A Lição de Ângelo de Sousa (1938-2011): a última ou a primeira, decidam vocês

ÂNGELO DE SOUSA. S/ Título. 2009.

Claro que não gosto de obituários, trabalho jornalístico essencial, sem dúvida, mas do qual, mais ou menos, me descomprometi aos poucos, pois pouca relação mantenho com a crítica de arte regular, que foi a minha profissão entre 1991 e 1999, com o que isso significa de trabalho metódico e periodicidade regular (normalmente semanal). Nesse sentido, só hoje me proponho escrever sobre o Ângelo, há pouco falecido, de quem fui conhecido e amigo. Não que nos encontrássemos muitas vezes. Julgo mesmo que a última vez que nos encontrámos foi na sua individual de 2009 na Quadrado Azul de Lisboa, e aí o autor mantinha todo o seu potencial vivo, artístico e irónico (o que nele era fundamental – e explicarei porquê).

A sua obra é vastíssima, e é quase certo que o Ângelo foi dos artistas portugueses mais escrutinados, antologiados e retrospectivados – mas, ainda assim e apesar disso, é um autor inevitavelmente pouco conhecido, ou muito pouco reconhecido; refiram-se algumas datas: 1993, Serralves, uma primeira antológica, para a qual escrevi um texto para o Jornal da Exposição e nela fiz uma ou duas visitas guiadas; 2001, “Sem Prata”, de novo Serralves, uma das suas exposições mais importantes e vastas, de fotografia, filme e vídeo; 2003, produção desenhística retrospectivada no CAM/FCGulbenkian e 2006, Cordoaria, uma retrospectiva de escultura, escultura que não era desconhecida pelo menos desde a antológica citada de 1993.

Para o conhecimento da obra do autor, tudo isto é demasiadamente insuficiente, sem que o aumento de exposições pudesse resolver o problema dessa “suficiência” (seja lá o que isso for) numa obra como esta: ela não pode nunca ser conhecida, por um lado dada a sua vastidão (e esta não é a razão primeira para o seu “comportamento” fugidio, obra que nos escapa sempre, sempre), por outro lado (talvez mais importante) dado o facto de umas obras remeterem para outras, lerem-se num contexto onde todas são implicadas e todas, porque muitas vezes de carácter experimental, parecerem inacabadas. Consulte-se, por exemplo, o catálogo da exposição “Sem Prata” e olhe-se para as infindáveis variantes fílmicas e fotográficas realizadas pelo autor nos anos 70 e 90 em torno da sua mão (um exemplo): são dezenas de fotografias e alguns filmes, grandes planos, planos que buscam na mão não o elemento que produz a obra de arte mas, sim, a própria obra (a sua imagem acabada, digamos). Esta pesquisa sem fim em torno da mão, vai depois ligar-se a uma pesquisa igualmente sem fim sobre o (auto)retrato (e também nos anos 70 e 90 estes trabalhos são às dezenas).

O labirinto está pois montado: umas obras continuam noutras, e noutras ainda se espelham, nada se conclui, não porque isso seja característica do autor, mas porque a obra de arte não tem fim nas suas possibilidades e nas formas como ela a ela própria se confirma e desmente.

Ora, quando me encontrava com o Ângelo ele fazia sempre o seu sorriso crítico, porque julgava (talvez acertadamente) que eu não acreditava nisto, e punha (eu) em cada obra ou exposição um peso e seriedade que o autor achava deslocada. Lembro-me da sua antológica de 93, quando o autor, por ter tempo livre, me fez uma “visita guiada” à exposição (antes de eu fazer a minha). Para mostrar as suas esculturas, o autor, para as “vivificar” e desdramatizar, entretinha-se a pontapeá-las – elas adquiriam, de dentro da sua abstracção, dinâmica e movimento, à beira de se desmontarem, quebrarem. Ora, é isto que eu vinha dizendo: uma obra não existe em si mesmo, ela, mesmo quebrada, continua em muitas outras, portanto nunca está quebrada, nunca deixa de existir, não se parte, não é finita. Daí a impressão de desdém que o autor reservava para cada peça, desenho (onde por vezes inscrevia linhas e manchas simulando uma total inaptidão na representação realista, ou de modelo).

Pensemos agora num texto de 1917, de Mondrian, “The New Plastic in Painting”. Lemos: “enquanto as relações equilibradas na natureza são expressas pela posição, dimensão e valor da forma e da cor natural, no [modo] ‘abstracto’ são expressas directamente pela posição, dimensão e valor da linha e do plano (cor) rectangular”. Muito bem, o que Mondrian nos diz é que entre a pintura e a natureza há um fosso intransponível.

Ora, o Ângelo foi por vezes considerado próximo do minimalismo – erradíssimo! Porque o minimalismo (anos 60 e 70) acreditava nesta incompatibilidade arte/natureza (tanto que a “arte” minimal era produzida na fábrica, industrialmente, seriadamente), e Ângelo nunca foi por aí. Sempre vi na pintura do Ângelo uma atenção sensorial às superfícies (anos 80, quando uma linha fina se “passeava” sobre superfícies aparentemente monocromáticas) e ao espaço. Esta abordagem do espaço era uma marca que poderia passar como discreta, mas estava muito presente nas obras (onde abandonara o monocromatismo) mais recentes.

Portanto, enquanto o minimalismo estava interessado na forma / estrutura / série / modulação, Ângelo estava sobretudo interessado na MATÉRIA, na tactilidade, quer quando se dedicava ao cinema experimental, quer na pintura (mais conhecida, mas não mais importante na sua obra global). Ora, que dizer mais? Enfim, que o Ângelo devia gostar daquela frase de Brusatin que, no seu “Storia dei Colori” (1983), afirmava, “O cofre das cores é um pequeno mundo de aparências”. O que mais ainda o afasta do minimalismo, pois neste a aparência não existe – existe o “fenómeno”, a forma como a coisa “é”, inelutavelmente e independente da matéria. E a obra do Ângelo está toda ela ligada à sensualidade da matéria. Da aparência, em suma. Foi esta a sua última e, ao mesmo tempo, primeira lição. Continuemo-la.

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2 respostas a A Lição de Ângelo de Sousa (1938-2011): a última ou a primeira, decidam vocês

  1. Pedro Penilo diz:

    Boa lição que faltava aqui! Abraço

    • Carlos Vidal diz:

      Abraço, Pedro.
      Tu é que começaste por fazer aqui referência a este “assunto”. E fizeste-o a tempo.

      E eu só agora é que pude escrever isto, um pouco por falta de tempo, e também para fugir (digamos) à mecanização do obituário. E – como é evidente – pode-se escrever sobre o Ângelo em qualquer altura.

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