástica da moeda, acompanhada de aumento de inflação e de taxas de juro, conduzindo muitas famílias a uma inevitável insolvência. E arrastando com isto, agravado pela falta de liquidez da banca, a uma falência previsível dos bancos portugueses e a um estilhaçar de toda a nossa capacidade económica. E no fim de tudo isto temos o quê? Uma competitividade assente no facto de nos termos tornado na mão-de-obra mais barata e miserável da Europa? É neste quadro que alguém espera construir estado social, direitos laborais e uma réstia de democracia?”

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Renato, mas isso é uma repetição de certezas de teses dos independentes trendy do momento. Replicar a factologia de Medina Carreira ou de João Duque como se fossem teses iluminadas, é conversa de taxista. Nada de novo debaixo do sol.

      • Renato Teixeira diz:

        Aí é que te enganas. Este é arquitecto. Tem barriga. Dá ares de cosmopolita. Gosta de feedback e ama a Europa.

  5. DrStrangelove diz:

    Parece que os meus comentários começaram a ser censurados. Isto começa a ficar giro…
    Aposto que o Tiago dirá que o meu comentário foi off-topic. Não tão off-topic como o comentário de Renato, apenas mais incómodo para a Fé dominante neste blogue.

  6. Caro Tiago, por uma questão de respeito deixo-te a minha impressão sobre o que aqui dizes. Mais não posso fazer do que respeitar a tua crítica a respeito do meu blogue. Tens os teus argumentos e as tuas razões críticas para o interesse ou desinteresse naquilo que eu escrevo. Quanto ao texto em questão, apenas duas observações. Em primeiro lugar penso que não posso ser acusado de uma postura elogiosamente acrítica sobre o Souto Moura. Podes procurar o que escrevi em tempos sobre o exercício menor da Casa da Crise. Mas temos de distinguir as coisas e saber valorizar o mérito de quem constrói uma obra de muitos anos e um trabalho sério ao longo de uma vida inteira. Finalmente, se não referi directamente o que escreveste – e o que outros escreveram – a propósito do SM em reacção ao Pritzker, foi porque essas reacções foram colectivas e estranhamente unânimes no registo e no tom. Naquilo que a ti se referia directamente, a expressão “bons arquitectos” era extraída do teu texto original. E a questão que me ocorreu foi interrogar se seria Souto Moura a ter uma dívida para com os colaboradores que passaram pela sua equipa, ou se não será de facto o contrário. Não estava em causa a qualidade das pessoas directamente referidas que tu nomeaste.

  7. Tanto quanto sabia, a ESBAP produz melhores arqºs que a ESBAL, embora haja gente notável dos dois lados.
    Compensação: os cursos de Pintura e Escultura da ESBAL eram fenomenais. Só conheço através dos meus amigos que emigraram do Técnico, só de ouvir dizer.
    Dei umas aulas por outras na UNB (Brasília) no lombrigão essa fac. de Arquitectura também era muito boa, embora as grandes univs. do Brazze sejam a USP e Campinas (São Paulo).
    A UFRJ e a UERJ (Rio de Janeiro) são/eram para esquecer…

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