No país dos fernandos II – Nilton, o mandatário.

 

“Nilton, o comediante, mandatário para a juventude e comércio de princípios da candidatura de Fernando Nobre, bem se esforça na sua página a defender a ideia de que o carácter cessa com calendário eleitoral. Que Nobre, o Nilton!”

 

Este comentário publicado na página do Facebook de Nilton, com um link para o meu post No país dos fernandos, foi censurado. A página de Fernando Nobre foi encerrada, tal era a torrente de protestos e Nilton esforçava-se por sacudir a água do capote, perante os protestos na sua própria página.

Seguiu-se uma reveladora conversa, por iniciativa de Nilton, às escondidas do seu público, onde o humorista explana a sua teoria sobre política, eleições, responsabilidade, carácter, verdade e mentira. A conversa é ainda reveladora do que significa para a vida democrática a utilização de estrelas de televisão. Nilton foi instado a repensar o que dizia. Insistiu. Aqui vai, na íntegra:

Nilton O Próprio 11/4 às 16:21
Meu caro, eu não tenho de defender nem atacar ninguém, ele a minha nada deve. Fui mandatário de uma candidatura que chegou ao fim em Janeiro, a partir daí cada um vai à sua vida. Se quer saber a minha opinião, acho que ele é que sabe o que faz. Prefiro que ele esteja a fazer alguma coisa desde que esteja bem com a consciência dele. Eu nada tenho a ver com isso. A mim nada me deve.

Pedro Penilo 11/4 às 16:38
Uma candidatura não é um sabonete. Fernando Nobre andou anos a ludibriar boa gente com a tanga da independência. O carácter e os princípios não cessam com os resultados das eleições. Votaram nele meio milhão de eleitores que podiam ter votado noutro candidato, menos “atraente”, quiçá, mas não mentiroso. Essa fraude vai-lhe ser cobrada pesadamente.
Se se deixou envolver nisto ingenuamente, é uma lição. Mas não se brinca com a vida das pessoas. A política mexe na vida das pessoas. Estou farto de salvadores. Faça o que sabe fazer e desconfie sempre que um político quiser, para seu mandatário, uma personagem mediática.
Ora eu conheço alguns personagens que trabalharam nos bastidores da candidatura de Nobre. O Nilton, suspeito que também conhece. Isso tanto pode dizer que foi endrominado, como pode dizer que havia prémio. Ou as duas coisas.
Mas, seria uma prova de grande respeito por si próprio se, considerando a dignidade com que os eleitores, que em si (também) acreditaram, devem ser tratados, se distanciar inequivocamente desta pulhice.
Talvez lhe complique a vida. Mas talvez ganhe outras coisas. Sinceramente, gostava de acreditar que tem coragem para esse gesto.

Pedro Penilo 11/4 às 16:49
Reparei agora que censurou o meu comentário. Portanto, o “Meu caro” era figura de retórica e, assim, também a minha esperança de que algo se recompusesse perdeu sentido.

Nilton O Próprio 11/4 às 16:55
Meu caro, acho que está a confundir os mails. Eu não sou o Dr. Fernando Nobre, não tenho nada a ver com a candidatura dele pelo PSD nem quero ter. Fui convidado por ele para uma candidatura à Presidência da República e por ela dei a cara, nada mais. Este já é outro filme com o qual nada tenho a ver, nem quero ter.Não me coloque num saco que não é o meu.Não tive prémios, pelo contrário, só dissabores por dar a cara por aquela campanha e sobre esta nada tenho a dizer. Ele pediu-me a opinião há umas semanas e eu disse o que tinha a dizer a ele.Sabia que ele não ia candidatar-se a Primeiro Ministro e a partir daí não estou no barco com partido nenhum, nem me diz respeito o que ele faz. Tenho de explicar-me? Porquê? O que me propus e defendi não foi esta eleição, não me ouviu apoiar ninguém agora. O Nobre não é dono dos votos e nós não somos donos dele. Mas que raio de pensamento é esse? Se sente traído é porque não leu bem as coisas. Eu sempre soube que ia parar ali. Acho que o Nobre não deveria ter dito que não embarcava em politiquices, aí errou, mas se mudou de ideias e se sente bem, bom para ele e que prove que pode mudar alguma coisa lá dentro. Eu não espero nada, não lhe devo nada, ele não me deve a mim e ponto. Fim de assunto.Era o que faltava eu ter de me explicar sobre coisas que não me dizem respeito. Eu sim, sou independente. Os outros que se expliquem pelas acções tomadas. Esse mail não é para mim, é para o Dr. Fernando Nobre

Pedro Penilo 11/4 às 17:00
Está enganado. E é mais grave o seu pensamento do que poderia parecer à primeira vista. Não se é mandatário impunemente. Não se diz que se é “independente”, “fora dos partidos” e depois, após a eleição, se faz o contrário.
Não me sinto enganado. Não votei, nem votaria nele.
Fica a saber que me sinto no direito de publicar esta conversa, posto que me censurou na sua página.

