A burocracia é o melhor de todos os sistemas

Foi ontem publicado, em Diário da República, um documento importantíssimo: o Regulamento Geral dos Serviços Prisionais. Confesso, não tive tempo de o ler – nem sei quando terei e se farei -, mas o Público retirou de lá uma ideia preciosa: um preso que queira entrar em greve de fome tem que preencher um formulário e poderá não comer em total paz e sossego.

E para que serve esse formulário? Para isolar a pessoa que, por qualquer motivo que tenha escrito e posteriormente aprovado, de todas as outras pessoas. E, para o seu próprio bem, ser acompanhado por um médico.

Muito me espanta esta preocupação com os presos em greve de fome. É preciso isolar essa doença, antes que se espalhe.

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14 Responses to A burocracia é o melhor de todos os sistemas

  1. DrStrangelove diz:

    «Muito me espanta esta preocupação com os presos em greve de fome. É preciso isolar essa doença, antes que se espalhe.»

    Sem dúvida. Senão Portugal ainda se assemelha a Cuba.

  2. miguel serras pereira diz:

    É isso mesmo, Youri. Se não se lembraram ainda, deve estar para breve: qualquer dia passam a tolerar as medidas de punição corporal contanto que aprovadas num formulário pelo recluso – que o assinará antes ou depois, como quiser, que a direcção dos serviços prisionais respeita a liberdade de consciência…

    msp

  3. Aconselho vivamente a leitura do primeiro parágrafo da notícia em causa, especialmente a parte que, cito, “esperar que a sua pretensão seja confirmada por um funcionário do respectivo estabelecimento prisional”…

  4. Graca Sampaio diz:

    Somos tão estúpidos! Havemos de comer os papeis quando não tivermos mais nada para comer… Quando estive na direcção da minha escola pela última vez, reduzi ao máximo o preenchimento de papeis (pelos professores, entenda-se) e, por isso, a IGE na sua burocratíssima e burocratizante avaiação externa à escola deu-nos notas muito inferiores à categoria da escola. Ralada que eu fiquei! Desde que de lá saí há um ano, os papeis para preencher triplicaram ou mais… Da próxima vez a IGE dá-lhes Excelente…
    Somos mesmo muito estúpidos!

  5. Nuno diz:

    O DrStrangelove tem razão. Para nos assemelharmos a Cuba, por exemplo, no campo desportivo, devemos passar fome como os cubanos. Estes de 1964 a 2008, nos Jogos Olímpicos ganharam 62 medalhas de ouro, 59 de prata e 59 de bronze. De 1962 a 1999, nos Jogos Centroamericanos e do Caribe ganharam 1214 medalhas de ouro, 520 de prata e 383 de bronze. De 1963 a 1999, nos Jogos Panamericanos ganharam 463 medalhas de ouro, 434 de prata e 351 de bronze. Aconselho, portanto, os nossos desportistas a passar fome para melhorarem os seus resultados desportivos. Obrigado Dr, o senhor é um génio.

  6. Na altura em que Max Weber a teorizou, a burocracia (não sendo grande coisa) era uma tentativa de faxer melhor que o que estava antes.

    Ler:
    Fritz Ringer – Max Weber’s Methodology: The Unification of the Cultural and Social Sciences (2000)

    Harvard University Press, 2000-03-04, ISBN: 0674001834, 208 pagininhas

    At a time when historical and cultural analyses are being subjected to all manner of ideological and disciplinary prodding and poking, the work of Max Weber, the brilliant social theorist and one of the most creative intellectual forces in the twentieth century, is especially relevant.
    In this significant study, Fritz Ringer offers a new approach to the work of Weber, interpreting his methodological writings in the context of the lively German intellectual debates of his day.
    According to Ringer, Weber was able to bridge the intellectual divide between humanistic interpretation and causal explanation in historical and cultural studies in a way that speaks directly to our own time, when methodological differences continue to impede fruitful cooperation between humanists and social scientists.
    In the place of the humanists’ subjectivism and the social scientists’ naturalism, Weber developed the flexible and realistic concepts of objective probability and adequate causation.
    Grounding technical theories in specific examples, Ringer has written an essential text for all students of Weber and of social theory in the humanities and social sciences.

    Fully reconstructed, Max Weber’s methodological position in fact anticipated the most fruitful directions in our own contemporary philosophies of the cultural and social sciences. Ringer’s conceptualization of Weber’s approach and achievement elucidates Weber’s reconciliation of interpretive understanding and causal explanation and shows its relevance to intellectual life and culture in Weber’s own time and in ours as well.

    🙂

  7. E Youri, por amor de zeus… para entrar em greve de fome basta deixar de comer o que a prisão lhes dá, nada mais.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Bobby_Sands

  8. Um «bocado» é favor seu… 🙁

  9. vinhas diz:

    Depois de ler os doutos comentários destes baluartes dos DH (Direitos Humanos) e com os quais terei aprendido de forma significativa tres coisas:
    1. O recluso é uma vítima de várias coisas (sistema, sociedade, classes, capitalismo, etc) e como tal, a sua condição não lhe permite ser pessoa. Apenas vítima de um violento algoz chamado Estado.
    2. Não sendo pessoa, não pode pois assumir os seus atos. Nem sequer deve faze-lo.
    Assim, se lhe der para não comer, a sua pobre condição de vítima privada de liberdade por uma sociedade injusta (sabemos de fonte segura que são todos inocentes e vitimas da infâmia imperialista), não deve sequer dizer nada nem ninguém se deve preocupar com o assunto (sabemos que as cadeias são pequenos infantários que – quando lotados- tem 10/12 pobres coitados, escoltados, vigiados e punidos – olha que titulo bonito!- por uma mole agressora de 300 brutamontes, criados a esteróides.
    3. Recluso para intelectual não é pessoa: é tese de doutoramento. E porta aberta para comentarmos os dislates do sistema prisional quando acontece alguma coisa apetitosa para a imprensa, coisa que se pode fazer porque o que melhor comentamos é o que desconhecemos.

    Finalmente: há burocracias e burocracias. E umas são mais queridas que outras. De toda a inteligentzia presente, será que alguem se perguntou porque é notícia este assunto e porque alguns dos pontos são escaupelizados pela imprensa e outros não? Porque são escrutinados alguns (que já estão em vigor há anos) e outros não? A quem interessa esta especulação? O que ganha os jornalistas que promovem este tema? Perguntas muito mais sumarentas do que um mero papel…

  10. JP diz:

    Há um ditado americano que diz: “If you can’t dazzle them with brilliance, baffle them with bullshit!”

    E é mesmo isto aqui. Em vez de se resolver o “balde higiénico”, a droga e violência nas prisões, a falta de saídas profissionais dos ex-reclusos, a falta de apoio judiciário, etc…. arranja-se mas é mais uma papeladazinha para ocupar o senhor da secretaria (que anda sempre muito atarefado) e para se fingir se que anda a fazer alguma coisa.

    Só resta saber é em que horário é que o recluso pode apresentar este requerimento. Esta falta de definição deverá ser devidamente avaliada e escrutinada por uma comissão independente propositadamente designada para o efeito e que deverá emitir um parecer final sob a forma de um relatório com, pelo menos, 300 páginas.

    Que ridículo!

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