O Fim de uma Era

Hoje vivemos o fim de uma era, é verdade que nada se dá exactamente de um dia para o outro, mas ao longo da História sempre se escolheram momentos simbólicos que marcam grandes viragens.

As medidas que nos tentarão impor não são apenas a continuidade das políticas até aqui seguidas, iremos assistir a mudanças qualitativas nas relações sociais e no sistema político. Perto do 37º aniversário da Revolução de Abril, o povo português encontra-se oficialmente refém de um bando de agiotas, especuladores e dos seus cipaios. Depois de espremido o osso até ao tutano, querem triturá-lo para fazer farinha com ele. Está-se a preparar o assalto final ao pouco do estado social que aqui tivemos, não apenas aos serviços públicos, mas ao pouco que resta de capacidade democrática de determinar a economia do país (vidé as propostas de privatizações e redução draconiana da máquina do estado). Mais, creio que existe o risco real de assistirmos a uma deriva de cariz autoritário, complemento necessário à imposição do domínio imperial do capital sobre a sociedade. Movimentos e organizações que, mal ou bem, são representantes de interesses autónomos e opostos ao capital terão o seu raio de acção grandemente limitado. Para quê negociar contractos e ter intermediários que possam controlar a acção das classes com interesses opostos (ou algo diferentes nalguns casos) se essa “gente” pode pura e simplesmente ser esmagada? Esmagada, inclusivé com o apoio de não a maioria, mas de amplos sectores da sociedade portuguesa. Se não houver movimento e resposta à altura, se não houver outro caminho que levante a esperança, se não houver outro futuro pelo qual valha a pena lutar, então que esperamos nós que aconteça? Alguns protestos talvez, mas que rapidamente serão calados “porque isto não é altura pa brincadeiras”, “porque isto agora está sério”, “vão mas é trabalhar e não  perturbem quem quer trabalhar”, “não causem ainda mais problemas ao país”. Na ausência de alternativas palpáveis, a resistência tenderá a ser vista apenas como incómodo a eliminar e não como momento mobilizador e de construção de uma outra via, de uma outra sociedade.

Uma mudança qualitativa no cenário social, económico e político exige respostas qualitativamente diferentes por parte da Esquerda, no Programa a apresentar, na Rua, nas Instituições, em todo o lado. Esta não é a altura de estar preocupado com discussões bizantinas e com a pulga atrás da orelha quando o elefante tem a sua pata levantada por cima da nossa cabeça. Não temos todo o tempo do mundo, se não queremos perder décadas ou nalguns aspectos até séculos.

O pior é que não acho mesmo que estou a dramatizar, infelizmente temo que se peco é por defeito e que poderemos viver realidades bem mais tenebrosas. Também sei que há imensas reservas que libertadas poderão construir um outro futuro bem mais luminoso. Falarei disso também, hoje porém, até para que amanhã se rasguem novos caminhos, convém reter a gravidade da situação.

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2 respostas a O Fim de uma Era

  1. xatoo diz:

    caro amigo
    a maioria das pessoas não compreende peva da realidade; 27 por cento pensam que Saramago é espanhol,, e por ai afora
    a nivel dos intelectuais o panorama não é muito melhor; leia-se o Ranciére no “Mestre Ignorante” para se perceber como, regra geral, reproduzem a educação do Poder que, por sua vez, lhes foi ensinada nas escolas, e por aí afora
    Wagner; magistralmente escolhida esta versão do Crepusculo dos Deuses. Devia ser posta bem alto no centro de Telavive e em Wall Street, mas lá é proibido e aqui é assunto tabu – e a não identificação e reconhecimento pela maioria das verdadeiras causas dos males do nosso mundo é o principal factor para que que a situação de crise para a maioria permaneça

  2. Pingback: 2013 a Ferro e Fogo – Um balanço e perspectivas (parte I) | cinco dias

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