Nilton O Próprio 11/4 às 17:06
Meu caro, continuo a dizer: está a meter-me num saco que não é o meu. Nada tenho a ver com isso. Fui mandatário para uma candidatura à Presidência da República e que acabou em janeiro. Ponto! Acha que vou passar a vida a cobrar a quem a fez? Mas que pensamento mais descabido é esse? As pessoas são livres de fazerem o que lhes apetece, não concorda não vote. Eu farei a minha leitura e não tenho de lhe dizer seja o que for. Quer publicar a conversa, esteja à vontade, de fanáticos ando eu farto. Claro que apaguei o seu comentário, se é descabido e sem sentido não faz lá falta nenhuma. Crie uma página sua e coloque lá o que quiser, eu ainda sou dono da minha e se acho que me escrevem lá algo que é falso, faço o favor de apagar. Coloque-se no seu canto e deixe-me a mim no meu. Não tenho nada a ver com esta questão nem quero ter. O meu percurso é outro e garanto-lhe que não vou estar em lista nenhuma de partido algum, logo não tenho nada a ver com essa questão. Passar bem

Pedro Penilo 11/4 às 17:15
Pondere. Vou esperar umas horas por uma declaração pública sua. Penso que não tem noção da gravidade do que está a dizer. Mesmo para um comediante.

Nilton O Próprio 11/4 às 17:41
Ó Pedro (como já passámos à parte das ameaças penso que o posso tratar assim). Vejamos uma coisa. Eu não lhe devo a si explicação nenhuma, aliás, a sua última mensagem já merecia que o mandasse a um certo sítio. Não sei se pensa que está a falar com alguma criança ou se tem apenas tempo livre e resolveu tirar-me alguns minutos de vida. Ainda assim respondo-lhe porque detesto deixar coisas mal explicadas.Nunca dei a cara por nada em termos políticos. Aparece-me na vida o Dr. Fernando Nobre que teve a conversa que teve e me explicou os seus propósitos. Eu, como muitos Portugueses fartos de como as coisas andam resolvi aceitar. Fizemos a campanha com os resultados sabidos e fechou-se a porta. Se me pergunta sobre algo além disso só lhe posso dizer que nada tenho a ver com isso porque não fui eu que decidi por este caminho. A quem se sente defraudado só poderei dizer que não estou a dar a cara por esta causa, logo não posso responder. Se o Dr. Fernando Nobre acha que é mais útil ao país tomando esta atitude eu cá estarei para ver no final se ele foi útil e julgar depois. Neste momento a minha posição em relação aos partidos políticos e principalmente aos que nos têm governado não mudou. Com Fernando Nobre, sem Fernando Nobre mantenho a mesma posição. Em relação a ele é uma questão de consciência dele. Se sente que está correcto e que dorme descansado com isso, óptimo para ele. Repare que não sou mandatário desta odisseia e não tenho de emitir publicamente nenhum comentário. Se o Dr. Fernando Nobre acha que é mais útil para o país nas listas do PSD do que em casa de pantufas, então acho bem. Ele que vá desde que esteja em paz consigo próprio e que no final nos apresente resultados. Cada um que faça o seu juízo no dia dos votos ou mais tarde. Não queira que eu responda por acções de terceiros porque não o vou fazer. Como lhe disse o momento do país é o que é, se alguém resolve dar a cara é lá com ele. Só espero que seja útil ao país. Se assim for, melhor, se não for, azar e é apenas mais um triste capítulo da já triste história de Portugal. Eu espero sempre o melhor das pessoas.

 

Nilton não é um simples eleitor enganado. Tem responsabilidades. E como tal, devia ter-se demarcado do que sucedeu, apenas dois meses após as eleições e contra tudo o que na campanha foi dito. Aqui estão as suas declarações à Antena 1:

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15 respostas a No país dos fernandos II – Nilton, o mandatário.

  1. João Pimenta diz:

    Boa Pedro,

    Quase fazias ou conseguiste perder a paciência ao comediante que nos chateia com o “eu amo você..” ou “o que é que andas a fazer..”
    Esta última aplica-se lindamente ” bela m…. que ele andou a fazer ao apoiar o homem do fiambre…”

  2. Luís Mota diz:

    Caro Dr Pedro Penilo:

    desta vez, e para não incorrer em pecadilhos na sua cartilha, dirijo-me a V. Exa., sempre lamentando, na 3ª pessoa.

    Isto apenas para notar que muito depressa as opções tomadas se voltam contra o próprio: ainda há uns dias, censurou V. E.xa.um comentário meu com a justificação/desculpa de que tratava V. E.xa. na 2ª pessoa. Verifico agora que V. Exa. não gosta que lhe censurem os de seus. Registo com agrado que assim é. Talvez pense nisso para a próxima vez, p.ex. agora, quando os papéis se inverterem de novo.

    Suponho que a presente mensagem já cumpra os requisitos de etiqueta que exige, não uniformemente como agora verifico, aos comentários dos posts de V. E.xa, e consequentemente não a censure.

    Com os mais formais cumprimentos, Luís Mota

    • Pedro Penilo diz:

      Muito bem, caro Luís, assim é que se fala. E não insultando as pessoas só porque têm ideias diferentes das suas.

      Mas engana-se numa coisa: eu acho muito bem que me censurem de acordo com os critérios de cada um. Não fico é calado a engolir.

      Como vê, não o censurei agora. Sabe respeitar as regras: exprime ideias, não insulta e não finge que me conhece de algum lado. Sempre que assim for, pode comentar à vontade e é bem-vindo.

  3. Joao diz:

    Espera.. agora sempre que alguém muda de ideias uma pessoa é obrigada a ir publicar uma retracção desse apoio, mesmo que tenha sido uns meses atrás?

    E é uma coisa grave se não o fizer?

    Já chegámos a este ponto? A fazer chantagem com ameaça de publicação e prazo de resposta de quem não retirar o apoio a uma pessoa quando já foi há mais de 2 meses atrás e para um acto politico completamente diferente? Agora mandatários já ficam a saber que qualquer apoio para presidenciais é apoio eterno ao candidato, mesmo que o candidato mude de posição num assunto.

    “Tem responsabilidades… noção da gravidade do que está a dizer”… já pareces a igreja católica, so te faltou condenar-lhe ao inferno…

    Ps: A malta do BE está neste momento a apoiar o Socrates e as reduções dos salários? Não vi ninguém retirar o apoio ao Alegre, e visto que o Alegre apoia o Socrates…

    • Pedro Penilo diz:

      Caro João, não sou do BE. Sou do PCP, se isso lhe interessa.

      Sim, é grave um político que foi arrogante, mentiu e insultou a dignidade de outros políticos, que se apresentou ao eleitorado em nome da “cidadania fora dos partidos” e assim recolheu mais de meio milhão de votos, é grave mentir, enganar numa matéria que foi central. Se fosse preciso prova disso, basta ver o caudal de protestos indignados que o obrigaram a fechar a sua página no Facebook.

      Nilton, não é um eleitor qualquer. Aceitou dar o seu aval, como figura pública, ao projecto político de Fernando Nobre. Não tem culpa pela traição. Mas tem de assumir as suas responsabilidades como mandatário que foi e demarcar-se de Fernando Nobre. Em nome das pessoas que acreditaram nele.

      Mas Nilton optou pelo lado da fraude.

  4. João diz:

    Publicar uma conversa privada? Que vergonha.

    • Pedro Penilo diz:

      A conversa não era “privada”, João. Nilton censurou-me o comentário e quis depois convencer-me “em privado”, longe da vista dos outros. Não o autorizei a fazê-lo e avisei-o que a publicaria. Nilton, como pode verificar, esteve de acordo.

  5. Miguel Neves diz:

    Agora que as eleições legislativas se aproximam, gostaria de partilhar alguns aspectos que considero importantes acerca desta sórdida «estória»:
    – O contribuir para desmascarar que intenções se escondem por detrás do discurso contra os partidos (o discurso de Fernando Nobre durante as eleições presidenciais protagonizou algumas das posições mais retrógradas, de lembrar a União Nacional), colocando intencionalmente todos no mesmo saco, isto é, desresponsabilizando uns (PS, PSD e CDS) pelo que fizeram, fazem e tencionam fazer, e escamoteando que é o PCP que de forma consequente e coerente luta por uma real transformação social em Portugal;
    – O contribuir, como exemplo significativo que é, para evidenciar da não existência de quaisquer escrúpulos na utilização da mentira para, capitalizando o legitimo (mas mal direccionado e manipulado) descontentamento com a actual situação, evitar que este se expresse, reforçando os que, efectivamente, representam a outra escolha (nas eleições presidenciais, no voto em Francisco Lopes);
    – O contribuir para exemplificar o que é o oportunismo na política e como este se praticou nas últimas eleições presidenciais, seja pela/na candidatura de Manuel Alegre, de Fernando Nobre ou de Cavaco Silva, com a honrosa excepção de Francisco Lopes.

  6. miami_STEVE diz:

    O Milton tem toda a razão obviamente – apoiar um candidato X num momento específico Y é apenas isso, um apoio num momento específico. E obviamente que não implica um apoio ou ligação a esse candidato X para todo o sempre. O Milton explicou-se e repetiu este ponto óbvio com uma paciência digna de santo.

    Pedro Penilo, foste ranhoso.

    • Pedro Penilo diz:

      O seu comentário é cobardolas – anónimo e à distância suficiente.

      Não é Milton, é Nilton.

      Não, a decência não acaba à segunda-feira. E Nilton não “apoiou”. Nilton foi mandatário – é co-responsável pelo que foi dito. Os mandatários são figuras que atestam da idoneidade dos candidatos – não sabia? Não responde por Fernando Nobre para sempre, mas também a golpada não pode ser logo ao virar da esquina, que cheira mal. Nilton não tem culpa desta traição. Mas tinha a obrigação moral, perante os eleitores que ajudou a angariar, a “vê-la” como traição. Não faz. Justifica-a.

  7. f diz:

    eu sendo comunista acho que o pedro exagerou. é daquelas coisas que mistura verdade, pureza e sobranceria. e que afasta o comum dos mortais de nós.

    • Pedro Penilo diz:

      Respeito a sua opinião, mas acontece que eu não me comporto assim com todos os que me aparecem à frente e de que não gosto ou com quem não concordo. Há aqui um imperativo de luta pela verdade, contra a ligeireza na política que põe à frente do país gente impreparada e mal-formada e, finalmente, de respeito pelos políticos dignos e incansáveis que existem e que Fernando Nobre insultou durante a campanha eleitoral. A sobranceria e a vaidade estão todas daquele lado.

      Não vale a pena sentir compaixão por mandatários que cessam o seu contrato na segunda-feira depois das eleições. Ou que têm como horizonte de vida as grainhas da uvas.

      Nilton tinha uma responsabilidade fácil de resolver para quem tem princípios: demarcar-se do gesto de Fernando Nobre. Não era preciso grandes tiradas. Era só uma questão de asseio. Mas enfrentar o Candidato-À-Presidência-da-Assembleia-da-República… (do partido que talvez venha a ser governo…). Se não tinha estofo para esta batalha, tinha ficado quieto.

      • Luís Rocha diz:

        Não resisti e roubei este comentário de Boots no blog cantigueiro…

        ATENÇÃO NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA:
        Fernando Nobre foi visto a correr atrás de uma galinha que levava no bico um cheque laranja!

  8. paulo Silva diz:

    Bom Pedro
    Não fique tão irritado, é mau para a sua saúde e não ganha nada com isso! Eu votei no Nobre e agora sinto-me enganado tal como o sr.
    Mas pense nisso, ele quando concorreu às presidenciais já não era independente, já que ele foi a marioneta do Sr. Mário Soares para se vingar da derrota com o Alegre 4 anos antes! A sua candidatura foi financiada e apoiada secretamente pelo Mário Soares, um político do PS.
    Por isso Sr. Pedro, ainda acha que foi agora que ele borrou a pintura toda?
    O Nilton foi mais um coitado que acreditou na palavra de alguem e depois foi defraudado.
    Pense nisso.
    Já que tem um bom poder de escrita, ataque realmente quem enterra Portugal e não quem ainda vai fazendo sorrir o país e os portugueses

    • Pedro Penilo diz:

      Caro Paulo,
      Não estou nada irritado, embora isso possa parecer quando se lê, por causa do tom veemente. Eu não votei Fernando Nobre, portanto não me senti defraudado. Fiquei, sim, surpreendido, porque o imaginava uma pessoa de carácter (que um apoio a um adversário político não beliscaria).

      “O Nilton foi mais um coitado”… Não sei se se dá conta de quão mau seria para Nilton ouvir isso. Ainda assim, nunca o critiquei por ter sido mandatário de Fernando Nobre. Nilton é um homem adulto. E se aceita ser mandatário, tem de assumir as consequências. Pelo que foi dito antes, e pela mentira depois. E pelas injúrias contra políticos dignos (como foi com o caso de Francisco Lopes, no primeiro debate televisivo). Nilton não se pode pôr no papel de “coitado”, mesmo admitindo que foi endrominado. A política é uma coisa séria. Elegem-se e derrotam-se partidos, derrubam-se governos. Cria-se emprego ou põe-se gente a passar fome. Isto pode fazer a política.

      Portanto, não se pode brincar à política. Isto, parece-me quase tão grave como as decisões do governo Sócrates. Porque arrasta multidões. Como se viu.

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